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Prisão ou porta – o Bolsa Família nos dados

Do A Terra É Redonda, 22 de outubro 2026
Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS*


Flávio Bolsonaro chamou o programa de “bolsa-farelo” e apagou os posts. Sua coordenadora econômica fala em “prisão assistencialista”. Antes de votar, vale olhar o que vinte anos de pesquisa dizem

Na segunda-feira, 19 de outubro, três coisas aconteceram com o Bolsa Família. O reajuste de 15%, de R$ 600 para R$ 691 por família, começou a ser pago a 19,3 milhões de famílias, cerca de 50 milhões de pessoas. O Estadão mostrou que Flávio Bolsonaro apagou das redes as publicações em que chamava o programa de “bolsa-farelo”. Em 2011, como deputado estadual, ele votou contra o Renda Melhor, o complemento fluminense ao Bolsa Família, e apresentou emenda para “limitar em 2 anos o tempo p/ a pessoa receber o bolsa-farelo”.

Em 2013, escreveu que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”. Em 2014, que “dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado” para sustentar quem vive do programa. E a coordenadora econômica da campanha dele, Daniella Marques, disse à CBN Bahia que “as pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família” e, à Jovem Pan, que o plano é “libertar o Brasil dessa prisão assistencialista”.

Flávio Bolsonaro diz hoje que o benefício “está garantido”. Aliados dele disseram ao Metrópoles que a fala de Daniella Marques “pode custar a eleição”. Não escrevo para quem já decidiu. Escrevo para quem vai votar no domingo com dúvida e ouviu, nos últimos vinte anos, que o programa cria preguiçosos, estimula filhos, vira bobagem, prende gente na dependência e quebra o país. Cada uma dessas afirmações foi testada. Os resultados estão em revistas científicas e nos registros do próprio governo, de qualquer governo. Vou aos dados, inclusive aos que dão razão aos críticos.

O que o programa é

O Bolsa Família atende famílias com renda de até R$ 218 por pessoa por mês, a linha de extrema pobreza do Banco Mundial. Paga por pessoa: R$ 164 por membro da família, mais R$ 173 por criança de até seis anos e R$ 58 por gestante e por criança ou adolescente de sete a dezessete anos, com um piso de R$ 691 por família. Com o reajuste decretado em setembro, o valor médio passa de R$ 675 para R$ 777.

Em 83% das famílias a titular do cartão é uma mulher, metade são mães que criam os filhos sozinhas, e 73% dos beneficiários são pretos ou pardos. Há contrapartidas: frequência escolar de 60% para crianças de quatro e cinco anos e de 75% dos seis aos dezessete, vacinação em dia, pré-natal e acompanhamento do peso e da altura das crianças. O programa custa R$ 159,5 bilhões em 2026, 1,2% do PIB. Guarde o número.

“Prisão” é uma afirmação sobre saídas, e as saídas são medidas todo mês. Em 2024, 1,3 milhão de famílias deixaram o programa porque a renda subiu. Em julho de 2025, 958 mil saíram de uma vez. Entre janeiro e outubro de 2025, outras 1,3 milhão saíram por renda e 726 mil ao fim da regra de proteção, segundo o ministério. A FGV calculou que, entre 2023 e 2025, entraram 359 mil famílias por mês e saíram 447 mil. O programa não é um lago. É um rio.

A trajetória das famílias também foi medida. O estudo “Filhos do Bolsa Família”, da FGV (Pinho Neto, 2025), acompanhou quem recebia em 2014. Dez anos depois, 60,7% tinham saído. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos daquela época, 71% saíram, 28% tinham carteira assinada e metade já nem estava no Cadastro Único. Um levantamento anterior do Ministério do Desenvolvimento Social deu o mesmo sinal: de cada três crianças que recebiam em 2005, duas estavam fora do cadastro em 2019.

Quem sai menos: as famílias com criança pequena, 41% em dez anos, e as rurais, 55%. Quem sai mais: as famílias em que o responsável completou o ensino médio, 70%, e as que conseguiram carteira assinada, 79%. A saída não depende de vontade. Depende de escola e de emprego formal.

E a “regra de transição de dois anos” que Daniella Marques apresentou como novidade? Existe desde 2010. Na primeira versão, a família cuja renda passava do limite ficava até dois anos com o benefício integral. O Auxílio Brasil, em 2021, manteve os dois anos com outro nome, “regra de emancipação”. O Bolsa Família de 2023 criou a “regra de proteção”: dois anos com metade do benefício e retorno garantido, sem fila, se a renda cair.

Em junho de 2025 o governo apertou, por razão fiscal: quem entra na regra desde então fica doze meses, com teto de R$ 706 por pessoa. Nesse ponto Daniella tem razão, e é bom dizer: o governo encurtou o prazo. A proposta dela, se é o que parece, restaura a regra de 2023. É pouco para quem fala em prisão.

“Preguiça” é uma afirmação sobre trabalho, e o IBGE mede quem trabalha. Em 2019, 57% dos adultos do Bolsa Família estavam ocupados e 13% procuravam emprego; 70% da renda dessas famílias vinha do trabalho, não do programa (Acosta et al., 2021). Os 30% fora do mercado eram sobretudo mulheres com filhos pequenos e homens da zona rural onde não havia vaga.

O dado mais forte é recente. O ministério cruza todo mês o Caged, o registro das carteiras assinadas, com o Cadastro Único. De janeiro de 2023 a julho de 2026, o Brasil criou 5,4 milhões de empregos formais líquidos. Desses, 4,6 milhões, 85%, foram para pessoas que recebiam Bolsa Família, segundo o levantamento da FGV para o ministério (Jornal de Brasília, 19/10/2026).

Em 2024, 75 de cada cem vagas do saldo foram para beneficiários. Em 2025, 91% foram para pessoas do Cadastro Único. Quem diz que essa gente não quer trabalhar está dizendo que 4,6 milhões de contratações não aconteceram. São empregos piores que a média: o salário de admissão é de R$ 1.901, contra R$ 2.612 de quem está fora do cadastro, e duram menos. Mas são formais, e é por aí que se sai.

Agora o que a crítica acerta. Em 2022, o benefício virou R$ 600 por família, fosse ela de uma pessoa ou de seis. Dois estudos de 2025 mediram o efeito disso sobre a procura por emprego. O Ipea (Vale e Soares, 2025) achou um efeito pequeno: entre quem já estava no programa, a chance de estar no mercado de trabalho caiu entre 2 e 5 pontos; no país inteiro, a taxa de participação ficou 0,3 ponto menor do que ficaria.

A FGV Ibre (Duque, 2025) achou um efeito maior num grupo específico: homens jovens do Norte e do Nordeste com renda quase no limite de entrada, que evitaram o emprego formal para não perder o benefício. É um problema real de desenho, e foi para corrigi-lo que o programa de 2023 voltou ao valor por pessoa e criou a regra de proteção. No mundo, uma revisão de sete programas em seis países, da equipe de Abhijit Banerjee, Nobel de 2019, não encontrou redução do trabalho em nenhum deles (Banerjee et al., 2017). O que a transferência muda é o emprego que a pessoa aceita: com R$ 700 garantidos, ela recusa o bico de R$ 400 e espera a vaga com carteira. Qualquer um faria o mesmo.

Filhos e bobagem

“Fazem filhos para receber” é uma afirmação sobre fecundidade. As brasileiras nunca tiveram tão poucos filhos: 1,55 por mulher no Censo de 2022, contra 2,38 em 2000. A queda foi maior entre as mais pobres e com menos escola, as que estão no programa: as mulheres sem instrução ou com fundamental incompleto tinham mais de três filhos em 2000 e têm dois hoje. Os estudos que procuraram o efeito do programa sobre a fecundidade não o acharam (Rocha, 2018; Alves e Cavenaghi, 2013). E a conta não fecha: R$ 173 por mês por criança pequena, R$ 58 depois disso. Ninguém cria um filho com R$ 6 por dia.

“Gastam com bobagem” é uma afirmação sobre consumo. A primeira grande pesquisa com beneficiários, do Ibase com o Vox Populi, em 2008, achou comida em primeiro lugar, depois roupa das crianças e material escolar. Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani passaram anos entrevistando mulheres do programa no Nordeste e descreveram planejamento de gasto: comida, roupa, material da escola e, com o tempo, uma geladeira (Rego e Pinzani, 2013).

O Banco Mundial revisou 19 estudos em dez países e não achou um em que a transferência de renda aumentasse o gasto com álcool ou cigarro (Evans e Popova, 2017). Houve, sim, um problema, e os críticos têm razão nele: as bets. O Banco Central mediu que, em agosto de 2024, beneficiários mandaram R$ 3 bilhões por Pix a casas de apostas; o TCU achou R$ 3,7 bilhões em janeiro de 2025, em um de cada cinco lares do programa.

O Estado demorou. Só bloqueou os beneficiários nas plataformas em dezembro de 2025 e só proibiu as bets em setembro deste ano. O dinheiro das apostas saiu da mesma mesa de onde saía a comida. Flávio Bolsonaro faria e fará muito pior: defendeu a continuidade e a regulamentação de apostas de quota fixa baseadas em eventos esportivos reais (futebol, vôlei, tênis). E argumentou que o veto repentino às apostas por caneta e via medida provisória fere a segurança jurídica, prejudicando empresas, clubes de futebol e patrocinadores do setor.

O que o programa faz pela saúde é o que menos se conta, e é a maior parte. Em 2013, a Lancet publicou o primeiro estudo nacional (Rasella et al., 2013): nos municípios de alta cobertura, a mortalidade de crianças com menos de cinco anos caiu 17% entre 2004 e 2009, as mortes por desnutrição caíram 65% e as por diarreia, 53%.

Em 2025, a mesma equipe publicou o balanço de vinte anos (Cavalcanti et al., 2025): entre 2004 e 2019, o programa evitou 713 mil mortes e 8,2 milhões de internações, e a mortalidade de menores de cinco anos caiu um terço onde a cobertura e o valor eram adequados. A projeção é dupla: ampliar o programa evita mais 684 mil mortes até 2030; cortá-lo por austeridade eleva a mortalidade, e o SUS paga a conta.

Na tuberculose, a doença da pobreza, a revista Nature Medicine publicou em janeiro de 2025 o acompanhamento de 54 milhões de pessoas (Jesus et al., 2025): entre os extremamente pobres, 51% menos casos e 40% menos mortes; entre indígenas, 63% e 65%. A Fiocruz da Bahia, com a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, apresentou em junho deste ano: mortalidade materna até 31% menor entre beneficiárias, por causa do pré-natal que a condicionalidade exige; menos bebês de baixo peso; taxa de suicídio 56% menor. Crianças do programa tinham 26% mais chance de altura adequada para a idade (Paes-Sousa et al., 2011).

Na escola, o programa reduziu a repetência em 11% (Oliveira e Soares, 2013) e aumentou a matrícula em cerca de 6%, com menos abandono e mais aprovação (Glewwe e Kassouf, 2012). O ganho enfraquece a partir dos 14 anos, quando o adolescente pobre começa a trabalhar. Foi para isso que veio o Pé-de-Meia, em 2024: uma poupança de até R$ 9.200 para o aluno do ensino médio público de família do Cadastro Único, que chega a 3,6 milhões de estudantes neste ano. A mãe recebe para que o filho estude. O filho recebe para que não largue a escola. Isso não é prisão. É o contrário de prisão.

O que o dinheiro devolve

Quebra o país? O Bolsa Família custa R$ 159,5 bilhões em 2026, 1,2% do PIB. Os juros da dívida pública custaram R$ 1,18 trilhão nos doze meses até agosto, 8,9% do PIB: sete vezes e meia o programa, pagos a quem tem título público. As renúncias fiscais, os impostos que o governo deixa de cobrar de setores e empresas, somam R$ 621 bilhões em 2026, quatro Bolsa Famílias. O déficit do governo antes dos juros é de 0,6% do PIB. O que faz a dívida crescer é a taxa de juros, não o programa social.

E o dinheiro não some. É gasto na hora, no comércio do bairro, em produto nacional. O Ipea calculou que cada R$ 1 do Bolsa Família aumenta o PIB em R$ 1,78, o maior multiplicador entre as transferências do governo: o BPC rende R$ 1,19, o seguro-desemprego R$ 1,06 e a previdência R$ 0,53 (Neri, Vaz e Souza, 2013). Parte volta ao Tesouro. Os 10% mais pobres pagam 23,4% do que consomem em tributos indiretos (Silveira et al., 2022); com uma carga tributária de um terço do PIB, perto de R$ 0,60 de cada real pago retornam em impostos, e o restante volta como contribuição previdenciária quando a carteira é assinada.

O resultado na pobreza o IBGE mediu em dezembro (IBGE, 2025): em 2024, a extrema pobreza caiu para 3,5% da população, 7,4 milhões de pessoas, o menor nível da série iniciada em 2012; em 2021 eram quase 19 milhões. A desigualdade, pelo índice de Gini, foi a 0,504, a menor da série; sem as transferências de renda seria 0,542. Em 2025 a ONU tirou o Brasil do Mapa da Fome pela segunda vez; a primeira foi em 2014, e o país voltou ao mapa entre 2018 e 2020. Isso é o que 1,2% do PIB compra.

Agora a parte que dá razão a quem desconfia do governo. O piso de R$ 600 ficou congelado de março de 2023 a outubro de 2026, três anos e meio, enquanto a inflação comia 15% dele. Em maio, o Planejamento ainda descartava reajuste. O programa encolheu de 21,6 milhões de famílias no fim de 2022 para 18,7 milhões no fim de 2025, em parte porque gente saiu por renda, em parte porque o orçamento de 2026 deu ao programa menos do que ele gastou em 2024.

Havia 441 mil famílias na fila em agosto, com perfil e cadastro, esperando vaga. A regra fiscal que o governo escolheu manter, e que deixa os juros fora de qualquer limite, é a mesma que deixou essas famílias na porta. O reajuste veio tarde e veio com a eleição. Quem critica o momento tem razão sobre o momento.

Do outro lado, há um histórico e uma aritmética. O histórico são os posts apagados: “bolsa-farelo”, “esmola”, “perpetua a pobreza”, a emenda de 2011 para limitar a dois anos o tempo de recebimento. A aritmética é a do plano. A campanha promete cortar R$ 190 bilhões de gastos, 1,5% do PIB, num orçamento em que nove décimos são obrigatórios.

A Folha de S. Paulo publicou em outubro os cenários que a equipe econômica estuda: aposentadorias e BPC corrigidos só pela inflação, R$ 1,1 trilhão em dez anos, e os pisos de saúde e educação substituídos por correção pela inflação, mais R$ 800 bilhões. A campanha chama as contas de “conversas informais”. Flávio diz que o Bolsa Família “será mantido”. Manter em valor nominal, sem reajuste, foi o que aconteceu entre 2023 e 2026: perda de 15%.

Não estou dizendo que o programa deles é acabar com o Bolsa Família. Estou dizendo que R$ 190 bilhões não saem de “férias de 60 dias” em Brasília, e que, num orçamento 90% obrigatório, a conta tem poucos lugares para cair. Os juros, a única linha grande o bastante para pagar tudo o que o candidato promete, não aparecem no plano.

Para o eleitor que ainda decide, a pergunta não é se o Bolsa Família vai existir. Os dois candidatos dizem que sim. A pergunta é quanto ele vai valer, quem vai entrar e o que a regra fiscal fará com ele. O programa é a política de saúde que mais salvou vidas neste século, a política de educação que mais segurou criança na escola e a porta de entrada de 4,6 milhões de pessoas no emprego com carteira desde 2023. Chamá-lo de prisão é não ter lido os dados. Chamá-lo de farelo é não ter precisado dele.

*Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.

Referências

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Dados administrativos e jornalísticos citados no texto: Ministério do Desenvolvimento Social (Caged × Cadastro Único; fila de famílias pré-habilitadas; saídas por renda), Banco Central (estatísticas fiscais de 30/9/2026; nota sobre apostas de set/2024), TCU (jan/2025), PLDO 2026 (renúncias), LOA 2026, Censo 2022 (IBGE), Jornal de Brasília (19/10/2026 e 21/7/2026), InfoMoney (11/1/2026), Poder360 (19/10/2026), O Povo/Estadão (19/10/2026), Metrópoles (19/10/2026), ICL Notícias (19/10/2026), Gazeta do Povo (3/8/2026), Folha de S. Paulo (7–8/10/2026).


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