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O dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie

Do A Terra É Redonda, 15 de outubro 2026
Por MANUEL CARLOS SILVA*



Foto: Diego Marcel
Como e porquê 58 milhões de brasileiros/as votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e em 2022 e agora de novo 56 milhões em 2026 no filho Flávio?

1.

Contrariando a maior parte das sondagens, os resultados das recentes eleições no Brasil, para além de reforço da extrema direita em governadores, senadores/as e deputados/as eleitos/as evidenciam que Flávio Bolsonaro soma na primeira volta 56.104.503 votos, ou seja, mais 2.224.965 votos sobre a votação em Lula da Silva com 53.879.538 votos (47,03% versus 45,16%).

Considerando a candidatura de Flávio Bolsonaro, este tem um passado de ligação a milícias, de operador de ‘rachadinhas’ apropriando-se da maior parte de salários de contratos fictícios na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de abertura de loja de chocolates de fachada para lavagem de dinheiro, de compra, juntamente com familiares do clã Bolsonaro, de mais de 100 imóveis dos quais 50 com dinheiro vivo e uma mansão de 6 milhões de reais – tudo sob proteção do pai-Presidente e da Abin.

Mais, desde agosto de 2025, pôde contar com o juiz André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) a ocultar ‘doação’ de 61 milhões de reais do banqueiro corruptor Daniel Vorcaro do Banco Master, alegadamente para um filme designado de Dark Horse relativo à figura do seu pai Jair Bolsonaro, viagens do candidato no jato privado do banqueiro e ‘farras íntimas’!

Não se vislumbra qualquer melhoria socio-econômica para a maioria do povo brasileiro; pelo contrário, subsiste um programa de privatizações de empresas públicas, de entrega de terras raras e da própria soberania brasileira aos Estados Unidos da América (EUA) de Donald Trump, o provável impeachment de juízes do STF no Senado e Decreto de amnistia do pai condenado a 27 anos de prisão por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado desde 2021, bem como o assalto vandálico ao Palácio do Planalto, ao Congresso e ao STF a 8 de Janeiro de 2023.

Além disso, é de referir a cumplicidade de Flávio Bolsonaro com a política do pai Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil (2019-2022), com todos os retrocessos socio-políticos para o país e o povo: uso de orçamento secreto e emendas parlamentares para interesses privados; privatização da Electrobras, invasões de terras indígenas e usurpações de terras públicas, madeiras e minérios; devastação ambiental de 2 milhões de hectares com desmatamentos e queimadas predatórias na Amazónia, na Mata Atlântica e no Pantanal; aumento de 4,5 milhões de desempregados; perda de poder de compra; conjunto de 33 milhões de pobres, dos quais 20 milhões de desempregados e desencorajados; cortes no Serviço Único de Saúde (SUS), na Educação, na Investigação e na Cultura, perseguição a Reitores democratas; assassinatos de líderes populares por ‘jagunços’ a mando de fazendeiros sem qualquer punição nem sequer processo judicial.

E, por fim, mas não menos importante, a morte desnecessária de centenas de milhares de brasileiros/as por negacionismo da ciência, publicidade enganosa sobre cloroquina para a Covid19 e consciente rejeição no acesso atempado a vacinas.

2.

Em contrapartida, Lula, originário de família pobre, dirigente sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato presidencial vencido nos anos 1980-90 mas vencedor em 2002 e 2006 – seguido das vitórias do PT com Dilma Rousseff em 2010 e 2014 –, viria a ser objeto da operação Lava Jato, uma armadilha judicial aliciada pela CIA e conduzida pela quadrilha composta pelo Juiz Moro e pelo Procurador Deltan Dellagnol.

Esta operação resultaria no fraudulento processo lawfare para inviabilizar a candidatura de Lula em 2018, aliás precedida duma hedionda prisão com espetáculo mediático e condenação sem provas, vindo mais tarde a ser absolvido deste e doutros processos pelo STF após 580 dias de prisão!

Os governos de Lula da Silva e Dilma Roussef entre 2003 e 2016 e, de novo, neste último de Lula (2023-2026) traduziram-se em diversas políticas públicas: melhor infraestrutura e saneamento; criação de mais de 30 milhões de empregos; aumentos sucessivos do salário mínimo; reforço de direitos laborais; acesso à alimentação básica por meio do Bolsa-Família; retirada de mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema; melhoria do SUS e subsidiação da habitação para famílias carenciadas pelo programa ‘Minha Casa, Minha Vida’; investimento na formação, nomeadamente no Ensino Superior, passando de 3 para 8 milhões de diplomados; reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, afro-descendentes e das comunidades tradicionais, defesa do meio ambiente; e, na política externa, diversificação de parceiros comerciais, nomeadamente com os BRICS; relativa diminuição de dependência e afirmação de soberania face aos EUA de Donald Trump, arauto da doutrina Monroe e práticas gangsterianas na América Latina e no Mundo; solidariedade com países e povos agredidos como Cuba, Venezuela, Irã e sobretudo Palestina, vítima de genocídio por Israel e EUA.

3.

Perante uma sociedade perpassada de profundas desigualdades socio-espaciais (de classe, étnico-raciais e de género) e perante estes dois quadros traçados, coloca-se a pertinente questão: como e porquê 58 milhões de brasileiros/as votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e em 2022 e agora de novo 56 milhões em 2026 no filho Flávio? Como explicar o problema da discrepância entre as reais condições objetivas de vida degradadas das classes populares e a votação maciça não só das elites e de classes intermédias mas também de parte das classes populares pobres nomeadamente no Centro-Oeste, no Sul e Sudeste do Brasil?

Tal não ocorreu porque o povo brasileiro possua um arquétipo essencialista de passividade ou de sentimento masoquista – pois há exemplos de movimento e luta contra ditadura e por direitos laborais e sociais – nem tão pouco por fruir, na generalidade, de uma vida folgada conducente à acomodação passiva, mas certamente porque pessoas trabalhadoras e pobres, ressentidas e desesperadas mas sem consciência da classe a que objetivamente pertencem.

As pessoas são manipuladas por narrativas dos media hegemónicos (Record, SBT, Band, Globo, corresponsáveis do velho ‘antipetismo’ e favoráveis a Flávio Bolsonaro), por fake news de redes sociais dominadas pelos algoritmos das Big-Techs sediadas nos EUA e sobretudo pelo controle manipulativo e alienante, por parte de caciques, patronos, sobretudo grande parte de pastores evangélicos neopentecostais, que capturam as vidas das famílias pobres a nível não só espiritual como de sobrevivência existencial e, consequentemente, na orientação político-eleitoral.

Se adicionarmos a crescente incorporação institucionalizada da vida político-partidária das esquerdas, nomeadamente do PT, parte considerável da população trabalhadora e pobre, sentindo-se desamparada, socorre-se de pastores evangélicos para não piorar a situação, sobreviver e não morrer de fome em nome da segurança socio-económica mínima (safety first).

Isso converge com a tese sustentada por teóricos da ‘economia moral’ (Thompson, Wolf e Scott), enquanto conjunto de experiências e sentimentos de injustiça enraizados nas suas condições materiais de existência, sem organização e apoio suficiente de forças de esquerda e do próprio Estado social e, ainda por cima, rotulados de ‘gado’ ou, pior, de ‘fascistas’ por certos urbanitas de esquerda. Que fazer?

Dado estar em causa o dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie, há que aproximar-se com compreensão e respeito junto de eleitores abstencionistas (33 milhões) e inclusive junto de votantes pobres, esclarecendo-os das consequências nefastas da eleição de Flávio Bolsonaro para suas vidas: perda ou destruição de direitos sociais e laborais, alteração da Constituição de 1988, perda de soberania e subjugação face aos EUA, maior insegurança face ao reforço de milícias e crime organizado, total captura das instituições estatais para interesses privados.

Apesar do cenário complicado, se cada um/a, para além do uso das redes sociais, se envolver de modo comprometido na rua, nos locais de trabalho e de residência, poder-se-á ainda virar o jogo e ter de novo Lula como Presidente!

*Manuel Carlos Silva é professor aposentado de sociologia da Universidade do Minho.

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