De OutrasPalavras, 9 de outubro 2026
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| Foto: Jon Hicks/Getty Images |
Como sugere a experiência, pequeno vai ser o resultado de ajuste frágil ou acomodação eufemística à ordem existente que ainda compõe a maior parte do que se passa pela cultura “atualizada” da esquerda. Pelo contrário, o que é necessário, e não será conquistado da noite para o dia, é um espírito completamente diferente – uma análise cáustica, irredutível, e até brutal do mundo tal como é, sem concessão às alegações arrogantes da direita, aos mitos conformistas do centro ou mesmo às tolices bem-pensantes de grande parte da esquerda. Ideias que não sejam capazes de chocar o mundo não serão capazes de sacudi-lo.
Perry Anderson, “Ideias e Ação Política na Mudança Histórica”
O lendário editor da New Left Review, o historiador e ensaísta marxista inglês Perry Anderson, sugeriu no artigo Ideias e Ação Política na Mudança Histórica que “ideias que não sejam capazes de chocar o mundo não serão capazes de sacudi-lo”. A frase terminava a análise feita por ele acerca da afluência difusa de um conjunto de concepções, valores e princípios que sem premeditação antecipada e racional tiveram peso “no equilíbrio da ação política e no resultado da mudança social”. Sem esperança de exercerem ascendência imediata, pois, “Iluminismo, Marxismo e Neoliberalismo” forjaram seus respectivos sistemas de pensamento isolados da ambiência política e em “tensão com ele”, foram fatores assimétricos de desestabilização da ordem reinante até então: 1) na direção favorável da Revolução Francesa e Americana no século XVIII, 2) no arco que se inicia com a Revolução Mexicana em 1911 passando pela insurreição Bolchevique na Rússia em 1917 e a rebelião espartaquista na Alemanha em 1918 e 3) no conjunto de crenças e padrões culturais que governa o mundo desde 1980, o neoliberalismo. Assim, “os recursos intelectuais gradualmente acumulados às margens [de] condições [propícias] […] adquiriram uma força irresistível como ideologias mobilizadoras [de quando] estourou uma grande crise objetiva”. Ora, no pós-Queda do Muro de Berlim, acompanhada da contrarrevolução neoliberal, “mais do que” uma derrota concreta e material – essas aconteceram; que não se tenha qualquer dúvida a respeito – a esquerda em geral e, sobretudo, a radical, revolucionária e marxista, sofreu (e vem sofrendo) derrotas após derrotas na disputa das ideias. Na introdução ao conjunto de ensaios que compõem o seu Espectros: direita e esquerda no mundo das ideias, Anderson propõe para a esquerda aceitar, ainda que seja impertinente, sua profunda aniquilação histórica no final do século XX – pois só reconhecendo tal fato e as ideias daqueles que impuseram o revés poderíamos reconstruir uma alternativa política para a maioria que sofre com as barbáries da sociedade capitalista contemporânea. A batalha do pensamento, e ao menos o equilíbrio entre a direita e a esquerda (e porquê não sonhar com a hegemonia…), será crucial para a esquerda radical no enfrentamento concreto às forças da direita intransigente e do social-liberalismo. O diálogo fictício a seguir tem essa intenção: uma insurreição das ideias de esquerda (Cedric Robinson) contra as forças ideológicas da ordem (Leo Strauss).
*
– Cedric Robinson – Li com a devida atenção seu formidável The City and Man. Já havia lido outros scholars em Platão. Após a clássica obra Teoria Política Grega, de sir Ernest Barker, concentrada nos diálogos platônicos as pesquisas avançaram bastante na compreensão do principal discípulo de Sócrates, mas o trabalho do senhor é distintivo.
– Leo Strauss – Fico lisonjeado que um intelectual de sua estatura na cultura crítica de esquerda estadunidense tenha reservado tempo nos seus compromissos acadêmicos e intervenções públicas para ler minhas reflexões platonistas.
– Cedric Robinson – Confesso que é um dos melhores, senão o melhor comentário que li até o momento sobre a República. Evidentemente, o senhor deve presumir, que malgrado o respeito que lhe tenho, assim como o refinamento e alcance da interpretação, divergimos profundamente…
– Leo Strauss – De fato; minha hermenêutica apresenta uma leitura tal como o Platão, assim entendo eu, gostaria de ser lido e entendido. Demonstrando as intenções ocultas ao escrever sobre a Politeia, para dizer outra tradução possível do livro.
– Cedric Robinson – Mas não se trata de como ele, eventualmente, queria ser lido…
– Leo Strauss – Não entendi… por um acaso o Platão desejava ser estudado de outra maneira se não de acordo com suas intenções, mesmo seus diálogos tendo incontáveis brechas de leitura…
– Cedric Robinson – O fundamental é que o texto, mesmo que sinuoso, da República só pode ser entendido de uma forma.
– Leo Strauss – Eu suponho que você tenha abordado Platão e meu estudo a partir dos pressupostos do marxismo.
– Cedric Robinson – Sim! Está correto. Mas também da perspectiva de um intelectual negro vivendo nos Estados Unidos racista, um racismo segregado é preciso lembrar…
– Leo Strauss – Acredita, mesmo com suas fidelidades sendo louváveis, apesar de não concordar com elas, por óbvio, que a teoria marxista é a mais adequada para investigar meu trabalho sobre Platão?
– Cedric Robinson – Não há para quem lê os fenômenos da existência a partir da luta de classes melhor pensamento que o marxista, ainda que sejam fenômenos na dimensão das ideias… Faço-lhe, sr. Strauss, pergunta semelhante. Nietzsche é a melhor estrela-guia até os diálogos platônicos?
– Leo Strauss – A diferença é que o projeto filosófico de Nietzsche era recuperar o pensamento antigo, em particular a noção de lei natural em Platão. Daí que, ele sim, seja minha estrela-guia…
– Cedric Robinson – Esse é ponto precípuo de nossa divergência. Repudio veementemente a lei natural platônica!
– Leo Strauss – Mas trata-se de todo o fundamento da civilização ocidental, mas que a era moderna, em particular Maquiavel, Rousseau, Hegel, Marx e os teóricos da dialética jamais entenderam.
– Cedric Robinson – Eles não só entenderam, como construíram obras a contrapelo do platonismo…
– Leo Strauss – O pensamento moderno se equivoca por jamais ter meditado com seriedade acerca de quais as condições mais adequadas de organização da Cidade com vistas à excelência… algo que os pensadores políticos gregos, Platão em especial, se dedicaram ao longo de toda a vida…
– Cedric Robinson – Era esperado que eles, e como o senhor afirma, em especial Platão, o tivessem feito, contemplado antes a excelência humana, do que a democracia; a angústia deles em ver a decadência da aristocracia ateniense os conduziu para a conformação das suas filosofias políticas…
– Leo Strauss – Antes é preciso ter no horizonte que Sócrates-Platão estão conversando com a cidade de Atenas…
– Cedric Robinson – Com a classe governante de Atenas… o senhor mesmo reconhece que Platão “não fala para os sapateiros…”
– Leo Strauss – Ele fala sobre sapateiros…
– Cedric Robinson – Não muda a questão substantiva em nada. O próprio estilo deliberado da oralidade que forma a cultura grega, “oração [oration], recitação e retórica”, e que Platão foi seu principal expoente na filosofia política, exige as formas de vida da aristocracia, aristocracia virtuosa nos seus termos…
– Leo Strauss – Mas você deve reconhecer que a preocupação de Platão era e é legítima. A definição de justiça; e a partir dela a organização da cidade.
– Cedric Robinson – É certo que a organização da cidade sempre foi um topos na filosofia política e na teoria política.
– Leo Strauss – Nisso concordamos…
– Cedric Robinson – De maneira nenhuma… na medida em que Platão, pressupôs não a organização da cidade enquanto tal, mas as possibilidades de organização da cidade natural, ou seja, justa de acordo à natureza com vistas à excelência humana. E o senhor mesmo afirma de maneira decisionista que “justiça não é beneficência”.
– Leo Strauss – O que tenta fazer é interpretar hermeneuticamente a discussão entre Sócrates e Trasímaco no âmbito do texto mesmo da República. Essa talvez é a argumentação interna mais importante do diálogo, e que os leitores eruditos de Platão não percebem… é neste ponto que Sócrates-Platão e eu inicia a conceituação do que entendemos por justiça.
– Cedric Robinson – Neste aspecto consentimos; bem entendido, nas circunstâncias textuais do diálogo, e suas implicações. Entretanto, demonstra as fidelidades teóricas e políticas do senhor. Me permita ser irredutível e não lhe fazer concessões, demonstra que o senhor é um pensador de direita. Mesmo sendo insuperável no comentário aos cânones…
– Leo Strauss – Agradeço o elogia e o reconhecimento. Mas deixe me expor meus argumentos considerações com maior vagar se possível. Meu pensamento está e sempre esteve ancorado na premissa de que a cidade não suportaria a verdade das coisas. Que a vida humana obedece, e se não faz, deveria obedecer, aos arranjos da justiça. Uma boa maneira de viver, portanto, é organizar uma comunidade alicerçada na justiça. Ou seja, ela tem de ser “a lei da cidade”. Contudo, a justiça enquanto tal, estabelece que cada ser humano dever praticar a “arte” que lhe dispõe a natureza – e isso independente das convenções dos homens em ação. De modo que, assim como Platão, eu considero que o fundamento de uma “boa cidade de iniciar pelo fato de que os homens são de natureza diferente” o que significa dizer que eles são por natureza desiguais hierarquicamente. Ora, marxistas não aceitam essa verdade irrefutável, daí os transtornos que os regimes comunistas se lançaram no século por vislumbrar mudar a natureza…
– Cedric Robinson – Na verdade a ideia de mudar a natureza humana começa, de certo modo com Rousseau, no Contrato Social…
– Leo Strauss – Que seja… mas a teoria desenvolvida é de Marx. Pela qual o homem (e a mulher) pode de dia fazer sexo; à tarde cultivar; pela noite ler poesia; e na madrugada a dentro rememorar seu passado com os seus. Platão se opôs a essa ingenuidade. Sua inclemência chegou a dizer que a desigualdade natural – “que é devido à natureza” – “aumenta e aprofunda” com a educação e não o contrário. A cidade deveria ser erguida sobre a justiça de acordo à natureza desigual (e imutável) entre os homens…
– Cedric Robinson – Permita-me teorizar, de meu ponto de vista sobre a cidade justa (e natural…) de Platão, sua e dos seus seguidores na política estadunidense hoje…
– Leo Strauss – Não tenho e nunca tive seguidores… fui um scholarship por mais de uma década em Chicago alcançando o posto de Robert Maynard Hutchins Distinguished Service Emeritus Professor of Political Science… passando depois pelo Claremont McKenna College (a convite de meu amigo Jacob Klein) na Califórnia e pelo St. John’s College em Annapolis, onde fui Scott Buchanan Distinguished Scholar in Residence…
– Cedric Robinson – Quanto a isso aconselho ao senhor conversar e discutir com aqueles que sustentam falar a partir de suas posições teóricas; pessoas importantes na cultura e na política estadunidense como Allan Bloom, a família Kristol, Paul Wolfowitz, o velho William Buckley (que “tanto” polemizou com James Baldwin e este com ele) e outros que se dizem adeptos de sua filosofia política orientada pelo platonismo…
– Leo Strauss – Insisto, é um erro entender minha obra como conselhos para príncipes.
– Cedric Robinson – Todo conservador se posiciona como o senhor. Inclusive desse Platão, mobilizando aqui certo anacronismo. A posição dele diante dos sofistas revela esse cinismo. Deixe-me retomar minhas considerações, que são, radicalmente contrarias às suas. A ordem natural de Platão foi construída em rivalidade à desordem das convenções; mas, precisamente, a desordem das convenções era na verdade as formas de vivência na democracia. Daí que a lógica imanente da República, implica em que a ordem natural ou a lei natural seja a condição mesma para que, hierarquicamente, a cidade fosse organizada pela minoria; pela aristocracia guerreira (natural) virtuosa. E Platão (Sócrates) sabia disso, como o senhor também sabe. E aqui é preciso dizer: o velho “Platão era de família aristocrática (seu tio, por exemplo, Carmides, pertenceu ao governo oligárquico dos trinta tiranos). E ele estava consciência que escrevia para (alertar) sua “audiência aristocrática”, acerco dos perigos das convenções democráticas, e da ira, das paixões do povo ateniense. Nesse aspecto, é bem verdade que não foi apenas Platão um obstinado opositor da democracia; o historiador marxista Perry Anderson, com quem concordo (malgrado suas ambiguidades organizativas como figura principal da New Left Review depois que ele substituiu o gigante Stuart Hall… o primeiro lendário editor da revista nos anos 1950-1960), tem razão ao afirmar, no Passagens da Antiguidade ao Feudalismo, que: em Atenas jamais se produziu uma teoria política da democracia, Tucídides, Sócrates, Aristóteles, Isócrates e Xenofonte foram pensadores que condenaram a democracia. Eram oligarcas por convicção. E mais…
– Leo Strauss – É uma hermenêutica possível a sua. Discordo dela, frontalmente. Nossos problemas, hoje, resultam da incompreensão da filosofia política antiga. Continuo concordando com Nietzsche e Heidegger sobre o descarrilamento da modernidade, que terminou em catástrofes irreparáveis…
– Cedric Robinson – É que as catástrofes só se tornaram catástrofes quando chegaram na Europa, como bem observou “meu colega” Aimé Césaire no ensaio Discurso sobre o Colonialismo, quando os problemas estavam no “Terceiro Mundo”, não eram problemas, mas expressão luminosa da civilização branca ocidental…
– Leo Strauss – Um ponto tem de ser observado. A utopia da linguagem em Platão… Aqui sua conversação com Trasímaco revela a moderação da República no que concerne a organização da cidade. É bem verdade, e não preciso usar de artifícios outros para um erudito marxista-negro como você, que há desdobramentos que são inevitáveis quando Platão articula as condições da vida (pública) de acordo a justiça tal como Trasímaco entendia a justiça – “justiça é a vantagem do mais forte” –, e Sócrates concordava com ele (Platão afirma que Sócrates se torna amigo de Trasímaco…, depois de domá-lo…), a utopia da linguagem, a posição dos filósofos-guardiões, ou simplesmente os guardiões da cidade, e a mentira nobre (noble lie)…
– Cedric Robinson – Eu intuo que neste ponto nossas divergências serão irreconciliáveis, e até explosivas…
– Leo Strauss – Platão sabia que a organização da cidade justa, baseada na justiça, que para ele tem de estar de acordo à natureza – o que ia de encontro, também, às considerações de Trasímaco, de que a natureza do mais forte deve predominar sobre a natureza do mais fraco, isso é justiça – ao qual estabelecia que “[cada] ser humano deve praticar a arte para a qual ele ou ela [é] adequado, independente de qual costume ou convenção possa ser instituído”, o que implicava um regime de castas, da aristocracia virtuosa (dos políticos, dos filósofos, dos guerreiros), de modo a viver os padrões mais elevados da excelência humana, não seriam aceitos na cidade. O povo, jamais consentiriam, que sua condição miserável de existência era algo natural e imutável. Que sapateiros nasceram para serem sapateiros, que cuidadores de rebanho nasceram para serem cuidadores de rebanho, que cozinheiros nasceram para serem cozinheiros; e que os sábios nasceram para serem sábios, homens ricos nasceram para serem homens ricos e gozarem a boa vida (a situação erótica, contemplativa) etc. Além disso, Cedric Robinson, e nisso talvez possamos estar em concordância, o povo (a democracia), tende a ser, e é…, licenciosa, intemperada, e nos coloca em risco como pensadores não partícipes da políticos. A cidade passaria por convulsões, revoluções e até insurreições violentas se ouvissem “teóricos políticos” em conversações públicas, que os miseráveis serão por natureza sempre miseráveis: o conflito entre o filósofo e a cidade está posto aqui. Daí que Platão (Sócrates) sugerisse dois recursos, resguardado por um terceiro e um quarto…
– Cedric Robinson – Antes de apresentar a continuidade da defesa que você faz do platonismo e a lei natural que funda o sistema dele (e o seu…); já lhe adianto que são justamente “revoluções e insurreições” que meu trabalho e, portanto, minha leitura da República implica…
– Leo Strauss – Já em Direito Natural e História eu afirmei na esteira de Platão que o desejável e o mais elevado nem sempre é possível de ser alcançado, a nossa situação de “gravidade [moderna] da necessidade do direito natural não prova que essa necessidade possa ser satisfeita”. O uso da mentira nobre que fiz alusão e a formação dos guerreiros guardiões da cidade; além disso, Platão também sugeriu a religião e o governo misto. Sócrates, mesmo concordando com Trasímaco, repudiou com veemência a posição trasimaqueana de fúria, de sinceridade pública e de irritação declarada com a injustiça. A cidade não pode ser governada com cuidado, harmonia, equilíbrio e com caráter estável sem a mentira nobre, sem a falsehood. E de dois tipos. Que seja incutido nele a consideração que todos são filhos da mesma terra, “irmãos”, o elemento da “fraternidade”. O direito natural, a hierarquia imutável (justiça de a cada um só poder fazer o que está de acordo à natureza), deve ser estudada e discutida apenas pelos iniciados na filosofia e na contemplação. (O povo, novamente, não aceitaria isso, mesmo sendo uma verdade divina, do cosmos.) E, circunstancialmente, o motivo último da desigualdade e do sofrimento; que essas são “traçadas por Deus”, na medida em que se Deus é a causa de todas as coisas, ele é também a causa da desigualdade, do sofrimento e do infortúnio. Deve-se obedecer ao senhor transcendente.
– Cedric Robinson – É uma filosofia política terrível, reacionária. Sobretudo, para um homem negro que lutou e luta contra a ideia que negros são naturalmente inferiores a brancos: a justificativa, a legitimação do racismo. Senhor Strauss, dizendo de outra forma, e diretamente, a base constitutiva do racismo é a lei natural, que é também um dos pilares de fundação da civilização ocidental branco histórica e burguesa. E que a direita defende intransigentemente como o senhor o faz neste diálogo…
– Leo Strauss – Deixe-me terminar. Mas Platão quis resguarda a cidade e a vida contemplativa caso a noble lie não fosse eficiente. Na hermenêutica última da República, Sócrates não se opõe totalmente à tese de Trasímaco; eles se tornam amigos no fim do diálogo. Sócrates, entretanto, não quer a rudeza, a desabrida violência trasimaquea. Esse é um ponto sensível da filosofia política platônica e que eu considero decisivo…
– Cedric Robinson – A questão da proteção efetiva da cidade, e sob quais meios ela vai se dar. Estou intuindo, mas conclua…
– Leo Strauss – Platão sabia que um desejo não é um fato. Ele só prova que estamos certos, mas levado às últimas consequências a cidade pode se tornar ingovernável. Daí a elite dos guerreiros, “a arte de guardar” a cidade, os cidadãos e os filósofos, emergir na organização concreta da Politeia, para usarmos uma das traduções possíveis. Sócrates estava consciente que a cidade exigiria a ação prática dos guerreiros, pois eles “são a única classe inteiramente dedica à política e às questões públicas”. A posição da violência é algo que atravessa a história do ocidente desde os dias em que a bela totalidade, como dizia Hegel, surgiu no horizonte da humanidade…
– Cedric Robinson – Há um monólogo da violência… nesta reflexão do senhor. Respeito essa formulação, visto ser a de um conservador convicto. Minha leitura, entretanto, de Platão, e, portanto, minha teorização e condição intelectual é do ponto de vista dos de baixo em um país que nasceu sob o signo da escravidão negra. Por princípio eu defende, em contraposição irremediável à filosofia política de Platão e sua (que também podemos estender para seu colega do Instituto Hoover da Universidade de Stanford, o cientista político Eric Voegelin), a desordem democrática. É nos muitos que está a solução dos problemas de exploração, opressão e sofrimento. Não poderia ser de outro modo; a lei natural platônica é a expressão bruta de “uma ordem social, de uma sociedade, escravista”. Senhor Strauss, sua hermenêutica é belíssima, mas eu preciso dizer com a intransigência de um intelectual negro de esquerda – “a Atenas clássica [aquela de Sócrates e Platão], como outras das principais cidades-estados da Grécia, eram sociedades [fortemente] escravagistas […] o trabalho escravo era explorado na agricultura, indústria, comércio, serviço doméstico, administração pública e privada, entretenimento e [pequenos] serviços estatais”. Toda a sociedade grega, sobretudo a ateniense, em todos os seus espaços de existência, em todos os grupos sociais, era construída a partir e sobre a escravidão. E essa estrutura de sentimentos desdobrou-se no decurso histórico-político por toda a civilização branca-burguesa ocidental; infelizmente. O caso de nossa constituição é o mais marcante…
– Leo Strauss – Especificamente, o documento fundacional é um texto moral-normativo que estabelece hierarquia de valores sobre o que é bom e o que não é bom…
– Cedric Robinson – Discordo justamente por isso. Jefferson por exemplo, mesmo crítico de Platão em pontos peculiares da sua obra, na questão da escravidão que a teoria política platônica sustenta ele nunca se posicionou. Teoricamente, a construção da ideia de que há uma ordem natural imutável e hierárquica, e de que indivíduos estão de acorda a essa ordem, implica (do ponto de vista imanente…) que é necessário, uma exigência, constituir uma comunidade político-social entre iguais, sendo iguais aqueles que possuem a liberdade natural, e iguais aqueles que são por natureza escravos. No caso dos Estados Unidos, os negros. Daí a noção segregacionista de iguais, mas diferentes, no arranjo social estadunidense. E de sermos não uma democracia, mas uma aristocracia eleita. “Platão sobrevive” aqui, na América, e no mundo, tragicamente. O eco da reflexão do autor de Apologia de Sócrates e Críton, através de sua releitura senhor Strauss, está presente hoje na figura misteriosa do Peter Thiel… e a ideia de civilização que ele defende no âmbito do governo Trump.
– Leo Strauss – Insisto que fui um mero professor de ciência política… e sempre me posicionei, como outros conservadores, contra comportamentos de intervenção intelectual, conselheiro de Príncipes ao estilo de Maquiavel e Marx…
– Cedric Robinson – Isso exigiria outra conversa, sobre o que é ser intelectual, mas eu ainda estou orientado pela tradição Sartre-Fanon, James Baldwin; de que homens e mulheres de letras (na tradição francesa do século XVIII) só o são se falarem pelos de baixo. E como Fanon, acredito que a ordem social e política platônica derivada na história, a civilização branco-burguesa, do capital, será necessariamente superada, pela sua derrubada revolucionário-violenta… pelo devir operário-negro do mundo…
– Leo Strauss – É bom saber com que dialogamos e enfrentamos… ainda mais sendo um erudito negro radical… até o próximo encontro…
– Cedric Robinson – Até lá senhor Strauss… e por favor mande-me o seu The Argument and the Action of Plato’s Laws.
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O lendário editor da New Left Review, o historiador e ensaísta marxista inglês Perry Anderson, sugeriu no artigo Ideias e Ação Política na Mudança Histórica que “ideias que não sejam capazes de chocar o mundo não serão capazes de sacudi-lo”. A frase terminava a análise feita por ele acerca da afluência difusa de um conjunto de concepções, valores e princípios que sem premeditação antecipada e racional tiveram peso “no equilíbrio da ação política e no resultado da mudança social”. Sem esperança de exercerem ascendência imediata, pois, “Iluminismo, Marxismo e Neoliberalismo” forjaram seus respectivos sistemas de pensamento isolados da ambiência política e em “tensão com ele”, foram fatores assimétricos de desestabilização da ordem reinante até então: 1) na direção favorável da Revolução Francesa e Americana no século XVIII, 2) no arco que se inicia com a Revolução Mexicana em 1911 passando pela insurreição Bolchevique na Rússia em 1917 e a rebelião espartaquista na Alemanha em 1918 e 3) no conjunto de crenças e padrões culturais que governa o mundo desde 1980, o neoliberalismo. Assim, “os recursos intelectuais gradualmente acumulados às margens [de] condições [propícias] […] adquiriram uma força irresistível como ideologias mobilizadoras [de quando] estourou uma grande crise objetiva”. Ora, no pós-Queda do Muro de Berlim, acompanhada da contrarrevolução neoliberal, “mais do que” uma derrota concreta e material – essas aconteceram; que não se tenha qualquer dúvida a respeito – a esquerda em geral e, sobretudo, a radical, revolucionária e marxista, sofreu (e vem sofrendo) derrotas após derrotas na disputa das ideias. Na introdução ao conjunto de ensaios que compõem o seu Espectros: direita e esquerda no mundo das ideias, Anderson propõe para a esquerda aceitar, ainda que seja impertinente, sua profunda aniquilação histórica no final do século XX – pois só reconhecendo tal fato e as ideias daqueles que impuseram o revés poderíamos reconstruir uma alternativa política para a maioria que sofre com as barbáries da sociedade capitalista contemporânea. A batalha do pensamento, e ao menos o equilíbrio entre a direita e a esquerda (e porquê não sonhar com a hegemonia…), será crucial para a esquerda radical no enfrentamento concreto às forças da direita intransigente e do social-liberalismo. O diálogo fictício a seguir tem essa intenção: uma insurreição das ideias de esquerda (Cedric Robinson) contra as forças ideológicas da ordem (Leo Strauss).
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– Cedric Robinson – Li com a devida atenção seu formidável The City and Man. Já havia lido outros scholars em Platão. Após a clássica obra Teoria Política Grega, de sir Ernest Barker, concentrada nos diálogos platônicos as pesquisas avançaram bastante na compreensão do principal discípulo de Sócrates, mas o trabalho do senhor é distintivo.
– Leo Strauss – Fico lisonjeado que um intelectual de sua estatura na cultura crítica de esquerda estadunidense tenha reservado tempo nos seus compromissos acadêmicos e intervenções públicas para ler minhas reflexões platonistas.
– Cedric Robinson – Confesso que é um dos melhores, senão o melhor comentário que li até o momento sobre a República. Evidentemente, o senhor deve presumir, que malgrado o respeito que lhe tenho, assim como o refinamento e alcance da interpretação, divergimos profundamente…
– Leo Strauss – De fato; minha hermenêutica apresenta uma leitura tal como o Platão, assim entendo eu, gostaria de ser lido e entendido. Demonstrando as intenções ocultas ao escrever sobre a Politeia, para dizer outra tradução possível do livro.
– Cedric Robinson – Mas não se trata de como ele, eventualmente, queria ser lido…
– Leo Strauss – Não entendi… por um acaso o Platão desejava ser estudado de outra maneira se não de acordo com suas intenções, mesmo seus diálogos tendo incontáveis brechas de leitura…
– Cedric Robinson – O fundamental é que o texto, mesmo que sinuoso, da República só pode ser entendido de uma forma.
– Leo Strauss – Eu suponho que você tenha abordado Platão e meu estudo a partir dos pressupostos do marxismo.
– Cedric Robinson – Sim! Está correto. Mas também da perspectiva de um intelectual negro vivendo nos Estados Unidos racista, um racismo segregado é preciso lembrar…
– Leo Strauss – Acredita, mesmo com suas fidelidades sendo louváveis, apesar de não concordar com elas, por óbvio, que a teoria marxista é a mais adequada para investigar meu trabalho sobre Platão?
– Cedric Robinson – Não há para quem lê os fenômenos da existência a partir da luta de classes melhor pensamento que o marxista, ainda que sejam fenômenos na dimensão das ideias… Faço-lhe, sr. Strauss, pergunta semelhante. Nietzsche é a melhor estrela-guia até os diálogos platônicos?
– Leo Strauss – A diferença é que o projeto filosófico de Nietzsche era recuperar o pensamento antigo, em particular a noção de lei natural em Platão. Daí que, ele sim, seja minha estrela-guia…
– Cedric Robinson – Esse é ponto precípuo de nossa divergência. Repudio veementemente a lei natural platônica!
– Leo Strauss – Mas trata-se de todo o fundamento da civilização ocidental, mas que a era moderna, em particular Maquiavel, Rousseau, Hegel, Marx e os teóricos da dialética jamais entenderam.
– Cedric Robinson – Eles não só entenderam, como construíram obras a contrapelo do platonismo…
– Leo Strauss – O pensamento moderno se equivoca por jamais ter meditado com seriedade acerca de quais as condições mais adequadas de organização da Cidade com vistas à excelência… algo que os pensadores políticos gregos, Platão em especial, se dedicaram ao longo de toda a vida…
– Cedric Robinson – Era esperado que eles, e como o senhor afirma, em especial Platão, o tivessem feito, contemplado antes a excelência humana, do que a democracia; a angústia deles em ver a decadência da aristocracia ateniense os conduziu para a conformação das suas filosofias políticas…
– Leo Strauss – Antes é preciso ter no horizonte que Sócrates-Platão estão conversando com a cidade de Atenas…
– Cedric Robinson – Com a classe governante de Atenas… o senhor mesmo reconhece que Platão “não fala para os sapateiros…”
– Leo Strauss – Ele fala sobre sapateiros…
– Cedric Robinson – Não muda a questão substantiva em nada. O próprio estilo deliberado da oralidade que forma a cultura grega, “oração [oration], recitação e retórica”, e que Platão foi seu principal expoente na filosofia política, exige as formas de vida da aristocracia, aristocracia virtuosa nos seus termos…
– Leo Strauss – Mas você deve reconhecer que a preocupação de Platão era e é legítima. A definição de justiça; e a partir dela a organização da cidade.
– Cedric Robinson – É certo que a organização da cidade sempre foi um topos na filosofia política e na teoria política.
– Leo Strauss – Nisso concordamos…
– Cedric Robinson – De maneira nenhuma… na medida em que Platão, pressupôs não a organização da cidade enquanto tal, mas as possibilidades de organização da cidade natural, ou seja, justa de acordo à natureza com vistas à excelência humana. E o senhor mesmo afirma de maneira decisionista que “justiça não é beneficência”.
– Leo Strauss – O que tenta fazer é interpretar hermeneuticamente a discussão entre Sócrates e Trasímaco no âmbito do texto mesmo da República. Essa talvez é a argumentação interna mais importante do diálogo, e que os leitores eruditos de Platão não percebem… é neste ponto que Sócrates-Platão e eu inicia a conceituação do que entendemos por justiça.
– Cedric Robinson – Neste aspecto consentimos; bem entendido, nas circunstâncias textuais do diálogo, e suas implicações. Entretanto, demonstra as fidelidades teóricas e políticas do senhor. Me permita ser irredutível e não lhe fazer concessões, demonstra que o senhor é um pensador de direita. Mesmo sendo insuperável no comentário aos cânones…
– Leo Strauss – Agradeço o elogia e o reconhecimento. Mas deixe me expor meus argumentos considerações com maior vagar se possível. Meu pensamento está e sempre esteve ancorado na premissa de que a cidade não suportaria a verdade das coisas. Que a vida humana obedece, e se não faz, deveria obedecer, aos arranjos da justiça. Uma boa maneira de viver, portanto, é organizar uma comunidade alicerçada na justiça. Ou seja, ela tem de ser “a lei da cidade”. Contudo, a justiça enquanto tal, estabelece que cada ser humano dever praticar a “arte” que lhe dispõe a natureza – e isso independente das convenções dos homens em ação. De modo que, assim como Platão, eu considero que o fundamento de uma “boa cidade de iniciar pelo fato de que os homens são de natureza diferente” o que significa dizer que eles são por natureza desiguais hierarquicamente. Ora, marxistas não aceitam essa verdade irrefutável, daí os transtornos que os regimes comunistas se lançaram no século por vislumbrar mudar a natureza…
– Cedric Robinson – Na verdade a ideia de mudar a natureza humana começa, de certo modo com Rousseau, no Contrato Social…
– Leo Strauss – Que seja… mas a teoria desenvolvida é de Marx. Pela qual o homem (e a mulher) pode de dia fazer sexo; à tarde cultivar; pela noite ler poesia; e na madrugada a dentro rememorar seu passado com os seus. Platão se opôs a essa ingenuidade. Sua inclemência chegou a dizer que a desigualdade natural – “que é devido à natureza” – “aumenta e aprofunda” com a educação e não o contrário. A cidade deveria ser erguida sobre a justiça de acordo à natureza desigual (e imutável) entre os homens…
– Cedric Robinson – Permita-me teorizar, de meu ponto de vista sobre a cidade justa (e natural…) de Platão, sua e dos seus seguidores na política estadunidense hoje…
– Leo Strauss – Não tenho e nunca tive seguidores… fui um scholarship por mais de uma década em Chicago alcançando o posto de Robert Maynard Hutchins Distinguished Service Emeritus Professor of Political Science… passando depois pelo Claremont McKenna College (a convite de meu amigo Jacob Klein) na Califórnia e pelo St. John’s College em Annapolis, onde fui Scott Buchanan Distinguished Scholar in Residence…
– Cedric Robinson – Quanto a isso aconselho ao senhor conversar e discutir com aqueles que sustentam falar a partir de suas posições teóricas; pessoas importantes na cultura e na política estadunidense como Allan Bloom, a família Kristol, Paul Wolfowitz, o velho William Buckley (que “tanto” polemizou com James Baldwin e este com ele) e outros que se dizem adeptos de sua filosofia política orientada pelo platonismo…
– Leo Strauss – Insisto, é um erro entender minha obra como conselhos para príncipes.
– Cedric Robinson – Todo conservador se posiciona como o senhor. Inclusive desse Platão, mobilizando aqui certo anacronismo. A posição dele diante dos sofistas revela esse cinismo. Deixe-me retomar minhas considerações, que são, radicalmente contrarias às suas. A ordem natural de Platão foi construída em rivalidade à desordem das convenções; mas, precisamente, a desordem das convenções era na verdade as formas de vivência na democracia. Daí que a lógica imanente da República, implica em que a ordem natural ou a lei natural seja a condição mesma para que, hierarquicamente, a cidade fosse organizada pela minoria; pela aristocracia guerreira (natural) virtuosa. E Platão (Sócrates) sabia disso, como o senhor também sabe. E aqui é preciso dizer: o velho “Platão era de família aristocrática (seu tio, por exemplo, Carmides, pertenceu ao governo oligárquico dos trinta tiranos). E ele estava consciência que escrevia para (alertar) sua “audiência aristocrática”, acerco dos perigos das convenções democráticas, e da ira, das paixões do povo ateniense. Nesse aspecto, é bem verdade que não foi apenas Platão um obstinado opositor da democracia; o historiador marxista Perry Anderson, com quem concordo (malgrado suas ambiguidades organizativas como figura principal da New Left Review depois que ele substituiu o gigante Stuart Hall… o primeiro lendário editor da revista nos anos 1950-1960), tem razão ao afirmar, no Passagens da Antiguidade ao Feudalismo, que: em Atenas jamais se produziu uma teoria política da democracia, Tucídides, Sócrates, Aristóteles, Isócrates e Xenofonte foram pensadores que condenaram a democracia. Eram oligarcas por convicção. E mais…
– Leo Strauss – É uma hermenêutica possível a sua. Discordo dela, frontalmente. Nossos problemas, hoje, resultam da incompreensão da filosofia política antiga. Continuo concordando com Nietzsche e Heidegger sobre o descarrilamento da modernidade, que terminou em catástrofes irreparáveis…
– Cedric Robinson – É que as catástrofes só se tornaram catástrofes quando chegaram na Europa, como bem observou “meu colega” Aimé Césaire no ensaio Discurso sobre o Colonialismo, quando os problemas estavam no “Terceiro Mundo”, não eram problemas, mas expressão luminosa da civilização branca ocidental…
– Leo Strauss – Um ponto tem de ser observado. A utopia da linguagem em Platão… Aqui sua conversação com Trasímaco revela a moderação da República no que concerne a organização da cidade. É bem verdade, e não preciso usar de artifícios outros para um erudito marxista-negro como você, que há desdobramentos que são inevitáveis quando Platão articula as condições da vida (pública) de acordo a justiça tal como Trasímaco entendia a justiça – “justiça é a vantagem do mais forte” –, e Sócrates concordava com ele (Platão afirma que Sócrates se torna amigo de Trasímaco…, depois de domá-lo…), a utopia da linguagem, a posição dos filósofos-guardiões, ou simplesmente os guardiões da cidade, e a mentira nobre (noble lie)…
– Cedric Robinson – Eu intuo que neste ponto nossas divergências serão irreconciliáveis, e até explosivas…
– Leo Strauss – Platão sabia que a organização da cidade justa, baseada na justiça, que para ele tem de estar de acordo à natureza – o que ia de encontro, também, às considerações de Trasímaco, de que a natureza do mais forte deve predominar sobre a natureza do mais fraco, isso é justiça – ao qual estabelecia que “[cada] ser humano deve praticar a arte para a qual ele ou ela [é] adequado, independente de qual costume ou convenção possa ser instituído”, o que implicava um regime de castas, da aristocracia virtuosa (dos políticos, dos filósofos, dos guerreiros), de modo a viver os padrões mais elevados da excelência humana, não seriam aceitos na cidade. O povo, jamais consentiriam, que sua condição miserável de existência era algo natural e imutável. Que sapateiros nasceram para serem sapateiros, que cuidadores de rebanho nasceram para serem cuidadores de rebanho, que cozinheiros nasceram para serem cozinheiros; e que os sábios nasceram para serem sábios, homens ricos nasceram para serem homens ricos e gozarem a boa vida (a situação erótica, contemplativa) etc. Além disso, Cedric Robinson, e nisso talvez possamos estar em concordância, o povo (a democracia), tende a ser, e é…, licenciosa, intemperada, e nos coloca em risco como pensadores não partícipes da políticos. A cidade passaria por convulsões, revoluções e até insurreições violentas se ouvissem “teóricos políticos” em conversações públicas, que os miseráveis serão por natureza sempre miseráveis: o conflito entre o filósofo e a cidade está posto aqui. Daí que Platão (Sócrates) sugerisse dois recursos, resguardado por um terceiro e um quarto…
– Cedric Robinson – Antes de apresentar a continuidade da defesa que você faz do platonismo e a lei natural que funda o sistema dele (e o seu…); já lhe adianto que são justamente “revoluções e insurreições” que meu trabalho e, portanto, minha leitura da República implica…
– Leo Strauss – Já em Direito Natural e História eu afirmei na esteira de Platão que o desejável e o mais elevado nem sempre é possível de ser alcançado, a nossa situação de “gravidade [moderna] da necessidade do direito natural não prova que essa necessidade possa ser satisfeita”. O uso da mentira nobre que fiz alusão e a formação dos guerreiros guardiões da cidade; além disso, Platão também sugeriu a religião e o governo misto. Sócrates, mesmo concordando com Trasímaco, repudiou com veemência a posição trasimaqueana de fúria, de sinceridade pública e de irritação declarada com a injustiça. A cidade não pode ser governada com cuidado, harmonia, equilíbrio e com caráter estável sem a mentira nobre, sem a falsehood. E de dois tipos. Que seja incutido nele a consideração que todos são filhos da mesma terra, “irmãos”, o elemento da “fraternidade”. O direito natural, a hierarquia imutável (justiça de a cada um só poder fazer o que está de acordo à natureza), deve ser estudada e discutida apenas pelos iniciados na filosofia e na contemplação. (O povo, novamente, não aceitaria isso, mesmo sendo uma verdade divina, do cosmos.) E, circunstancialmente, o motivo último da desigualdade e do sofrimento; que essas são “traçadas por Deus”, na medida em que se Deus é a causa de todas as coisas, ele é também a causa da desigualdade, do sofrimento e do infortúnio. Deve-se obedecer ao senhor transcendente.
– Cedric Robinson – É uma filosofia política terrível, reacionária. Sobretudo, para um homem negro que lutou e luta contra a ideia que negros são naturalmente inferiores a brancos: a justificativa, a legitimação do racismo. Senhor Strauss, dizendo de outra forma, e diretamente, a base constitutiva do racismo é a lei natural, que é também um dos pilares de fundação da civilização ocidental branco histórica e burguesa. E que a direita defende intransigentemente como o senhor o faz neste diálogo…
– Leo Strauss – Deixe-me terminar. Mas Platão quis resguarda a cidade e a vida contemplativa caso a noble lie não fosse eficiente. Na hermenêutica última da República, Sócrates não se opõe totalmente à tese de Trasímaco; eles se tornam amigos no fim do diálogo. Sócrates, entretanto, não quer a rudeza, a desabrida violência trasimaquea. Esse é um ponto sensível da filosofia política platônica e que eu considero decisivo…
– Cedric Robinson – A questão da proteção efetiva da cidade, e sob quais meios ela vai se dar. Estou intuindo, mas conclua…
– Leo Strauss – Platão sabia que um desejo não é um fato. Ele só prova que estamos certos, mas levado às últimas consequências a cidade pode se tornar ingovernável. Daí a elite dos guerreiros, “a arte de guardar” a cidade, os cidadãos e os filósofos, emergir na organização concreta da Politeia, para usarmos uma das traduções possíveis. Sócrates estava consciente que a cidade exigiria a ação prática dos guerreiros, pois eles “são a única classe inteiramente dedica à política e às questões públicas”. A posição da violência é algo que atravessa a história do ocidente desde os dias em que a bela totalidade, como dizia Hegel, surgiu no horizonte da humanidade…
– Cedric Robinson – Há um monólogo da violência… nesta reflexão do senhor. Respeito essa formulação, visto ser a de um conservador convicto. Minha leitura, entretanto, de Platão, e, portanto, minha teorização e condição intelectual é do ponto de vista dos de baixo em um país que nasceu sob o signo da escravidão negra. Por princípio eu defende, em contraposição irremediável à filosofia política de Platão e sua (que também podemos estender para seu colega do Instituto Hoover da Universidade de Stanford, o cientista político Eric Voegelin), a desordem democrática. É nos muitos que está a solução dos problemas de exploração, opressão e sofrimento. Não poderia ser de outro modo; a lei natural platônica é a expressão bruta de “uma ordem social, de uma sociedade, escravista”. Senhor Strauss, sua hermenêutica é belíssima, mas eu preciso dizer com a intransigência de um intelectual negro de esquerda – “a Atenas clássica [aquela de Sócrates e Platão], como outras das principais cidades-estados da Grécia, eram sociedades [fortemente] escravagistas […] o trabalho escravo era explorado na agricultura, indústria, comércio, serviço doméstico, administração pública e privada, entretenimento e [pequenos] serviços estatais”. Toda a sociedade grega, sobretudo a ateniense, em todos os seus espaços de existência, em todos os grupos sociais, era construída a partir e sobre a escravidão. E essa estrutura de sentimentos desdobrou-se no decurso histórico-político por toda a civilização branca-burguesa ocidental; infelizmente. O caso de nossa constituição é o mais marcante…
– Leo Strauss – Especificamente, o documento fundacional é um texto moral-normativo que estabelece hierarquia de valores sobre o que é bom e o que não é bom…
– Cedric Robinson – Discordo justamente por isso. Jefferson por exemplo, mesmo crítico de Platão em pontos peculiares da sua obra, na questão da escravidão que a teoria política platônica sustenta ele nunca se posicionou. Teoricamente, a construção da ideia de que há uma ordem natural imutável e hierárquica, e de que indivíduos estão de acorda a essa ordem, implica (do ponto de vista imanente…) que é necessário, uma exigência, constituir uma comunidade político-social entre iguais, sendo iguais aqueles que possuem a liberdade natural, e iguais aqueles que são por natureza escravos. No caso dos Estados Unidos, os negros. Daí a noção segregacionista de iguais, mas diferentes, no arranjo social estadunidense. E de sermos não uma democracia, mas uma aristocracia eleita. “Platão sobrevive” aqui, na América, e no mundo, tragicamente. O eco da reflexão do autor de Apologia de Sócrates e Críton, através de sua releitura senhor Strauss, está presente hoje na figura misteriosa do Peter Thiel… e a ideia de civilização que ele defende no âmbito do governo Trump.
– Leo Strauss – Insisto que fui um mero professor de ciência política… e sempre me posicionei, como outros conservadores, contra comportamentos de intervenção intelectual, conselheiro de Príncipes ao estilo de Maquiavel e Marx…
– Cedric Robinson – Isso exigiria outra conversa, sobre o que é ser intelectual, mas eu ainda estou orientado pela tradição Sartre-Fanon, James Baldwin; de que homens e mulheres de letras (na tradição francesa do século XVIII) só o são se falarem pelos de baixo. E como Fanon, acredito que a ordem social e política platônica derivada na história, a civilização branco-burguesa, do capital, será necessariamente superada, pela sua derrubada revolucionário-violenta… pelo devir operário-negro do mundo…
– Leo Strauss – É bom saber com que dialogamos e enfrentamos… ainda mais sendo um erudito negro radical… até o próximo encontro…
– Cedric Robinson – Até lá senhor Strauss… e por favor mande-me o seu The Argument and the Action of Plato’s Laws.
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