Do IHU, 14 Outubro 2026
Por Leonardo Boff
Por Leonardo Boff
"A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe em nós o melhor que temos: o amor que confere sentido à vida", escreve Leonardo Boff.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Escreveu O princípio de compaixão e de cuidado (Vozes, 2000).
Eis o artigo.
A humanidade parece estar em plena guerra civil, dado o número de frentes de conflitos. Temos a impressão de que não sabemos como sair deste caos destrutivo. O fato é que impera o ódio, a ascensão da extrema-direita fascistoide, em várias partes do mundo. Há mortandade coletiva em vários lugares do planeta, especialmente na Faixa de Gaza, na Ucrânia e no Irã. Tais tragédias entre os humanos nos tiram todo o sentido de irmandade.
Apesar disso não morreu a solidariedade e o amor até ao inimigo. O seguinte relato, ocorrido tempos atrás, nos mantém viva a esperança de que o ser humano, por mais cruel que seja, ainda não perdeu sua humanidade mínima.
Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos. Vivia na parte árabe de Jerusalém. Quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima de um disparo fatal vindo de um colono judeu.
Era a vingança contra o grupo palestino do Hamas que, pouco antes, havia, por um homem bomba, matado inúmeras pessoas de uma discoteca. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense mas chegou já morto.
Eis que algo surpreendente aconteceu. O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital, de entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas para transplantes a doentes israelenses. O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.
Segundo a religião muçulmana, disse, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial é que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.
Com efeito, ocorreu um transplante do coração. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.
A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.
Aos que estavam próximo, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas: daqui a algum tempo iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém.
Ygal Cohen vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos. Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós. E assim fizeram de tempos em tempos.
Não obstante a violência criminosa dos soldados israelenses arrasando quase tudo em Gaza e no Sul do Líbano e martirizando centenas de crianças inocentes nunca se perdeu totalmente o mínimo de humanidade mostrada por este chefe do clã palestino e muçulmano.
A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe em nós o melhor que temos: o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alignieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas. E eu diria, também o coração do clã Julani e da esposa de Mazen e o nosso.
Pelo fato de que este gesto foi possível nos nutre o sonho de que há filhos e filhas da Mãe Terra que ainda têm coração, solidariedade e amor. Assim nem uma IA autônoma enlouquecida será mais forte que o amor. Como dizem as Escrituras dos dois Testamentos: mais forte que a morte é o amor. Efetivamente, quem tem o amor, tem tudo, a vida eterna e Deus.

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