Por LAURA C. M. FEUERWERKER*
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| Foto: Michelle Guimarães |
Juventude organizada e não organizada. Movimento negro, os povos indígenas, as mulheres, os/as trans, lgb em geral, os véi, as pessoas com deficiência. A galera do samba, do rap, do louvor. Uma multiplicidade gigantesca de vozes, de realidades, de argumentos
1.
Gente, deu certo!! Um levante popular contra o bolsonarismo! Deu certo porque o povo pegou a campanha na mão. A campanha deixou de ser vista como um trabalho dos outros e passou a ser vista como trabalho de cada um e de todos.
Momento em que cada um entrou em cena. Foi muita conversa, milhões de materiais e estratégias inventadas. Cada um como podia. E todo mundo e cada um fez coisas. Muitas coisas. Além de adesivos, não havia muito material de campanha. Então as pessoas produziram materiais. Jogos de baralho, cards, quis, mil coisas. Os focos e argumentos eram muitos, diversos, cada um falando de coisas que faziam sentido.
Havia muita afirmação sobre as políticas públicas, dados para desmascarar mentiras, muito incentivo para as pessoas procurarem informações, pensarem sem precisar acreditar em quem estava puxando conversa, conversando com as dúvidas e com as insatisfações. E muita conversa sobre democracia, sobre não saltar no escuro procurando mudança e cair num abismo sem fim, levando todos junto.
Não se tratava de simplesmente panfletar, mas de puxar conversa com quem aceitava conversar – porque não adiantava muito “pregar para convertidos”. Campanha de porta em porta, nas estações de trem e de metrô, nos vagões, nos ônibus. Muitas coisas juntas! Uma experiência linda de ação coletiva.
E esses materiais eram multiplicados e compartilhados via milhares de grupos de zap. Cada um é muitas coisas: mulher, homem, trans, estudante, trabalhador, profissional, categoria, morador, parente, militante. E em todos esses diferentes e múltiplos âmbitos as pessoas se juntaram e se informaram, choraram pitangas, se animaram umas às outras.
Rua, rua, muita rua. Com diferentes tipos articulações. Em lugares em que as pessoas nunca tinham se juntado. Para as ruas chegou gente de todo lugar, todo tipo, querendo estar junto, sabendo que era importante todo mundo estar lá e, agora, juntos a gente pode sair da casca. Houve quem cantasse, quem dançasse, quem poetasse. E era de tudo. K pop, samba, maracatu, louvor, modinha, funk. Teve repente, teve batalha de rap. Teve quadrinho, teve meme.
Passeata onde nunca tinha havido passeata, assembleia onde nunca antes, corredores, escadas, todo lugar onde juntava gente era oportunidade de se manifestar. As trocas de olhares buscavam cumplicidade e os aplausos autorizavam. E foram muitas, muitas manifestações. A rua cheia, alegre, guerreira enchia a gente de energia.
E nas redes, primeiro um reconhecimento. Todo mundo no Brasil tem celular e passa muito tempo consumindo materiais, informações, piadas, conversas, arte, cultura, belezas e feiuras. As redes constroem opinião e modos de estar no mundo. Juntam grupos, aliás também criam motivos para se juntar. São um espaço onde se vive parte da vida. Não podem ser ignoradas.
2.
E aí nesse espaço houve uma gigantesca ação articulada. Muitos aprendemos muita coisa que não sabíamos. Estratégias para enfrentar o isolamento, romper a lógica de distribuição dos algoritmos. Não ver, não comentar, não compartilhar as barbaridades dos bolsonaristas, ou seja, não dar palco para eles. Ampliar a circulação dos materiais que a nossa turma publicava. Curtir, comentar, replicar, compartilhar, salvar.
O exército do Lula. Impressionante. Muita gente que sempre foi muito desobediente entendeu que sincronicidade e movimentos combinados eram muito importantes nesse momento. De algum modo, como a campanha era capilar, múltipla, dispersa, o exército e alguns outros canais davam um certo norte, que era ainda espalhado e multiplicado de todos os modos possíveis.
Uma estratégia para o X. Aí explosões sincronizadas de hashtags. Mas também dicas para as outras redes sociais.
Havia os comandos, havia a sincronização, mas havia também milhares de pessoas produzindo os conteúdos mais variados, que falavam de muitos problemas diferentes, de razões diferentes. Falando desde todo tipo de lugar. Campo, cidade, trabalhadores, domésticas, construção civil, grupo de música, de corredores, de ciclistas, de caminhoneiros, de motoboys, de estudantes, de tudo que se possa imaginar. Isso sem falar o mundo de influenciadores e artistas que resolveu dar a cara a tapa.
Sem tudo isso a gente não teria o que compartilhar em massa. Porque de turma o negócio ganhava alcance. Juventude organizada e não organizada. Movimento negro, os povos indígenas, as mulheres, os/as trans, lgb em geral, os véi, as pessoas com deficiência. A galera do samba, do rap, do louvor. Tá faltando muita gente nessa lista porque era todo mundo de muitos jeitos. Uma multiplicidade gigantesca de vozes, de realidades, de argumentos.
Também descobrimos que falando todos juntos em todo lugar a gente era capaz de produzir agenda política. Cada problema que aparecia a gente gritava junto e o negócio/assunto/problema entrava na agenda.
Conhecemos pessoas novas, movimentos novos, coletivos que desconhecíamos. Construímos cumplicidade, solidariedade. Ampliamos as conexões e conhecemos muitos novos mundos.
Os debates foram uma experiência também a destacar. Primeiro debate um espetáculo deprimente, devastador. Muita gente não suportou assistir até o fim e foi pras redes tentar produzir movimento. Flávio Bolsonaro mente, Flávio não responde perguntas. Flávio não quer mostrar quem é. E as principais perguntas que o Lula fez e o Flávio Bolsonaro não respondeu foram divulgadas, respondidas. Convidamos as pessoas elas mesmas a procurar respostas.
Também destacamos muito a violência, a virulência do modo do miliciano se comportar porque isso produziu mal-estar coletivo, indignação, mal-estar físico até em quem tentou acompanhar o (péssimo) espetáculo. Ele estava desrespeitando o Lula, mas também a todo povo brasileiro que assistiu o debate procurando saber mais as ideias, as propostas.
3.
Muita indignação, muita pressão modificaram (um tanto) até as regras do debate da Vênus Platinada. Segundo debate, checagem ao vivo on line, mas não na TV. Desta muita gente em três telas simultâneas: TV para ver o debate, computador para a checagem dos fatos e celular para atuar nas redes. Alguns produtores de conteúdo já em ato colocando no ar materiais compartilháveis que possibilitavam grande repercussão.
Flávio Bolsonaro de novo mentiu. Mentiu nos ataques e mentiu nas respostas. Em quatro momentos falou a verdade e mostrou quem realmente era: chamou Lula de nove dedo; desrespeitou Cris, a mãe da Ana Clara e defendeu seu assassino; disse que Belém fede porque é um esgoto a céu aberto; e disse aos nordestinos que sua vida ia melhorar porque passariam a receber gorjetas em dólar.
Cada uma dessas barbaridades provocou efeitos negativos e rejeição na hora, amplificada depois por mil vozes em mil diferentes tons.
Por último, bora votar. Todo voto importa. Não deixe ninguém decidir por você. Imagens emocionantes de milhares de pessoas voltando para casa ou deslocando-se grandes distâncias para votar. Os povos indígenas, trabalhadores rurais, gentes da periferia, trabalhadores de todo tipo. Os idosos e outras pessoas com dificuldade de locomoção sendo transportados no colo. Caronas solidárias de todo tipo. Denúncias de boicote.
Enfim, todo mundo mobilizado de muitos jeitos em diferentes momentos das três intensas, vertiginosas semanas do segundo turno.
Uma experiência poderosa de mostrar que com movimento coletivo a gente pode conquistar o impossível. Derrotamos as big techs, o Donald Trump, o bolsonarismo, a grande mídia. Fizemos campanha sem grana, com nossos corpos, nossa energia, nosso tempo, nossa garra. Mostramos ao mundo que é possível lutar. Fazer o L virou símbolo de luta pela liberdade, pela democracia, contra o fascismo.
Merecemos a explosão de alegria com a vitória. Gigantesca, múltipla, massiva, alegre. O grito alegre, feliz, Olê, olê, olá Lula, Lula. E o berro uníssono do povo que realmente não foge à luta!
E agora as aprendizagens. Não podemos voltar para casa e ficar assistindo a vida rolar como um big brother. Agora descobrimos que podemos fazer diferença e que somos parte ativa da construção de um mundo em que caibam muitos mundos, em que haja lugar para todos com luta, alegria e vida melhor! Bora que a luta segue.
Muito bom termos vivido tudo isso juntos, juntas, juntes.
*Laura C. M. Feuerwerker é professora do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP. Autora, entre outros livros, de Além do discurso de mudança na educação médica: processos e resultados (Hucitec).

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