Por ROBERTO DE CAMPOS GIORDANO*
A vitória de Flávio Bolsonaro significaria o ponto de não retorno para a Amazônia, com savanização, desertificação e extinção dos rios voadores, destruindo a agricultura e a vida no Centro-Oeste, Sudeste e Sul
1.
Em uma troca de mensagens ocorrida em 05 de outubro de 2026, dentro de um grupo WhatsApp de colegas professores da UFSCar, escrevi algo que me instigou a fazer este texto, com todo senso de urgência possível. Era como: “a vitória de Fábio Bolsonaro não significa apenas a destruição de nossa carreira, da universidade, da ciência no Brasil. É muito mais que isso. Será ‘O’ tipping point (ponto de não retorno) do planeta Terra e de nossa civilização tal como a conhecemos”.
Eu mesmo não me havia dado conta até este instante da enorme importância de trazer essa questão ao centro do debate eleitoral. Mais que a ameaça de uma ditadura, de um estado teocrático monárquico. Mais que a destruição dos programas sociais, da soberania nacional, do SUS, do ensino público, mais que a entrega das terras raras, e muitos etc., temos uma sombra gigantesca nos ameaçando. Assustadora, de consequências inimagináveis. Porque Flávio Bolsonaro é o quinto cavaleiro do apocalipse: além da guerra, fome, morte e do anticristo temos agora o ecocídio.
Desculpem abandonar o rigor científico, citarei apenas alguns dados sem trazer as fontes – de resto facilmente verificáveis em qualquer programa de Inteligência artificial, que pode listar a bibliografia usada. Mas a urgência da vida real se impõe. Porque espero que esta modesta contribuição talvez chegue à coordenação da campanha e ao próprio presidente Lula.
É preciso levar ao povo a informação da tragédia planetária que nos espera caso aconteça o pior. Porque no afã de esclarecer à população dos perigos que a ameaçam, acho que talvez a questão mais importante para convencer indecisos, que se abstiveram no primeiro turno, não está recebendo a devida atenção. Precisamos divulgar nas redes e nas ruas: eleger Flávio Bolsonaro teria consequências inimagináveis e irreversíveis para toda humanidade. Alguns fatos objetivos:
(i) O desmatamento da Amazônia, segundo o PRODES/INPE, cresceu de 9.762 quilômetros quadrados em 2019 para 11.594 em 2022. No governo Lula, foi reduzido para 5.731 em 2025, com compromisso de desmatamento zero em 2030. (ii) A consolidação de modelos indica que o ponto de não retorno para a savanização da floresta está entre 20 e 25% de desmatamento. Hoje a estimativa está entre 17 e 21% já desmatados.
2.
(iii) A estimativa mais frequente da área original da Amazônia brasileira é de 4 milhões de km2. Se for retomado um ritmo médio de desmatamento a partir de 2027 igual a 11.500 km2/ano, o limiar de não retorno (assumindo que seja 20% da área original) seria atingido em 2035. Isso sem levar em conta a sinergia com os demais efeitos da crise climática, como o agravamento dos efeitos do super El Niño, por exemplo. E é claro que esta é uma hipótese otimista, conhecendo a história daquele grupo nefasto genocida que já nos governou.
(iv) A estrutura do Ministério do Meio Ambiente e do Clima havia sido completamente desmontada; o quadro de servidores do Ibama foi aumentado, durante o governo Lula, em mais de 20% (até 2865 servidores em 2025), depois da política de terra arrasada (literalmente) do Bolsonaro pai.
(v) Não há dados consolidados de garimpos clandestinos eliminados na gestão Bolsonaro. A área média desmatada por garimpo nas terras indígenas foi de 4000 ha/ano no governo ecocida, contra 2100 ha/ano com Lula, que destruiu 948 acampamentos de garimpeiros nessas áreas. O “acaso” de não haver um número consolidado de acampamentos destruídos na gestão anterior certamente não é um acaso.
(vi) Especificamente os Yanomani, cujas imagens terríveis de fome e abandono correram o mundo durante o governo do pai da besta do apocalipse, tiveram melhoria significativa na sua situação. Queda drástica da mortalidade por desnutrição, nenhum registro de morte por malária no primeiro semestre de 2026. Os profissionais de saúde nessa reserva indígena aumentaram de 690 em 2023 para mais de 2100 hoje, com os médicos passando de 6 para 63.
Sobre o combate ao garimpo e a construção do Ministério dos Povos Indígenas após a posse de Lula, vale recomendar aqui o excelente documentário YANUNI – No coração da batalha pela Amazônia (https://youtu.be/RhDdAONYZeQ?si=IIsv5v04UB7NnMRW). É angustiante imaginar como os povos originários e seus aliados diretos nessa batalha estão se sentindo neste instante.
A destruição da Amazônia a está transformando de sorvedouro em fonte de carbono. Com isso, serão extintos os “rios voadores”. Esses “rios” transportam pela atmosfera a água que a presença da massa vegetal permite retirar do Oceano Atlântico, aumentando ainda a umidade nesses fluxos atmosféricos através da evapotranspiração da própria floresta. Essas correntes aéreas úmidas rebatem nos Andes e descem para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A consequência inevitável do desaparecimento da mata será a desertificação, a destruição do patrimônio dos próprios latifundiários (“agronegócio”, como se intitulam hoje) que financiam o cavaleiro do ecocídio.
Eleger o cavaleiro do apocalipse significa “passar novamente a boiada”. Quem sabe trazer de volta Ricardo Salles para tomar conta disso? E de quebra teremos novamente o garimpo e genocídio indígena. Porteira aberta para o Armagedom. Parafraseando Davi Kopenawa, o céu vai cair sobre nós, o “povo da mercadoria”. Porque aquela figura, desprezível sob todos aspectos, filho do genocida, não hesitará um segundo em seguir essa trilha.
A história do Brasil (e por consequência, da humanidade) se torna em uma tragédia grega, onde os próprios protagonistas constroem sua desgraça. Os especuladores farialimers se regozijam hoje, a bolsa tem alta inédita. Todos felizes, parecem bactérias devorando um substrato que se esgota, deixando a própria morte dessas criaturas como herança. E a nossa também, Cassandras clamando em vão…
Por isso me desespero. Por isso peço encarecidamente que esta mensagem chegue ao presidente Lula. Coloque o fim do mundo no centro do debate, principalmente nas redes, para chegar à juventude cujo futuro estará sendo roubado. Quero que meus netos ainda tenham um planeta habitável para viver. Eleger Flávio Bolsonaro será o fim dos tempos. Eles não podem passar.
*Roberto de Campos Giordano é professor titular sênior do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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