Por Luís Fernando Novoa Garzón
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Quem promove Flávio deseja um nada no comando do país. Uma peça vazia a ponto de oferecer moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Mas as torrentes de manifestantes abriram fissuras imprevistas no projeto. Bora, Lula! Bora, frente antifascista e antissistêmica para tudo o que virá!

Não é apenas por Flávio, é sobretudo pelo que não é. Quanto pode valer um nada na cadeira presidencial? A candidatura-tampão do bolsonarismo nasceu com a marca de ter um preço. A soltura de Bolsonaro pai era apenas o valor de face do entreguismo. Na verdade, o que se oferece em troca é um valor sem face na forma de transações futuras com moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Uma desconstituinte que desamarre o Estado de obrigações sociais e ambientais e a subordinação econômico-militar do país como área anexa do Império
Como o Brasil detém autonomia real e potencial para travar o projeto super-imperialista norte-americano, nada melhor para Trump que a fulguração de um holograma programável na Presidência da República do maior país da América Latina. A guerra híbrida promovida por agências do Império e por plataformas digitais busca fazer com que as eleições consagrem no segundo turno uma peça oca e insubstancial no centro das cadeias de comando do país.
Assim como houve o “dia do fogo”, em 10 de agosto 2019, para sinalizar o vale-tudo nas incorporações de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do país, o “Flávio Day”, no dia 05 de outubro de 2026, sinalizou por parte dos mercados um vale-tudo mais amplo, apresentado eufemisticamente como um registro auspicioso de “melhora da percepção do risco fiscal em 2027”.
Trata-se de um golpe que não cabe em si e que transborda para um processo de esvaziamento a vácuo da combalida democracia brasileira. O candidato oferece botões de comando neurais postos nele ao dizer: “O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula.” Basta clicar e tirar, retirar, socavar, queimar, enterrar. Reparem que nulidade em pessoa no poder, significa a possibilidade de anular tudo que impeça o poder totalitário dos designers e controladores desse vão infinito.
Depois de ser ungido pela banca como fiel depositário de divinas indulgências, o candidato posa de vidente e descreve o futuro precificado: “Quando eu for presidente, os juros vão cair. Os juros vão cair de uma forma muito rápida…”. Diminuir a intensidade da sabotagem dos mercados sobre as finanças públicas é essência da “mudança” prometida.
O retorno programado desse esquema foi batizado como “bônus Flávio”. Nos mercados essa mixórdia é tecnificada como cobrança e faturamento do “prêmio de risco”. Primeiro artificializam os riscos inflacionários e fiscais, impondo um viés altista das taxas de juros por meio do mandato “independente” do Banco Central. Após o 1º Turno, foi acionado o efeito da reversão das expectativas antes infladas e os ativos financeiros brasileiros a serem privatizados e internacionalizados foram postos na mesa para o almejado botim.
Os apostadores desse e nesse banquete são os mesmos que promovem a alavancagem de fluxos financeiros para condicionar o resultado eleitoral. Esse escuso “rali eleitoral” logo precisou de um esteio programático que conferisse tons institucionais à operação.
Logo brota uma “Carta ao Brasil pela Liberdade e pela Prosperidade” pelas mãos de serviçais operadores dos grandes fundos de investimento dobrando a aposta em colheitas rentistas extraordinárias nos próximos anos.
A missiva tratou de converter palavras de ordem da Faria Lima em princípios de interesse geral a partir da mitologia da prosperidade. O blefe parte da premissa de que todos humilhados pelas condições objetivas da assimetria de renda e pelas condições subjetivas de incapacidade de pareamento de consumo, ou de ostentação dele, não podem ser outra coisa senão aspirantes ao enriquecimento incondicional.
Na verdade, seus lemas são ultimatos: 1) com o alvo na mira e com as armas engatilhadas, entoa-se: “Liberdade econômica exige segurança jurídica”. Consumada a execução, profere-se a razão: “A propriedade privada, os contratos e o direito de defesa devem ser respeitados”.
A burguesia ancorada no Brasil mostra sua cara leviana e despatriada ao clamar pela oficialização do direito absoluto de propriedade, mandando às favas funções sociais, contrapartidas e condicionalidades acopladas. Estamos diante de uma pornográfica normalização e disseminação de um vorcarismo sem Vorcaro, inerente aos grandes grupos financeiros que devem sua grandeza mais à captura de agências públicas e máquinas partidárias do que a inovações tecnológicas e gerenciais.
As torrentes de manifestantes nas ruas e nas redes enfrentam não apenas Flávio mas uma burguesia financeirizada e desaforada incrustrada nos setores dinâmicos do país. Enfrentam Big Techs, BETs e máfias associadas, desafiam Trump e seus cães adestrados no continente e alhures.
O que está em jogo é perspectiva de uma nação construída pela base ou uma pátria decaída em zona de livre acumulação.
Mobilizações massivas no Brasil e no mundo abrem imprevistas fissuras no bloco transnacional de poder capitalista. Os momentos viram acontecimentos quando atravessam acordos e contradições intra-capitalistas. Bora Lula, bora frente antifascista e antissistêmica, no domingo e adiante.
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Luís Fernando Novoa Garzón
Sociólogo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR-UFRJ. Foi assessor nacional de missões da Plataforma de Direitos Humanos (DHESCA). Atuou em Grupos de Trabalho da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP), da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais e da Rede Jubileu Sul. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), onde se destacou por seus estudos e denúncias acerca dos impactos sociais e ambientais de grandes projetos na Amazônia. É autor de inúmeros artigos publicados em veículos como: revista Caros Amigos e jornais Le Monde Diplomatique e Correio da Cidadania, além de revistas acadêmicas. É co-autor dos livros “Negociação e acordo ambiental: o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) como forma de tratamento dos conflitos ambientais”, publicado pela Fundação Heinrich Böll, do Rio de Janeiro, em 2014; e “Capitalismo globalizado e recursos territoriais”, pela editora Lamparina, em 2010, Rio de Janeiro
Não é apenas por Flávio, é sobretudo pelo que não é. Quanto pode valer um nada na cadeira presidencial? A candidatura-tampão do bolsonarismo nasceu com a marca de ter um preço. A soltura de Bolsonaro pai era apenas o valor de face do entreguismo. Na verdade, o que se oferece em troca é um valor sem face na forma de transações futuras com moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Uma desconstituinte que desamarre o Estado de obrigações sociais e ambientais e a subordinação econômico-militar do país como área anexa do Império
Como o Brasil detém autonomia real e potencial para travar o projeto super-imperialista norte-americano, nada melhor para Trump que a fulguração de um holograma programável na Presidência da República do maior país da América Latina. A guerra híbrida promovida por agências do Império e por plataformas digitais busca fazer com que as eleições consagrem no segundo turno uma peça oca e insubstancial no centro das cadeias de comando do país.
Assim como houve o “dia do fogo”, em 10 de agosto 2019, para sinalizar o vale-tudo nas incorporações de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do país, o “Flávio Day”, no dia 05 de outubro de 2026, sinalizou por parte dos mercados um vale-tudo mais amplo, apresentado eufemisticamente como um registro auspicioso de “melhora da percepção do risco fiscal em 2027”.
Trata-se de um golpe que não cabe em si e que transborda para um processo de esvaziamento a vácuo da combalida democracia brasileira. O candidato oferece botões de comando neurais postos nele ao dizer: “O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula.” Basta clicar e tirar, retirar, socavar, queimar, enterrar. Reparem que nulidade em pessoa no poder, significa a possibilidade de anular tudo que impeça o poder totalitário dos designers e controladores desse vão infinito.
Depois de ser ungido pela banca como fiel depositário de divinas indulgências, o candidato posa de vidente e descreve o futuro precificado: “Quando eu for presidente, os juros vão cair. Os juros vão cair de uma forma muito rápida…”. Diminuir a intensidade da sabotagem dos mercados sobre as finanças públicas é essência da “mudança” prometida.
O retorno programado desse esquema foi batizado como “bônus Flávio”. Nos mercados essa mixórdia é tecnificada como cobrança e faturamento do “prêmio de risco”. Primeiro artificializam os riscos inflacionários e fiscais, impondo um viés altista das taxas de juros por meio do mandato “independente” do Banco Central. Após o 1º Turno, foi acionado o efeito da reversão das expectativas antes infladas e os ativos financeiros brasileiros a serem privatizados e internacionalizados foram postos na mesa para o almejado botim.
Os apostadores desse e nesse banquete são os mesmos que promovem a alavancagem de fluxos financeiros para condicionar o resultado eleitoral. Esse escuso “rali eleitoral” logo precisou de um esteio programático que conferisse tons institucionais à operação.
Logo brota uma “Carta ao Brasil pela Liberdade e pela Prosperidade” pelas mãos de serviçais operadores dos grandes fundos de investimento dobrando a aposta em colheitas rentistas extraordinárias nos próximos anos.
A missiva tratou de converter palavras de ordem da Faria Lima em princípios de interesse geral a partir da mitologia da prosperidade. O blefe parte da premissa de que todos humilhados pelas condições objetivas da assimetria de renda e pelas condições subjetivas de incapacidade de pareamento de consumo, ou de ostentação dele, não podem ser outra coisa senão aspirantes ao enriquecimento incondicional.
Na verdade, seus lemas são ultimatos: 1) com o alvo na mira e com as armas engatilhadas, entoa-se: “Liberdade econômica exige segurança jurídica”. Consumada a execução, profere-se a razão: “A propriedade privada, os contratos e o direito de defesa devem ser respeitados”.
A burguesia ancorada no Brasil mostra sua cara leviana e despatriada ao clamar pela oficialização do direito absoluto de propriedade, mandando às favas funções sociais, contrapartidas e condicionalidades acopladas. Estamos diante de uma pornográfica normalização e disseminação de um vorcarismo sem Vorcaro, inerente aos grandes grupos financeiros que devem sua grandeza mais à captura de agências públicas e máquinas partidárias do que a inovações tecnológicas e gerenciais.
As torrentes de manifestantes nas ruas e nas redes enfrentam não apenas Flávio mas uma burguesia financeirizada e desaforada incrustrada nos setores dinâmicos do país. Enfrentam Big Techs, BETs e máfias associadas, desafiam Trump e seus cães adestrados no continente e alhures.
O que está em jogo é perspectiva de uma nação construída pela base ou uma pátria decaída em zona de livre acumulação.
Mobilizações massivas no Brasil e no mundo abrem imprevistas fissuras no bloco transnacional de poder capitalista. Os momentos viram acontecimentos quando atravessam acordos e contradições intra-capitalistas. Bora Lula, bora frente antifascista e antissistêmica, no domingo e adiante.
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Luís Fernando Novoa Garzón
Sociólogo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR-UFRJ. Foi assessor nacional de missões da Plataforma de Direitos Humanos (DHESCA). Atuou em Grupos de Trabalho da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP), da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais e da Rede Jubileu Sul. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), onde se destacou por seus estudos e denúncias acerca dos impactos sociais e ambientais de grandes projetos na Amazônia. É autor de inúmeros artigos publicados em veículos como: revista Caros Amigos e jornais Le Monde Diplomatique e Correio da Cidadania, além de revistas acadêmicas. É co-autor dos livros “Negociação e acordo ambiental: o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) como forma de tratamento dos conflitos ambientais”, publicado pela Fundação Heinrich Böll, do Rio de Janeiro, em 2014; e “Capitalismo globalizado e recursos territoriais”, pela editora Lamparina, em 2010, Rio de Janeiro

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