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A raposa da responsabilidade fiscal

O caçador avistou uma escola. Bang! Encontrou um hospital. Bang! Bang! Percebeu uma obra de infraestrutura. Não hesitou. A árvore continuou crescendo. Preparava nova rajada quando ouviu uma gargalhada do alto. Na copa estava uma raposa, lustrosa e empanturrada. Chamava-se Juros

Imagem: iStock

De OutrasPalavras, 5 de novembro 2026
Por Henrique Morrone


Era uma vez um caçador. Chamava-se Austeridade, vulgo Fiscal.

Defendia o equilíbrio com uma devoção que flertava com o desequilíbrio. Sua pontaria era certeira, sobretudo quando o alvo era uma escola, um hospital ou alguma obra pública inacabada.

Certa manhã, encontrou uma figueira imponente no meio da floresta. Seu tronco era espesso, as raízes se espalhavam pelo chão e a copa crescia a cada estação.

Era a árvore da dívida pública.

Fiscal ficou indignado.

— Uma figueira desse tamanho! Alguém deve estar gastando demais!

Sacou a espingarda.

Avistou uma escola. Bang!

Encontrou um hospital. Bang! Bang!

Percebeu uma obra de infraestrutura. Recarregou e não hesitou.

A árvore continuou crescendo.

O caçador consultou seu manual embolorado. Munido de uma teoria
infalível, concluiu que a floresta havia sido relativamente poupada.

Preparava nova rajada quando ouviu uma gargalhada do alto.

Na copa estava uma raposa, lustrosa e visivelmente empanturrada.

Chamava-se Juros.

— O que faz aí em cima? — perguntou Fiscal.

— Meu trabalho.

— E qual seria?

— Alimentar-me dos frutos da dívida.

— Mas estou tentando comprimir a dívida!

— Hum. Sua pontaria é notável. Felizmente, é apenas uma poda que nunca
alcança o topo.

Fiscal ruminou em silêncio aquela verdade indigesta.

— Minha missão é controlar o que o governo gasta.

— Inclusive comigo? — perguntou a raposa.

— Não seja inconveniente. Estou falando das despesas que podemos
discutir.

— E o resultado nominal?

— Minha preocupação é o primário. Todo o resto é secundário.

— Mas o nominal inclui os juros.

Fiscal espiou seu manual.

— Você é uma variável técnica. Não pode ser confundida com as despesas
do governo.

A raposa suspirou, aliviada.

— Por um instante, pensei que também custasse dinheiro.

O caçador explicou que a floresta precisava recuperar a confiança.

A raposa ergueu as orelhas.

— Confiança? Excelente. Para recuperá-la, precisarei receber mais.

— Mais? Mas você já está bastante gorda!

— Quanto maior a dívida, maior o risco. E quanto maior o risco, maior
deve ser minha recompensa.

— Mas sua recompensa também aumenta a dívida!

— Exatamente. É por isso que precisamos cortar os de baixo.

Fiscal ficou maravilhado. A explicação não levava a lugar algum, mas
chegava lá com extraordinário rigor técnico.

Nos dias seguintes, intensificou a caça.

A escola perdeu professores. O hospital fechou uma ala. A ponte pereceu,
inacabada.

A floresta empobreceu.

A árvore continuou crescendo.

Fiscal comemorou. Se a dívida crescia apesar dos cortes, imagine o
tamanho que teria alcançado sem eles.

A hipótese era impossível de verificar. Justamente por isso, era bela.

A raposa, confortavelmente instalada na copa, elogiou sua determinação.

— Admirável! Poucas criaturas caçam com tamanho fervor animais
indefesos.

Fiscal enrubesceu. Considerou aquilo um reconhecimento dos mercados.

Foi então que uma criança, alheia às sofisticações da macroeconomia,
perguntou:

— Mas raposas sobem em árvores?

Fiscal esbravejou.

— Não venha questionar os pressupostos do modelo!

A criança olhou novamente para cima.

— E por que o senhor atira nos animais que vivem embaixo?

— Porque representam despesas. A raposa representa a estabilidade.

— Então o senhor não está caçando a raposa. Está protegendo-a.

Fiscal considerou a afirmação irresponsável. Acusou o pequeno de
desconhecer os fundamentos da macroeconomia moderna e encerrou a
discussão.

Corria pela floresta o rumor da chegada de um novo velho governante.

Fiscal não se preocupou. Já preparava seu currículo.

A raposa, entretanto, pareceu inquieta.

— E se o novo governante resolver dispensá-lo?

Fiscal sorriu.

— Improvável. Todos precisam de responsabilidade.

A criança intrometeu-se:

— Mas e se ele resolver deixá-lo descansar?

O caçador estremeceu.

A raposa espiou o chão. Havia tanto tempo que vivia dos frutos da dívida
que já confundia privilégio com direito natural.

Fiscal preferiu não pensar no assunto.

Na manhã seguinte, publicou um relatório alardeando avanços
extraordinários na responsabilidade fiscal. O documento não mencionava a
raposa.

A árvore crescera um pouco mais.

A raposa estava mais gorda.

E a floresta, consideravelmente mais pobre.


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