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Os “mercados” entre o primero turno e a virada

Do A Terra É Redonda, 3 de novembro 2026
Por JOSÉ MENEZES GOMES & OSVALDO COGGIOLA*


Imagem: Ensenada, Mexico/ Foto de Orlando Garcia

A virada eleitoral desmontou o projeto ditatorial, mas os “mercados” reagiram com fuga de capitais e chantagem para impor austeridade, e sem independência política do movimento operário, a mobilização popular pode terminar em nova frustração

1.

Nada ilustra melhor a orientação política prevalecente na burguesia brasileira durante as eleições gerais de outubro do que os acontecimentos posteriores à vitória bolsonarista no primeiro turno, reveladores das expectativas do conjunto dos rentistas, do setor industrial e do agro, intimamente imbricados. A 5 de outubro, a queda do dólar para US$ 4,95 sinalizou que haveria um ajuste fiscal brutal que asseguraria o pagamento de um valor maior do serviço da dívida pública (juros e amortizações).

Isto se complementou com a valorização da Bolsa de Valores em 20%, tendo como destaque as ações do Banco do Brasil e da Petrobras. Na Petrobras, a PETRJ550 avançou 164,04%, enquanto a PETRJ541 ganhou 148,59%. No Banco do Brasil, a BBASJ270 terminou o dia com valorização de 144,29%. As ações da Vale, no entanto, recuaram entre 22,75% e 46,92%.

O chamado “mercado” iniciara o processo de compra de ações das duas primeiras empresas, visando adquirir maior participação acionária na sua futura privatização, anunciada por Bolsonaro. Entre os interessados se encontravam (e encontram) as grandes petroleiras mundiais e os grandes bancos estrangeiros, assim como o dinheiro do crime organizado e o das BETs, que buscam comprar parte dessas empresas públicas na busca de um novo instrumento de lavagem de dinheiro.

Tal processo poderia significar a desnacionalização de grande parte da riqueza nacional, com consequência direta sobre os preços dos combustíveis, como ocorreu no governo Jair Bolsonaro, quando várias fábricas de fertilizantes foram fechadas, sendo reabertas no governo Lula. A guerra da Ucrânia revelou a vulnerabilidade do setor do agronegócio, devido à sua dependência de fertilizantes vindos da Rússia, elevando seu custo de produção. A política de Jair Bolsonaro levou a privatização da BR Distribuidora e das refinarias na Bahia e no Amazonas, tendo como meta a privatização do Banco do Brasil.

Tão grave quanto essas privatizações seria o retorno do PPI (Preços de Paridade de Importação), vinculando os preços dos combustíveis à variação do preço internacional do petróleo e do dólar. No governo de Jair Bolsonaro, essa metodologia permitiu que a gasolina atingisse um valor acima de R$ 9,00. No segundo trimestre de 2022 a Petrobras se tornou a maior pagadora de dividendos do mundo a frente de empresas como Nestlé, Mercedes-Benz e Microsoft.

Naquele momento a estatal distribuiu um volume histórico em dividendos e juros sobre capital próprio aos acionistas. A maior parte desses dividendos eram pagos pela população trabalhadora, que pagava mais pelos preços dos combustíveis, comprometendo a vida do motoboy, dos motoristas de aplicativos, dos motoristas de caminhão, do agricultor familiar e mesmo dos grandes produtores que tiveram uma elevação do custo de produção e transporte, em seguida repassado para os preços dos demais itens.

Para combater a inflação, o Banco Central, com o Regime de Metas de Inflação, elevava os juros, que acabavam por elevar a dívida pública e mesmo a dívida privada, seja familiar ou dos capitalistas, tendo como correlato a redução da atividade econômica.

2.

Com pagamentos bilionários de dividendos a acionistas privados, a Petrobras obteve em 2022 o maior lucro líquido histórico de uma empresa brasileira. O lucro recorde foi de R$ 188,3 bilhões, um crescimento de 77% em relação ao ano anterior. A empresa distribuiu um total de R$ 215,7 bilhões em dividendos relativos ao ano de 2022, mais do que o dobro do que foi pago em 2021. Na essência, desde que o PPI foi adotado no país, em 2017, a política da Petrobras passou a impedir investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, em projetos que promovessem a exploração de novas reservas de petróleo e gás e no aumento da produção.

Segundo a Federação Única dos Petroleiros, ao longo de 2022 a Petrobras registrou tímida política de investimentos, com encolhimento de patrimônio e perda de capacidade produtiva. A adoção do PPI acabou por permitir uma geração de receitas que não resultavam da sua estrutura de custo, servindo para que os acionistas estrangeiros não corressem risco de perdas derivadas de variação do câmbio.

A privatização da BR Distribuidora acabou retirando a possibilidade de conter os preços cartelizados das demais distribuidoras, já que a redução dos preços da Petrobras não seria revertida nos postos. A privatização abriu espaço para que dinheiro do crime organizado fosse destinado à aquisição de 1.600 postos de gasolina, conforme revelado pela Polícia Federal.

A eleição no primeiro turno confirmou, aparentemente, que teríamos uma presidência semelhante à de Javier Milei, na Argentina, que encaminhou até à venda de partes significativas do território argentino para grupos estrangeiros (“se eles quiserem comprar uma província [um Estado] inteira, que o façam”, declarou um seu ministro). O resultado do primeiro turno também provocou a revelação de outros elementos programáticos da extrema direita, como a proposta de governo de realizar uma nova contrarreforma da previdência social, trabalhista e administrativa, com graves consequências para o serviço público.

A acachapante derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro no segundo turno foi, antes do mais, produto de uma impressionante mobilização popular, iniciada pela juventude, em especial o movimento estudantil, com importante participação de jovens trabalhadores, embora não de forma organizada. Salvo exceções, o movimento sindical esteve praticamente ausente.

A virada eleitoral de Lula, o isolamento do bolsonarismo dentro da própria direita (que não encampou sua impugnação judicial do processo) foram consequência dessa mobilização. Que desmontou o projeto de criação de um regime ditatorial, com o judiciário e o legislativo reduzidos a marionetes de um executivo dominado por um clã de chefes milicianos, uma autêntica quadrilha.

O sentimento anti-imperialista e antifascista de milhões de jovens e trabalhadores foi o combustível principal de uma mobilização multitudinária, bem mais inclusive do que as medidas anunciadas por Lula (reajuste do Bolsa Família, supressão das BETs) no intervalo entre o primeiro e o segundo turno. Foi o primeiro passo para uma luta mais ampla em que a defesa e ampliação dos direitos sociais e da soberania nacional sejam a plataforma de uma derrota definitiva dos exploradores da nação e dos trabalhadores.

3.

A decisão de alguns sindicatos (como o Andes-SN), de apoiar e se engajar na campanha eleitoral de Lula, derrotando Flávio Bolsonaro nas ruas e nas urnas, revelou-se inteiramente justa, pois não era possível manter uma posição de isenção em condições de uma encruzilhada nacional que afetava toda a população e todas as instituições do país. A direita (“centrão” incluído) não abandonou Flávio Bolsonaro no segundo turno. Seus representantes parlamentares votaram pelo fim da escala 6×1 para não ficarem em uma situação politicamente ruim perante a opinião pública e seus eleitores, já que era uma pauta imensamente popular.

A derrota da extrema direita no Brasil deu início à reversão do avanço reacionário na América Latina, em condições em que o mundo inteiro passa por uma situação de convulsão. Os múltiplos cenários bélicos internacionais têm como pano econômico de fundo o confronto entre as potências (EUA vs. China, principalmente, com a União Europeia e o Japão buscando seu lugar próprio dentro da crise geral), no quadro de um declínio irreversível do imperialismo norte-americano.

O Brasil e a América Latina fazem parte desse marco, de modo cada vez mais acentuado. Valha como exemplo o fato de que as tendências do comércio do Brasil com os EUA e a China seguiram trajetórias divergentes e opostas ao longo do primeiro quarto deste século: enquanto a participação de Washington no total das exportações brasileiras caiu pela metade — passando de 24,4% em 2001 para 12,2% em 2024 —, a participação de Pequim aumentou dez vezes, passando de 3% em 2001 para 30% em 2025.

Após a posse de Donald Trump, a pressão dos EUA sobre a América Latina começou a se fazer sentir quando Panamá foi compelido a retirar-se da vertente latino-americana da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) – apesar de ter sido a primeira nação latino-americana a aderir a ela, em 2017. Donald Trump levantou a questão do controle sobre os dois portos situados nas extremidades do canal – Balboa, no lado do Pacífico, e Colón, no lado do Caribe –, ambos operados, desde 1997, pela empresa chinesa Panama Ports Company.

O impacto das políticas de Donald Trump – exercidas por meio de uma ampla gama de interferências, ameaças e chantagens – desencadeou uma guinada rumo à extrema-direita em todo o espectro político latino-americano. Em maio de 2025, Daniel Noboa foi reeleito no Equador, enquanto, na Bolívia, a vitória de Rodrigo Paz em novembro pôs fim a quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo.

Em janeiro de 2026, Nasry “Tito” Asfura trouxe Honduras de volta à órbita de Washington; em março, no Chile, o apoiador de Pinochet, José Kast – após a presidência de Gabriel Boric –, sepultou de vez as esperanças de mudança que haviam surgido durante o levante social de 2019. Em maio, Laura Fernández manteve a Costa Rica firmemente no campo conservador.

4.

Em julho, Keiko Fujimori – filha de Alberto, o ditador que governou o país com mão de ferro na década de 1990 – obteve sucesso em sua quarta tentativa de chegar à presidência do Peru. Por fim, na Colômbia, o empresário de extrema-direita Abelardo de la Espriella derrotou, por uma margem estreita, Iván Cepeda, encerrando o primeiro período de um governo de esquerda no país. Em 2026, a intervenção militar ianque na Venezuela, a primeira direta dos EUA na América do Sul, com um saldo de mais de cem mortos e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, e o bloqueio criminal de Cuba, deixada sem alimentos, medicamentos e energia, evidenciaram a marcha acelerada e agressiva do imperialismo norte-americano na direção da transformação da América Latina num protetorado explícito dos EUA.

A derrota de Flávio Bolsonaro marcou também um início de reversão dessa tendência, fato que foi imediatamente registrado pelo capital financeiro internacional. A reação dos mercados brasileiros à vitória de Lula no segundo turno não se fez esperar. “Cerca de 1 trilhão de reais foi embora (da Bolsa) e não voltou”, resumiu o economista Gustavo Franco. Logo depois do segundo turno das eleições, os dez brasileiros entre as 500 pessoas mais ricas do mundo perderam, juntos, cerca de US$ 15 bilhões na segunda-feira 26 de outubro, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

Tal fato determinou uma queda acentuada na Bolsa de São Paulo, que levou à interrupção temporária das negociações no chamado Circuit Break (norma criada em 1987, que interrompe o pregão da Bolsa por 30 minutos para que retorne a “racionalidade no mercado”). A perda foi a maior acumulada pela Bolsa desde a criação do índice Ibovespa. As quedas foram registradas até o meio-dia em Nova York, em meio à reação dos investidores à reeleição de Lula.

O fundador do banco BTG Pactual, André Esteves, registrou a maior perda individual entre os empresários citados. Segundo o índice da Bloomberg, sua fortuna diminuiu em cerca de 30%, US$ 4,4 bilhões, passando a ser de US$ 11,3 bilhões. Vale lembrar que esse banqueiro foi preso na Operação Lava Jato em novembro de 2015, ficando quase um mês em Bangu por decisão do STF. Entre os especuladores que perderam está também David Vélez, empresário colombiano do Nubank, banco digital, que perdeu US$ 2,6 bilhões.

Enquanto isso, a moeda americana teve a maior alta diária desde 1999, com avanço de 8,21%, até R$ 5,4027. O Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, no pior resultado desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. A queda indicou a frustração dos parasitas da nação que ganham muito dinheiro comprando títulos da dívida a taxa de 13,75% a.a. numa inflação de 4% ou seja, com ganho automático real de quase 10% anual) que queriam participar de uma futura privatização da Petrobras e Banco do Brasil. Todavia, as perdas na Bolsa e a especulação com o dólar configuram tentativa de chantagem para pressionarem o novo governo para adoção de medidas de austeridade fiscal, implicando no corte de políticas sociais.

5.

A derrota de Flávio Bolsonaro representou um golpe político para Donald Trump, para Javier Milei e para toda a facção do capital que apoiou o defensor das milícias brasileiras. Donald Trump comentou que, com a vitória de Lula, “os comunistas se perpetuam no poder”, deu margem e espaço para o argumento golpista de um suposto fraude eleitoral e recebeu o fugitivo da justiça brasileira no seu próprio país, acumulando elementos que, eventualmente, justifiquem e pavimentem uma intervenção (militar inclusive) direta dos EUA no Brasil.

Qualquer tentativa de conciliação com essa política, buscando transformar o país numa “exceção sul-americana”, só enfraqueceria a posição da nação e dos trabalhadores, um enfraquecimento apoiado no reforço da posição parlamentar da direita. Os que esperam uma anistia geral pelo golpe de janeiro de 2023 devem agora buscar um acordo no novo Congresso, muito mais à direita do que o anterior. Lula, por outro lado, já anunciou a intenção de instalar a exploração do petróleo da Amazônia, de olho na exportação de combustíveis para a China.

O “golpe dos mercados” do segundo turno visa extrair de Lula 4 um pronunciamento sobre os rumos do futuro governo. O PT já anunciou “um governo que buscará o superávit e o equilíbrio fiscal”, um Estado com capacidade de investimento baseada em “gastar menos do que se arrecada”. É um ajuste cujo objetivo principal é o pagamento de uma dívida pública que representa 80% do PIB.

O orçamento brasileiro praticamente não apresenta déficit corrente, mas sim um déficit financeiro que chega a 9% do PIB. O banco JP Morgan já estimou que a anunciada restrição de gastos “não será suficiente”, sendo necessárias mudanças no que tange à “seguridade social e aos salários”, um acordo legislativo para alterar o regime previdenciário no Congresso, que conta com maioria dos partidos de direita.

Isto se choca diretamente com as expectativas suscitadas pela enorme mobilização popular que permitiu a virada eleitoral do segundo turno. Na crise nacional que se avizinha, o movimento operário carece de uma fisionomia política própria e independente, encontrando-se dividido e a reboque das opções visíveis na praça política. Este é o principal obstáculo a ser superado para que o sedimento deixado pela enorme mobilização popular de outubro passado não seja só o prolegômeno de uma nova “pizza” e de uma renovada frustração popular.

*José Menezes Gomes é professor de economia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

*Osvaldo Coggiola é professor titular no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]

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