Por JEAN MARC VON DER WEID*
Agora temos que pensar como chegamos a este ponto e como evitar outra ameaça bolsonarista.
1.
Fui dormir no dia 25 de outubro como 63 milhões de brasileiros. Feliz com o desfecho deste segundo turno, que começou altamente depressivo no dia 5 de outubro. Acho que falo pela minha geração de militantes políticos, a Geração 68, ao afirmar que o nosso horror com a possibilidade da eleição do filhote do energúmeno era ainda maior do que o dos nossos filhos e netos.
Naquela outra segunda feira, fiquei pensando se estaria vivo para ver a queda da dinastia fascista e como seria terrível viver meus últimos anos no clima sombrio que se abateria sobre nós. Sim, pensei, a luta continua e o povo vencerá, mas o preço a pagar seria incalculável, sobretudo porque a crise ambiental seria acelerada e alimentada pelo “exterminador do futuro” e seus parceiros mundo a fora (Donald Trump, Narendra Modi, Vladimir Putin, a cambada de fascistinhas no poder na América Latina e os que ameaçam alcançá-lo na União Europeia).
Nasci em 1946, em um período dos chamados baby boomers, logo após o fim de uma ditadura e me criei naquilo que avaliávamos como plena democracia, até o golpe de 1964. Foram 21 anos de luta até que a milicada se recolheu aos quartéis e a democracia foi restaurada, até hoje não muito plena, mas a do período 1946/1964 o era menos ainda.
Não imaginei, depois de anos de governos presididos por um extraordinário líder operário e uma ex-militante da esquerda armada, veríamos o ressurgimento de uma extrema direita adoradora da ditadura militar e, menos ainda, que ela chegaria ao poder em meros cinco anos do cataclisma de 2013, passando por um novo tipo de golpe, o parlamentar.
A volta de Lula, em 2022, foi por um focinho no fotochart da contagem das urnas, mas o fracasso dos dois golpes tentados pelos bolsonaristas, com e sem Jair Bolsonaro no poder e a condenação do energúmeno e seus cúmplices civis e militares, me deu esperança de que o risco da extrema direita estava afastado.
Ledo engano. A resiliência da extrema direita bolsonarista produziu uma vitória arrasadora nas eleições parlamentares e para governadores e chegou perto de levar a cereja do bolo com a eleição presidencial.
2.
Que aconteceu, para além das explicações circunstanciais do tipo erros de comunicação da campanha e/ou do nosso candidato? Ou da intervenção da Meta, da desmoralização do STF e da colaboração do TSE com o candidato da direita? Ou da LavaJato dois, do caso Vorcaro ou do INSS? Ou ainda da manipulação do sentimento religioso da população mais pobre pelos pastores neopentecostais?
Temos que reconhecer que estamos diante do fim de um ciclo da nossa história pós retorno da democracia. Apesar do peso residual de um sentimento conservador e direitoso do eleitorado que nunca desapareceu (lembrem-se de Fernando Collor), mesmo depois do fim da ditadura e da retomada dos movimentos sociais, os governos de Fernando Henrique e os de Lula e de Dilma Rousseff conseguiram conciliar a orientação da economia de tipo neoliberal com avanços importantes nos direitos sociais.
Esta conciliação foi bem recebida pelas elites no governo FHC e tolerada no de Lula, mas Dilma, apesar de todas as concessões feitas para o rentismo e para o agronegócio, teve que conviver com uma crise econômica internacional que acirrou as contradições e levou à sua queda. Para resumir, o que assistimos foi o fim da tentativa de criar um Estado de bem-estar social com redistribuição de renda sob a égide de um modelo de desenvolvimento de tipo neoliberal.
Não havia mais espaço para agradar a gregos (a Faria Lima e o agronegócio) e troianos (os setores populares). E, no pior dos mundos, o fato de que o PT e a esquerda de governo viraram gestores do nosso capitalismo desarmou e esvaziou os movimentos sociais, que ficaram passivos assistindo o nosso mundo mudar.
A vitória de Lula, em 2022, foi difícil e só ocorreu pela percepção de uma estreita maioria do eleitorado de que havia uma ameaça para a nossa democracia que tinha que ser evitada. Infelizmente, nem ele nem a esquerda entenderam que tinham que dar um outro rumo para o projeto do novo governo e apenas retomaram as políticas que tinham “dado certo”, entre 2003 e 2010. Mas o Brasil de 2023 era outro e o contexto econômico mundial também.
A base social do lulismo e do petismo tinha se esvaziado com uma forte redução da produção industrial e do operariado e o desmantelamento do movimento sindical. Cresceu no período uma economia informal de serviços, que absorveu diretamente uma base importante de trabalhadores chamados de empreendedores, para os quais a esquerda não tinha qualquer proposta.
Cresceram também os movimentos chamados de identitários e inúmeros movimentos associativos, buscando resolver problemas locais em favelas e bairros periféricos. Estes movimentos identitários geraram reações ideológicas negativas com profunda penetração na nossa cultura de massas conservadora. Por outro lado, os movimentos associativos não lograram construir forças que superassem seus espaços locais para criar um movimento contra hegemônico.
2.
Nestes quatro anos, Lula entregou o que prometeu, que pode ser resumido em “mais do mesmo” e, nem Lula, nem o seu governo e nem a esquerda percebeu que as dádivas entregues pelo poder público eram minadas pela perda do poder aquisitivo dos beneficiários e pelo brutal endividamento de 80% das famílias, estimuladas a consumir para fazer girar a economia.
A frase do filho do energúmeno no debate da TV Globo (“entrega com uma mão e tira com nove dedos”) foi um acinte execrável, mas apesar disso correspondeu ao que o eleitorado estava vivendo e percebendo.
A vitória de Lula foi a resultante de um movimento espontâneo que galvanizou amplos setores e carregou a reboque a esquerda, o governo e Lula. Sem as inúmeras iniciativas de lideranças desconhecidas e personalidades conhecidas sem papel político partidário, o filhote do energúmeno teria ganho o segundo turno.
A erupção vulcânica das massas nas ruas gerou o impulso que encurralou o bolsonarismo, acuado ainda em seu espaço de expressão privilegiado, as redes sociais, com o extraordinário movimento dos 10 milhões de combatentes virtuais do “exército de Lula”, sob o comando de André Janones.
E o que foi que mobilizou tanta gente? Por um lado, a ameaça à democracia e, por outro, a ameaça aos ganhos sociais entregues pelo governo Lula, desde as benesses mais recentes até as aposentadorias conquistadas há mais tempo. Foi um repeteco de 2022, mas com mais empenho da sociedade e mais presença nas redes sociais.
É preciso compreender que, embora a vitória tenha sido espetacular, ela se deu por um movimento muito mais defensivo de provocar o medo da mudança prometida pelo filhote do energúmeno, do que pela esperança de dias melhores. Lula não tinha agora a aura de 2002, quando a sua campanha prometia mudanças e quem estava na defensiva era o PSDB, prometendo mais do mesmo.
Agora, quem prometeu mudanças foi o filhote do energúmeno: menos impostos, maior poder de compra, menos juros e “tirar o Estado das costas do povo”. Promessas fajutas frente a outra promessa (esta para valer) de dar um tesouraço a la Milei que não poderia deixar de cortar os ganhos econômicos dos governos populares e até os recursos constitucionais dirigidos para saúde e educação.
O novo governo Lula IV não pode cair no mesmo erro de 2023, quando esqueceu o tamanho do bolsonarismo (e a pequenez da esquerda) e governou achando que a vitória tinha sido dele e do PT. Naquelas eleições o voto para o Congresso resultou em uma vitória da direita e do centrão, com a esquerda alcançando meros 24% dos votos e uma base parlamentar longe do mínimo para governar. E a apertada vitória no pleito presidencial se deveu, como agora, ao voto anti Bolsonaro, incluindo setores da direita não bolsonarista.
4.
Na verdade, este quadro não era novo para Lula, que governou sem maioria parlamentar nas duas casas de 2003 a 2010. Mas os tempos eram outros e as formas de arrebanhar maiorias, mais ou menos estáveis, era comprar partidos no atacado ou deputados e senadores no varejo, algo que FHC também fez, mas em menor escala por ter acordos confortáveis com partidos do Centrão.
Neste primeiro turno destas eleições, a grande derrota não foi da esquerda (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede), que ficou ligeiramente maior do que na anterior legislatura. Quem perdeu foi o centro-esquerda (PSB, PDT). Somando os dois grupos, o tamanho da bancada ficou em 124 deputados, 4 a menos que na legislatura anterior, todos perdidos pelo PDT. No Senado, o quadro piorou com menos eleitos de esquerda ou centro esquerda e forte avanço do PL e legendas da direita.
Quem perde mais para o avanço acachapante da extrema direita (PL, Novo) são alguns partidos do Centrão (União Brasil, PSDB/Cidadania, MDB, Avante, PRD/Solidariedade), enquanto outros ficam estáveis (Republicanos, PSD) e um ganha 7 deputados (Podemos). O Centrão entregou 28 deputados para a extrema direita, fagocitado pelo bolsonarismo.
Para resumir, temos um quadro muito ruim para uma relação positiva com o Congresso, sem esquecer que, independentemente de definições políticas e ideológicas, todo deputado e senador defende as emendas parlamentares impositivas, um tremendo problema para qualquer presidente.
Na gestão Lula III, a estratégia do governo foi a de negociar todas as suas propostas, entregando cargos de ministro e outros para partidos do Centrão. Não deu certo. As propostas do governo foram repelidas ou distorcidas pelos deputados e senadores, com a “base do governo” se limitando à esquerda e parte da centro esquerda e eventualmente alguns votos dos partidos do Centrão com cargos no governo.
5.
Para sobreviver nesta relação de forças extremamente negativa, o governo negociou o conteúdo de suas propostas com o Centrão, que fez uma inteligente chantagem com o PT, aceitando colocar alguns dos pontos defendidos pelo governo se a base governista votasse em bloco os projetos. Sem o voto em bloco com a direita os projetos seriam ainda mais distantes da proposta do governo, argumentaram deputados e senadores do PT para justificar os acordos.
Esta jogada neutralizou os partidos do governo ao longo do quatriênio, já que “para ganhar o possível” votaram projetos muito ruins junto com a direita e o centrão. Ficaram indistinguíveis, para o eleitorado, da geleia geral do Congresso e pagaram o preço na hora de pedir voto, apenas levemente ampliando a sua bancada. Como atacar o “Congresso inimigo do povo” quando os partidos de esquerda não se demarcaram dos outros?
A extrema direita pretende dominar as duas casas, embora o Centrão ainda tenha mais cadeiras em ambas. A questão em aberto é se o Centrão vai buscar uma composição com Lula para enfrentar o risco de ser esvaziada pelo bolsonarismo ou se vai sucumbir ao discurso e agenda da extrema direita e isolar o governo e o STF. E pode haver um ou mais rachas neste conglomerado tão heterogêneo.
Tudo vai depender da agenda do governo e da aderência do eleitorado a ela. O ponto de partida do governo é a extraordinária mobilização, nas ruas e nas redes que resultou em uma vitória nas urnas que não deixa margem a dúvidas golpistas e desarma, em parte, este tipo de aventura.
Mas este ponto de partida é insuficiente para o enfrentamento com o Congresso, vai ser preciso buscar amplas maiorias do eleitorado para poder dobrar o oportunismo e comprometimento de senadores e deputados com os mais variados lobbies (Boi, Bala, Bíblia, entre outros). Já se viu que o Congresso se dobra quando enfrentado com mobilizações ou até meras pesquisas de opinião com amplo apoio a uma proposta, como o PL do 5×2.
Esta é uma luta política diferente da travada no segundo turno destas eleições, quando o que decidiu o voto foi a negação das ameaças inerentes à vitória de um candidato, muito mais do que a defesa de políticas para o futuro do outro.
Agora precisamos ganhar um apoio muito mais amplo do que o do exército do Lula (digo, do André Janones) defendendo propostas com grande impacto sobre o presente e o futuro do povo, da nação e do planeta. Mais amplo do que os quase 52% das urnas. Para isso precisamos trabalhar para além da nossa bolha e conquistar para as propostas (mais do que para o PT ou o PSol) um público que se absteve, votou nulo ou branco e até que votou no filhote do energúmeno.
O ponto chave desta estratégia é a definição de um programa de governo com alta capacidade de aglutinar apoio da sociedade e é o que discuto na segunda parte deste artigo.
[continua]
*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

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