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O tempo quente de uma nova esquerda

Do A Terra É Redonda, 7 de novembro 2026
Por JOSÉ RAIMUNDO TRINDADE*



A ascensão de uma nova força progressista nas redes e o derretimento precoce da extrema-direita exigem do novo governo uma ruptura total com a austeridade neoliberal em favor da soberania popular

“A História é um carro alegre / Cheio de um povo contente / Que atropela indiferente / Todo aquele que a negue” (Chico Buarque).

Passados alguns dias da memorável vitória de Lula, cabe umas breves anotações, tanto para satisfazer indagações colocadas, quanto para pensar movimentos próximos. Antes de estabelecer pontos de análise, cabe nesta introdução observar que estamos frente aquilo que Umberto Eco denominou de “conjuntura semiótica”, um momento da história em que, parafraseando outro gigante, desta feita Lenine: “existem dias que valem por anos”. A semiótica estaria em dois aspectos que iremos tratar ao longo do texto: primeiramente no acelerado envelhecimento de decisões coletivas tomadas em momentos tão próximos. Assim, os deputados e senadores de direita recém-eleitos já apodrecem em menos de três semanas; por outro, o resultado que sai das ruas, redes e urnas em 25/10 estabelece uma radical posição contrária ao discurso e prática dos economistas neoliberais da rigidez fiscal e da lógica do “teusoraço” dos direitos sociais.

Aos derrotados às fugas

O processo eleitoral envolveu cinco grupos de disputa, sendo marcante a desconstrução de três destes grupos ainda no primeiro turno e a ascensão de um novo grupo no segundo turno.

As classes dominantes se dividiram em três grupos: a direita tradicional, configurando uma parte do antigo Centrão. Este segmento foi o grande derrotado no primeiro turno, sendo que os motivos da sua derrota se devem tanto ao crescimento da “direita youtuber”, quanto pela perda de identidade política; o segundo grupamento é a direita das redes sociais, a grande vencedora no primeiro turno, mas que envelheceu precocemente com a ação da “nova esquerda YouTube”.

O terceiro grupamento das classes dominantes refere-se a um grupamento minoritário, mas muito influente socialmente, tanto presente em partidos tradicionais de direita, como o PSDB, mas também já infiltrado e presente no PT. Esse agrupamento se alinha em certa medida com um dos segmentos da esquerda tradicional, sendo que ambos saíram enfraquecidos do processo eleitoral como um todo.

Por fim, os dois segmentos das classes de baixo são compostos pelo “petismo tradicional” que, como já referido, foi derrotado no primeiro turno e, “a nova esquerda” que inclui vários segmentos tanto internos ao PT, mas também de outros partidos, um desses nomes sendo individualmente um grande organizador resultante do processo no segundo turno, refiro-me ao André Janones.

As fugas foram de três tipos e dimensões: no caso dos segmentos tradicionais, tanto a direita, quanto a esquerda, tivemos de imediato uma fuga organizativa: a direita tradicional se empastelou no PL (Partido Liberal), sendo que arrisco que com o resultado do segundo turno e com o episódio de “fuga” de Flávio Bolsonaro, teremos a paulatina transformação desse partido no novo núcleo do “Centrão”. A fuga à esquerda foi diferente, na medida em que havia uma radicalização das ruas, parte do segmento tradicional de esquerda teve que se adequar ao novo processo, o que reforçou como veremos a crítica ao discurso da “austeridade fiscal”. Por fim, a grande fuga se deu com a incapacidade do bolsonarismo de manter seu núcleo de poder organizado, sendo que a ida de Flávio Bolsonaro para os EUA implica não somente a fragilização da extrema-direita, como um deslocamento ao centro de parte dos parlamentares recém-eleitos.

Aos vencedores às indefinições

Os vencedores do atual processo são os novos grupamentos à esquerda e à direita. Com detalhes e problemas que temos que apreender e com certa dificuldade estabelecer os difíceis movimentos que se farão nos próximos quatro meses (cem dias de governo). Primeiramente cabe olhar o que ocorreu à extrema-direita.

Aqui temos dois movimentos, o primeiro refere-se ao acelerado envelhecimento político-temporal da gigantesca bancada do PL. Os movimentos de ruas e redes sociais dos últimos vinte dias impuseram uma espécie de “necrose” acelerada dos deputados e senadores eleitos à extrema-direita, sendo que a ausência de uma organicidade partidária e a dificuldade do núcleo coordenador bolsonarista de se manter dirigente, refletindo, inclusive, na fuga precoce do candidato, poderá levar, como segunda consequência, ao processo de perda de organicidade e sua possível captura pelos setores tradicionais da direita.

Importante reforçar: isso foi resultante da verdadeira “revolução semiótica” produzida por uma nova esquerda, porém ainda longe de uma cristalização organizativa.

Lula sai vitorioso graças aos gigantescos movimentos espontâneos e bem-organizados por uma nova esquerda, não compete aqui ainda analisa-la faremos em outro post, compete observar que a vitória de Lula expressa três movimentos que podem compor um novo ou possível movimento de nova esquerda: (i) a reorganização dos movimentos de massa em torno de agendas de contestação e busca de novos direitos (o fim da escala 6×1 é somente um exemplo); (ii) uma inédita capacidade de transgredir os “algoritmos” das plataformas de poder midiático (André Janones aparece como um símbolo disso); (iii) a reinvenção do próprio Lula, estabelecendo um possível projeto de “soberania nacional”.

Como está colocado de fato aos vencedores, inclusive Lula, se apresentam gigantescas indefinições, mas o espaço da “revolução semiótica” foi aberto.

Volver ao tempo quente de uma nova esquerda

Ao final deste breve texto se faz quatro observações: (a) a não aceitação das ruas do programa de “austericidio” e neoliberal. Qualquer movimento do governo Lula neste rumo representará não somente sua derrota, como a destruição da potencial “revolução semiótica” e o reestabelecimento organizacional neofascista; (b) o envelhecimento precoce do Congresso eleito em 03/10 abre uma janela sem igual de oportunidades de negociação de um projeto de soberania nacional.

(c) Somente será possível governar com o duplo movimento de ruas e das redes sociais, que deverá, inclusive, criar plataforma nacional para ação mais orgânica; (d) por fim, logo que assuma Lula deverá convocar amplos movimentos “conselhistas”, que mobilize a juventude e a sociedade na construção de uma nova agenda nacional.

Veremos e Podemos!

*José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA. Autor, entre outros livros, de A disputa das ideias na atual conjuntura: neoliberalismo, resistência e redes sociais (Edições AVL). [https://amzn.to/4sdcENq]

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