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O novo Brasil que a política (ainda) ignora

Digitalização é cada vez mais dominante, mas convive com imensa desigualdade e condição subalterna do país. Não é mais possível transformá-lo sem examinar tudo o que muda na base da sociedade – e sem lutar por soberania tecnológica



De OutrasPalavras, 9 de outubro 2026


O resultado eleitoral de 2026 pode ser lido para além da disputa entre candidatos e partidos. Ele revela uma sociedade que mudou profundamente nas últimas décadas e cuja transformação ainda não foi plenamente incorporada pela política, pelas instituições e pelas próprias categorias convencionais utilizadas para compreender o Brasil.

O país que vota hoje já não é mais o mesmo daquele para o qual foram desenhadas muitas das instituições econômicas, trabalhistas e políticas da Nova República. Durante grande parte do século XX, o desenvolvimento brasileiro foi pensado a partir da sociedade urbana e industrial, como fábricas, grande empresa, emprego assalariado, sindicato, estabelecimento comercial, jornada de trabalho, previdência e Estado regulador.

Esse mundo não desapareceu. Mas deixou de ser suficiente para explicar a totalidade do país. A economia brasileira tornou-se predominantemente de serviços, enquanto a digitalização modificou a própria forma de produzir e distribuir. A residência pode ser simultaneamente moradia, escritório, cozinha produtiva, loja, estúdio e espaço de prestação de serviços. O telefone celular transformou-se em instrumento de trabalho, comercialização, pagamento, publicidade e relacionamento com clientes.

Em 2025, por exemplo, 95% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet e 97,4% possuíam telefone celular. São aproximadamente 76 milhões de domicílios conectados. O dado não representa apenas inclusão tecnológica, pois revela a formação de uma nova infraestrutura social e econômica no país.

É preciso, porém, ir além da ideia convencional de economia digital. Ela costuma aparecer como se fosse mais um setor ao lado da indústria, da agropecuária e dos serviços. Essa definição tornou-se insuficiente. A economia digital é, cada vez mais, uma infraestrutura que atravessa praticamente todos os setores.

Está no aplicativo bancário que permite receber e transferir dinheiro, no sistema de pagamento utilizado pelo pequeno comerciante, no aplicativo que leva o alimento produzido em uma cozinha doméstica até o consumidor, no marketplace que transforma uma residência em ponto de venda, no algoritmo que distribui publicidade ao produtor de conteúdo, na plataforma que conecta motorista e passageiro, no software que organiza uma pequena empresa, na nuvem que hospeda seus dados, na inteligência artificial que começa a participar da produção intelectual.

Por isso, uma pergunta mais importante do que quantos brasileiros trabalham no chamado num setor digital é buscar saber quantos dependem diretamente da infraestrutura digital para realizar seu trabalho e obter renda? Não existe ainda uma estatística nacional oficial, capaz de medir integralmente esse universo.

Mas, considerando trabalhadores de aplicativos, comércio eletrônico, produtores de conteúdo, prestadores de serviços mediados por plataformas, produtores de alimentos comercializados digitalmente, atividades profissionais realizadas pela internet e outras formas de trabalho cuja produção, venda ou remuneração depende diretamente de plataformas e dados, pode-se estimar cerca de um quarto dos ocupados brasileiros já tenha dependência direta da infraestrutura digital para seu trabalho e sua renda.

Um motorista, por exemplos, que dependa de uma plataforma para encontrar passageiros está vinculado a economia digital, ainda que pertença ao setor de transporte. Do mesmo modo, o restaurante que dependa de aplicativos para receber pedidos segue vinculado ao setor alimentação, assim como o pequeno vendedor que dependa de marketplace, redes sociais e meios digitais de pagamento está vinculado ao setor do comércio.

Por outro lado, as atividades desenvolvidas na residência como o produtor de alimentos que atenda a demanda de consumidores ou a psicóloga que preste serviços remotamente, ambos por plataformas, estão conectados pela economia digital. Os produtores de conteúdo conseguem transformar a audiência em renda por meio das redes sociais.

São inenris exemplos que a digitalização, portanto, não está apenas criando novas atividades. Está reorganizando atividades antigas e modificando a forma pela qual milhões de pessoas acessam o mercado, trabalham, vendem, recebem e obtêm renda.

Essa é uma transformação decisiva para compreender o Brasil contemporâneo, bem como contribuiu também para interpretar os resultados eleitorais recentes.

A sociedade brasileira tornou-se mais conectada, mas não necessariamente mais protegida. A autonomia para trabalhar pode crescer ao mesmo tempo em que aumenta a dependência das plataformas. O pequeno produtor pode escapar da necessidade de possuir uma loja física, mas passa a depender do algoritmo para alcançar seus clientes. O trabalhador pode deixar de ter um patrão convencional, mas pode ser submetido a sistemas de avaliação, ranqueamento, preços dinâmicos e regras que não controla.

É uma nova relação de poder, uma vez que a produção se descentraliza, enquanto a intermediação pode se concentrar. Na sociedade industrial, o poder econômico estava associado sobretudo à propriedade das fábricas, máquinas, terras, lojas e redes físicas. Na sociedade digital, acrescentam-se o controle dos dados, das plataformas, dos algoritmos, dos meios de pagamento, da computação em nuvem e das redes de intermediação.

E é justamente aí que aparece o descompasso do Estado atual. Grande parte da regulação brasileira ainda foi construída para identificar empresa, estabelecimento, empregador, empregado, jornada e território. A nova economia embaralha essas fronteiras.

Onde está o estabelecimento de uma atividade realizada dentro de casa e comercializada por aplicativo? Quem é o empregador quando a jornada é organizada por um algoritmo? Como proteger alguém que combina emprego formal, trabalho por aplicativo, atividade autônoma e produção digital? Como tributar uma atividade cujo mercado, pagamento e infraestrutura estão distribuídos entre diferentes plataformas e países?

O problema brasileiro não é simplesmente ter um Estado grande ou pequeno. É ter instituições construídas para uma sociedade que mudou. Isso, por fim, rebate inexoravelmente no processo eleitoral que não pode ser reduzido a uma reação automática à economia. Nenhum resultado possui uma única causa.

Quando a eleição ocorre em um país no qual o desemprego caiu a níveis historicamente baixos sem que tenham desaparecido a informalidade, a insegurança econômica e a desigualdade de renda e proteção, o problema social deixa de ser apenas a ausência de emprego. Passou a envolver a qualidade da inserção econômica, a autonomia, a proteção, o tempo disponível, a renda e o controle sobre os meios pelos quais cada indivíduo consegue trabalhar.

É uma sociedade em que milhões de pessoas podem estar economicamente conectadas e, simultaneamente, socialmente vulneráveis. A política, em geral, ainda fala frequentemente com categorias da sociedade industrial, pois trata da antiga convenção do trabalhador versus empresário, emprego versus desemprego, fábrica versus serviço, público versus privado.

A realidade, contudo, tornou-se muito mais híbrida. A nova questão social está espalhada pelas casas, pelas ruas, pelos aplicativos e pelas plataformas. Por isso, a agenda brasileira precisa mudar.

Não parece suficiente regular o emprego tradicional. É preciso construir proteção social para trajetórias profissionais descontínuas. Não basta fiscalizar empresas convencionais. É preciso regular plataformas. Não basta discutir inclusão digital como acesso à internet. É necessário discutir quem controla os dados e as infraestruturas que organizam o trabalho e a renda.

Também não basta medir quantos brasileiros trabalham no setor digital. É preciso medir quanto da economia brasileira depende da infraestrutura digital.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Assim como a eletricidade transformou a indústria, o comércio e a vida doméstica sem ser apenas mais um setor econômico, dados, conectividade, plataformas e inteligência artificial estão se tornando infraestrutura geral da produção contemporânea.

O Brasil entrou nessa transformação sem ter completado sua industrialização e sem ter superado suas desigualdades históricas. Por isso, vive uma transição híbrida, contendo a indústria avançada e desindustrialização relativa, o agronegócio tecnológico e o trabalho informal, os serviços sofisticados e as ocupações de baixa produtividade, os bancos digitais e a exclusão, a inteligência artificial e a precarização.

O desafio não parece estar na escolha entre indústria e serviços, Estado e mercado, passado e futuro, mas em construir um Estado capaz de governar essa sociedade nova. Um Estado que reconheça o domicílio como espaço potencialmente produtivo, o dado como infraestrutura econômica, a plataforma como nova forma de intermediação, a inteligência artificial como tecnologia estratégica e o trabalhador digital como sujeito de direitos.

A questão decisiva para o Brasil das próximas décadas talvez seja justamente definir quem controlará as infraestruturas digitais das quais dependerá uma parcela crescente do trabalho e da renda dos brasileiros. Se a resposta estiver exclusivamente nas grandes plataformas globais, a descentralização da produção poderá conviver com uma concentração inédita do poder econômico.

Se o Brasil conseguir construir infraestrutura pública de dados, capacidade tecnológica, regulação democrática, proteção social e soberania digital, a mesma transformação poderá ampliar a autonomia produtiva de milhões de brasileiros. A eleição de 2026 não criou essa escolha, porém acontece no momento em que ela começa a se tornar incontornável.

O Brasil mudou. A questão é saber se sua política e seu Estado conseguirão mudar com ele.

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Marcio Pochmann
Economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente da Fundação Perseu Abramo de 2012 a 2020, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, entre 2007 e 2012, e secretário municipal de São Paulo de 2001 a 2004. Concorreu duas vezes a prefeitura de Campinas-SP (2012 e 2016). Publicou dezenas de livros sobre Economia, sendo agraciado três vezes com o Prêmio Jabuti.

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