Por LEDA PAULANI*
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1.
Não sou cientista política, especialidade das ciências humanas que reputo das mais complexas, mas quero dar meu pitaco sobre este turbilhão que atravessamos desde o dia 4 de outubro.
A virada épica de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o candidato da corrupta e criminosa extrema direita será objeto de estudo desses especialistas por muito e muito tempo e gerará certamente muito debate. Para mim, porém, uma coisa é indiscutível: houve um levante da sociedade civil que desentranhou do impossível essa vitória de David contra Golias, um David que incrivelmente é presidente da República e, se tudo fosse normal, deveria ser o Golias da história. Só que não.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi um triunfo contra as possantes e onipresentes big techs, contra o grande irmão do Norte e seu medonho presidente, contra os neofascistas que infelizmente vão ganhando terreno mundo afora e aqui também, contra os mais poderosos interesses materiais que torceram abertamente por sua derrota, contra a grande mídia corporativa que passou a mão na cabeça do candidato criminoso e golpista, tratando-o como um candidato “normal”.
A vitória de Lula foi um triunfo contra um presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que era declarado partidário do outro candidato e militou por ele sem pudor usurpando o poder que lhe foi concedido institucionalmente, contra uma parte do poder público que jogou sujo, tentando impedir o voto de prováveis eleitores seus.
Nos comentários aos borbotões que vão surgindo para dar conta dessa epopeia, as ruas e as redes têm aparecido como personagens obrigatórias. Mas as manifestações de rua gigantescas em todo o país não foram agendadas pela campanha, não foram provocadas pelo PT e/ou por partidos da coligação que apoiavam a reeleição do presidente.
Não! Foi a sociedade civil que se manifestou, que levou um susto ao ver que o país saltaria num precipício e resolveu reagir. Tudo começou com uma manifestação de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói logo no dia seguinte ao início do pesadelo. Foram tais jovens que puxaram o fio que começou a tecer a improvável vitória.
2.
A grande ideia do deputado André Janones de criar o exército de Lula para dominar as redes, driblar os tendenciosos algoritmos e alcançar aquilo que a esquerda nunca tinha conseguido, teria morrido na praia se quase 11 milhões de cidadãos e cidadãs deste Brasil não tivessem entrado de cabeça na proposta.
Mas, além das ruas e das redes, uma miríade de iniciativas completamente individuais e sem coordenação de ninguém foi surgindo de todos os lados.
Gente que, pagando do próprio bolso, imprimia milhares de panfletos para distribuir em vários locais, panfletos que mostravam as conquistas sociais do governo Lula frente a seu horrível antecessor, panfletos que mostravam os inúmeros crimes e negócios escusos do candidato da oposição, panfletos que lembravam os anos terríveis da ditadura e a perda de liberdade que representaria a vitória da extrema direita.
Gente que militou virtualmente sem descanso, na tarefa de converter votos de indecisos e de ausentes no primeiro turno. Gente que no dia mesmo da eleição organizou caronas para levar às seções eleitorais idosos e pessoas com dificuldades que de outra forma não estariam depositando na urna seu voto pela reeleição.
Isto posto, penso que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva se afigura muito mais do que os quatro anos adicionais que os brasileiros e brasileiras lhe deram para governar o país. E digo que representa muito mais não apenas porque livrou o continente latino-americano de uma perigosíssima quase unanimidade da extrema direita, aumentando ainda mais o poder de Donald Trump sobre nossas riquezas e sobre a democracia, não apenas porque simbolizou uma pesada derrota para o movimento que parece irrefreável de ascensão da extrema direita em todo o mundo.
Tudo isso está correto e é fato, mas o valor maior, a meu ver, dessa incrível vitória é que ela vai resolutamente na contramão daquilo que as mais profundas correntes ideológicas produzem hoje em dia neste mundo cada vez mais dominado pelos valores do self-made, da meritocracia, do agir individual racional, onde cada um só cuida de si, de seu proveito próprio, de sua vantagem particular, de seus interesses privados – ideologia, diga-se, imprescindível à forma mercadoria e que a infindável torrente de novidades tecnológicas no mundo das infovias eletrônicas só faz reforçar.
Este mundo sem luz é produto de décadas de neoliberalismo e das mazelas produzidas em termos de desigualdades, de iniquidades e de afrontas à dignidade humana.
Contra o “sujeito neoliberal” nos termos de Pierre Dardot e Christian Laval, o Brasil mostrou ao mundo a beleza do coletivo, do comum, do grupal, do senso de comunidade, da construção de solidariedades; mostrou a ventura da conquista quando ela é de todos; lembrou a todos a alegria, hoje quase ausente, de se sentir parte de algo que nos transcende.
Oxalá a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e do Brasil possa servir para alterar, um pouco que seja, o panorama sombrio deste primeiro quartel do século XXI!
*Leda Paulani é professora titular sênior do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Autora, entre outros livros, de Modernidade e discurso econômico (Boitempo). [https://link.amazon/B0gEWArLu]

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