Do Brasil 247, 16 de outubro 2026
Por Pepe Escobar
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
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A Casa de Saud recebeu uma estarrecedora advertência do Ansarallah e das Forças Armadas do Iêmen: se continuarem a nos atacar, vocês perderão sua infraestrutura petrolífera e a totalidade de sua economia.
Não se trata de uma ameaça. Trata-se de um fato.
Muda a cena para o Supremo Árbitro Saudita MbS e sua patota de consultores, que insistem em atacar um armazém da Empresa de Petróleo do Iêmen situado em Sanaa. Já havia sido anunciado que as instalações estavam vazias. Mesmo assim, os sauditas precisavam de uma operação fotográfica – com incêndios e tudo o mais.
O resultado foi que a infraestrutura petrolífera saudita está ardendo em chamas. Mísseis balísticos e drones das Forças Armadas do Iêmen tomaram como alvo a sede da Aramco em Dammam, a refinaria da Aramco em Riad e a refinaria da Aramco em Rabigh.
As receitas petrolíferas respondem por mais de 60% da renda tributária saudita. O orçamento militar, a absurda farra de gastança da família real, os projetos ostentatórios como o NEOM, tudo isso depende das exportações de petróleo.
A ARAMCO, em termos reais, é a empresa mais valiosa do planeta, extraindo e comercializando o grosso do negro sangue vital que corre nas artérias de sucessivos Bailes dos Vampiros.
Mas agora temos aqueles “terroristas de sandálias” – a demonização brandida apelo Sindicato Epstein – atacando o Vampiro com milhares de pequenas estacas de prata ungidas com alho fresco, possivelmente dia após dia. O resultado, inevitavelmente, serão anos de sangue negro caro e escasso, assim que as inevitáveis manipulações venham a colapsar.
O Eixo da Resistência agora controla de fato ambas as rotas de exportação da Arábia Saudita: o Estreito de Ormuz e o Bab al-Mandab.
No Estreito de Ormuz, a Marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica vem, sucessivamente, atingindo e incendiando uma série de navios-tanque, inclusive um supertanque carregado com dois milhões de barris de petróleo cru saudita.
É bastante simples: qualquer um que desligue os sistemas de navegação e identificação será tratado como alvo hostil e inexoravelmente destruído pela Marinha da Guarda Revolucionária.
Paralelamente, as Forças Armadas do Iêmen controlam o terreno elevado em ambos os lados do Bab al-Mandab. Todos os ataques partindo de forças falsamente sauditas ou mercenárias contra território sob o controle dos iemenitas fracassaram.
Se o Estreito de Ormuz e o Bab al-Mandab forem totalmente fechados de forma simultânea – o que ainda não é o caso – a Casa de Saud não conseguirá exportar uma única gota de petróleo. E, sim, toda sua economia entrará em colapso.
Os aeroportos sauditas já foram paralisados: o King Khalid de Riad, Najran, Jazan, Yanbu, Al-Jawf, o King Abdulaziz de Jeddah, Taif, Dammam. O Ansarallah vem implementando os pontos mais finos de um “bloqueio contra o bloqueio”, o verdadeiro contragolpe ao sítio que a Arábia Saudita vem, há uma década, impondo ao aeroporto de Sanaa.
Não é de admirar que o mundo árabe esteja inundado de piadas louvando outubro como o Mês da Consciência Iemenita em Riad.
O único verdadeiro exército de todo o mundo árabe
MbS teria uma única opção razoável: pôr fim a essa guerra – que ele recomeçou – e suspender o bloqueio ao Iêmen. O Ansarallah não pretende se apoderar das riquezas petrolíferas da Arábia Saudita, eles querem que Riad pare de matar– e provocar fome – entre os iemenitas
No entanto, a Arábia Saudita, os EUA e o Culto à Morte do Oeste Asiático só conseguem conceber um Iêmen governado por um governo fantoche facilmente manipulável. O que explica a composição da atual célula de guerra em Riad: consultores sauditas, do CENTCOM e do Culto à Morte, entre eles um general de alta patente.
Acrescente-se a isso a obscura Aliança de Defesa de Meca – que se resume a uma aproximação de tons sionistas entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, com o objetivo de dar caça aos guerreiros do Ansarallah. Puro Dividir para Dominar – contando, inclusive, com funcionários sauditas saindo em defesa de um ataque a uma nação muçulmana para proteger os interesses de Israel.
Pelo menos, tanto Ancara quanto Islamabad estão começando a se dar conta de que, caso eles abandonem seu atual kabuki “defensivo” e passem a intervir de forma ofensiva contra o Ansarallah, eles, instantaneamente, passarão a ser vistos como alvos legítimos.
MbS, com seu CENTCOM e seus consultores israelenses, vem insistindo em uma guerra contra o único verdadeiro exército do mundo árabe, capaz de conduzir uma guerra de atrito e de fabricar suas próprias armas de precisão: certamente não um bando de farsantes posando com armas de bilhões de dólares que eles sequer sabem operar. O exército iemenita conseguiria esmagar o exército saudita com o pé nas costas.
Todos se lembram que, em 2024 e 2025, as Forças Armadas do Iêmen, sucessivamente, expulsaram do Mar Vermelho dois grupos de ataque de porta-aviões americanos. A Marinha americana ficou profundamente traumatizada. Tão traumatizada quanto no caso do encontro próximo, em inícios de setembro, do USS George Washington com um novo míssil antinavio iraniano, que forçou o porta-aviões a escapar para o sul do Oceano Índico.
Não há como “invadir” o Iêmen. A Geografia importa, principalmente as montanhas escarpadas ao noroeste, controladas pelos “houthis”. Ao contrário da demonização simplória cunhada pela mídia sionista, os houthis – na verdade o Ansarallah – são uma organização religiosa, política, cultural e militar de grande complexidade, contando com uma sofisticada estrutura administrativa que governa a capita Sanaa e grande parte do Iêmen.
Os houthis não são tecnicamente xiitas, eles são zaiditas, relativamente próximos aos sunitas. O termo “houthi” vem da família Houthi – da cidade de Houth – que fundou o Ansarallah e teve um papel central na deposição do ditador Ali Saleh, que governou o Iêmen por 34 anos na condição de um fantoche insignificante da Arábia Saudita e dos Estados Unidos. O Ansarallah derrubou Ali Saleh em 2011, assumindo o controle de Sanaa e de grande parte do Iêmen em 2014.
Então, em 2015, a Arábia Saudita lançou uma guerra contra o Iêmen e ao mesmo tempo deu apoio a um governo fantoche “internacionalmente reconhecido” – instalado em um hotel cinco-estrelas em Riad. Como eu mesmo testemunhei pessoalmente no ano passado, Riad bombardeou indiscriminadamente o Iêmen por onze anos. O número de civis mortos varia de 60 mil – incluindo crianças, mulheres, idosos – a centenas de milhares, situação agravada pela fome a que foram submetidos outras centenas de milhares.
Mesmo assim, o Ansarallah não se deixou derrotar – embora Riad continue a armar gangues mercenárias no sul do Iêmen.
Como discuti extensivamente no ano passado com membros do Conselho Político, o Irã fornece armamentos e apoio de inteligência ao Ansarallah, mas as decisões do Ansarallah giram em torno de uma estrutura completamente independente do Irã, presidia pelo Líder Abdul Malik Al-Houthi.
A conta agora ficou muito mais cara
Como a escalada parece escapar a todo e qualquer controle, o Ansarallah, agora, aumentou o preço da conta da paz: não apenas o fim do bloqueio e a total retirada dos sauditas do Iêmen, mas também o pagamento de indenizações por toda a destruição perpetrada desde 2015.
E caso isso não aconteça, preparem-se para as três províncias do sul saudita – Najran, Jizan e Asir – entrarem na conversa: na verdade, trata-se de terras iemenitas roubadas em 1934 pelos britânicos.
O Ansarallah tem tudo o que é preciso para reconquistar essas três províncias. Se e quando isso acontecer, será o início do fim da dinastia da Casa de Saud.
Como se diz nas ruas árabes: “Ya Rab” (Oh, Deus!”), mas no sentido de “Oh, Senhor, faça com que isso aconteça”. Vastas parcelas das ruas árabes de todo o espectro rezam para que o Oeste Asiático tenha um futuro construído sobre as cinzas dos petro-sheiks quinta-colunistas.
Tradução de Patricia Zimbres

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