Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
O pensamento Tico-e-Teco, feito de objeções automáticas e circulares, rejeita a redução da Selic sem demonstrar que os juros atuais sejam os necessários, confundindo críticas parciais com prova científica
1.
O pensamento Tico-e-Teco é o automático e mecânico. A ironia é ser o do cérebro com apenas “2 neurônio (sem S)”. Eles só conversam entre si e desconsideram todas as demais variáveis…
Um exemplo dele encontra-se na reportagem do jornal Valor econômico, publicada em 3 de novembro de 2026, intitulada “Proposta de Lara Resende é ameaça para inflação e juro de longo prazo, dizem economistas”. Reúne críticas de quatro economistas à proposta de André Lara Resende para reduzir a Selic a 7,5% em doze meses e, posteriormente, mantê-la em uma faixa de 3% a 5,5% ao ano.
O ponto central da controvérsia é o seguinte: André Lara Resende considera os juros elevados uma causa fundamental do desequilíbrio fiscal brasileiro. Seus críticos argumentam: se reduzi-los por uma decisão institucional, sem alterar as condições de confiança dos investidores, poderia aumentar a inflação, desvalorizar o real e elevar os juros de longo prazo, anulando a economia fiscal pretendida.
A mente de economista ortodoxo funciona da seguinte maneira.
Tico Teco
Criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional e a limitação da independência da política monetária do Banco Central Desancoragem das expectativas inflacionárias (“expressão mágica”)
Uso sistemático das reservas internacionais para sustentar o câmbio e evitar instituições importada Esgotamento da proteção contra choques externos
Queda da Selic provocar aumento dos juros longos, determinados pelos investidores Aumento do custo de financiamento da dívida
A remuneração das LFTs ficar pouco atraente Queda da demanda por títulos e instabilidade nos fundos detentores de parte delas.
Essas críticas não são idênticas. Cada economista enfatiza apenas um componente diferente do sistema: instituições, câmbio, formação dos juros longos ou funcionamento do mercado de títulos públicos.
O mecanismo usual é circular: os investidores passam a esperar mais inflação; exigem maior remuneração para manter títulos públicos; a moeda se deprecia com fuga de capitais; os preços sobem; e o Banco Central, limitado institucionalmente, não consegue responder com a intensidade desejada.
2.
A preocupação com a autonomia operacional do Banco Central é como ele fosse uma peça do mecanismo automático tomador de decisões científicas. Contudo, se elas não fossem tentativas-e-erros experimentais, porque há votações entre os membros do Copom (Comitê de Política Monetária), quando existe uma verdade objetiva, conhecida por todos os economistas ortodoxos?!
A realidade é mais complexa e o futuro incerto é resultante de múltiplas interações de diversas decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras. A decomposição histórica do crescimento da dívida precisa distinguir déficits primários, despesas com juros, crescimento do PIB e ajustes patrimoniais. Identificar apenas certa importância dos resultados primários não demonstra, isoladamente, a taxa de juros atual ser (ou não) adequada.
Quanto ao uso das reservas cambiais para uma “flutuação suja” da taxa de câmbio, exige a distinção entre conter eventuais movimentos cambiais e defender uma cotação incompatível com as condições de mercado.
A utilização dessas reservas não é, por definição, inadequada. O problema é estabelecer critérios transparentes para diferenciar entre uma intervenção temporária e uma tentativa persistente de impedir certo ajuste cambial.
A crítica seria mais conclusiva se demonstrasse por qual razão a redução da taxa de juro proposta necessariamente produziria uma fuga de capitais persistente. Poderá ser apenas uma mudança transitória e administrável nos fluxos de capital.
De fato, Banco Central controla diretamente a Selic, taxa básica de curto prazo, mas não determina administrativamente a remuneração exigida por investidores para financiar o governo durante vários anos, ou seja, os juros longos. Por isso, uma redução da Selic, caso seja interpretada como artificial, provocaria aumento dos juros longos, devido às expectativas de aumento da taxa de inflação provocar “eutanásia dos rentistas”, comprados em títulos com juros prefixados, e esse risco ser percebido pelos investidores detentores deles em longo prazo.
Há dois efeitos possíveis de uma redução da Selic. O efeito pretendido por ALR: Selic menor → Menor remuneração das LFTs → Menor despesa financeira pública. O efeito colateral: Selic considerada artificialmente baixa → Aumento da inflação esperada → Maior prêmio de risco → Juros longos mais elevados.
Entretanto, não se deve tratar os juros longos como resultado de um mercado perfeitamente independente da política econômica. Os diversos investidores incorporam diferentes expectativas sobre a Selic futura, inflação, risco e liquidez. Portanto, podem variar, caso a política monetária mude de maneira crível e coordenada com a política fiscal. O problema incerto é saber em quais condições a economia com as LFTs superaria o eventual encarecimento dos demais títulos.
3.
A preocupação com a demanda por títulos brasileiros é legítima, mas a comparação internacional com o pago nos EUA não pode ignorar o risco cambial. Um investidor brasileiro ao comprar títulos americanos assume exposição ao dólar, salvo quando realiza proteção cambial, hedge cujo custo também importa.
Além disso, a demanda por LFTs depende de fatores como (i) liquidez, (ii) regulação, necessidades de caixa e (iii) alternativas domésticas de investimento. A crítica sugere um risco de fuga de capital possível, mas não quantifica sua probabilidade, seu montante, nem seu efeito líquido sobre o custo total da dívida.
A proposta de André Lara Resende deveria ser compreendida como uma tentativa de desindexação da dívida pública em relação à Selic – e não simplesmente como imposição administrativa de juros baixos. A necessidade de coordenação institucional e ajuste fiscal desloca o debate da oposição simplificada entre cortar juros e/ou controlar gastos para a discussão sobre a estrutura institucional do financiamento público brasileiro. Meu Programa de Ações Financeiras sugere essa direção.
A reportagem do Valor apresenta objeções pontuais, especialmente sobre juros longos, câmbio e gestão da dívida. Mas os argumentos citados não demonstram a taxa de juros brasileira estar em seu nível economicamente necessário ou ótimo.
Por sua vez, a proposta de André Lara Resende também precisa demonstrar, com cenários quantitativos e mecanismos institucionais explícitos, como a economia fiscal resultante da queda da Selic não seria anulada por aumentos dos prêmios de risco, desvalorização cambial e mudanças na demanda por títulos públicos.
Os críticos ortodoxos sustentam predominantemente a seguinte sequência: desequilíbrio fiscal → desconfiança → juros elevados → necessidade de ajuste fiscal. A proposta heterodoxa enfatiza uma sequência alternativa: juros excessivos → aumento da despesa financeira → crescimento da dívida → agravamento do desequilíbrio fiscal. Essas duas sequências não são necessariamente excludentes. Podem formar um circuito de retroalimentação.
A questão científica relevante é determinar qual causalidade predomina em cada conjuntura e sob quais condições uma intervenção governamental no mercado de títulos de dívida pública e suas instituições pode interromper o círculo vicioso.
A principal contribuição desse confronto entre ortodoxia e heterodoxia seria abandonar tanto a ideia de os juros serem inteiramente determinados pelo mercado quanto a de poderem ser reduzidos por decisão administrativa sem consequências. É necessário explicar sua formação como resultado das interações dinâmicas entre Banco Central, Tesouro, investidores, instituições e expectativas incertas.
Essa análise de configurações variáveis ao longo do tempo seria uma maneira mais produtiva de transformar a controvérsia entre ortodoxia e heterodoxia em um problema de análise de sistemas econômicos complexos. Uma nova ciência econômica contribui nessa abordagem da complexidade sem Tico-e-Teco.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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