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Piketty: o Brasil precisa vencer

Seria trágico sucumbir ao bolsonarismo, quando Trump se fragiliza. País e Lula podem ter grande papel na luta para mudar o sistema financeiro global. Mas sem enfrentar o rentismo e a injustiça tributária, governo sempre estará de mãos atadas


De OutrasPalavras, 13 de outubro 2026
Thomas Piketty em entrevista a Thiago Gama. Colaboração: Antonio Martins




Foto: Ed Alcock/The Guardian

Thomas Piketty defendeu a tese de doutorado aos vinte e dois anos e foi dar aula no Massachusetts Institute of Technology, de onde voltou à França convencido de que a economia estadunidense sabia muito de modelos e quase nada de história. Desde 2000 é diretor de estudos na École des hautes études en sciences sociales. Ajudou a fundar a Paris School of Economics, dirigiu a escola entre 2005 e 2007, leciona ali até hoje e passou pela London School of Economics como Visiting Centennial Professor. Ao lado de Lucas Chancel, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, codirige o World Inequality Lab e a World Inequality Database, o laboratório que reconstruiu, país por país e século por século, para onde foi o dinheiro do mundo. O capital no século XXI vendeu dois milhões e meio de exemplares em quarenta línguas. Vieram depois Capital e ideologia, Uma breve história da igualdade, Une histoire du conflit politique, escrito com Julia Cagé, e Nature, culture et inégalités. Em junho deste ano o laboratório lançou em Paris o Global Justice Report, que apresenta ao mundo uma estratégia para ser alcançada até 2100 com teto de 1,8 grau para o aquecimento global e rendas convergentes, financiada por um imposto global sobre as grandes fortunas.

Foi esse homem que o Outras Palavras ouviu por videoconferência na manhã de 9 de outubro, pela segunda vez em quatro meses, cinco dias depois de o Brasil acordar com Flávio Bolsonaro à frente de Lula no primeiro turno, 47,03% contra 45,16%, e com a maior abstenção desde 1998. Piketty conhece os números brasileiros de perto, porque é o laboratório dele que os produz. A conversa inteira girou em torno de 25 de outubro. Ele diz que os juros do país devoram o que a redistribuição constrói, que o topo da pirâmide paga alíquota efetiva menor que a da classe média e que nada disso se corrige sem maioria no Congresso. Sobre o voto, não se escondeu atrás da cátedra. Seria um grande erro devolver o Brasil à família Bolsonaro no instante exato em que o trumpismo caminha para uma derrota severa nas urnas americanas. E a saída que ele oferece ao eleitor brasileiro tem uma simplicidade incômoda, tentar outra vez com a esquerda, e outra vez, e outra vez.

Eis a entrevista

Em 2023, o governo Lula trocou o teto de gastos por um arcabouço fiscal que amarra o crescimento da despesa pública. Debaixo desse mesmo limite cabem o SUS, que atende à população inteira, a escola pública, que emprega a maior categoria profissional do país, o Minha Casa Minha Vida, que entrega moradia aos mais pobres, e a Previdência, que paga as aposentadorias. Nos seus livros, é esse dinheiro que fecha a distância entre ricos e pobres. O Brasil consegue sustentar esses quatro pilares sob o arcabouço, ou o problema está antes dele, na estrutura de um sistema tributário em que o andar de cima paga proporcionalmente menor que a classe média?

Não consegue. O sistema fiscal brasileiro, como está, não funciona como deveria, e por duas razões que se somam. Existe o problema do limite, e existe o problema do volume total de recursos que se pode colocar dentro do sistema.

O caso da saúde é o mais evidente. O sistema público brasileiro tem recursos insuficientes, e ao lado dele há um gasto privado em saúde muito grande e muito mal distribuído. No longo prazo, será muito melhor para a saúde dos brasileiros ter um sistema público mais unificado e mais bem financiado. Isso exige uma transformação fiscal capaz de elevar a receita total bem acima do limite atual.

Para que essa elevação seja aceitável e equitativa, ela precisa vir acompanhada de um sistema tributário mais progressivo. Historicamente, um dos limites do Estado fiscal e do Estado social brasileiros é que o sistema de impostos nunca foi de fato muito progressivo. Os maiores detentores de patrimônio e os maiores detentores de renda no Brasil pagam alíquotas efetivas bem menores que as da classe média. É isso que torna tão difícil convencer o país a caminhar na direção de mais recursos fiscais.

Esse é o ponto central a enfrentar. E ele exige mais do que uma eleição presidencial. Exige uma maioria parlamentar disposta a andar nessa direção. É muito difícil, mas a chance de isso acontecer com Lula é claramente maior do que com Bolsonaro [1].

Capital e ideologia tem um capítulo sobre o Brasil, escrito há sete anos. De lá para cá a renda dos mais pobres subiu, e ainda assim o país chegou a uma eleição em que a extrema direita lidera. A duas semanas do segundo turno, o que significa devolver o Brasil à família Bolsonaro no momento exato em que o trumpismo caminha para uma derrota nas urnas americanas de novembro?

É uma ilusão achar que o retorno da família Bolsonaro vai resolver o problema do Brasil. Seria um grande erro para o país, sobretudo num momento em que o trumpismo caminha, na minha avaliação, para uma derrota muito severa nos Estados Unidos, daqui a poucas semanas.

Seria muito estranho o Brasil se tornar trumpista justamente quando o trumpismo está caindo nos Estados Unidos. O momento não poderia ser pior. E seria ruim também para o resto do mundo. [2]

No Ocidente, a esquerda virou o partido dos diplomas, e o senhor deu nome a isso, a esquerda brâmane. O Brasil andou na direção contrária. Amory Gethin e Marc Morgan, no volume que o senhor organizou com Clara Martínez-Toledano, mostram que em 1989 Lula ia melhor no topo da distribuição, e que hoje o Partido dos Trabalhadores é o partido dos mais pobres. No seu texto de maio há duas ideias que parecem escritas para o Brasil de agora, a esquerda precisa unir quem tem menos, e as elites se unem contra ela. Em 4 de outubro, Lula chegou em segundo. O que o caso brasileiro ensina à sua tese?

O que o caso brasileiro mostra, em primeiro lugar, é que a esquerda consegue manter o eleitorado de baixa renda quando conduz políticas mais redistributivas. Lula, em certa medida, conduziu políticas mais redistributivas do que a esquerda europeia. É por isso que no Brasil ainda existe essa dimensão de classe no voto da esquerda, e ela é muito forte. Essa é a lição número um.

A lição número dois é que se torna muito difícil ir além disso e conduzir uma política redistributiva plenamente satisfatória num país como o Brasil, quando o resto do mundo está mergulhado numa espécie de competição capitalista extrema para atrair investimento e reduzir a tributação sobre os ricos. É muito difícil um país sozinho remar contra essa corrente. É aí que estão os limites do que Lula e os governos do Partido dos Trabalhadores conseguiram alcançar.

Ao mesmo tempo, com Bolsonaro será ainda pior, porque ele vai na direção do aumento integral da desigualdade, que no Brasil já é alta demais. A única saída, e é isso que eu gostaria que o eleitor brasileiro percebesse, é tentar de novo, e de novo, e de novo, com a esquerda. É claro que provavelmente será preciso renovar as lideranças e o programa, e isso terá de acontecer nos próximos anos. Em todo caso, apostar no trumpismo brasileiro não é a solução.

O livro que o senhor escreveu com Julia Cagé, Une histoire du conflit politique, sobre mais de dois séculos de voto francês, conclui que a clivagem decisiva é de classe, e que a religião explica cada vez menos. O Brasil parece desmentir isso. Os números de Gethin e Morgan mostram que a distância entre o voto evangélico e o voto do restante dos brasileiros mais que triplicou de Dilma a Bolsonaro, e hoje Flávio Bolsonaro lidera com folga nesse eleitorado, boa parte dele formada por gente pobre. O Brasil contraria o seu livro, ou aquilo que chamamos de voto religioso é classe sob outra forma?

Cada país tem uma história específica com a religião, e uma articulação específica entre a estrutura religiosa e a estrutura de classe. O que eu quero dizer é que as duas estruturas estão sempre fortemente relacionadas. Não é uma relação de um para um, mas elas estão fortemente relacionadas.

Em média, muitos eleitores evangélicos, como muitos eleitores cristãos na França do século XIX e até meados do século XX, tendem a ser proprietários. Não são necessariamente muito ricos, mas tendem a estar um pouco acima da média. E as crenças religiosas deles vêm frequentemente atadas a uma ideologia de proteção da propriedade e daquilo que conquistaram economicamente.

Como eu disse, a correlação não é perfeita. Existem pessoas pobres que são evangélicas, ou crentes convictas, e votam em partidos de direita. Mas isso é mais a exceção do que a norma.

O que também encontramos no caso francês é que, depois da Revolução Francesa, parte dos camponeses mais pobres se voltou para a direita e contra a revolução, de certo modo a favor dos partidos mais católicos e a favor da Igreja. E isso aconteceu em parte porque eles se decepcionaram profundamente com a esquerda. A esquerda carrega um ideal de redistribuição e de igualdade que, na prática, é sempre difícil de cumprir por inteiro. Algumas das limitações do que se alcançou sob Lula produziram decepção, inclusive entre eleitores pobres. Isso precisa ser levado muito a sério.

Para mim, a solução é que os governos do Partido dos Trabalhadores façam ainda melhor do que fizeram no passado. Eles têm de receber essa crítica e essa decepção de maneira construtiva, para fazer melhor.

E, para fazer melhor no terreno da redistribuição, volto a insistir, é preciso combinar uma política interna muito ambiciosa com uma cooperação internacional igualmente ambiciosa. Precisamos mudar o sistema tributário, financeiro e monetário internacional se quisermos ter de fato um modelo econômico diferente, um modelo de desenvolvimento mais equitativo. O Brasil tentou caminhar nessa direção, por exemplo ao defender um imposto global sobre os bilionários na cúpula do G20 em 2024, e seria possível ir bem mais longe.

Isso contribuiria para um alinhamento ainda mais forte entre a estrutura de classe, o eleitorado e a estrutura do voto [3].

Voltemos ao limite de gastos por outro ângulo. No fim do ano passado foi sancionada a tributação mínima da alta renda, que alcança cerca de 141 mil contribuintes e tirou dez milhões de brasileiros da cobrança do imposto. Ao mesmo tempo, o país convive com um juro real na casa dos 9% ao ano, dos mais altos do mundo, e entrega ao serviço da dívida uma fatia enorme do que arrecada. Nos seus livros, o dinheiro que chega aos pobres vem do topo. No Brasil de hoje, quem fica com o dinheiro novo, os pobres ou os bancos? E um país do Sul global consegue redistribuir pagando esse preço pelo crédito?

Entendo a pergunta, e vou responder pelo que posso sustentar. Não tenho domínio suficiente das particularidades brasileiras para arbitrar esse ponto específico, mas há uma parte do problema que não é brasileira. A taxa de juros paga pelo Brasil, e por muitos países do Sul global, é alta demais. Isso impõe um limite sério ao que se pode fazer em matéria de redistribuição e de política pública.

No Global Justice Report, uma das saídas que propomos para esse problema passa por transformar o sistema financeiro e monetário internacional, de modo que os países consigam acesso a juros mais baixos. Isso pode acontecer pela alocação e pela criação de moeda internacional. Hoje existem os direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional. No nosso arcabouço, eles se tornariam uma verdadeira moeda de reserva internacional.

Isso não é algo que o Brasil possa fazer sozinho. Mas o Brasil pode contribuir para essa discussão sobre transformar a ordem internacional, e em particular o sistema financeiro e monetário internacional. Com Flávio Bolsonaro, não acredito que isso venha a acontecer. Com Lula, não estou dizendo que será fácil, mas ao menos existe uma chance de o Brasil contribuir para transformar a ordem internacional.

Antonio Martins, editor-chefe do Outras Palavras – Uma crise civilizatória se aprofunda, e são os jovens que a estão nomeando. Na França, estudantes secundaristas, muitos deles vindos das banlieues, se levantaram contra as restrições orçamentárias impostas à educação. Na Espanha, um vasto movimento pelo direito à moradia ocupou as ruas e recolocou a desigualdade no centro do debate público, às vésperas de uma eleição geral antecipada. No Brasil, diante do risco de uma vitória da extrema direita, os estudantes foram às ruas em defesa da educação, da saúde pública, da democracia, da soberania nacional contra Trump e das liberdades civis. Em toda parte, eles defendem o que já existe, e nenhum deles pede o que vem depois. O que tudo isso revela sobre o esgotamento de um sistema que multiplicou a desigualdade, e sobretudo sobre a busca de um programa pós-capitalista nas condições presentes, tão diferentes daquelas dos séculos passados?

A geração jovem, em Paris, na França e em muitos outros países, está pedindo um sistema econômico inclusivo, democrático e sustentável. Eu daria um nome a isso. Precisamos avançar na direção do socialismo democrático. Para mim, esse é o prolongamento das instituições do Estado social construídas no século XX em vários países. Só que precisamos ir muito além delas. O socialismo democrático do século XXI tem de ser bem mais global na sua perspectiva, e tem de levar muito mais a sério o desafio da habitabilidade do planeta.

O que me parece interessante, quando se olha para o movimento juvenil nas ruas da França neste momento, é que eles estão pedindo mais educação, mais gasto em educação. E estão completamente certos. É disso que eles precisam para encontrar um lugar no século XXI, e é disso que precisamos coletivamente para desmaterializar a economia. Precisamos de uma economia com muito mais educação, e em algum momento vamos ter de interromper o crescimento dos setores materiais, a indústria de transformação, a construção, a agricultura intensiva.

Falo aqui dos países mais ricos do mundo. Os países de renda média ou de renda baixa ainda precisam de crescimento material. Em algum momento eles também vão precisar parar, mas os países ricos já acumularam muito bem-estar material. Para eles, é muito importante expandir os setores imateriais, ou menos materiais, como a educação.

Os jovens estão certíssimos, e o problema é que o governo francês fez exatamente o contrário nos últimos anos. Reduziu o gasto por estudante no ensino superior francês, o que considero um grande erro histórico. Houve um aumento enorme no número de estudantes na França nos últimos dez ou quinze anos, o que é ótimo. Só que os recursos destinados ao ensino superior não acompanharam. Estagnaram, e chegaram a cair um pouco. Com muito mais estudantes e o mesmo dinheiro, o gasto por estudante despencou.

Muitos secundaristas se esforçam para concluir o ensino médio e chegar ao ensino superior. E então descobrem que não conseguem entrar no curso que gostariam de cursar. É daí que vem essa grande decepção.

Em agosto, a Petrobras confirmou a descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, a 175 quilômetros da costa do Amapá. Brasília trata a Margem Equatorial como fronteira de soberania energética e fala em dez bilhões de barris recuperáveis. Ao mesmo tempo, o país precisa reservar todo ano uma montanha de dinheiro para o serviço da dívida. Nos seus livros, e no Global Justice Report, os ricos respondem pela maior parte do carbono e os pobres pagam a conta. O novo petróleo é o preço do arcabouço fiscal, ou existe outro caminho para um país grande do Sul global?

Existe outro caminho, e o petróleo não é a solução. Mas eu não culpo o Brasil por fazer isso. O que eu digo, mais uma vez, é que o Brasil deveria contribuir para construir um modelo de desenvolvimento diferente em escala global.

No Global Justice Report, o que sustentamos é que deve haver redistribuição global e, na verdade, reparação global. Todo o carbono que os países ricos emitiram no passado já produziu consequências muito graves de aquecimento para o planeta inteiro, e em particular para o Sul global. Se países como o Brasil ou a Índia fizerem o mesmo no futuro, o planeta vai arder. Não devemos seguir por esse caminho.

Agora, se queremos que o Brasil e a Índia não façam o mesmo, é preciso que haja alguma compensação. É por isso que, no relatório, defendemos que o imposto global sobre a riqueza e o imposto global sobre a renda sejam usados para transferir recursos a cada país, o Brasil incluído, numa base per capita, de acordo com a população. Para um país de população grande como o Brasil, isso significa muitos recursos, para investir em setores mais sustentáveis, para transformar a estrutura da economia, desmaterializá-la e reduzir o conteúdo material e sobretudo o conteúdo de carbono da economia.

Eu gostaria muito que o Brasil contribuísse para essa discussão. Repito, não se muda o sistema mundial sozinho, mas é importante contribuir para a discussão, para que um dia possamos mudar o sistema juntos.

Notas:

[1] A Conta-Satélite de Saúde do IBGE confirma o desenho que Piketty descreve de longe. Em 2021, o gasto das famílias respondeu por 58,4% do consumo final de bens e serviços de saúde no país, contra 41,6% do governo, numa despesa total equivalente a 9,7% do PIB. Sobre a progressividade, estudo do Sindifisco Nacional divulgado em 2025 mostra a alíquota efetiva do imposto de renda subindo até 11,41% na faixa de quinze a vinte salários-mínimos mensais e caindo a partir dali, chegando a 5,28% entre os que recebem acima de trezentos e vinte salários-mínimos.

[2] Ao longo dos governos do PT, o financiamento da elevação da renda mais baixa saiu sobretudo do meio da pirâmide, e o quadro só começou a mudar com a lei sancionada em novembro de 2025, que isentou dez milhões de contribuintes e cobrou a conta de 141 mil. O recorte de renda do Datafolha divulgado em 8 de outubro de 2026 mostra a clivagem de classe descrita por Piketty ainda de pé na base, com Lula à frente por 52% a 41% entre quem ganha até dois salários-mínimos. A eleição se decide acima dessa faixa.

[3] Os números sobre o voto evangélico vêm do capítulo brasileiro de Amory Gethin e Marc Morgan em Political Cleavages and Social Inequalities (Harvard University Press, 2021), volume organizado por Gethin, Clara Martínez-Toledano e o próprio Piketty. A versão aberta está no sítio da World Inequality Database.


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Thiago Gama
Doutorando em História Comparada pelo PPGHC da UFRJ, e é orientado pela Profª. Drª. Beatriz Bissio.

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