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Bellamy Foster: O impossível capitalismo verde

Pensador marxista examina os múltiplos fatores da crise ecológica. A financeirização da natureza e os remendos tecnológicos. As novas faces do imperialismo na corrida da IA. E o proletariado ambiental, que provoca: futuro será de “ruína ou revolução”?


De OutrasPalavras, 5 de novembro 2026
Por Thiago Gama



John Bellamy Foster é professor emérito de sociologia da Universidade de Oregon, editor da Monthly Review desde 2006 e presidente da Monthly Review Foundation desde 2002, é hoje o nome central da ecologia marxista no mundo de língua inglesa. Entrou para o comitê editorial da revista em 1989, ainda no tempo de Paul Sweezy e Harry Magdoff, e assumiu sozinho a direção depois da morte dos dois. Seu livro The Return of Nature ganhou o Deutscher Memorial Prize em 2020.


A linhagem dele começa em Marx e no químico alemão Justus von Liebig. Foi lendo as páginas de O Capital escritas a partir da química agrícola de Liebig que Foster encontrou a falha irreparável no metabolismo entre a sociedade e a terra, núcleo do que viria a chamar de fratura metabólica. Marx’s Ecology, de 2000, publicado no Brasil como A ecologia de Marx, reabriu esse debate no mundo inteiro. Em The Return of Nature ele reconstruiu a corrente que vai de Engels ao zoólogo E. Ray Lankester e chega a Barry Commoner.

A outra metade de sua formação vem de Paul Baran, Paul Sweezy e Harry Magdoff. De Baran e Sweezy herdou a tese de Capital monopolista, de 1966, segundo a qual o estado normal do capitalismo maduro é a estagnação. De Magdoff, a convicção de que o imperialismo é tão constitutivo do capital quanto a busca do lucro. De István Mészáros, a desconfiança diante da academia que troca a análise das relações materiais pela invenção de palavras.

O corpo teórico da fratura metabólica foi erguido nas duas últimas décadas ao lado de Brett Clark, Richard York, Hannah Holleman, Paul Burkett, Ian Angus e Kohei Saito. Os livros centrais desse percurso são The Ecological Rift, de 2010, The Robbery of Nature, de 2020, Capitalism in the Anthropocene, de 2022, e The Dialectics of Ecology, de 2024.

“Uma fratura irreparável no processo interdependente do metabolismo social.”
Karl Marx (1818-1883)


Eis a entrevista.

Em sua conceituação da “fratura metabólica”, o capitalismo desorganiza os ciclos naturais do solo e da reprodução dos ecossistemas, criando um déficit ecológico que as nações centrais historicamente compensaram extraindo recursos metabólicos da periferia. Na atual era do “capital verde”, de que modo a demanda por minérios críticos e por compensações de carbono perpetua esse “roubo da natureza”, por que toda transição ecológica genuína no Sul precisa ser explicitamente anti-imperialista?

O conceito clássico de fratura metabólica não é, evidentemente, meu, mas de Karl Marx, que o construiu sobre a ciência agrícola de Justus von Liebig. Marx escreveu em O Capital sobre a “fratura irreparável no processo interdependente do metabolismo social” entre a humanidade e a natureza. O foco inicial recaía sobre o esgotamento dos nutrientes do solo, que seguiam, nos alimentos e nas fibras, para as novas cidades industriais do capitalismo, onde acabavam por poluir o ar e a água em vez de retornar à terra. Essa noção de fratura metabólica era parte integrante de toda a concepção de Marx a respeito da contradição sistemática que se formou entre aquilo que ele chamava de “metabolismo universal da natureza” e o “metabolismo social” alienado, associado à produção capitalista. Marx aplicou essa mesma crítica ecológica a outras esferas além do próprio solo, em campos como as epidemias, o desmatamento, a seca, a fome e o esgotamento dos recursos naturais.

Aspectos da análise de Marx foram apreendidos e levados adiante por diversas figuras socialistas do século XIX e do início do século XX, como Friedrich Engels, E. Ray Lankester, August Bebel, Karl Kautsky e Nikolai Bukharin, e mais tarde, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, por pensadores como Barry Commoner e Henri Lefebvre. Mas foi no final dos anos 1990 e nas duas primeiras décadas deste século que a análise marxiana da fratura metabólica e toda a sua crítica ecológica foram recuperadas de forma mais sistemática e aplicadas ao presente como história por mim, por Paul Burkett, Fred Magdoff, Brett Clark, Richard York, Hannah Holleman, Ian Angus, Kohei Saito, Brian Napoletano, Chen Yiwen e por outros numerosos demais para que eu os mencione, num diálogo que hoje se torna verdadeiramente global. A importância dessa análise está em que ela representa uma compreensão plenamente integrada das contradições ecológicas sistêmicas do capitalismo, atada à crítica clássica da economia política.

Decisiva, para Clark, Holleman e para mim, na compreensão da teoria marxiana da fratura metabólica, foi a compreensão que Marx tinha do imperialismo ecológico, nascida diretamente de seu entendimento da fratura metabólica. Isso apareceu sob duas formas. Primeiro, havia a relação direta disso com a crise do solo na Europa e nos Estados Unidos em meados do século XIX. O principal recurso no tempo de Marx, já que os fertilizantes sintéticos apenas começavam a ser desenvolvidos, foi a importação, para a Europa e os Estados Unidos, de guano vindo sobretudo do Peru e, mais tarde, depois da Guerra do Pacífico, de 1879 a 1884, a importação de nitratos chilenos. O comércio de guano, concentrado nas ilhas Chincha, diante da costa peruana, foi um caso de extração extrema, voltado inteiramente para compensar o roubo do solo na Europa. Há um bom relato sucinto disso em As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Clark e eu, e mais recentemente Mauricio Betancourt, analisamos o comércio de guano especificamente como um estudo de caso oitocentista de imperialismo ecológico e de extrativismo, apoiados nas referências que Liebig e Marx lhe fizeram e explorando suas dimensões históricas.

A segunda forma principal pela qual o imperialismo ecológico emergiu na análise de Marx, que explorei com Clark em nosso livro The Robbery of Nature, diz respeito ao papel colonial britânico na Irlanda. Marx sustentava que a Irlanda estava, na prática, sendo forçada a “exportar o próprio solo”, no contexto do roubo da terra que lhe era imposto, processo que ele e Engels liam como “extermínio”, no sentido oitocentista que reunia a eliminação e a expulsão da população pela ruína da terra. Esse foi, de fato, um dos principais caminhos pelos quais ele desenvolveu sua perspectiva da fratura metabólica.

Marx também sublinhou a busca capitalista por recursos naturais mais baratos e o fato de que estes vinham cada vez mais do exterior, sobretudo alimentos e fibras em seu tempo. Ele examinou como a crise britânica do algodão de sua época se relacionava com a Guerra Civil norte-americana e com a escravidão. E deu forte ênfase ao papel das indústrias dedicadas à “extração”.

Hoje vivemos num período de globalização da produção, ainda que estruturado pelo imperialismo, e numa era de fratura metabólica planetária, em que ocorrem grandes perturbações antropogênicas naquilo que a ciência hoje chama de metabolismo da Terra, com destaque para a mudança climática produzida pelo ímpeto voraz de acumulação do capitalismo. Ainda assim, o quadro básico da crítica ecológica de Marx, atado à sua economia política, só ganhou importância. Há apenas algumas poucas coisas que posso mencionar aqui, no espaço disponível. A análise da fratura metabólica foi muito ampliada por Clark e York num artigo que escreveram em 2005 sobre a fratura metabólica e o metabolismo do carbono, texto que se tornou uma espécie de clássico e que foi reimpresso no livro que nós três fizemos em 2010, The Ecological Rift. Embora a resposta do capital à crise climática tenha sido completamente ineficaz, já que a acumulação de capital sempre se sobrepõe às tentativas exíguas de mitigação climática, essa resposta serviu para legitimar certas formas de extrativismo, ampliando o controle imperial sobre os recursos naturais em nome do comércio de carbono e da conservação. Um grande problema sobre o qual escrevi longamente é a “financeirização da natureza”, à medida que os próprios serviços ecossistêmicos vêm sendo cada vez mais transformados em mercadoria em nome da proteção do meio ambiente, mas, na realidade, como forma de estender o processo global de financeirização. A expansão exponencial da tecnologia de inteligência artificial e dos bancos de dados está criando a maior construção de infraestrutura da história, a gerar uma demanda econômica aparentemente ilimitada por terras-raras, lítio, cobalto e outros minerais. A alta tecnologia, oferecida com frequência como solução do problema climático, hoje o agrava, criando, como diz Kate Crawford, a principal crítica social da inteligência artificial, “outra fratura metabólica”.

Como Marx argumentou, seguindo Liebig, a agricultura industrial era Raubbau, um sistema de roubo. De fato, o roubo da natureza e a fratura na natureza estavam, para Marx, estreitamente ligados. O advento de uma crise ecológica planetária que emana do capitalismo apenas intensifica ainda mais a relação rapace do capitalismo com o meio ambiente, relação que assume forma espacialmente global no imperialismo. Em essência, diversas partes do mundo, e suas ecologias, são tratadas como zonas de sacrifício num período de crise ecológica e econômica crescente.

Hoje, 27 de agosto de 2026, o Bulletin of the Atomic Scientists publicou um artigo de Neta C. Crawford sobre “A postura fatal das Forças Armadas dos Estados Unidos diante da mudança climática. O Pentágono se prepara para guerrear num mundo mais quente ao mesmo tempo em que o acelera”. O essencial do argumento é que as forças armadas norte-americanas se preparam para novas guerras imperiais engendradas pela mudança climática, tida como inevitável, ao mesmo tempo em que constituem uma das principais forças a acelerar as emissões de carbono. (As emissões militares, por insistência dos Estados Unidos, foram excluídas desde o princípio do processo de notificação das emissões nacionais da UNFCCC.) Hoje, o militarismo em expansão não pode ser separado da fratura metabólica.

Enquanto muitos teóricos críticos defendem a substituição da designação geológica “Antropoceno” por termos como “Capitaloceno” ou “Tecnoceno”, o senhor tem defendido o conceito de Antropoceno por uma lente materialista, vendo-o como uma fronteira física do Sistema Terra. Por que a manutenção do conceito geológico de Antropoceno é essencial para a ecologia marxiana, e de que modo ela impede a teoria crítica de cair em abstrações hiperconstrutivistas?

Essa é, na verdade, uma questão de ciência. No campo das ciências naturais, a noção de época do Antropoceno na história geológica foi introduzida por cientistas que desafiavam o status quo da ciência, procurando enfatizar que estávamos numa situação qualitativamente nova, na qual os fatores antropogênicos, e não os não antropogênicos, eram, pela primeira vez na história da Terra, a força primordial na mudança do Sistema Terra. Esse reconhecimento foi produto de toda uma história de acumulação de uma ciência ecológica crítica ao longo de mais de um século, que foi do reconhecimento do metabolismo ecológico à análise dos ecossistemas, daí à descoberta da biosfera, depois à climatologia e à ciência do Sistema Terra, até chegar ao reconhecimento do Antropoceno e da Grande Aceleração do impacto humano sobre o meio ambiente, iniciada no período posterior à Segunda Guerra Mundial. A história do desenvolvimento dessa análise ecológica planetária, que culmina na noção de Antropoceno, é extremamente importante por sua complexidade, por sua profundidade e pelo desafio que representa à ordem capitalista. Os primeiros a introduzir a noção de Antropoceno como designação de uma nova ordem geológica dominada pelo ser humano foram geólogos soviéticos, no início do século XX. (Trata-se de um fato indiscutível, mas que foi apagado da história.) Mas o conceito, em sua forma atual, foi introduzido no ano 2000, principalmente pelo químico Paul Crutzen, laureado com o Nobel. Essa noção foi então unificada ao conceito das nove fronteiras planetárias, quando este foi introduzido em 2009. O Antropoceno passou a ser definido, nas ciências naturais, como aquilo que levanta a questão de uma “fratura antropogênica” no metabolismo do Sistema Terra, a desorganizar os principais ciclos biogeoquímicos do planeta em razão das ações humanas. Com base em tudo isso, Clark, York e eu sublinhamos o conceito de Antropoceno e sua relação com a fratura metabólica em 2010, em The Ecological Rift. O ponto importante aqui é que o conceito de Antropoceno, isto é, de causas antropogênicas, e não das não antropogênicas, como fatores dominantes na mudança do Sistema Terra, foi uma tentativa dos cientistas de dar o alarme sobre a crise de habitabilidade da Terra, nascida das ações humanas, que esses cientistas invariavelmente remetiam ao nosso sistema econômico, ainda que lhes faltasse, com frequência, uma crítica do próprio capitalismo.

É um aspecto perverso da academia de hoje que, nas ciências sociais e nas humanidades, a ciência natural seja com frequência tratada simplesmente como inimiga, sem que se levem em conta nem as complexidades do pensamento científico-natural nem as divisões que nele emergem. Isso decorre em parte de um afastamento, nas ciências sociais e nas humanidades, de uma perspectiva científica em sentido amplo, aquilo que Marx e Engels pensavam em termos de Wissenschaft, isto é, a abordagem racional e sistemática do conhecimento, não confinada a nenhuma esfera particular. Sobretudo com a ascensão do pós-modernismo, uma espécie de irracionalismo impregnou boa parte do pensamento da esquerda. Uma de suas características é o jogo constante de palavras, em que se está sempre a forjar neologismos e novas relações verbais, divorciados de qualquer consideração séria sobre as relações materiais. István Mészáros costumava chamar isso de “ourivesaria de palavras”.

Muita gente nas humanidades e nas ciências sociais agarrou-se ao termo Capitaloceno como conceito polêmico, fosse para atingir o prefixo “antropo” (tomado equivocadamente como culpabilização moral de toda a humanidade), fosse simplesmente para afirmar, como faz Moore, que todo o problema da crise planetária emergiu com a ascensão do capitalismo no século XVI. Mas, no processo, perderam-se todas as conexões com a concepção científico-natural do Antropoceno. De fato, o Capitaloceno não tinha outro significado científico senão o de se referir ao próprio capitalismo, e carecia de qualquer definição concreta. Passou a ser tratado, cada vez mais, como uma variação verbal conveniente de capitalismo, no sentido da ourivesaria de palavras. Era como se todas as questões fundamentais levantadas pelas ciências naturais nessa área pudessem ser deslocadas por um neologismo da moda, usado como desculpa para não se fazer ciência social de verdade.

Em Capitalism in the Anthropocene, o senhor oferece uma crítica mordaz à geoengenharia, à captura de carbono e à “modernização ecológica” de mercado. De um ponto de vista dialético, por que as tentativas do capital de resolver as crises ecológicas por meio de remendos tecnológicos geram inevitavelmente fraturas metabólicas secundárias e terciárias, aprofundando a crise planetária em vez de resolvê-la?

O capitalismo é um sistema de acumulação de capital assentado em classes, enraizado na exploração do trabalho e na expropriação da natureza. Como os lucros vêm sempre em primeiro lugar, antes das pessoas e do planeta, a única via do sistema para resolver os problemas ecológicos que ele mesmo gera são os remendos tecnológicos e as regulações de mercado. Isso pode funcionar em alguns casos, como na crise planetária de destruição da camada de ozônio, em que havia uma solução técnica simples que não interferia na acumulação de capital. Mas, diante da desorganização dos ciclos biogeoquímicos do planeta produzida pelo sistema, que levou à ultrapassagem de sete das nove fronteiras planetárias que definem a Terra como lar seguro para a humanidade, o capitalismo (isto é, o sistema do capital em si mesmo) é incapaz de oferecer outra coisa que não a pretensão de remendos tecnológicos concebidos para resolver o problema sem afetar o processo de acumulação.

A tradição ecomodernista no interior do capitalismo emergiu, assim, como a principal resposta antiambientalista aos crescentes problemas ecológicos do sistema. Enquanto o ambientalismo reconhece a importância da sustentabilidade ecológica, o ecomodernismo se ocupa de garantir que os problemas ambientais não interfiram na sustentação da acumulação de capital. Há alguns anos, os diretores do Breakthrough Institute, a principal organização ecomodernista norte-americana afinada com o mundo corporativo, publicaram um artigo intitulado “Por que amamos Karl Marx e odiamos os ambientalistas”. Em relação a Marx, atacaram qualquer associação dele com a fratura metabólica e sustentaram que ele era um “prometeico” (hiperindustrialista) disposto a atropelar o meio ambiente. Os ambientalistas foram definidos, no essencial, como aqueles que não dão preeminência ao valor do dinheiro. Para os ecomodernistas, pode haver acumulação ilimitada de capital e crescimento exponencial, enquanto a tecnologia resolveria todos os problemas. Para eles não pode haver mudança nas relações sociais e nas relações de propriedade, ainda que ela fosse necessária para abrir espaço à sustentabilidade ecológica, termo que mal consta de seu vocabulário. A perspectiva geral é aquela que os sociólogos ambientais chamam de “excepcionalismo humano”, a tese irracional e acientífica, promovida com frequência por economistas neoclássicos, de que a humanidade, por sua tecnologia, superou por completo as leis da natureza.

Dito tudo isso, é claro que capitalistas, corporações e governos adotaram em geral a visão de que soluções puramente tecnológicas e mecanismos de mercado, apoiados pelo Estado, podem apagar os piores problemas ambientais, e daí vieram os mercados de carbono, a promoção de tecnologias alternativas, as propostas de geoengenharia e assim por diante. Nem tudo isso é ficção. Todas as soluções de nossos problemas ambientais hoje exigem mudanças tecnológicas. É certo que a energia solar e a eólica representam avanços cruciais nesse aspecto. Mas todas as tentativas de introduzir formas mais eficientes de uso da energia sob o capitalismo, que poderiam fazer enorme diferença no que toca à mudança climática, por exemplo, tendem a ser usadas (conforme o paradoxo de Jevons) para expandir o sistema, e não para de fato conservar energia ou proteger o meio ambiente. Nos últimos anos, os modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) passaram a depender cada vez mais da incorporação de tecnologias em larga medida inexistentes e inviáveis em escala, como a bioenergia com captura e sequestro de carbono (BECCS), na crença inteiramente fantasiosa de que a tecnologia pode resolver o problema da mudança climática sem alterar nossas relações econômicas básicas. Mas, assim que se olham os efeitos dessa tecnologia sobre os recursos, em termos de uso da terra e da água, sem falar da economia, tudo desaba. Como o senhor diz, tais medidas criariam fraturas secundárias e terciárias à medida que cruzamos diversos limiares ecológicos. Geoengenhar o planeta é um recurso ainda mais desesperado para perseguir a acumulação ilimitada de capital enquanto se tenta alterar as condições planetárias básicas, por exemplo despejando enxofre na atmosfera para bloquear a radiação solar como forma de combater a mudança climática. No entanto, o potencial de uma enorme aceleração da crise ecológica planetária em múltiplas dimensões, para além de nossa compreensão ou de nosso controle, fez com que o consenso científico se pusesse diametralmente contra esses métodos de geoengenharia.

Uma mudança fundamental nas relações sociais e nas prioridades é o caminho mais rápido e o único realmente eficaz para enfrentar a crise planetária de hoje. O que está na última linha do balanço da humanidade, hoje, não é a economia, mas o meio ambiente.

Dando continuidade ao legado de Paul A. Baran, Paul M. Sweezy e Harry Magdoff, o senhor analisou como o capital monopolista-financeiro se apoia na acumulação especulativa de ativos. De que modo o atual regime de capital monopolista financeirizado agrava a degradação ecológica, e por que a pressão para absorver o capital excedente força uma expansão agressiva do extrativismo pela América Latina, pela África e pela Ásia?

Em Capital monopolista, de 1966, Baran e Sweezy enfatizaram que, sob o capitalismo monopolista, a contradição econômica central do capitalismo associada às crises havia se deslocado do problema da geração do excedente (como no capitalismo de livre concorrência do século XIX) para o problema da absorção do excedente, isto é, a questão da superacumulação e da estagnação. O “estado normal” da economia capitalista monopolista, argumentavam, era a estagnação, ou seja, investimento fraco, crescimento lento, desemprego e subemprego em alta e capacidade industrial excedente ou subutilizada. Havia, no entanto, certas forças contrarrestantes em operação, como o gasto militar, um gigantesco esforço de vendas e a expansão financeira (mencionada numa breve nota do capítulo sobre o esforço de vendas), que serviam para contrapor-se à estagnação. Havia também uma série de fatores históricos temporários que podiam entrar em cena, como o alto nível de poupança dos consumidores após a Segunda Guerra Mundial, a segunda grande onda de automobilização nos anos 1950 e a hegemonia norte-americana na economia mundial. Nos anos 1950 e 1960, foram essas condições históricas específicas, o gasto militar (os gastos da Guerra Fria e duas guerras regionais na Ásia) e o esforço de vendas que mantiveram a economia em expansão. Mas, ao fim dos anos 1960, tudo isso se esvaíra e a estagnação econômica se instalou outra vez, ainda que não no nível da Depressão dos anos 1930.

A crise levou à financeirização, que a Monthly Review esteve na vanguarda de analisar, com Magdoff explorando-a como tendência fundamental já em meados dos anos 1960 e com Magdoff e Sweezy, juntos, analisando a financeirização como contrapeso parcial à estagnação, dos anos 1960 aos anos 1990. Uma obra importante foi Stagnation and the Financial Explosion, de Magdoff e Sweezy, de 1986. Levamos essa análise adiante na Monthly Review neste século, empregando a mesma análise e os mesmos métodos empíricos para dar conta da Grande Crise Financeira de 2007 a 2009 e de seus desdobramentos.

A própria financeirização se explica em larga medida pela necessidade do capital, diante de mercados saturados e de oportunidades de investimento que se evaporavam, de encontrar um modo de utilizar seu capital excedente, que não podia ser acumulado de forma lucrativa na “economia real” do PIB. A resposta inicial foi o desvio desse excedente para o setor financeiro, em parte pela aposta especulativa na alta do valor dos ativos financeiros, impulsionada pelo próprio crescimento do sistema de crédito e dívida, em parte por ondas de fusões que geraram avaliações mais altas e concentração e centralização do capital. Entre os mecanismos que surgiram estavam as recompras de ações, os novos instrumentos financeiros, as obrigações de dívida colateralizada de alto risco (fatiadas e reempacotadas) e assim por diante. À medida que o excedente se derramava sobre o setor financeiro, criou-se toda uma nova arquitetura financeira e fizeram-se fortunas imensas. Desenvolveram-se novas formas de impor custos adicionais aos trabalhadores por meio do processo de financeirização. O Estado, com juros mais baixos, ajudou a preparar o terreno para a financeirização. A consequência foi que as finanças cresceram muito mais depressa que a economia estagnada que lhes servia de base, processo que prosseguiu. Esse processo veio acompanhado de diversas crises financeiras ou contrações de crédito. A bolha estourou de modo estrondoso na Grande Crise Financeira, ameaçando o colapso de todo o sistema e uma estagnação mais profunda.

Um resultado da Grande Crise Financeira foi a busca de meios variados de expandir a financeirização globalmente, o que exigia alguma base adicional de ativos reais passível de expropriação. Daí veio o rápido desenvolvimento da financeirização da natureza, pela transformação dos serviços ecossistêmicos, em escala global, em mercados que podiam então ser expropriados de várias maneiras por bancos e corporações internacionais, muitas vezes em nome da conservação. Tratava-se, sobretudo, de apoderar-se de recursos naturais sob a forma da gestão financeira de ecossistemas inteiros no Sul Global, “convertendo em dinheiro” esses recursos por meio de intermediários financeiros, que os explorariam ao máximo em nome da sustentabilidade, colhendo ganhos exorbitantes das “dádivas gratuitas” da natureza. Escrevi dois artigos importantes sobre isso na Monthly Review, em março e abril de 2022.

Na Monthly Review sempre evitamos explicar o imperialismo pela teoria das crises econômicas. Como Magdoff sempre enfatizou, o imperialismo (no sentido amplo, que abarca também o colonialismo) é tão fundamental ao capitalismo quanto a própria busca do lucro. Nesse sentido, o problema da absorção do excedente não explica, mais do que qualquer outra teoria, o ímpeto imperialista global do capitalismo. O capitalismo, em todas as suas fases, envolveu a competição entre firmas pela posição de menor custo, o que significa que o extrativismo tende a se dirigir a áreas com baixos custos unitários do trabalho e alta disponibilidade de recursos naturais. As revoluções dos transportes e das comunicações, assim como tornaram possível a globalização da produção, também baratearam o extrativismo global. O imperialismo significa, ainda, que áreas do Sul Global são tratadas como zonas de sacrifício, para promover o bem-estar do centro. A noção de troca ecológica desigual, somada à de troca econômica desigual, sempre fez parte da teoria da dependência.

Sobre o extrativismo, fui influenciado pelo trabalho do teórico uruguaio Eduardo Gudynas, em seus Extractivismos. Escrevi um artigo intitulado “Extrativismo no Antropoceno” para a Science for the People em 2022 (também incluído em meu livro The Dialectics of Ecology), no qual tentei sintetizar a análise dele com a de Marx.

Muitos governos progressistas do Sul Global perseguem versões de “desenvolvimentismo verde” ou um Green New Deal conduzido pelo Estado, que busca equilibrar a acumulação de capital com a proteção ambiental. De uma perspectiva ecológica marxiana, por que uma transição que deixa intactos a lei do valor, a propriedade privada e o fetichismo da mercadoria é estruturalmente incapaz de deter o colapso planetário?

Há um problema em conceber esse “equilíbrio” entre acumulação de capital e proteção ambiental em qualquer concepção de desenvolvimentismo verde, já que a acumulação de capital é invariavelmente concebida como algo que se dá em bases ilimitadas, ao passo que, no que toca ao meio ambiente, esbarramos em limites por toda parte. Essa contradição poderia ser vista como resultado simples do aumento da escala da economia em relação à capacidade de suporte do planeta. Mas o sistema de acumulação de capital, que opera com base em seu próprio fluxo circular de valor econômico, desorganiza continuamente, e chega a romper, os ciclos biogeoquímicos do planeta, aqueles que tornam a vida possível, provocando crises ecológicas em cascata e criando um ambiente cada vez mais tóxico para seus habitantes. O problema ecológico, portanto, é ao mesmo tempo de sistema e de escala.

Na prática, o desenvolvimentismo verde sob o capitalismo consiste num processo de acumulação de capital em larga medida irrestrito, que deveria então ser de algum modo “remendado” a cada etapa por medidas de proteção ambiental, as quais jamais poderão, evidentemente, “equilibrar” aquele processo. Isso porque o capitalismo, como argumentou o economista ecológico K. William Kapp, é “um sistema de custos não pagos”. A degradação ecológica, ou fratura metabólica, não é efeito secundário nem externalidade da acumulação de capital. Ela é intrínseca às próprias leis de movimento do capital. Deter o colapso planetário, no sentido de preservar o planeta como lar seguro para a humanidade, enquanto se persegue ao mesmo tempo a acumulação ilimitada de capital, é um teorema da impossibilidade.

Penso, sim, que a China mostrou ser possível dar passos enormes em termos de modernização ecológica socialista num sistema em que as relações sociais foram alteradas em grau considerável (ainda que os problemas ecológicos chineses permaneçam imensos). Mas esse é justamente o ponto. As relações sociais precisam mudar se quisermos gerar uma civilização ecológica, que não é um sonho utópico qualquer, mas representa a única rota para a sobrevivência humana.

O marxismo clássico priorizou o proletariado industrial como agente primordial da transformação histórica. Na época da emergência planetária e das cadeias globais de suprimento, onde reside hoje o sujeito revolucionário? De que modo defensores indígenas da terra, trabalhadores agrários e precariados urbanos do Sul Global se aglutinam num “proletariado ambiental” capaz de liderar uma revolução socioecológica global?

Minha visão é que a noção de “proletariado industrial” foi reificada tanto por marxistas quanto por não marxistas a ponto de o conceito perder a maior parte de seu significado. Se olharmos para trás, para Engels e Marx, tal reificação não se encontra. Se voltarmos a A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, a primeira obra a tratar de fato da Revolução Industrial, as condições dos operários industriais nas fábricas, embora importantes e sustentando boa parte da análise, ocupam apenas uma pequena parte do livro, que se orienta sobretudo para as condições ambientais dos trabalhadores, não só no local de trabalho, mas ainda mais no ambiente urbano, nas ruas e onde viviam, enfrentando a moradia abissal, a poluição, a doença, a mortalidade (inclusive a alta mortalidade infantil), a adulteração dos alimentos, a toxicidade, a invalidez, a exploração extrema das mulheres, em suma, todos os fenômenos que somavam aquilo que Engels chamou de “assassinato social”. Além disso, ele não escreveu apenas sobre o proletariado urbano, mas também sobre os proletariados da mineração e da agricultura. Podemos ver quase o mesmo em O Capital, de Marx, isto é, a classe trabalhadora era tratada como classe, e não simplesmente como função de ocupações industriais. Além disso, dos Manuscritos econômico-filosóficos a O Capital, Marx foi claro quanto a que o grosso do proletariado industrial nos principais setores geradores de valor da indústria de seu tempo (especificamente o têxtil) era composto por mulheres e crianças (destas, a maioria meninas). Em outras palavras, muito como argumentou E. P. Thompson em A formação da classe operária inglesa, é importante focalizar a cultura, a comunidade e o ambiente mais amplos da classe trabalhadora, e não simplesmente a noção reificada do proletariado industrial, por mais útil que esta seja em alguns aspectos.

Os trabalhadores são mais revolucionários, eu diria, não quando estão em jogo apenas as questões da exploração no trabalho, da degradação do trabalho e dos salários, ainda que seja aí que o poder da classe trabalhadora costume se concentrar, mas quando todo o seu ambiente é afetado. A ideia de proletariado ambiental é, portanto, uma noção do proletariado considerado em suas dimensões materiais plenas, contraposta à visão muito mais limitada de um proletariado econômico.

Por que isso importa hoje? Penso que, de uma perspectiva materialista, a separação entre condições econômicas e condições ambientais mais amplas, que foi um produto de certo modo artificial do capitalismo, está se dissolvendo. Embora a realidade econômica esteja atada ao salário e continue a governar tanto da existência na sociedade atual, a realidade emergente é que as condições ambientais passaram a rivalizar com as condições econômicas na condição geral da classe trabalhadora. No mundo de hoje, quando falta comida às pessoas, isso é igualmente ambiental e econômico, e por isso a diferença entre as duas coisas se dissolve rapidamente. Numa situação assim, trabalhadores de todos os tipos são objetivamente empurrados uns para os outros de maneiras novas, e as lutas de trabalhadores de diversas espécies, inclusive trabalhadores agrícolas sem terra, camponeses, indígenas, mulheres superexploradas no sistema de reprodução social, populações LGBTQ e ainda outras, passam a ter mais em comum. Mesmo os trabalhadores do Norte Global e do Sul Global começam a experimentar condições objetivamente mais semelhantes, dado que o próprio imperialismo está financeirizado e já não sustenta uma aristocracia operária no centro como antes. O proletariado ambiental aponta, assim, para o ressurgimento do trabalhador coletivo. Até a ameaça da inteligência artificial aponta nessa direção.

Claro, o senhor faz a pergunta muito mais difícil de como isso pode levar à criação de um novo sujeito revolucionário, o que levanta a questão do elemento subjetivo da consciência e da luta revolucionárias. Também isso, creio, está se desenvolvendo sob as condições objetivas de hoje. O desenvolvimento da consciência revolucionária vem sempre como surpresa, por vezes quando as pessoas menos esperam. Fidel disse uma vez que as pessoas são como vulcões, entram em erupção de tempos em tempos. Não falta luta em torno das relações sociais (nas dimensões anti-imperial, de classe, de raça, de gênero e ambiental) ocorrendo no mundo de hoje. O que falta é a unificação e uma compreensão revolucionária comum, que só podem vir, penso eu, de um materialismo ambiental mais profundo, a emergir como força irreprimível. Hugo Chávez, no fim de sua vida, tragicamente interrompida, planejava iniciar uma Nova Internacional em escala global. Pretendia fazê-lo nas bases mais amplas possíveis. Isso é algo que ainda pode acontecer. É verdade que vemos o fascismo se desenvolver pelo mundo, mas isso é sinal de fraqueza, de um sistema que se desfaz.

Objetivamente, a humanidade se defronta com uma situação em que a luta pela liberdade e a luta da necessidade se correspondem agora por inteiro. Não pode haver futuro sem uma sociedade de igualdade substantiva e de sustentabilidade ecológica, que é o que define o socialismo no século XXI. Temos hoje uma escolha entre socialismo e exterminismo. Nessas circunstâncias, estou convencido de que a humanidade mundial lutará, e numa escala que mal se pode imaginar. Isso se dirigirá, em toda parte, à reconstituição revolucionária da sociedade, virá de baixo e terá como alvo o sistema capitalista. Como Marx disse certa vez, a respeito da Irlanda de seu tempo, trata-se de um caso de “ruína ou revolução”.


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Thiago Gama
Doutorando em História Comparada pelo PPGHC da UFRJ, e é orientado pela Profª. Drª. Beatriz Bissio.

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