Por Gabriel Henrique dos Santos
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Foto: Naeblys/ Getty Images |
Organizações e empresas submetem-se cada vez mais ao colonialismo intelectual. Estudos mostram os riscos de confiança excessiva na tecnologia e dependência das big techs. O desafio: utilizá-las sem abdicar da autonomia e da capacidade de produzir conhecimento
Em Babel, livro de R. F. Kuang, o conhecimento é uma fonte de poder: a universidade britânica da obra depende das competências linguísticas e culturais de pessoas de diferentes origens, mas o conhecimento que elas ajudam a produzir alimenta uma estrutura imperial que não distribui igualmente o controle sobre seus benefícios.
A história é ficcional, mas a questão que levanta ultrapassa as páginas do livro: quem produz o conhecimento e quem captura o valor que ele gera?
No ambiente empresarial, essa pergunta ganha uma nova dimensão com a expansão das ferramentas de inteligência artificial e serviços terceirizados de gestão estratégica. Organizações podem, hoje, contratar soluções capazes de projetar cenários e recomendar decisões sem precisar desenvolver internamente toda a infraestrutura técnica necessária.
O ganho potencial é evidente. Mas existe uma questão menos discutida: ao terceirizar os processos de análise, uma empresa pode também acabar terceirizando a capacidade de pensamento estratégico?
A preocupação não é necessariamente com a tecnologia em si, mas com a relação estabelecida com ela. Essa distinção ajuda a compreender o conceito de dependência tecnológica: quando uma empresa concentra em um fornecedor externo processos críticos, dados, métodos de análise ou infraestrutura, sua autonomia pode ficar condicionada às regras desse fornecedor. A situação se torna particularmente delicada quando a organização não consegue reproduzir as análises ou migrar seus dados sem esse fornecedor.
O problema, portanto, não está simplesmente em comprar tecnologia. Está em depender dela sem preservar a própria autonomia e infraestrutura. Se, em Babel, o conhecimento de diferentes povos é incorporado a uma estrutura que concentra poder no centro imperial, a analogia contemporânea convida a perguntar se organizações que fornecem dados, contexto e experiência também podem se tornar dependentes de sistemas cujas regras não controlam – ou, pior, para fornecedores com interesses próprios e desconhecidos.
Em um artigo publicado em 2019 na revista Race & Class, Michael Kwet argumenta que a concentração de infraestrutura e software nas mãos de grandes empresas pode criar relações assimétricas de poder, inclusive no Sul Global. Embora sua análise trate de uma estrutura mais ampla do que a gestão empresarial, ela oferece uma pergunta pertinente: o que acontece quando uma organização depende de sistemas cujo funcionamento e condições de acesso não controla?
Uma empresa pode, sim, modernizar seus processos sem necessariamente desenvolver, na mesma proporção, sua capacidade interna de produzir conhecimento; pode ganhar velocidade e, ainda assim, ficar vulnerável à indisponibilidade de uma plataforma ou mudança contratual imposta. O desafio não é escolher entre tecnologia e autonomia como se fossem incompatíveis.
Talvez a pergunta mais importante para as organizações que adotam inteligência artificial não seja apenas quanto tempo ou dinheiro conseguem economizar; talvez seja o que continuam sabendo fazer depois que passam a depender dela.
Em estudo publicado on-line em setembro de 2026 na revista Human Systems Management, Youngkeun Choi analisou dados de 400 funcionários e identificou associações entre confiança em sistemas de apoio à decisão por inteligência artificial, intenção de depender desses sistemas e redução percebida do esforço de avaliação independente.
Voltando à ficção de R. F. Kuang, Babel, apresenta elementos de extrativismo intelectual que permitem formular uma pergunta: quando uma organização transfere suas análises para sistemas externos, ela amplia sua capacidade de decisão ou passa a depender de conhecimentos que já não consegue (re)produzir autonomamente?
Nota editorial: Este ensaio articula referências literárias e acadêmicas para discutir a terceirização do pensamento estratégico e a dependência tecnológica nas organizações. As conexões propostas constituem um convite à reflexão e ao debate.
Kwet, M. (2019). Digital colonialism: US empire and the new imperialism in the Global South. Race & Class, 60(4), 3-26. https://doi.org/10.1177/0306396818823172.
Choi, Y. (2026). Trusting AI too much? Understanding judgment attenuation in Human–AI decision support systems. Human Systems Management, 0(0). https://doi.org/10.1177/01672533261490154.
Kuang, R. F. (2022). Babel (Or the necessity of violence): An arcane history of the Oxford translators’ revolution. HarperCollins Publishers.
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Em Babel, livro de R. F. Kuang, o conhecimento é uma fonte de poder: a universidade britânica da obra depende das competências linguísticas e culturais de pessoas de diferentes origens, mas o conhecimento que elas ajudam a produzir alimenta uma estrutura imperial que não distribui igualmente o controle sobre seus benefícios.
A história é ficcional, mas a questão que levanta ultrapassa as páginas do livro: quem produz o conhecimento e quem captura o valor que ele gera?
No ambiente empresarial, essa pergunta ganha uma nova dimensão com a expansão das ferramentas de inteligência artificial e serviços terceirizados de gestão estratégica. Organizações podem, hoje, contratar soluções capazes de projetar cenários e recomendar decisões sem precisar desenvolver internamente toda a infraestrutura técnica necessária.
O ganho potencial é evidente. Mas existe uma questão menos discutida: ao terceirizar os processos de análise, uma empresa pode também acabar terceirizando a capacidade de pensamento estratégico?
A preocupação não é necessariamente com a tecnologia em si, mas com a relação estabelecida com ela. Essa distinção ajuda a compreender o conceito de dependência tecnológica: quando uma empresa concentra em um fornecedor externo processos críticos, dados, métodos de análise ou infraestrutura, sua autonomia pode ficar condicionada às regras desse fornecedor. A situação se torna particularmente delicada quando a organização não consegue reproduzir as análises ou migrar seus dados sem esse fornecedor.
O problema, portanto, não está simplesmente em comprar tecnologia. Está em depender dela sem preservar a própria autonomia e infraestrutura. Se, em Babel, o conhecimento de diferentes povos é incorporado a uma estrutura que concentra poder no centro imperial, a analogia contemporânea convida a perguntar se organizações que fornecem dados, contexto e experiência também podem se tornar dependentes de sistemas cujas regras não controlam – ou, pior, para fornecedores com interesses próprios e desconhecidos.
Em um artigo publicado em 2019 na revista Race & Class, Michael Kwet argumenta que a concentração de infraestrutura e software nas mãos de grandes empresas pode criar relações assimétricas de poder, inclusive no Sul Global. Embora sua análise trate de uma estrutura mais ampla do que a gestão empresarial, ela oferece uma pergunta pertinente: o que acontece quando uma organização depende de sistemas cujo funcionamento e condições de acesso não controla?
Uma empresa pode, sim, modernizar seus processos sem necessariamente desenvolver, na mesma proporção, sua capacidade interna de produzir conhecimento; pode ganhar velocidade e, ainda assim, ficar vulnerável à indisponibilidade de uma plataforma ou mudança contratual imposta. O desafio não é escolher entre tecnologia e autonomia como se fossem incompatíveis.
Talvez a pergunta mais importante para as organizações que adotam inteligência artificial não seja apenas quanto tempo ou dinheiro conseguem economizar; talvez seja o que continuam sabendo fazer depois que passam a depender dela.
Em estudo publicado on-line em setembro de 2026 na revista Human Systems Management, Youngkeun Choi analisou dados de 400 funcionários e identificou associações entre confiança em sistemas de apoio à decisão por inteligência artificial, intenção de depender desses sistemas e redução percebida do esforço de avaliação independente.
Voltando à ficção de R. F. Kuang, Babel, apresenta elementos de extrativismo intelectual que permitem formular uma pergunta: quando uma organização transfere suas análises para sistemas externos, ela amplia sua capacidade de decisão ou passa a depender de conhecimentos que já não consegue (re)produzir autonomamente?
Nota editorial: Este ensaio articula referências literárias e acadêmicas para discutir a terceirização do pensamento estratégico e a dependência tecnológica nas organizações. As conexões propostas constituem um convite à reflexão e ao debate.
Kwet, M. (2019). Digital colonialism: US empire and the new imperialism in the Global South. Race & Class, 60(4), 3-26. https://doi.org/10.1177/0306396818823172.
Choi, Y. (2026). Trusting AI too much? Understanding judgment attenuation in Human–AI decision support systems. Human Systems Management, 0(0). https://doi.org/10.1177/01672533261490154.
Kuang, R. F. (2022). Babel (Or the necessity of violence): An arcane history of the Oxford translators’ revolution. HarperCollins Publishers.
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