Pages

Por que me alistei no Exército do Lula

Do A Terra É Redonda, 24 de outubro 2026
Por GABRIEL SANTOS ELIAS*


Entre objeções e a constatação de que a política se faz sob circunstâncias herdadas, a entrada no canal é necessária como lição de ação coletiva: a pergunta decisiva não é quem lidera a mobilização, mas se ela existirá a tempo de evitar a derrota

Entrei no canal “Exército do Lula”. Tinha motivos de sobra para ficar de fora, e começo por eles, porque continuam valendo. O primeiro é a linguagem. Exército, soldados, missões, tropa. A metáfora militar empobrece a política: transforma o adversário em inimigo e o apoiador em alguém que cumpre ordens. A esquerda passou anos criticando, com razão, a estética de caserna do bolsonarismo. Adotá-la, ainda que com o sinal trocado, tem custo.

O segundo é quem comanda. André Janones criou o canal em abril e o transformou em central de mobilização depois do primeiro turno. Faz política pelo confronto permanente, e sobre ele pairam denúncias que nunca ficaram bem esclarecidas, de suspeitas de rachadinha a uma medida protetiva pedida pela ex-mulher. Não cabe a mim julgá-las aqui. Também não consigo ignorá-las.

Esses motivos bastariam para não aderir e, mais do que isso, para rejeitar uma mobilização com esse nome. Mudei de ideia num sábado de manhã.

A missão de sábado

No dia 17 de outubro, às 9h, André Janones pediu aos seguidores do canal que publicassem fotos de verde e amarelo fazendo o L. Não precisavam citar o canal nem ele. O objetivo declarado era alcançar quem defende a democracia, mas não se identifica com a esquerda, e disputar os símbolos nacionais que o bolsonarismo tomou para si desde 2018. O próprio André Janones avisou que a ação seria “a consagração ou a ridicularização do Exército do Lula”.

Não houve ridicularização. Minhas redes se encheram de camisas da seleção e dedos em L, postadas por gente que eu nunca tinha visto falar de política. O próprio Lula publicou a sua. Ninguém divulgou uma contagem consolidada, e não vou inventar uma: foram milhares de fotos, talvez milhões. No mesmo dia, o canal passou de cinco milhões de seguidores. Até o primeiro turno, tinha cerca de 50 mil. Nesta sexta-feira passou de 10 milhões antes do debate na TV Globo.

Foi aí que vi o potencial eleitoral da coisa. E vi porque conheço o que a ciência política já sabe sobre como a direita brasileira usa as redes.

Aprendendo com o que a direita sabe fazer

Em 2018, Victor Piaia e Marcelo Alves analisaram 194.710 mensagens trocadas em 21 grupos bolsonaristas de WhatsApp entre setembro e novembro. Cem usuários produziram 41% de tudo. Não era conversa espontânea de eleitores. Era um núcleo pequeno e organizado abastecendo uma rede grande. Rafael Evangelista e Fernanda Bruno, estudando a mesma eleição, encontraram sinais de gestão centralizada desses grupos e não acharam estrutura parecida do lado da esquerda.

A vantagem pesa mais na reta final. Na véspera do primeiro turno de 2022, o agregador de pesquisas do Estadão dava a Lula 14 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro. Nas urnas, a diferença ficou em cerca de cinco. Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes, em artigo publicado na revista Opinião Pública em 2024, mostraram que essa distância não se explica só por erro das pesquisas: houve voto mudando nos últimos dias.

Os grupos que mais migraram para Jair Bolsonaro no fim da campanha foram os evangélicos e os eleitores que se informam pela internet. A virada de última hora não cai do céu. Ela é produzida por uma máquina que continua de pé quando os outros já guardaram as bandeiras.

Este ano, a desvantagem ganhou mais uma camada. Mensagens internas da Meta, reveladas pelo jornal Folha de S. Paulo, mostram que a conta de Lula passou quase 24 horas sem conseguir impulsionar publicações no Instagram em 9 de outubro, e que a busca por “Exército do Lula” no WhatsApp sugeria o canal “Tropa do Flávio”. A empresa atribui os episódios a falhas técnicas e nega viés. Seja qual for a explicação, o efeito é o mesmo: a campanha que depende do algoritmo e do impulsionamento pago fica nas mãos de quem controla os dois.

Seria desonesto dizer que quase 10 milhões de pessoas num canal de WhatsApp vão convencer eleitores de Flávio Bolsonaro a mudar de voto. A literatura não sustenta isso. Joshua Kalla e David Broockman reuniram 49 experimentos de campo nos Estados Unidos e concluíram que o efeito médio do contato de campanha sobre a escolha de voto, numa eleição geral, é zero.

No Brasil, em 2022, Tiago Ventura e colegas da Universidade de Nova York reduziram a exposição de um grupo de usuários a imagens, vídeos e áudios no WhatsApp nas semanas anteriores à eleição. Eles passaram a lembrar de menos boatos, mas as crenças políticas deles não mudaram.

O efeito está em outro lugar. Num experimento com 61 milhões de usuários do Facebook durante a eleição legislativa americana de 2010, Robert Bond e colegas mostraram que a mensagem “eu votei” só aumentou o comparecimento quando vinha acompanhada do rosto de amigos que já tinham votado. E o contágio passou quase todo por amigos próximos. Rede social mobiliza quando passa por gente que a pessoa conhece.

É isso que o Exército do Lula faz. O canal não fala com o eleitor. Ele transforma milhões de pessoas em quem fala com o eleitor: no grupo da família, no trabalho, na foto publicada no instagram. Desde 2024, o TSE proíbe as plataformas de recomendar perfis oficiais de candidatos sem impulsionamento pago, mas o compartilhamento feito por apoiadores segue livre. Quando o algoritmo trava, sobra a tia que manda o vídeo para os primos.

Num segundo turno em que o Datafolha divulgado na quinta-feira (22) mostra Lula e Flávio Bolsonaro empatados com 50% dos votos válidos, levar mais gente às urnas e ganhar quem decide na última semana pode ser a eleição inteira.

Há limite. O canal está no WhatsApp, que pertence à mesma Meta. Já foi suspenso por ordem do presidente do TSE e restabelecido no mesmo dia. A dependência das plataformas não acabou. Mudou para um lugar menos dependente do algoritmo.

A urgência e a ação coletiva

Sei que não teria entrado no canal em outro contexto. Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula. A partir de 2027, o PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e do Senado, com 28 senadores. Em tempos normais, a decisão de aderir a uma mobilização como essa ficaria soterrada sob as objeções que listei no começo. Discutiríamos o nome, o líder, a estética, e a discussão seria legítima. Não estamos em tempos normais.

Não é justificativa de ocasião. É assim que a ação coletiva funciona. Nenhuma mobilização relevante neste país reuniu gente que concordava em tudo. As Diretas Já puseram Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Franco Montoro e Lula no mesmo palanque. Em 2022, a frente que derrotou Jair Bolsonaro levou Geraldo Alckmin à vice-presidência. Agir junto pressupõe abrir mão de parte das diferenças em nome do que se constrói em comum. Quem espera uma mobilização sem divergência interna vai esperar sozinho.

Isso não significa engolir as críticas. Alistar-me, aqui, é decidir que até domingo elas ficam em segundo plano.

No fim da live de quinta-feira com André Janones, Lula disse que a participação popular na campanha “vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar esse país”. E completou: “A política não é feita só por quem está no governo.”

Se ele vencer no domingo, essa frase vai precisar sair da live e entrar no governo. Em três mandatos, Lula apostou na conciliação com setores que lhe são antagônicos, no Congresso e nas instituições, e essa conciliação ficou cada vez mais cara e menos possível. Um Congresso em que o PL tem 121 deputados não será conquistado com cargo e emenda. A alternativa é trazer a sociedade para dentro das engrenagens do poder, com participação que tenha consequência sobre as decisões, e não apenas consulta.

O aprendizado vale também para a sociedade civil e os movimentos organizados, incluindo o campo em que eu atuo. Nós também sabemos multiplicar objeções. Uma mobilização com peso de verdade vai exigir de nós o que este segundo turno exigiu de mim: deixar algumas diferenças de lado para construir junto.

Entrei no Exército do Lula sem gostar do nome, sem confiar em quem o comanda e sem abrir mão de nada do que penso sobre os dois. Entrei porque, a dois dias da eleição, a pergunta que importa não é quem lidera a mobilização. É se ela vai existir.

No livro 18 de Brumário, Karl Marx escreveu que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. A mobilização que temos para domingo é esta. Não é a que eu teria escolhido. É a que pode virar a eleição.

*Gabriel Santos Elias é doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).


Nenhum comentário:

Postar um comentário