De OutrasPalavras, 16 de outubro 2026
Por Gustavo Vilas Boas
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos; Lula, com 45,16%. A distância de aproximadamente 2,22 milhões de votos é suficientemente pequena para manter a disputa aberta e suficientemente concreta para exigir uma mudança de rumo. Outros 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Não constituem uma reserva automática de nenhuma candidatura, mas lembram que o resultado ainda pode mudar. A questão decisiva, entretanto, ultrapassa a aritmética: Lula conseguirá apresentar uma razão para o futuro que seja mais forte do que o desejo de encerrar seu ciclo?
O Datafolha realizado em 2 e 3 de outubro oferecia uma fotografia anterior à votação: na simulação de segundo turno, Lula tinha 47%, contra 46% de Flávio, em empate técnico. Esse levantamento não descreve a disputa depois das urnas e tampouco pode ser comparado diretamente ao resultado de primeiro turno, que envolvia outros candidatos e outra base de cálculo. Sua contribuição mais interessante está nos recortes sociais: eles permitem questionar explicações fáceis sobre quem deseja mudança e por quê.
Uma dessas explicações é a de que a esquerda envelheceu e perdeu os jovens. Suas principais lideranças nacionais, de fato, carregam a experiência da ditadura, das lutas sindicais e da redemocratização. Lula é a expressão mais evidente dessa longevidade. Mas a idade das lideranças não determina a idade de seus eleitores. A pesquisa da véspera mostrava precisamente o contrário da hipótese de abandono juvenil: o presidente tinha vantagem entre os mais jovens, assim como entre os mais velhos. O problema geracional é mais complexo do que uma oposição entre juventude conservadora e velhice progressista.
Na simulação direta, Lula registrava 52% contra 40% entre os eleitores de 16 a 24 anos e 51% contra 42% entre aqueles com 60 anos ou mais. Flávio liderava entre 25 e 34 anos, por 51% a 41%, e aparecia numericamente à frente entre 35 e 44 anos, por 50% a 42%, neste caso no limite do empate técnico. Entre 45 e 59 anos, havia praticamente igualdade: 47% a 46% para Lula. A curva era aproximadamente um U: o presidente mais forte nos extremos, o adversário no miolo da vida adulta. Esse desenho localiza uma dificuldade; não explica sozinho sua origem.
A idade precisa ser relacionada às condições materiais. Em entrevista à BBC News Brasil, publicada pela Folha em janeiro de 2025, André Singer chamava atenção para a queda do apoio ao governo na passagem da renda familiar de até dois salários mínimos para a faixa de dois a cinco. Sua interpretação relacionava a insatisfação ao custo de vida e à fragmentação do trabalho: plataformas, informalidade e formas precárias de empreendedorismo enfraqueciam a experiência coletiva que havia dado origem ao PT. Essa hipótese ajuda a formular a pergunta correta: que expectativas de segurança e ascensão foram frustradas na vida de parte desses trabalhadores?
Também mudou a relação com a história. Para quem não viveu politicamente a ditadura, a democracia é uma condição de partida, mesmo quando ameaçada. Direitos que precisaram ser conquistados por uma geração podem aparecer à seguinte como obrigações elementares do Estado. Isso não significa desprezar eleições livres, saúde ou educação; significa exigir que funcionem e que permitam avançar. A defesa da Constituição perde potência quando se resume à preservação institucional e deixa de expressar suas promessas de igualdade, desenvolvimento e bem-estar. Uma conquista histórica não pode transformar-se em justificativa para baixar as expectativas de quem veio depois.
Os primeiros governos Lula ficaram associados à experiência concreta de ascensão: entre 2003 e 2009, quase 30 milhões de pessoas ingressaram no estrato de renda então chamado de classe média. Essa classificação não eliminava vulnerabilidades nem convertia trabalhadores em proprietários, mas registrava uma mudança material importante. Em 2022, segundo o Diretor da FGV Social, passados 7 anos desde a crise econômica de 2015-2016, a situação desse extrato da população era sofrida e havia uma nova geração da classe C que não viveu uma escassez, o que faz com que ela se ressinta mais. No terceiro mandato, a melhora também aparece nos indicadores: segundo a Tendências Consultoria, em 2024 as classes A, B e C voltaram a reunir mais da metade dos domicílios brasileiros — 50,1%, marca que não era alcançada desde 2015. Esse retorno, porém, pode carregar um significado psicológico diferente. Para quem perdeu posição nos ciclos de recessão e estagnação, recuperar renda e capacidade de consumo pode ser vivido como restituição de condições que já considerava um direito conquistado, e não como chegada a um novo patamar de vida. Recuperar o que se perdeu importa, mas não necessariamente desperta a mesma percepção de transformação que experimentar uma conquista pela primeira vez. Essa memória ajuda a entender a força do lulismo e também o tamanho da cobrança que recai sobre ele: quem simbolizou a possibilidade de melhorar de vida passa a ser julgado pela capacidade de reabrir esse caminho.
O paradoxo já havia sido percebido em 2014. Uma análise de dirigentes do Datafolha descrevia os “filhos da inclusão” como um eleitorado mais escolarizado e exigente, cujas transformações não encontravam correspondência suficiente nas instituições e nos serviços. A inclusão não produz gratidão eleitoral permanente. Produz cidadãos com novas necessidades, capacidade de comparação e disposição para cobrar. Parte da frustração pode nascer justamente do sucesso anterior: depois de entrar na universidade, consumir mais ou melhorar a moradia, é razoável esperar trabalho compatível, serviços melhores e uma vida menos insegura.
Ocorre que a trajetória posterior interrompeu muitas dessas expectativas. Uma parcela dos adultos de hoje conheceu, na infância ou na juventude, a promessa de ascensão e chegou à maturidade sob condições muito menos favoráveis. Diploma, esforço e jornadas extensas deixaram de parecer suficientes para construir patrimônio ou obter estabilidade. Não se trata de atribuir uma consciência única a milhões de pessoas, mas de reconhecer que a lembrança das conquistas passadas não garante ao PT eterna gratidão da classe trabalhadora.
A direita radical encontrou espaço nessa distância entre promessa e experiência. Sua narrativa oferece responsáveis identificáveis: impostos, burocracia, corrupção, esquerda, judiciário politizado e com privilégios, bem como um “Estado burocrático” apresentado como obstáculo à prosperidade. Alguns desses problemas são reais; a operação política consiste em reuni-los numa explicação que promete libertar o indivíduo eliminando controles e proteções coletivas. O trabalhador submetido a relações econômicas desiguais é convidado a acreditar que vencerá sozinho se o poder público deixar de atrapalhá-lo. Uma esquerda que responda apenas com a celebração de seu passado deixa sem resposta a insegurança que torna essa promessa atraente.
A economia de 2026 contém essa contradição. A reportagem da Folha publicada na véspera da eleição descreveu avanços no emprego e na renda convivendo com dívidas elevadas. Em agosto, 82% das famílias tinham compromissos financeiros a vencer; 29,9% estavam inadimplentes. São conceitos diferentes: ter uma prestação não equivale a não conseguir pagá-la. Ainda assim, o quadro mostra por que um mercado de trabalho melhor não se traduz automaticamente em tranquilidade doméstica. Uma parte da renda que aumenta já chega comprometida com obrigações anteriores.
Para quem enfrenta crédito caro, aluguel e prestações, a prosperidade se mede pelo que sobra e pelo que se consegue planejar. Um indicador nacional favorável não paga uma dívida individual. Isso não invalida os resultados do governo, mas nos obriga a compreender seus limites. Flávio explorou o endividamento e o custo de vida enquanto Lula destacou os recordes de emprego e renda. Assim a oposição conseguiu dar expressão política a contradições reais, apresentando-as como esgotamento do governo. Combatê-la exige enfrentar essas contradições, sem tratar a insatisfação como simples erro de percepção.
O desgaste institucional acrescentou outra camada ao mal-estar. No Datafolha de setembro, 48% afirmavam não confiar no STF, contra 43% em março, recorde da série iniciada em 2012. Outros 14% confiavam muito e 35%, um pouco. A desconfiança atingia 69% entre os que declaravam voto em Flávio e 22% entre os de Lula. A pesquisa mostra a associação entre polarização e credibilidade da Corte, sem demonstrar qual fenômeno causou o outro. Defender a democracia, nesse contexto, exige também defender transparência, apuração de suspeitas e prevenção de conflitos de interesses. Porém, ao mesmo tempo que Lula defendeu a investigação de todos ministros envolvidos, fez questão de deixar claro que não é Delegado de Polícia, nem Juiz. Seu aliado político, Flavio Dino pediu vista do processo na famigerada sessão que decidiria a abertura ou não de inquérito contra Alexandre de Moraes. Defendeu genericamente mudanças na nomeação de ministros da Corte, mas não apresentou uma proposta concreta de reforma política ou do Judiciário. Essa postura vacilante contribuiu com a desconfiança do eleitor “independente”, que pendeu para aquele que fazia ataques mais veementes à corte e a ministros específicos.
As bets aprofundam o encontro entre insegurança econômica e descrença. Sua trajetória atravessa três governos: a autorização das apostas esportivas de quota fixa foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Temer em 2018; Bolsonaro encerrou o mandato sem concluir a regulamentação; Lula sancionou a Lei 14.790/2023, estruturando controles e incluindo também jogos online de quota fixa. É impreciso atribuir a Lula a origem de todo o mercado, assim como seria incorreto desconsiderar sua responsabilidade por consolidar o espaço legal da atividade. Fiscalização e arrecadação foram combinadas com a aceitação de um negócio cujos custos sociais já exigiam atenção.
A promessa de dinheiro rápido encontra terreno fértil onde o trabalho parece incapaz de atender aos anseios materiais. Para parte dos apostadores, as perdas levam à tentativa de recuperação, a novas dívidas e ao sofrimento que passa a atingir a família. Acesso permanente pelo celular e ciclos rápidos dos cassinos online aumentam a exposição, que causa endividamento, vergonha e associação com ansiedade e depressão, que podem anteceder ou acompanhar a dependência. Não é necessário supor que todo apostador tenha um transtorno para reconhecer o problema: a exploração comercial da esperança pode agravar justamente a sensação de fracasso da qual promete oferecer uma saída. Dessa maneira, as bets, na conjuntura, ajudaram a aumentar o mal-estar econômico, com aumento do endividamento e desviando recursos de setores que poderiam ajudar no crescimento da economia.
Em que pese a calcificação do perfil ideológico do eleitorado, como bem demonstrado por Felime Nunes e Thomas Traumann no seu livro “A Biografia do Abismo”, a força eleitoral do candidato não demonstra que todos os seus votantes compartilhem integralmente o projeto bolsonarista. É plausível, portanto, que o que tenha decidido o resultado do primeiro turno tenha sido um voto de punição daqueles eleitores independentes, que em 2022 acreditaram que com a volta de Lula, regressaríamos a uma nova era de bonança e mobilidade social acelerada, como foi nos seus primeiros governos. Assim, seria um equívoco político presumir que toda insatisfação pertence definitivamente à extrema-direita, bem como imaginar que ela se desfará apenas porque se relembrem os riscos do adversário.
No entanto, o desejo pela mudança com Flávio contém contradição inescapável: representa, na verdade, o retorno de uma família que já governou o país e tem um projeto claro de desmonte democrático. João Moreira Salles reúne, na Piauí de outubro deste ano, declarações em que o candidato promete honrar o legado do pai e lhe reservar espaço num eventual governo. Não é preciso presumir que Jair controlará cada decisão do filho para reconhecer o conteúdo restaurador dessa candidatura. O desejo de sair do presente não informa, por si só, a direção da mudança.
O mesmo texto de Salles oferece uma crítica que o campo progressista deveria levar a sério. Após expor os riscos do bolsonarismo, ele reconhece conquistas de Lula, mas aponta a ausência de um projeto de futuro. A força desse diagnóstico está em recusar a falsa escolha entre fazer autocrítica e defender a democracia. É possível considerar a candidatura de Flávio perigosa e, ao mesmo tempo, julgar insuficiente o horizonte oferecido pelo terceiro mandato. A segunda avaliação ajuda a explicar por que a primeira, isoladamente, já não convence como antes.
Lula não precisa de um quarto mandato para assegurar seu lugar na história. Sua biografia já está inscrita na experiência política brasileira. O que precisa justificar é a utilidade de mais quatro anos para quem não deseja apenas recordar o que viveu ou conhecer o que aconteceu antes de nascer. Uma eleição não deveria funcionar como cerimônia de coroação. A memória de um governo só se transforma em promessa convincente quando permite imaginar o próximo passo. A pergunta central deixou de ser quanto o Brasil deve a Lula: passou a ser que país ele ainda se dispõe a ajudar a construir.
É nesse sentido que cabe desejar o retorno do “Lula do Velho Testamento”: menos acomodado à administração dos limites, mais disposto a explicitar os conflitos que os produzem. Não se trata de abandonar negociação ou garantias democráticas. Trata-se de dizer quem ganha e quem perde com escolhas econômicas apresentadas como inevitáveis. A política recupera sentido quando torna esses conflitos inteligíveis e assume compromissos sobre como enfrentá-los.
A luta de classes, nessa perspectiva, tem expressões bastante concretas: tempo de trabalho, custo do crédito, tributação do consumo, proteção patrimonial e distribuição do orçamento. Nesse sentido, é pedagógico quando Salles relatou o contraste entre a indignação empresarial com benefícios sociais e a observação do próprio André Esteves (BTG Pactual) sobre subsídios recebidos pelo próprio mercado financeiro. Um projeto de desenvolvimento nacional precisa distinguir a remuneração do investimento produtivo da proteção de ganhos que pouco contribuem para ampliar emprego, capacidade tecnológica e bem-estar.
Há espaço social para essa discussão, mas não uma fórmula retórica infalível. Na Quaest de julho de 2025, 63% apoiavam aumentar impostos dos mais ricos para reduzir os dos mais pobres; ao mesmo tempo, 53% rejeitavam o discurso de “ricos contra pobres” por associá-lo à ampliação dos conflitos. A pesquisa também registrou oscilação favorável a Lula após o tarifaço de Trump, sem isolar suas causas. O recado é mais exigente do que a defesa de elevar o tom: propostas distributivas podem obter apoio mesmo entre pessoas que recusam a linguagem escolhida para apresentá-las. O confronto, portanto, precisa ter objeto, finalidade e resultado compreensíveis.
Um projeto de futuro deve dar unidade a essa disputa. Reindustrialização, produtividade, ciência, inteligência artificial, soberania digital, transição energética, infraestrutura, ampliação massiva da malha metroferroviária e do Programa Minha Casa Minha Vida não podem aparecer como uma lista de anúncios. Precisam responder a uma pergunta comum: como o país produzirá mais riqueza, dominará tecnologias e converterá esses ganhos em melhores condições de vida? A Constituição já associa a ordem econômica à valorização do trabalho, à soberania nacional e à redução das desigualdades. Transformar esses objetivos em direção efetiva do Estado seria uma maneira de ligar a defesa democrática à transformação material que parte da sociedade reclama.
Isso exige também disputar a reforma das instituições. Defender sua independência não significa considerá-las imunes a aperfeiçoamento ou indiferentes aos interesses que representam. Transparência, controle do poder econômico, responsabilização e participação social pertencem a uma agenda democrática. A alternativa à captura autoritária não pode ser a preservação de todos os arranjos existentes. O campo progressista precisa demonstrar que há mudanças institucionais capazes de ampliar direitos e outras capazes de concentrar poder, embora ambas possam ser apresentadas ao público com o mesmo vocabulário de renovação.
O primeiro turno tornou essa distinção mais urgente. O PL terá 28 das 81 cadeiras do Senado. A Folha identificou ao menos 49 senadores favoráveis ao impeachment de ministros do STF, ainda que com ressalvas, cinco abaixo dos 54 necessários à condenação. Esse conjunto não constitui uma bancada homogênea nem assegura votos em processos concretos. Ainda assim, mostra que a possibilidade de afastamentos deixou de ser apenas uma palavra de ordem distante. Sua execução dependeria de alianças, da condução do Senado e das circunstâncias de cada caso, num ambiente de pressão sobre a Corte.
A renovação ordinária do Supremo amplia o alcance da eleição. À vaga deixada por Barroso somam-se as aposentadorias compulsórias de Fux, em 2028, e Cármen Lúcia, em 2029. Gilmar Mendes alcança a idade-limite em 30 de dezembro de 2030, o que deixa incerteza sobre o momento de sua substituição. A Folha apontou a possibilidade de quatro indicações. Cada nome depende de aprovação do Senado e a nomeação não garante fidelidade futura. Mas a autonomia formal não dispensa o exame das condutas: o comportamento dos atuais indicados por Bolsonaro fornece razões concretas para levar a sério o risco de alinhamento político.
No caso de André Mendonça, a divulgação do relatório sobre Vorcaro e Moraes no início de setembro colocou o colega sob forte pressão às vésperas do 7 de Setembro, em plena campanha. Reinaldo Azevedo interpretou a atuação como intervenção orientada pelo calendário eleitoral; Igor Gielow, na Folha, também identificou benefício político para Flávio no momento da divulgação. Considero o episódio um indício relevante de convergência com o projeto bolsonarista. Isso não transforma intenção partidária em fato judicialmente provado nem dispensa apuração das suspeitas contra Moraes. Obriga, porém, a examinar a atuação de quem investiga com o mesmo rigor aplicado a quem é investigado.
Nunes Marques oferece outro exemplo. Segundo a reportagem da Folha de 5 de outubro, ele pretende julgar a revisão criminal de Bolsonaro depois do segundo turno, independentemente do vencedor, e avalia libertá-lo por liminar. A matéria ressalva que levar o caso ao plenário é o cenário mais provável. Flávio conta com uma decisão favorável para subir a rampa acompanhado do pai; a PGR, por sua vez, pediu a rejeição da revisão. Há, portanto, uma intenção clara do ministro e uma expectativa política explicitada pela família. Somadas ao histórico de Mendonça, vê-se uma clara convergência política de setores do STF alinhados com o projeto bolsonarista de poder, deixando, portanto, de ser preocupação meramente abstrata.
A hipótese formulada por Reinaldo Azevedo é a de que novas indicações, somadas a Mendonça e Nunes Marques, poderiam produzir maioria alinhada no Supremo; eventuais impeachments ampliariam essa possibilidade. Trata-se de um alerta importante no sentido de que uma transformação profunda no regime político pode ocorrer com um alinhamento entre Executivo, Congresso e STF por meio de uma nova correlação de forças altamente favorável para a extrema-direita. A presença formal das instituições, por si só, não assegura que continuem funcionando como limites recíprocos ao poder.
As declarações de Flávio dão substância a essa preocupação. Em entrevista à Folha em junho de 2025, ele afirmou que o candidato apoiado pelo pai deveria garantir seu indulto e enfrentar eventual resistência do Supremo, chegando a mencionar o “uso da força”. O problema ultrapassa a influência pessoal de Jair sobre o filho. Está no compromisso de subordinar o funcionamento das instituições à reparação política reivindicada por uma família e por seu grupo.
A dimensão internacional também precisa entrar nessa avaliação. O tarifaço de Trump, associado à pressão em favor de Bolsonaro, já mostrou que interesses familiares podem buscar apoio externo com custos para o país. Nesse sentido, a interferência estrangeira se dá por meio de um grupo político radicado em solo nacional, como uma espécie de “quinta coluna”. Uma aliança política transnacional é capaz, assim, de interferir e ditar os rumos políticos do Brasil a partir de um centro nevrálgico em Washington. Um projeto democrático brasileiro precisa afirmar sua capacidade de decidir soberanamente os próprios rumos, negociar internacionalmente e proteger a sua população de interesses estrangeiros capitaneados por uma potência estrangeira.
A tarefa do campo progressista é, portanto, mostrar que segurança econômica e liberdade política podem avançar juntas. Quando a defesa institucional parece pedir resignação diante do sofrimento, ela se enfraquece. A superação desse impasse requer um programa capaz de dar uma base material ao conceito abstrato de democracia.
É por isso que a aprovação e o início da execução de um plano nacional de desenvolvimento são o maior legado estrutural possível de um Lula 4. A Constituição já prevê planejamento estatal e planos nacionais. Falta transformar princípios abstratos em compromisso concreto de longo prazo, com metas produtivas e sociais, financiamento e responsabilidades. O plano deveria organizar a transformação industrial e tecnológica, a transição ambiental e a ampliação dos serviços públicos em torno de ganhos de produtividade distribuídos socialmente.
Do ponto de vista jurídico-institucional, isso exigiria uma agenda articulada de reformas monetárias, cambiais, fiscais e tributárias, com alterações constitucionais e legais específicas, sendo, portanto, dispensável uma nova Constituinte. Crédito de longo prazo, controle eficiente da conta de capitais, proteção do investimento público e tributação mais progressiva precisariam funcionar de modo coordenado, possibilitando, inclusive, com o aumento da produtividade, uma redução estrutural da taxa básica de juros da economia. Superar as amarras neoliberais significa, nessa perspectiva, criar um arcabouço normativo-econômico condizente com objetivos democráticos de desenvolvimento.
O debate sobre o Real ajuda a precisar essa diferença. O fim da hiperinflação foi uma conquista social duradoura, particularmente para quem não conseguia proteger sua renda. Mas os instrumentos usados para sustentar a estabilidade tiveram custos. Uma reportagem histórica da Agência Brasil examinou o peso dos juros elevados sobre a dívida pública, situação que permanece idêntica até os dias atuais, reduzindo, por isso, a margem orçamentária para realização de investimentos públicos, o que reduziu sobremaneira a competitividade nacional. Vencemos a hiperinflação, mas não asseguramos uma trajetória continuada de prosperidade. Estabilidade monetária e elevação da produtividade precisam integrar o mesmo projeto.
Um presidente não realiza sozinho essa transformação. Reformas duradouras dependem de maioria parlamentar, coordenação federativa, capacidade administrativa e sustentação social. Precisam envolver trabalhadores, universidades, organizações civis e setores produtivos interessados em ampliar a capacidade do país. O consenso necessário não é unanimidade nem suspensão dos conflitos: é um acordo suficientemente amplo sobre objetivos, instrumentos e responsabilidades. Sem um movimento nacional, o plano corre o risco de tornar-se uma declaração de intenções. Sem metas, orçamento, transparência e avaliação, a mobilização pode perder tração e engajamento. Governo e a base social que o elegeu têm funções distintas, mas precisam atuar de maneira complementar.
A possibilidade eleitoral continua aberta. Os mais de 33 milhões de ausentes e os votos atribuídos a outras candidaturas permitem mudanças relevantes, sem assegurar sua direção. Nenhum desses grupos pertence previamente a Lula. Reconhecer esse espaço não autoriza minimizar o resultado de Flávio, mas impede tratar a derrota do primeiro turno como sentença definitiva. O desafio de Lula é apresentar uma perspectiva de futuro convincente até o dia da votação. A existência de projeto de país consistente importa tanto para conquistar o governo quanto para disputar democraticamente a sociedade caso se esteja fora dele.
Mesmo que a virada nas urnas não venha, essa formulação pode transformar uma derrota eleitoral no início de uma vitória política futura. Um bloco democrático e soberano, unido por um projeto de desenvolvimento nacional e social, teria condições de organizar uma oposição coesa durante os quatro anos seguintes. A vitória do projeto bolsonarista implicará necessariamente em um projeto antipopular, com a subordinação dos interesses nacionais aos do centro político da extrema-direita mundial estabelecido em Washington e ao de setores da burguesia brasileira que defendem um ajuste fiscal agressivo com alta capacidade de enfraquecimento das redes de segurança social e econômica, capaz de frustrar a expectativa de prosperidade que o elegeu. Mas o desgaste de um eventual governo Flávio não seria automático: a oposição precisaria demonstrar a correlação entre seus atos e consequências e oferecer alternativas, sem esperar passivamente pelo fracasso adversário.
Essa frente não precisa ficar restrita à esquerda. Pode reunir centro e setores democráticos da direita, desde que também eles se disponham a discutir novos marcos econômicos. Uma aliança que exige dos progressistas a revisão de suas posições, mas declara intocáveis as escolhas econômicas dos parceiros, nasce desequilibrada. Amplitude democrática precisa comportar negociação recíproca e compromissos públicos. Defender instituições é um ponto de encontro indispensável; construir um país capaz de oferecer trabalho, segurança e perspectiva de mobilidade social é o passo necessário para dar duração social a esse encontro.
Uma virada é possível, portanto, em dois sentidos. O eleitoral permanece incerto. O político começa quando a defesa de Lula deixa de se limitar ao que seus feitos do passado representam e passa a organizar o que o país pretende realizar. O candidato de 80 anos ainda pode disputar a ideia de futuro contra uma candidatura de restauração. Para isso, precisa vincular democracia, soberania e transformação econômica a um compromisso que ultrapasse sua própria biografia. Ganhar mais uma eleição seria decisivo; deixar uma força social organizada e um projeto nacional capaz de atravessar governos seria um legado mais duradouro. É essa possibilidade que torna a disputa relevante para além de seu resultado imediato.
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Gustavo Vilas Boas
Advogado, mestre em Função Social do Direito e ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Maran.hão (TRE-MA, entre 2018 e 2020)
Por Gustavo Vilas Boas
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos; Lula, com 45,16%. A distância de aproximadamente 2,22 milhões de votos é suficientemente pequena para manter a disputa aberta e suficientemente concreta para exigir uma mudança de rumo. Outros 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Não constituem uma reserva automática de nenhuma candidatura, mas lembram que o resultado ainda pode mudar. A questão decisiva, entretanto, ultrapassa a aritmética: Lula conseguirá apresentar uma razão para o futuro que seja mais forte do que o desejo de encerrar seu ciclo?
O Datafolha realizado em 2 e 3 de outubro oferecia uma fotografia anterior à votação: na simulação de segundo turno, Lula tinha 47%, contra 46% de Flávio, em empate técnico. Esse levantamento não descreve a disputa depois das urnas e tampouco pode ser comparado diretamente ao resultado de primeiro turno, que envolvia outros candidatos e outra base de cálculo. Sua contribuição mais interessante está nos recortes sociais: eles permitem questionar explicações fáceis sobre quem deseja mudança e por quê.
Uma dessas explicações é a de que a esquerda envelheceu e perdeu os jovens. Suas principais lideranças nacionais, de fato, carregam a experiência da ditadura, das lutas sindicais e da redemocratização. Lula é a expressão mais evidente dessa longevidade. Mas a idade das lideranças não determina a idade de seus eleitores. A pesquisa da véspera mostrava precisamente o contrário da hipótese de abandono juvenil: o presidente tinha vantagem entre os mais jovens, assim como entre os mais velhos. O problema geracional é mais complexo do que uma oposição entre juventude conservadora e velhice progressista.
Na simulação direta, Lula registrava 52% contra 40% entre os eleitores de 16 a 24 anos e 51% contra 42% entre aqueles com 60 anos ou mais. Flávio liderava entre 25 e 34 anos, por 51% a 41%, e aparecia numericamente à frente entre 35 e 44 anos, por 50% a 42%, neste caso no limite do empate técnico. Entre 45 e 59 anos, havia praticamente igualdade: 47% a 46% para Lula. A curva era aproximadamente um U: o presidente mais forte nos extremos, o adversário no miolo da vida adulta. Esse desenho localiza uma dificuldade; não explica sozinho sua origem.
A idade precisa ser relacionada às condições materiais. Em entrevista à BBC News Brasil, publicada pela Folha em janeiro de 2025, André Singer chamava atenção para a queda do apoio ao governo na passagem da renda familiar de até dois salários mínimos para a faixa de dois a cinco. Sua interpretação relacionava a insatisfação ao custo de vida e à fragmentação do trabalho: plataformas, informalidade e formas precárias de empreendedorismo enfraqueciam a experiência coletiva que havia dado origem ao PT. Essa hipótese ajuda a formular a pergunta correta: que expectativas de segurança e ascensão foram frustradas na vida de parte desses trabalhadores?
Também mudou a relação com a história. Para quem não viveu politicamente a ditadura, a democracia é uma condição de partida, mesmo quando ameaçada. Direitos que precisaram ser conquistados por uma geração podem aparecer à seguinte como obrigações elementares do Estado. Isso não significa desprezar eleições livres, saúde ou educação; significa exigir que funcionem e que permitam avançar. A defesa da Constituição perde potência quando se resume à preservação institucional e deixa de expressar suas promessas de igualdade, desenvolvimento e bem-estar. Uma conquista histórica não pode transformar-se em justificativa para baixar as expectativas de quem veio depois.
Os primeiros governos Lula ficaram associados à experiência concreta de ascensão: entre 2003 e 2009, quase 30 milhões de pessoas ingressaram no estrato de renda então chamado de classe média. Essa classificação não eliminava vulnerabilidades nem convertia trabalhadores em proprietários, mas registrava uma mudança material importante. Em 2022, segundo o Diretor da FGV Social, passados 7 anos desde a crise econômica de 2015-2016, a situação desse extrato da população era sofrida e havia uma nova geração da classe C que não viveu uma escassez, o que faz com que ela se ressinta mais. No terceiro mandato, a melhora também aparece nos indicadores: segundo a Tendências Consultoria, em 2024 as classes A, B e C voltaram a reunir mais da metade dos domicílios brasileiros — 50,1%, marca que não era alcançada desde 2015. Esse retorno, porém, pode carregar um significado psicológico diferente. Para quem perdeu posição nos ciclos de recessão e estagnação, recuperar renda e capacidade de consumo pode ser vivido como restituição de condições que já considerava um direito conquistado, e não como chegada a um novo patamar de vida. Recuperar o que se perdeu importa, mas não necessariamente desperta a mesma percepção de transformação que experimentar uma conquista pela primeira vez. Essa memória ajuda a entender a força do lulismo e também o tamanho da cobrança que recai sobre ele: quem simbolizou a possibilidade de melhorar de vida passa a ser julgado pela capacidade de reabrir esse caminho.
O paradoxo já havia sido percebido em 2014. Uma análise de dirigentes do Datafolha descrevia os “filhos da inclusão” como um eleitorado mais escolarizado e exigente, cujas transformações não encontravam correspondência suficiente nas instituições e nos serviços. A inclusão não produz gratidão eleitoral permanente. Produz cidadãos com novas necessidades, capacidade de comparação e disposição para cobrar. Parte da frustração pode nascer justamente do sucesso anterior: depois de entrar na universidade, consumir mais ou melhorar a moradia, é razoável esperar trabalho compatível, serviços melhores e uma vida menos insegura.
Ocorre que a trajetória posterior interrompeu muitas dessas expectativas. Uma parcela dos adultos de hoje conheceu, na infância ou na juventude, a promessa de ascensão e chegou à maturidade sob condições muito menos favoráveis. Diploma, esforço e jornadas extensas deixaram de parecer suficientes para construir patrimônio ou obter estabilidade. Não se trata de atribuir uma consciência única a milhões de pessoas, mas de reconhecer que a lembrança das conquistas passadas não garante ao PT eterna gratidão da classe trabalhadora.
A direita radical encontrou espaço nessa distância entre promessa e experiência. Sua narrativa oferece responsáveis identificáveis: impostos, burocracia, corrupção, esquerda, judiciário politizado e com privilégios, bem como um “Estado burocrático” apresentado como obstáculo à prosperidade. Alguns desses problemas são reais; a operação política consiste em reuni-los numa explicação que promete libertar o indivíduo eliminando controles e proteções coletivas. O trabalhador submetido a relações econômicas desiguais é convidado a acreditar que vencerá sozinho se o poder público deixar de atrapalhá-lo. Uma esquerda que responda apenas com a celebração de seu passado deixa sem resposta a insegurança que torna essa promessa atraente.
A economia de 2026 contém essa contradição. A reportagem da Folha publicada na véspera da eleição descreveu avanços no emprego e na renda convivendo com dívidas elevadas. Em agosto, 82% das famílias tinham compromissos financeiros a vencer; 29,9% estavam inadimplentes. São conceitos diferentes: ter uma prestação não equivale a não conseguir pagá-la. Ainda assim, o quadro mostra por que um mercado de trabalho melhor não se traduz automaticamente em tranquilidade doméstica. Uma parte da renda que aumenta já chega comprometida com obrigações anteriores.
Para quem enfrenta crédito caro, aluguel e prestações, a prosperidade se mede pelo que sobra e pelo que se consegue planejar. Um indicador nacional favorável não paga uma dívida individual. Isso não invalida os resultados do governo, mas nos obriga a compreender seus limites. Flávio explorou o endividamento e o custo de vida enquanto Lula destacou os recordes de emprego e renda. Assim a oposição conseguiu dar expressão política a contradições reais, apresentando-as como esgotamento do governo. Combatê-la exige enfrentar essas contradições, sem tratar a insatisfação como simples erro de percepção.
O desgaste institucional acrescentou outra camada ao mal-estar. No Datafolha de setembro, 48% afirmavam não confiar no STF, contra 43% em março, recorde da série iniciada em 2012. Outros 14% confiavam muito e 35%, um pouco. A desconfiança atingia 69% entre os que declaravam voto em Flávio e 22% entre os de Lula. A pesquisa mostra a associação entre polarização e credibilidade da Corte, sem demonstrar qual fenômeno causou o outro. Defender a democracia, nesse contexto, exige também defender transparência, apuração de suspeitas e prevenção de conflitos de interesses. Porém, ao mesmo tempo que Lula defendeu a investigação de todos ministros envolvidos, fez questão de deixar claro que não é Delegado de Polícia, nem Juiz. Seu aliado político, Flavio Dino pediu vista do processo na famigerada sessão que decidiria a abertura ou não de inquérito contra Alexandre de Moraes. Defendeu genericamente mudanças na nomeação de ministros da Corte, mas não apresentou uma proposta concreta de reforma política ou do Judiciário. Essa postura vacilante contribuiu com a desconfiança do eleitor “independente”, que pendeu para aquele que fazia ataques mais veementes à corte e a ministros específicos.
As bets aprofundam o encontro entre insegurança econômica e descrença. Sua trajetória atravessa três governos: a autorização das apostas esportivas de quota fixa foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Temer em 2018; Bolsonaro encerrou o mandato sem concluir a regulamentação; Lula sancionou a Lei 14.790/2023, estruturando controles e incluindo também jogos online de quota fixa. É impreciso atribuir a Lula a origem de todo o mercado, assim como seria incorreto desconsiderar sua responsabilidade por consolidar o espaço legal da atividade. Fiscalização e arrecadação foram combinadas com a aceitação de um negócio cujos custos sociais já exigiam atenção.
A promessa de dinheiro rápido encontra terreno fértil onde o trabalho parece incapaz de atender aos anseios materiais. Para parte dos apostadores, as perdas levam à tentativa de recuperação, a novas dívidas e ao sofrimento que passa a atingir a família. Acesso permanente pelo celular e ciclos rápidos dos cassinos online aumentam a exposição, que causa endividamento, vergonha e associação com ansiedade e depressão, que podem anteceder ou acompanhar a dependência. Não é necessário supor que todo apostador tenha um transtorno para reconhecer o problema: a exploração comercial da esperança pode agravar justamente a sensação de fracasso da qual promete oferecer uma saída. Dessa maneira, as bets, na conjuntura, ajudaram a aumentar o mal-estar econômico, com aumento do endividamento e desviando recursos de setores que poderiam ajudar no crescimento da economia.
Em que pese a calcificação do perfil ideológico do eleitorado, como bem demonstrado por Felime Nunes e Thomas Traumann no seu livro “A Biografia do Abismo”, a força eleitoral do candidato não demonstra que todos os seus votantes compartilhem integralmente o projeto bolsonarista. É plausível, portanto, que o que tenha decidido o resultado do primeiro turno tenha sido um voto de punição daqueles eleitores independentes, que em 2022 acreditaram que com a volta de Lula, regressaríamos a uma nova era de bonança e mobilidade social acelerada, como foi nos seus primeiros governos. Assim, seria um equívoco político presumir que toda insatisfação pertence definitivamente à extrema-direita, bem como imaginar que ela se desfará apenas porque se relembrem os riscos do adversário.
No entanto, o desejo pela mudança com Flávio contém contradição inescapável: representa, na verdade, o retorno de uma família que já governou o país e tem um projeto claro de desmonte democrático. João Moreira Salles reúne, na Piauí de outubro deste ano, declarações em que o candidato promete honrar o legado do pai e lhe reservar espaço num eventual governo. Não é preciso presumir que Jair controlará cada decisão do filho para reconhecer o conteúdo restaurador dessa candidatura. O desejo de sair do presente não informa, por si só, a direção da mudança.
O mesmo texto de Salles oferece uma crítica que o campo progressista deveria levar a sério. Após expor os riscos do bolsonarismo, ele reconhece conquistas de Lula, mas aponta a ausência de um projeto de futuro. A força desse diagnóstico está em recusar a falsa escolha entre fazer autocrítica e defender a democracia. É possível considerar a candidatura de Flávio perigosa e, ao mesmo tempo, julgar insuficiente o horizonte oferecido pelo terceiro mandato. A segunda avaliação ajuda a explicar por que a primeira, isoladamente, já não convence como antes.
Lula não precisa de um quarto mandato para assegurar seu lugar na história. Sua biografia já está inscrita na experiência política brasileira. O que precisa justificar é a utilidade de mais quatro anos para quem não deseja apenas recordar o que viveu ou conhecer o que aconteceu antes de nascer. Uma eleição não deveria funcionar como cerimônia de coroação. A memória de um governo só se transforma em promessa convincente quando permite imaginar o próximo passo. A pergunta central deixou de ser quanto o Brasil deve a Lula: passou a ser que país ele ainda se dispõe a ajudar a construir.
É nesse sentido que cabe desejar o retorno do “Lula do Velho Testamento”: menos acomodado à administração dos limites, mais disposto a explicitar os conflitos que os produzem. Não se trata de abandonar negociação ou garantias democráticas. Trata-se de dizer quem ganha e quem perde com escolhas econômicas apresentadas como inevitáveis. A política recupera sentido quando torna esses conflitos inteligíveis e assume compromissos sobre como enfrentá-los.
A luta de classes, nessa perspectiva, tem expressões bastante concretas: tempo de trabalho, custo do crédito, tributação do consumo, proteção patrimonial e distribuição do orçamento. Nesse sentido, é pedagógico quando Salles relatou o contraste entre a indignação empresarial com benefícios sociais e a observação do próprio André Esteves (BTG Pactual) sobre subsídios recebidos pelo próprio mercado financeiro. Um projeto de desenvolvimento nacional precisa distinguir a remuneração do investimento produtivo da proteção de ganhos que pouco contribuem para ampliar emprego, capacidade tecnológica e bem-estar.
Há espaço social para essa discussão, mas não uma fórmula retórica infalível. Na Quaest de julho de 2025, 63% apoiavam aumentar impostos dos mais ricos para reduzir os dos mais pobres; ao mesmo tempo, 53% rejeitavam o discurso de “ricos contra pobres” por associá-lo à ampliação dos conflitos. A pesquisa também registrou oscilação favorável a Lula após o tarifaço de Trump, sem isolar suas causas. O recado é mais exigente do que a defesa de elevar o tom: propostas distributivas podem obter apoio mesmo entre pessoas que recusam a linguagem escolhida para apresentá-las. O confronto, portanto, precisa ter objeto, finalidade e resultado compreensíveis.
Um projeto de futuro deve dar unidade a essa disputa. Reindustrialização, produtividade, ciência, inteligência artificial, soberania digital, transição energética, infraestrutura, ampliação massiva da malha metroferroviária e do Programa Minha Casa Minha Vida não podem aparecer como uma lista de anúncios. Precisam responder a uma pergunta comum: como o país produzirá mais riqueza, dominará tecnologias e converterá esses ganhos em melhores condições de vida? A Constituição já associa a ordem econômica à valorização do trabalho, à soberania nacional e à redução das desigualdades. Transformar esses objetivos em direção efetiva do Estado seria uma maneira de ligar a defesa democrática à transformação material que parte da sociedade reclama.
Isso exige também disputar a reforma das instituições. Defender sua independência não significa considerá-las imunes a aperfeiçoamento ou indiferentes aos interesses que representam. Transparência, controle do poder econômico, responsabilização e participação social pertencem a uma agenda democrática. A alternativa à captura autoritária não pode ser a preservação de todos os arranjos existentes. O campo progressista precisa demonstrar que há mudanças institucionais capazes de ampliar direitos e outras capazes de concentrar poder, embora ambas possam ser apresentadas ao público com o mesmo vocabulário de renovação.
O primeiro turno tornou essa distinção mais urgente. O PL terá 28 das 81 cadeiras do Senado. A Folha identificou ao menos 49 senadores favoráveis ao impeachment de ministros do STF, ainda que com ressalvas, cinco abaixo dos 54 necessários à condenação. Esse conjunto não constitui uma bancada homogênea nem assegura votos em processos concretos. Ainda assim, mostra que a possibilidade de afastamentos deixou de ser apenas uma palavra de ordem distante. Sua execução dependeria de alianças, da condução do Senado e das circunstâncias de cada caso, num ambiente de pressão sobre a Corte.
A renovação ordinária do Supremo amplia o alcance da eleição. À vaga deixada por Barroso somam-se as aposentadorias compulsórias de Fux, em 2028, e Cármen Lúcia, em 2029. Gilmar Mendes alcança a idade-limite em 30 de dezembro de 2030, o que deixa incerteza sobre o momento de sua substituição. A Folha apontou a possibilidade de quatro indicações. Cada nome depende de aprovação do Senado e a nomeação não garante fidelidade futura. Mas a autonomia formal não dispensa o exame das condutas: o comportamento dos atuais indicados por Bolsonaro fornece razões concretas para levar a sério o risco de alinhamento político.
No caso de André Mendonça, a divulgação do relatório sobre Vorcaro e Moraes no início de setembro colocou o colega sob forte pressão às vésperas do 7 de Setembro, em plena campanha. Reinaldo Azevedo interpretou a atuação como intervenção orientada pelo calendário eleitoral; Igor Gielow, na Folha, também identificou benefício político para Flávio no momento da divulgação. Considero o episódio um indício relevante de convergência com o projeto bolsonarista. Isso não transforma intenção partidária em fato judicialmente provado nem dispensa apuração das suspeitas contra Moraes. Obriga, porém, a examinar a atuação de quem investiga com o mesmo rigor aplicado a quem é investigado.
Nunes Marques oferece outro exemplo. Segundo a reportagem da Folha de 5 de outubro, ele pretende julgar a revisão criminal de Bolsonaro depois do segundo turno, independentemente do vencedor, e avalia libertá-lo por liminar. A matéria ressalva que levar o caso ao plenário é o cenário mais provável. Flávio conta com uma decisão favorável para subir a rampa acompanhado do pai; a PGR, por sua vez, pediu a rejeição da revisão. Há, portanto, uma intenção clara do ministro e uma expectativa política explicitada pela família. Somadas ao histórico de Mendonça, vê-se uma clara convergência política de setores do STF alinhados com o projeto bolsonarista de poder, deixando, portanto, de ser preocupação meramente abstrata.
A hipótese formulada por Reinaldo Azevedo é a de que novas indicações, somadas a Mendonça e Nunes Marques, poderiam produzir maioria alinhada no Supremo; eventuais impeachments ampliariam essa possibilidade. Trata-se de um alerta importante no sentido de que uma transformação profunda no regime político pode ocorrer com um alinhamento entre Executivo, Congresso e STF por meio de uma nova correlação de forças altamente favorável para a extrema-direita. A presença formal das instituições, por si só, não assegura que continuem funcionando como limites recíprocos ao poder.
As declarações de Flávio dão substância a essa preocupação. Em entrevista à Folha em junho de 2025, ele afirmou que o candidato apoiado pelo pai deveria garantir seu indulto e enfrentar eventual resistência do Supremo, chegando a mencionar o “uso da força”. O problema ultrapassa a influência pessoal de Jair sobre o filho. Está no compromisso de subordinar o funcionamento das instituições à reparação política reivindicada por uma família e por seu grupo.
A dimensão internacional também precisa entrar nessa avaliação. O tarifaço de Trump, associado à pressão em favor de Bolsonaro, já mostrou que interesses familiares podem buscar apoio externo com custos para o país. Nesse sentido, a interferência estrangeira se dá por meio de um grupo político radicado em solo nacional, como uma espécie de “quinta coluna”. Uma aliança política transnacional é capaz, assim, de interferir e ditar os rumos políticos do Brasil a partir de um centro nevrálgico em Washington. Um projeto democrático brasileiro precisa afirmar sua capacidade de decidir soberanamente os próprios rumos, negociar internacionalmente e proteger a sua população de interesses estrangeiros capitaneados por uma potência estrangeira.
A tarefa do campo progressista é, portanto, mostrar que segurança econômica e liberdade política podem avançar juntas. Quando a defesa institucional parece pedir resignação diante do sofrimento, ela se enfraquece. A superação desse impasse requer um programa capaz de dar uma base material ao conceito abstrato de democracia.
É por isso que a aprovação e o início da execução de um plano nacional de desenvolvimento são o maior legado estrutural possível de um Lula 4. A Constituição já prevê planejamento estatal e planos nacionais. Falta transformar princípios abstratos em compromisso concreto de longo prazo, com metas produtivas e sociais, financiamento e responsabilidades. O plano deveria organizar a transformação industrial e tecnológica, a transição ambiental e a ampliação dos serviços públicos em torno de ganhos de produtividade distribuídos socialmente.
Do ponto de vista jurídico-institucional, isso exigiria uma agenda articulada de reformas monetárias, cambiais, fiscais e tributárias, com alterações constitucionais e legais específicas, sendo, portanto, dispensável uma nova Constituinte. Crédito de longo prazo, controle eficiente da conta de capitais, proteção do investimento público e tributação mais progressiva precisariam funcionar de modo coordenado, possibilitando, inclusive, com o aumento da produtividade, uma redução estrutural da taxa básica de juros da economia. Superar as amarras neoliberais significa, nessa perspectiva, criar um arcabouço normativo-econômico condizente com objetivos democráticos de desenvolvimento.
O debate sobre o Real ajuda a precisar essa diferença. O fim da hiperinflação foi uma conquista social duradoura, particularmente para quem não conseguia proteger sua renda. Mas os instrumentos usados para sustentar a estabilidade tiveram custos. Uma reportagem histórica da Agência Brasil examinou o peso dos juros elevados sobre a dívida pública, situação que permanece idêntica até os dias atuais, reduzindo, por isso, a margem orçamentária para realização de investimentos públicos, o que reduziu sobremaneira a competitividade nacional. Vencemos a hiperinflação, mas não asseguramos uma trajetória continuada de prosperidade. Estabilidade monetária e elevação da produtividade precisam integrar o mesmo projeto.
Um presidente não realiza sozinho essa transformação. Reformas duradouras dependem de maioria parlamentar, coordenação federativa, capacidade administrativa e sustentação social. Precisam envolver trabalhadores, universidades, organizações civis e setores produtivos interessados em ampliar a capacidade do país. O consenso necessário não é unanimidade nem suspensão dos conflitos: é um acordo suficientemente amplo sobre objetivos, instrumentos e responsabilidades. Sem um movimento nacional, o plano corre o risco de tornar-se uma declaração de intenções. Sem metas, orçamento, transparência e avaliação, a mobilização pode perder tração e engajamento. Governo e a base social que o elegeu têm funções distintas, mas precisam atuar de maneira complementar.
A possibilidade eleitoral continua aberta. Os mais de 33 milhões de ausentes e os votos atribuídos a outras candidaturas permitem mudanças relevantes, sem assegurar sua direção. Nenhum desses grupos pertence previamente a Lula. Reconhecer esse espaço não autoriza minimizar o resultado de Flávio, mas impede tratar a derrota do primeiro turno como sentença definitiva. O desafio de Lula é apresentar uma perspectiva de futuro convincente até o dia da votação. A existência de projeto de país consistente importa tanto para conquistar o governo quanto para disputar democraticamente a sociedade caso se esteja fora dele.
Mesmo que a virada nas urnas não venha, essa formulação pode transformar uma derrota eleitoral no início de uma vitória política futura. Um bloco democrático e soberano, unido por um projeto de desenvolvimento nacional e social, teria condições de organizar uma oposição coesa durante os quatro anos seguintes. A vitória do projeto bolsonarista implicará necessariamente em um projeto antipopular, com a subordinação dos interesses nacionais aos do centro político da extrema-direita mundial estabelecido em Washington e ao de setores da burguesia brasileira que defendem um ajuste fiscal agressivo com alta capacidade de enfraquecimento das redes de segurança social e econômica, capaz de frustrar a expectativa de prosperidade que o elegeu. Mas o desgaste de um eventual governo Flávio não seria automático: a oposição precisaria demonstrar a correlação entre seus atos e consequências e oferecer alternativas, sem esperar passivamente pelo fracasso adversário.
Essa frente não precisa ficar restrita à esquerda. Pode reunir centro e setores democráticos da direita, desde que também eles se disponham a discutir novos marcos econômicos. Uma aliança que exige dos progressistas a revisão de suas posições, mas declara intocáveis as escolhas econômicas dos parceiros, nasce desequilibrada. Amplitude democrática precisa comportar negociação recíproca e compromissos públicos. Defender instituições é um ponto de encontro indispensável; construir um país capaz de oferecer trabalho, segurança e perspectiva de mobilidade social é o passo necessário para dar duração social a esse encontro.
Uma virada é possível, portanto, em dois sentidos. O eleitoral permanece incerto. O político começa quando a defesa de Lula deixa de se limitar ao que seus feitos do passado representam e passa a organizar o que o país pretende realizar. O candidato de 80 anos ainda pode disputar a ideia de futuro contra uma candidatura de restauração. Para isso, precisa vincular democracia, soberania e transformação econômica a um compromisso que ultrapasse sua própria biografia. Ganhar mais uma eleição seria decisivo; deixar uma força social organizada e um projeto nacional capaz de atravessar governos seria um legado mais duradouro. É essa possibilidade que torna a disputa relevante para além de seu resultado imediato.
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Gustavo Vilas Boas
Advogado, mestre em Função Social do Direito e ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Maran.hão (TRE-MA, entre 2018 e 2020)
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