Por MATHEWS NUNES MATHIAS*
Entre coroas, votos e milagres: como a padroeira foi disputada por todos os projetos de nação, de 1904 a 2026
1.
No 12 de outubro, dia da padroeira, a menos de duas semanas do segundo turno, os dois candidatos à Presidência foram à missa. Lula assistiu à celebração na capela do Palácio da Alvorada. Flávio Bolsonaro (PL) esteve na Catedral de Brasília. No Santuário Nacional, no interior paulista, o vice-presidente Geraldo Alckmin ouviu o arcebispo dom Mário Antônio da Silva condenar o ódio e a intolerância.
A agenda religiosa não era protocolar. Desde setembro, Nossa Senhora Aparecida havia se tornado tema de campanha. Publicações nas redes associaram Flávio a um projeto de lei de 2007, do então deputado Victório Galli, que pretendia trocar na lei do feriado a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto foi arquivado há anos e Flávio Bolsonaro nunca o subscreveu. O TSE mandou remover as postagens e o senador comparou o boato a uma facada.
O terreno, porém, era fértil. Em vídeo de 23 de agosto, Flávio Bolsonaro havia prometido que, se eleito, decretaria que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Como mostrou a jornalista Daniela Lima, no portal UOL, a fala acendeu o alerta da cúpula católica, que desde 2019 debatia internamente os ataques à devoção mariana e o avanço da chamada teologia do domínio.
Diante da polêmica, Flávio Bolsonaro acusou, sem provas, a CNBB de ajudar a espalhar o boato. Lula, por sua vez, disse que mexer com Aparecida “não é aceitável”. De um lado, a acusação de ataque à padroeira; de outro, a denúncia de manipulação da fé.
Na reta final, a santa não saiu de cena. Às vésperas da votação, circulou nas redes, com a marca do g1, a foto de uma apoiadora de Flávio Bolsonaro que teria rasgado uma bandeira de Aparecida durante um ato em Belo Horizonte. A imagem foi compartilhada por milhares de perfis e chegou a ser denunciada como intolerância religiosa pela deputada federal eleita pelo PT, Anielle Franco.
Era falsa: as agências de checagem mostraram que havia sido gerada por inteligência artificial e que o portal G1 jamais publicara a reportagem. Em 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Na avenida Paulista, um eleitor ergueu uma imagem da padroeira para celebrar: “Vocês que duvidavam dela, olha o que vocês ganharam”. Nas redes, não faltaram postagens e charges que atribuíam à intercessão da santa a vitória da democracia.
2.
Quem observa a cena pode ter a impressão de que a política invadiu um território sagrado. A história de Aparecida sugere o contrário: a padroeira nunca esteve fora da política.
A pequena imagem de terracota foi retirada das águas do Paraíba do Sul por três pescadores em 1717 e, por muito tempo, foi objeto de uma devoção regional. Sua transformação em símbolo nacional foi um projeto. No fim do século 19, ameaçada por uma República de inspiração positivista que separou Igreja e Estado, a hierarquia católica encontrou na santa do Vale do Paraíba uma resposta à Marianne dos republicanos.
A coroação de Aparecida como Rainha do Brasil, em 8 de setembro de 1904, um dia depois das festas da Independência, não foi coincidência. Era um duelo pela representação da nação e venceu a Virgem que estava mais perto do povo.
Em 1930, a pedido do episcopado, Pio 11 proclamou Aparecida padroeira do Brasil. No ano seguinte, a imagem foi levada em procissão ao Rio de Janeiro, então capital. Diante de uma multidão, Getúlio Vargas beijou os pés da santa e o cardeal Sebastião Leme exclamou: “Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!”. Selava-se a aliança entre a Igreja e o novo regime.
Em 1945, com o fim do Estado Novo e o temor da legalização do Partido Comunista, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta levou a imagem à praça da Sé, em São Paulo, para uma vigília em que os fiéis juraram repudiar o comunismo diante da padroeira. Na década seguinte, Juscelino Kubitschek doou a estrutura metálica da torre da nova Basílica, concebida pelos padres redentoristas como monumento cívico para a nação com a maior população católica do mundo.
O capítulo mais incômodo é também o mais esquecido. Em agosto de 1963, uma charge do jornal Última Hora, alinhado a João Goulart, retratou a santa com traços negros. Em Aparecida, o comércio fechou, exemplares do jornal foram queimados em praça pública e milhares de devotos, inflamados pelos padres da Rádio Aparecida, protestaram contra o “jornal comunista” que teria insultado a padroeira.
O caricaturista Otávio Câmara de Oliveira denunciou o racismo por trás da indignação. Ninguém quis ouvi-lo. O episódio anunciava o lugar que a padroeira ocuparia meses depois, quando sua imagem foi levada às Marchas da Família com Deus pela Liberdade que, após o 31 de março de 1964, se multiplicaram pelo país para celebrar a intervenção militar.
Jango também buscou abrigo nos mantos da padroeira, ao depositar aos pés da imagem o pedido pelas reformas de base. Foram os conspiradores, porém, que fizeram dela sua bandeira. No domingo de Páscoa, 29 de março de 1964, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, pediu aos fiéis reunidos na Basílica uma ave-maria pelo país e anunciou que Jango estava com os dias contados. Horas depois, os redentoristas anotaram em seus diários que a revolução vinha aí.
3.
Vitorioso o golpe, a santa foi aclamada padroeira da “revolução”. Em Juiz de Fora, de onde partiram as tropas do general Olympio Mourão Filho, que registrou em suas memórias as preces feitas à padroeira enquanto conspirava, ela foi saudada como “generalíssima do Exército”. Os redentoristas que administravam o santuário celebraram a “vitória da democracia” e convidaram Castello Branco para uma marcha na cidade.
Em 1965, foi o próprio Castello Branco quem pediu, em pergaminho assinado também pelo vice José Maria Alkmin e pelo governador Magalhães Pinto, que a imagem percorresse o país. Com aviões do Correio Aéreo Nacional e recursos do Tesouro, Aparecida percorreu mais de 15 estados nos anos seguintes, recebida por governadores, generais e multidões.
Em 1967, no jubileu de 250 anos, Costa e Silva foi convidado de honra na entrega da Rosa de Ouro enviada por Paulo 6º e aplaudido pelos romeiros. Nos anos do “milagre econômico”, o governo de Emílio Médici financiou a Passarela da Fé, que liga a Basílica Velha à nova; até hoje, uma placa agradece a Costa e Silva e a Emílio Médici pela obra.
No Sesquicentenário da Independência, em 1972, o santuário consagrou à pátria um Ano Marial, e a imagem original foi levada à praça da Sé, em São Paulo, para a missa nacional da CNBB, celebrada por dom Aloísio Lorscheider ao lado de dom Paulo Evaristo Arns e acompanhada por mais de 80 bispos, entre eles dom Hélder Câmara.
Na procissão que se seguiu, os fiéis davam vivas à padroeira, ao Sesquicentenário e ao presidente Emílio Médici. Em 30 de junho de 1980, o general João Figueiredo sancionou a lei que fez do 12 de outubro feriado nacional. Dias depois, em 4 de julho, João Paulo 2º consagrou a nova Basílica diante de cerca de 300 mil fiéis, na primeira visita de um papa ao Brasil. Governo e Igreja celebravam juntos, uma vez mais, aos pés da padroeira. É essa a lei que o projeto de 2007 pretendia alterar.
Nada disso ocupa lugar de destaque na memória do santuário ou da Igreja. Na esteira do mito da resistência, a instituição preferiu lembrar dom Hélder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns. Quando a CNBB reconheceu, em 2014, que o apoio ao golpe havia sido um “erro histórico”, atribuiu-o a “alguns setores” da Igreja, sem nome e sem rosto.
Nas últimas décadas, a disputa mudou de sinal, mas não de natureza. Em 2016, católicos de direita foram à Basílica pedir uma Igreja livre do PT. Em 2018, uma romaria pela liberdade de Lula tomou o santuário de bandeiras vermelhas e o padre que pediu a bênção da santa ao ex-presidente teve de se retratar. Em 2021, dom Orlando Brandes, então arcebispo, afirmou que “pátria amada não pode ser pátria armada”, recado lido como dirigido a Jair Bolsonaro. Em 2022, apoiadores do então presidente vaiaram o arcebispo e hostilizaram jornalistas no pátio da Basílica.
4.
A polêmica de 2026 se insere nessa longa tradição, mas com uma inversão curiosa. Em 1963, a direita acusou a esquerda de profanar a padroeira e foi às ruas desagravá-la. Desta vez, setores da esquerda se apresentaram como guardiões da santa diante de um bolsonarismo cada vez mais evangélico, enquanto Flávio Bolsonaro, que se dizia vítima de uma mentira, recorreu à Justiça Eleitoral para provar sua deferência à devoção católica.
A foto fabricada da bandeira rasgada levou essa lógica ao limite: já não era preciso que a ofensa existisse para que ela mobilizasse. Nos dois casos, a acusação de ofensa à padroeira funcionou como arma: mobiliza afetos profundos, separa o “bom brasileiro” do inimigo e dispensa argumentos. E, assim como em 1964 a “vitória sem sangue” dos golpistas foi atribuída a um milagre de Aparecida, a vitória nas urnas em 2026 também ganhou sua leitura providencial, agora com o sinal trocado.
Isso não significa que as tensões sejam imaginárias. A hostilidade de setores neopentecostais à devoção mariana é antiga e o país ainda se lembra do pastor que chutou uma imagem da santa diante das câmeras de TV, em 1995. E a promessa de decretar a fé do país, vinda de um candidato à Presidência, deveria inquietar qualquer defensor da laicidade, católico ou não.
O problema é outro. Ao tratar Aparecida como símbolo intocado de unidade nacional, acima das paixões partidárias, os contendores de 2026 repetiram o gesto dos que a vestiram de verde e amarelo em 1964: reivindicaram para si a mãe de todos os brasileiros.
A história mostra que essa mãe já foi chamada a abençoar a Igreja contra a República, o Estado Novo, o golpe e a ditadura. Mostra também que a devoção de milhões de fiéis, muitos deles negros e pobres, que nos terreiros a reverenciam como Oxum, sempre excedeu os usos que governos e candidatos fizeram dela.
Reconhecer esse passado não diminui a fé de ninguém. Serve, antes, como alerta: quando a padroeira é convocada para a campanha, quem fala em seu nome raramente é ela.
*Mathews Nunes Mathias é doutorando na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Referências
Brasil de fato. Lula e Flávio Bolsonaro participam de missas no Dia de Nossa Senhora Aparecida em Brasília; Alckmin vai a santuário. Brasil de Fato, 12 out. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/12/lula-e-flavio-bolsonaro-participam-de-missas-no-dia-de-nossa-senhora-aparecida-em-brasilia-alckmin-vai-a-santuario/.
COLETIVO BEREIA. Arcebispo de Aparecida critica o ódio e o armamento em homilia no dia de Nossa Senhora. Bereia, 12 out. 2026. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/arcebispo-de-aparecida-critica-o-odio-e-o-armamento-em-homilia-no-dia-de-nossa-senhora/.
CNN Brasil. Entenda polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. CNN Brasil, 25 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/entenda-polemica-envolvendo-flavio-bolsonaro-e-nossa-senhora-aparecida/.
Brasil de Fato. TSE mantém remoção de posts sobre Nossa Senhora Aparecida com divergências sobre alcance da decisão. Brasil de Fato, 1 out. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/01/tse-mantem-remocao-de-posts-sobre-nossa-senhora-aparecida-com-divergencias-sobre-alcance-da-decisao/.
CNN Brasil. Fake news de Nossa Senhora Aparecida foi como facada em mim, diz Flávio. CNN Brasil, 28 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/fake-news-de-nossa-senhora-aparecida-foi-como-facada-em-mim-diz-flavio/.
UOL. Daniela Lima: Igreja Católica já monitorava ataques a Nossa Senhora. UOL, 28 set. 2026. Disponível em: [inserir link].
CNN Brasil. “Fake news, né, presidente?”: Lula é contestado sobre Nossa Senhora. CNN Brasil, [data]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/fake-news-ne-presidente-lula-e-contestado-sobre-nossa-senhora/.
Agência lupa. É falsa imagem que mostra apoiadora de Flávio rasgando bandeira de Nossa Senhora Aparecida. Lupa, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.agencialupa.org/verificacao/2026/10/25/e-falsa-imagem-que-mostra-apoiadora-de-flavio-rasgando-bandeira-de-nossa-senhora-aparecida/.
BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Eleições 2026: Lula é reeleito presidente da República; confira resultado do 2º turno em SP. TRE-SP, out. 2026. Disponível em: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-lula-e-reeleito-presidente-da-republica-confira-resultado-do-2o-turno-em-sp.
TERRA. Com imagem de Nossa Senhora Aparecida, eleitor celebra vitória de Lula na Paulista: “Para quem duvidava dela”. Terra, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/videos/com-imagem-de-nossa-senhora-aparecida-eleitor-celebra-vitoria-de-lula-na-paulista-para-quem-duvidava-dela,0cfd928734bd64c4fb9aa5e46c031630cbovl3ed.html.
MATHIAS, Mathews Nunes. A padroeira da revolução: Aparecida e o Golpe Civil-Militar de 1964. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 37, n. 82, e20240204, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S2178-149420240204.
CORDEIRO, Janaina Martins; MATHIAS, Mathews. O Santuário Nacional de Aparecida e o Sesquicentenário da Independência do Brasil em 1972. Revista Brasileira de História das Religiões, ANPUH, ano XVII, n. 49, p. 97-117, jan./abr. 2024.
CNBB. Declaração “Por tempos novos, com liberdade e democracia”. CNBB, 2014. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/declaracao-por-tempos-novos-com-liberdade-e-democracia/.
CAVALCANTI, Tatiana. “Pátria amada não pode ser pátria armada”, diz arcebispo em Aparecida antes de visita de Bolsonaro. Folha de S.Paulo, 12 out. 2021. Disponível em: https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2021/10/patria-amada-nao-pode-ser-patria-armada-diz-arcebispo-em-aparecida-antes-de-visita-de-bolsonaro.shtml.
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| Imagem: Grupo de Ação |
Entre coroas, votos e milagres: como a padroeira foi disputada por todos os projetos de nação, de 1904 a 2026
1.
No 12 de outubro, dia da padroeira, a menos de duas semanas do segundo turno, os dois candidatos à Presidência foram à missa. Lula assistiu à celebração na capela do Palácio da Alvorada. Flávio Bolsonaro (PL) esteve na Catedral de Brasília. No Santuário Nacional, no interior paulista, o vice-presidente Geraldo Alckmin ouviu o arcebispo dom Mário Antônio da Silva condenar o ódio e a intolerância.
A agenda religiosa não era protocolar. Desde setembro, Nossa Senhora Aparecida havia se tornado tema de campanha. Publicações nas redes associaram Flávio a um projeto de lei de 2007, do então deputado Victório Galli, que pretendia trocar na lei do feriado a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto foi arquivado há anos e Flávio Bolsonaro nunca o subscreveu. O TSE mandou remover as postagens e o senador comparou o boato a uma facada.
O terreno, porém, era fértil. Em vídeo de 23 de agosto, Flávio Bolsonaro havia prometido que, se eleito, decretaria que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Como mostrou a jornalista Daniela Lima, no portal UOL, a fala acendeu o alerta da cúpula católica, que desde 2019 debatia internamente os ataques à devoção mariana e o avanço da chamada teologia do domínio.
Diante da polêmica, Flávio Bolsonaro acusou, sem provas, a CNBB de ajudar a espalhar o boato. Lula, por sua vez, disse que mexer com Aparecida “não é aceitável”. De um lado, a acusação de ataque à padroeira; de outro, a denúncia de manipulação da fé.
Na reta final, a santa não saiu de cena. Às vésperas da votação, circulou nas redes, com a marca do g1, a foto de uma apoiadora de Flávio Bolsonaro que teria rasgado uma bandeira de Aparecida durante um ato em Belo Horizonte. A imagem foi compartilhada por milhares de perfis e chegou a ser denunciada como intolerância religiosa pela deputada federal eleita pelo PT, Anielle Franco.
Era falsa: as agências de checagem mostraram que havia sido gerada por inteligência artificial e que o portal G1 jamais publicara a reportagem. Em 25 de outubro, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Na avenida Paulista, um eleitor ergueu uma imagem da padroeira para celebrar: “Vocês que duvidavam dela, olha o que vocês ganharam”. Nas redes, não faltaram postagens e charges que atribuíam à intercessão da santa a vitória da democracia.
2.
Quem observa a cena pode ter a impressão de que a política invadiu um território sagrado. A história de Aparecida sugere o contrário: a padroeira nunca esteve fora da política.
A pequena imagem de terracota foi retirada das águas do Paraíba do Sul por três pescadores em 1717 e, por muito tempo, foi objeto de uma devoção regional. Sua transformação em símbolo nacional foi um projeto. No fim do século 19, ameaçada por uma República de inspiração positivista que separou Igreja e Estado, a hierarquia católica encontrou na santa do Vale do Paraíba uma resposta à Marianne dos republicanos.
A coroação de Aparecida como Rainha do Brasil, em 8 de setembro de 1904, um dia depois das festas da Independência, não foi coincidência. Era um duelo pela representação da nação e venceu a Virgem que estava mais perto do povo.
Em 1930, a pedido do episcopado, Pio 11 proclamou Aparecida padroeira do Brasil. No ano seguinte, a imagem foi levada em procissão ao Rio de Janeiro, então capital. Diante de uma multidão, Getúlio Vargas beijou os pés da santa e o cardeal Sebastião Leme exclamou: “Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!”. Selava-se a aliança entre a Igreja e o novo regime.
Em 1945, com o fim do Estado Novo e o temor da legalização do Partido Comunista, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta levou a imagem à praça da Sé, em São Paulo, para uma vigília em que os fiéis juraram repudiar o comunismo diante da padroeira. Na década seguinte, Juscelino Kubitschek doou a estrutura metálica da torre da nova Basílica, concebida pelos padres redentoristas como monumento cívico para a nação com a maior população católica do mundo.
O capítulo mais incômodo é também o mais esquecido. Em agosto de 1963, uma charge do jornal Última Hora, alinhado a João Goulart, retratou a santa com traços negros. Em Aparecida, o comércio fechou, exemplares do jornal foram queimados em praça pública e milhares de devotos, inflamados pelos padres da Rádio Aparecida, protestaram contra o “jornal comunista” que teria insultado a padroeira.
O caricaturista Otávio Câmara de Oliveira denunciou o racismo por trás da indignação. Ninguém quis ouvi-lo. O episódio anunciava o lugar que a padroeira ocuparia meses depois, quando sua imagem foi levada às Marchas da Família com Deus pela Liberdade que, após o 31 de março de 1964, se multiplicaram pelo país para celebrar a intervenção militar.
Jango também buscou abrigo nos mantos da padroeira, ao depositar aos pés da imagem o pedido pelas reformas de base. Foram os conspiradores, porém, que fizeram dela sua bandeira. No domingo de Páscoa, 29 de março de 1964, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, pediu aos fiéis reunidos na Basílica uma ave-maria pelo país e anunciou que Jango estava com os dias contados. Horas depois, os redentoristas anotaram em seus diários que a revolução vinha aí.
3.
Vitorioso o golpe, a santa foi aclamada padroeira da “revolução”. Em Juiz de Fora, de onde partiram as tropas do general Olympio Mourão Filho, que registrou em suas memórias as preces feitas à padroeira enquanto conspirava, ela foi saudada como “generalíssima do Exército”. Os redentoristas que administravam o santuário celebraram a “vitória da democracia” e convidaram Castello Branco para uma marcha na cidade.
Em 1965, foi o próprio Castello Branco quem pediu, em pergaminho assinado também pelo vice José Maria Alkmin e pelo governador Magalhães Pinto, que a imagem percorresse o país. Com aviões do Correio Aéreo Nacional e recursos do Tesouro, Aparecida percorreu mais de 15 estados nos anos seguintes, recebida por governadores, generais e multidões.
Em 1967, no jubileu de 250 anos, Costa e Silva foi convidado de honra na entrega da Rosa de Ouro enviada por Paulo 6º e aplaudido pelos romeiros. Nos anos do “milagre econômico”, o governo de Emílio Médici financiou a Passarela da Fé, que liga a Basílica Velha à nova; até hoje, uma placa agradece a Costa e Silva e a Emílio Médici pela obra.
No Sesquicentenário da Independência, em 1972, o santuário consagrou à pátria um Ano Marial, e a imagem original foi levada à praça da Sé, em São Paulo, para a missa nacional da CNBB, celebrada por dom Aloísio Lorscheider ao lado de dom Paulo Evaristo Arns e acompanhada por mais de 80 bispos, entre eles dom Hélder Câmara.
Na procissão que se seguiu, os fiéis davam vivas à padroeira, ao Sesquicentenário e ao presidente Emílio Médici. Em 30 de junho de 1980, o general João Figueiredo sancionou a lei que fez do 12 de outubro feriado nacional. Dias depois, em 4 de julho, João Paulo 2º consagrou a nova Basílica diante de cerca de 300 mil fiéis, na primeira visita de um papa ao Brasil. Governo e Igreja celebravam juntos, uma vez mais, aos pés da padroeira. É essa a lei que o projeto de 2007 pretendia alterar.
Nada disso ocupa lugar de destaque na memória do santuário ou da Igreja. Na esteira do mito da resistência, a instituição preferiu lembrar dom Hélder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns. Quando a CNBB reconheceu, em 2014, que o apoio ao golpe havia sido um “erro histórico”, atribuiu-o a “alguns setores” da Igreja, sem nome e sem rosto.
Nas últimas décadas, a disputa mudou de sinal, mas não de natureza. Em 2016, católicos de direita foram à Basílica pedir uma Igreja livre do PT. Em 2018, uma romaria pela liberdade de Lula tomou o santuário de bandeiras vermelhas e o padre que pediu a bênção da santa ao ex-presidente teve de se retratar. Em 2021, dom Orlando Brandes, então arcebispo, afirmou que “pátria amada não pode ser pátria armada”, recado lido como dirigido a Jair Bolsonaro. Em 2022, apoiadores do então presidente vaiaram o arcebispo e hostilizaram jornalistas no pátio da Basílica.
4.
A polêmica de 2026 se insere nessa longa tradição, mas com uma inversão curiosa. Em 1963, a direita acusou a esquerda de profanar a padroeira e foi às ruas desagravá-la. Desta vez, setores da esquerda se apresentaram como guardiões da santa diante de um bolsonarismo cada vez mais evangélico, enquanto Flávio Bolsonaro, que se dizia vítima de uma mentira, recorreu à Justiça Eleitoral para provar sua deferência à devoção católica.
A foto fabricada da bandeira rasgada levou essa lógica ao limite: já não era preciso que a ofensa existisse para que ela mobilizasse. Nos dois casos, a acusação de ofensa à padroeira funcionou como arma: mobiliza afetos profundos, separa o “bom brasileiro” do inimigo e dispensa argumentos. E, assim como em 1964 a “vitória sem sangue” dos golpistas foi atribuída a um milagre de Aparecida, a vitória nas urnas em 2026 também ganhou sua leitura providencial, agora com o sinal trocado.
Isso não significa que as tensões sejam imaginárias. A hostilidade de setores neopentecostais à devoção mariana é antiga e o país ainda se lembra do pastor que chutou uma imagem da santa diante das câmeras de TV, em 1995. E a promessa de decretar a fé do país, vinda de um candidato à Presidência, deveria inquietar qualquer defensor da laicidade, católico ou não.
O problema é outro. Ao tratar Aparecida como símbolo intocado de unidade nacional, acima das paixões partidárias, os contendores de 2026 repetiram o gesto dos que a vestiram de verde e amarelo em 1964: reivindicaram para si a mãe de todos os brasileiros.
A história mostra que essa mãe já foi chamada a abençoar a Igreja contra a República, o Estado Novo, o golpe e a ditadura. Mostra também que a devoção de milhões de fiéis, muitos deles negros e pobres, que nos terreiros a reverenciam como Oxum, sempre excedeu os usos que governos e candidatos fizeram dela.
Reconhecer esse passado não diminui a fé de ninguém. Serve, antes, como alerta: quando a padroeira é convocada para a campanha, quem fala em seu nome raramente é ela.
*Mathews Nunes Mathias é doutorando na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Referências
Brasil de fato. Lula e Flávio Bolsonaro participam de missas no Dia de Nossa Senhora Aparecida em Brasília; Alckmin vai a santuário. Brasil de Fato, 12 out. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/12/lula-e-flavio-bolsonaro-participam-de-missas-no-dia-de-nossa-senhora-aparecida-em-brasilia-alckmin-vai-a-santuario/.
COLETIVO BEREIA. Arcebispo de Aparecida critica o ódio e o armamento em homilia no dia de Nossa Senhora. Bereia, 12 out. 2026. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/arcebispo-de-aparecida-critica-o-odio-e-o-armamento-em-homilia-no-dia-de-nossa-senhora/.
CNN Brasil. Entenda polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. CNN Brasil, 25 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/entenda-polemica-envolvendo-flavio-bolsonaro-e-nossa-senhora-aparecida/.
Brasil de Fato. TSE mantém remoção de posts sobre Nossa Senhora Aparecida com divergências sobre alcance da decisão. Brasil de Fato, 1 out. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/10/01/tse-mantem-remocao-de-posts-sobre-nossa-senhora-aparecida-com-divergencias-sobre-alcance-da-decisao/.
CNN Brasil. Fake news de Nossa Senhora Aparecida foi como facada em mim, diz Flávio. CNN Brasil, 28 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/fake-news-de-nossa-senhora-aparecida-foi-como-facada-em-mim-diz-flavio/.
UOL. Daniela Lima: Igreja Católica já monitorava ataques a Nossa Senhora. UOL, 28 set. 2026. Disponível em: [inserir link].
CNN Brasil. “Fake news, né, presidente?”: Lula é contestado sobre Nossa Senhora. CNN Brasil, [data]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/fake-news-ne-presidente-lula-e-contestado-sobre-nossa-senhora/.
Agência lupa. É falsa imagem que mostra apoiadora de Flávio rasgando bandeira de Nossa Senhora Aparecida. Lupa, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.agencialupa.org/verificacao/2026/10/25/e-falsa-imagem-que-mostra-apoiadora-de-flavio-rasgando-bandeira-de-nossa-senhora-aparecida/.
BRASIL. Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Eleições 2026: Lula é reeleito presidente da República; confira resultado do 2º turno em SP. TRE-SP, out. 2026. Disponível em: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-lula-e-reeleito-presidente-da-republica-confira-resultado-do-2o-turno-em-sp.
TERRA. Com imagem de Nossa Senhora Aparecida, eleitor celebra vitória de Lula na Paulista: “Para quem duvidava dela”. Terra, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/videos/com-imagem-de-nossa-senhora-aparecida-eleitor-celebra-vitoria-de-lula-na-paulista-para-quem-duvidava-dela,0cfd928734bd64c4fb9aa5e46c031630cbovl3ed.html.
MATHIAS, Mathews Nunes. A padroeira da revolução: Aparecida e o Golpe Civil-Militar de 1964. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 37, n. 82, e20240204, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S2178-149420240204.
CORDEIRO, Janaina Martins; MATHIAS, Mathews. O Santuário Nacional de Aparecida e o Sesquicentenário da Independência do Brasil em 1972. Revista Brasileira de História das Religiões, ANPUH, ano XVII, n. 49, p. 97-117, jan./abr. 2024.
CNBB. Declaração “Por tempos novos, com liberdade e democracia”. CNBB, 2014. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/declaracao-por-tempos-novos-com-liberdade-e-democracia/.
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