Por FEDERICO M. ROSSI & JOSÉ SZWAKO*
Introdução dos organizadores da coletânea recém-lançada
Como compreender a força social e política conquistada pelas direitas em dois países que seguiram trajetórias pós-ditatoriais tão distintas? Milei e Bolsonaro são figuras conhecidas, mas tratá-los como ponto de partida é confundir o fruto com a árvore. Suas raízes estão em processos de médio e longo prazo: redes, partidos, retóricas e projetos que se foram consolidando bem antes de chegarem ao poder. Na saída da ditadura, a Argentina tornou-se mundialmente conhecida por seus movimentos de memória, verdade e justiça. Já o Brasil enfrentou seu passado autoritário de forma mais discreta, via rearranjos e tensões no pacto com o regime autoritário. A transição brasileira foi lenta e negociada; a argentina viveu um conflito bélico e o afastamento abrupto dos militares.
Ainda assim, nas últimas décadas, ambos os países chegaram a fenômenos e retóricas que guardam inquietantes semelhanças. Neste texto, partimos dessa aparente desconexão entre pontos de saída e de chegada, para oferecer um mapa comparativo das direitas na Argentina e no Brasil, por meio dos principais atores, ideias e políticas que moldaram a ascensão da nova direita nos dois maiores países da América do Sul.
A reação à expansão democrática
No Brasil, a direita chegou ao governo antes da pandemia, em um período de relativo dinamismo econômico, em meio a uma onda de protestos e a um golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Isso foi possível graças a um processo gradual de construção das condições de acesso ao poder por atores políticos, religiosos, militares e sociais. Na Argentina, a direita ascende após o fracasso da centro-direita de Macri, no pós-pandemia e em contexto de hiperinflação que destruiu boa parte dos avanços em bem-estar social. A direita argentina chega ao poder pelo voto, impulsionada pelo desespero. Daí sua inorganicidade. Ao contrário da brasileira, ela não se construiu antes pela sociedade. Constrói-se agora a partir dos recursos do próprio Estado que tanto detesta.
Embora haja uma diferença de origem, há um elemento central que vincula as direitas dos dois países: elas constituem uma reação à expansão da arena sociopolítica democrática. Trata-se de uma resposta conservadora à ampliação de direitos, de políticas sociais e de sujeitos reconhecidos como participantes legítimos do jogo político, processo que se produziu em aliança com os governos progressistas do kirchnerismo e do PT. A disputa pela ordem desencadeada por esses governos, ainda que de forma moderada, produziu uma coordenação entre direitas bastante díspares, unidas pelo esforço de construir um “inimigo” em comum.
O resultado é um projeto político que, embora careça de qualquer utopia compartilhada, não deixa de ter um programa bem definido: a reversão sistemática das condições culturais e político-institucionais que tornaram possível aquela expansão. É por isso que falamos em direitas, no plural, pois não há unicidade. Há diferenças nacionais e enormes heterogeneidades internas ao universo político e ideológico analisado. O eixo orientador comum, porém, é claro: estreitar a arena democrática de modo a conter a disputa por espaços públicos impulsionada pela emergência de mulheres jovens, indígenas, quilombolas, sem-terra, piqueteros e outros atores subalternos que foram ocupando posições cada vez mais centrais.
O inimigo e o passado
Embora qualquer configuração política precise definir fronteiras entre “nós” e “eles”, há uma diferença entre ter adversários e fabricar sistematicamente inimigos. As direitas da Argentina e do Brasil escolheram o segundo caminho com entusiasmo. “Tem que matar petista” ou “El kirchnerismo es un cáncer que hay que extirpar” são frases facilmente ouvidas nos palanques e nas redes sociais de direita daqui como de lá. O adversário legítimo, com o qual se convive apesar das diferenças, dá lugar a um outro que deve ser expulso e eliminado da comunidade nacional.
Em ambos os países, a fabricação do inimigo opera como mecanismo de unificação. Ela fornece uma gramática que conecta economia, moral e política, convertendo frustrações difusas em alvos reconhecíveis por meio de apelos à austeridade, à “guerra cultural” e à deslegitimação institucional. As direitas convergem na lógica: transformar adversários políticos em ameaças político-morais que seriam inimigos do “povo” ou obstáculos à “liberdade”.
As gramáticas, porém, diferem. No Brasil, predomina o neoconservadorismo que sustenta a “questão nacional” contra uma suposta “ameaça vermelha”. Na Argentina, o peronismo sempre monopolizou a retórica do “povo”, razão pela qual os neoliberais argentinos buscam há décadas superar esse passado com o leitmotiv da “liberdade” e da “gente de bem”. Milei recuperou essa retórica em chave libertária. Em comum, ambas as direitas partem de uma concepção estática do que compõe a “ordem nacional” e enxergam na expansão da arena democrática uma perturbação a ser extirpada.
Se convergem no alvo, divergem na construção do inimigo. Na Argentina, o adversário é a “casta”: o Estado, os sindicatos, as universidades e, sobretudo, o kirchnerismo. No Brasil, o inimigo é uma constelação de mediadores: o “sistema”, a imprensa, as universidades, o STF, o PT. O que começa como anticomunismo aggiornado e retórica “anticorrupção” rapidamente descamba para um léxico abertamente autoritário, que celebra a violência e lança suspeição sobre eleições, tribunais e Congresso.
Um terreno especialmente fértil dessa fabricação são as ciências e as universidades. Na Argentina, o anti-cientificismo do mileísmo apresenta a pesquisa pública como luxo financiado por um Estado “parasitado” e procede ao seu desmonte material como parte de um reset neoliberal. No Brasil, o ataque bolsonarista tem outra inflexão: não é só corte orçamentário, é a moralização do conhecimento como degeneração, a “doutrinação”, precisamente quando a universidade pública se torna mais inclusiva.
Outro terreno de produção de inimigos é o gênero e a política sexual. Argentina e Brasil não apenas compartilham o enquadramento da “ideologia de gênero” como constroem redes transnacionais entre si e com outros países. Na gramática de atores conservadores e cristãos, políticas de direitos como o acesso legal ao aborto e o reconhecimento da identidade de gênero são convertidas em “imposição totalitária” ou “corrupção” de crianças e famílias. Na Argentina, onde a onda feminista produziu conquistas concretas, incluindo a legalização do aborto em 2021, a pauta antigênero permite ao mileísmo combinar austeridade neoliberal com restauração moral. No Brasil, essa pauta tem trajetória mais longa e se fortalece sistematicamente a partir do golpe de 2016.
Por fim, há o domínio da segurança pública. Em ambos os países, a retórica securitária reconfigura protestos e movimentos sociais como sinônimo de “terrorismo”. Na Argentina, o dissenso vira “risco” a uma ordem idealizada, e essa ordem torna-se pré-condição moral do mercado. No Brasil, a gramática vai mais longe: o bolsonarismo reabilita a violência como virtude política. Nos dois casos, forças de segurança são catapultadas para dentro dos conflitos institucionais e partidários, com efeitos que podem escapar ao controle das próprias forças que os alimentam.
Essa fabricação do inimigo tem outro alvo implícito: o passado. Dos dois lados do rio Uruguai, o legado autoritário tornou-se campo intensamente disputado. Não se trata de projetos de “memória” em sentido estrito, mas de tecnologias político-subjetivas para redesenhar fontes de pertencimento, legitimar hierarquias e redefinir o que conta, e o que não deve contar, como “democrático”. Direitos humanos e multilateralismo vêm sofrendo ataques sistemáticos, perdendo o status de consensos herdados da redemocratização para serem lidos como fraudes ou capturas “esquerdistas”. Em seu lugar, elementos do repertório autoritário retornam como alternativa “legítima”: ordem, disciplina, punição, “guerra interna”.
Há, porém, uma diferença importante. Na Argentina, onde o “Nunca Más” foi pilar organizador da democracia pós-1983, a disputa tenta deslocar esse consenso apelando a uma “memória completa”, eufemismo para justificar as violações aos direitos humanos da ditadura cívico-militar. Essa agenda revisionista, contudo, não conta com apoio social: 71% dos argentinos têm visão negativa da ditadura e 70% apoiam a continuidade dos julgamentos por crimes de lesa-humanidade. No Brasil, o bolsonarismo foi mais longe: celebrou explicitamente a violência do regime autoritário, reposicionando-o como referência positiva, inclusive por meio da inversão de comissões oficiais dedicadas à anistia e aos desaparecidos.
A disputa pelo passado estende-se também à política externa. Milei faz da diplomacia uma performance de ruptura que reorganiza a identidade internacional argentina em torno de um “Ocidente” supostamente ameaçado. A política externa bolsonarista seguia o mesmo caminho: sob a retórica de uma “guerra cultural”, exerceu na prática uma subserviência ideológica largamente desconhecida pela tradição internacionalista brasileira. Em comum, vê-se o repúdio ao multilateralismo, aos direitos humanos e às agendas climáticas, tratados como fraqueza ou rendição “civilizacional”.
Ideologia versus pragmatismo
Além dos inimigos e das disputas pelo passado, outro eixo relevante é a tensão entre ideologia e pragmatismo nos governos de direita. O padrão geral é que a ideologia tende a vencer, precisamente nas áreas onde custos estratégicos e humanos recomendariam maior cautela.
A política científica é exemplo eloquente. Tanto na Argentina quanto no Brasil, os ataques ao sistema científico não são mero efeito de ajuste fiscal, mas decisões com determinação ideológica. Na Argentina, o desfinanciamento integra um projeto que enxerga as capacidades científico-tecnológicas como obstáculo a um modelo baseado em financeirização e extrativismo. No Brasil, o bolsonarismo transformou a pesquisa e a universidade pública em “inimigos”, associando-as ao “marxismo cultural”. Em ambos os casos, a necessidade pragmática de formar quadros, produzir inovação e ampliar capacidades estatais foi subordinada a um neoliberalismo negacionista que desconsidera ciência como estratégia de desenvolvimento.
A política externa é ainda mais nítida. Bolsonaro e Milei privilegiaram o alinhamento irrestrito com os Estados Unidos de Trump, obtendo em troca ganhos concretos bastante limitados. No caso argentino, o mileísmo prometeu a eliminação do Banco Central e privatizações massivas, mas teve que modular suas pretensões radicais diante de uma posição minoritária no Congresso, da resistência sindical e da mobilização social contra o ajuste nas aposentadorias e políticas sociais. Pôde cortar direitos trabalhistas e eliminar ministérios, mas as principais medidas foram judicializadas ou pairam num limbo institucional que gera desgoverno. Nem os próprios empresários acompanham o radicalismo do governo com entusiasmo: reformas excessivamente abruptas ameaçam a estabilidade social de que o mercado também depende.
No Brasil, o desmonte foi menos caótico e mais deliberado. Operou por dentro das instituições, esvaziando capacidades estatais de forma orientada, especialmente na saúde, na educação e no meio ambiente, e enfraquecendo bancos públicos e empresas estratégicas. Em ambos os países, a ideologia se traduziu em processos de desmonte institucional. A diferença está no ritmo e na coerência: caos administrativo na Argentina, demolição planejada no Brasil.
Como as direitas construíram seu poder?
Se as direitas Hermanas convergem em suas estratégias de fabricação de inimigos, nas disputas pelo passado e na primazia da ideologia sobre o pragmatismo, os padrões divergem quando se trata de como cada uma se constituiu como força política relevante.
No Brasil, as direitas radicais não emergem primeiro como projeto estatal ou partidário, mas como articulação progressiva entre redes religiosas, sociabilidades e moralidades públicas. Muito antes de se cristalizar sob a forma de um partido, as direitas brasileiras já se apoiavam na ampla capilaridade organizacional construída por inúmeros atores desde os anos 1980. Uma dessas raízes está nos think tanks ultraliberais, editoras, blogs e circuitos de sociabilidade que, ao longo dos anos 1990, produziram linguagens políticas próprias e narrativas de declínio nacional. Nesse ambiente, figuras como Olavo de Carvalho tiveram papel central ao oferecer diagnósticos sobre a sociedade e forjar repertórios de crítica às instituições democráticas e à suposta hegemonia cultural “esquerdista”. Outra raiz está nas igrejas evangélicas, cuja capilaridade organizacional, por meio de templos, redes denominacionais e circuitos de sociabilidade, forneceu uma densa base a partir da qual pautas morais puderam circular e se consolidar, antes mesmo de sua tradução eleitoral.
O ciclo massivo de junho de 2013 foi o momento em que toda essa energia conservadora veio às ruas. Os protestos de 2013 foram o prelúdio do ciclo golpista de 2016, que acabou virtualmente expulsando o PSDB das legendas competitivas, estiolando a centro-direita e consagrando uma direita radicalizada ao redor de Bolsonaro.
Na Argentina, o quadro é quase oposto. A intelectualidade de direita sempre ocupou posição marginal; a força histórica do peronismo e radicalismo (UCR) obstruiu o desenvolvimento de uma direita independente com base popular; e nenhum partido não peronista de direita chegou ao poder antes de Macri. O fracasso do Macri levou parte de seus quadros a radicalizar-se e impulsionar a alternativa libertária. Mas a Liberdade Avança não tinha base territorial nem militância massiva. O partido de Milei foi, antes da eleição, basicamente uma aliança eleitoral sem lastro social. Uma vez no governo, é a partir dos recursos do Estado, esse mesmo Estado que Milei devota ao desprezo, que tenta construir um partido de alcance nacional.
O papel da mídia é igualmente revelador. Na Argentina, a televisão foi mais determinante do que as redes sociais na construção do poder de Milei: sem a compra de espaços midiáticos e sem a complacência do jornalismo televisivo, seu discurso não teria encontrado o eco que encontrou. No Brasil, o processo foi análogo, mas com uma ruptura mais híbrida: plataformas digitais aliadas aos canais tradicionais de mídia, com a notável exceção da Rede Globo, à qual o bolsonarismo se opôs ativamente.
Vista em conjunto, a atual direita brasileira se fortaleceu por via societal: antes de se estabilizar no Estado, ela se enraizou em circuitos de formação moral, no mercado e na sociedade civil, o que lhe deu capilaridade, permanência e capacidade de conversão posterior em força nas ruas e nas urnas. A argentina, em contraste, está sendo paradoxalmente forjada a partir da estatalidade, construída de cima para baixo por quem chegou ao poder prometendo destruir o Estado por dentro.
A “casta” e o “sistema”: quem governa para quem?
As economias políticas de Argentina e Brasil são quase inversas, e isso também entra na equação. O Brasil produziu, entre 1988 e 2014, uma das mais notáveis experiências de construção de bem-estar do mundo em desenvolvimento, numa trajetória de continuidade institucional em que cada governo aprofundou o legado do anterior, a despeito das diferenças programáticas entre PSDB e PT. A pobreza relativa caiu de 26% para quase 20% da população, o salário mínimo real acumulou valorização superior a 110% em duas décadas. Essa transformação abrangeu saúde, educação, assistência social e habitação popular. Foi em relação a esse welfare que as direitas brasileiras passaram a se opor, e não só elas: partes das classes médias sentiram-se ameaçadas pela redução das desigualdades, sem que estivessem dispostas a abrir mão das conquistas de que também eram beneficiárias. Essa ambivalência politicamente explosiva esteve no cerne da crise que levou ao golpe de 2016.
A Argentina, por sua vez, iniciou a transição democrática com uma crise econômica prolongada e jamais recuperou os baixos índices de pobreza e desigualdade de 1973. O kirchnerismo representou o maior período de construção de bem-estar em meio século, mas não logrou constituir um modelo sustentável, que acabou por colapsar e abrir caminho para a direita. A população argentina, progressivamente pauperizada, foi perdendo as esperanças de um futuro melhor, tornando-se receptiva a novas identidades políticas e religiosas de direita.
Essa diferença explica muito: na Argentina, a resposta eleitoral foi um recurso desesperado a um outsider político diante de uma nova crise hiperinflacionária; no Brasil, foi a construção paulatina de uma coalizão social preparada para um golpe parlamentar.
Foi nesse quadro que emergiu a retórica contra o “sistema” e a “casta”, de Bolsonaro e Milei respectivamente. De forma simplista, pareceria emular as formas fascistas dos anos 1920, quando se questionou a ordem liberal excludente. A analogia, porém, é enganosa: nenhum dos dois representa uma reprodução do processo europeu. Seria mais precisamente o contrário, pois não se trata de substituir uma ordem liberal ou neoliberal, mas de defendê-la em sua versão mais extrema, diante do questionamento parcial que ela sofreu com a expansão dos direitos a grupos subalternos.
Dito de outro modo: nem a direita argentina nem a brasileira governam contra a “casta” ou o “sistema”. Quando se examinam em detalhe suas políticas econômicas, sociais, culturais e de segurança, os governos de Milei e de Bolsonaro foram e são orientados pela “casta” e para o “sistema”. Encarnam a defesa dos vencedores do modelo de desenvolvimento neoliberal tardio. É no exercício dessa defesa radicalizada que tentam e, às vezes, conseguem diluir as capacidades estatais para que os poderes factuais (econômicos, religiosos, militares) fiquem sujeitos a menos controles, minando os frágeis alicerces das democracias e de nossas políticas de bem-estar.
Democracia, direitas e horizontes
As transições para a democracia configuraram direitas fortes no Brasil e fracas na Argentina. Em ambos os casos, porém, elas acabaram contornando sua fragmentação e suas diferenças internas ao não tentarem construir uma proposta de sociedade. O que buscaram foi coordenar uma reação à expansão da arena sociopolítica, que conferiu direitos e politizou sujeitos subalternos, alterando alguns privilégios. Esse é o nó comum.
No Brasil, a direita chegou ao poder por meio de um golpe e tentou, em 2023, realizar outro. Na Argentina, chegou por eleições livres, mas governa de forma autocrática. A questão que fica: tentarão novos golpes caso percam eleições? É possível a disputa política pacífica com atores que utilizam a democracia enquanto não conseguem substituí-la por um cenário autoritário?
Embora não haja um projeto propositivo claro para o futuro, há algo igualmente eficaz: um programa ativo e regressivo de desmonte. Se sua coerência não vive em um horizonte utópico compartilhado, as direitas hermanas convergem naquilo que buscam desfazer: conquistas, políticas e capacidade de ação do Estado, abrindo assim caminho para modos de governar oligárquicos.
O que está em jogo hoje não é só um modo de governar, mas a própria lógica democrática do exercício do poder e do controle dos respectivos aparatos estatais. Num país, um golpe já foi tentado; no outro, o Estado é desmontado por dentro por quem chegou ao poder prometendo salvá-lo. Em ambos, as direitas apostam que a democracia pode ser usada até o momento em que ela deixe de ser conveniente. E, como a história do continente já demonstrou, essa aposta não termina bem.
*Federico M. Rossi é professor de sociologia política na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED) em Madri. Autor, entre outros livros, de The poor’s struggle for political incorporation (Cambridge University Press). [https://link.amazon/B0bexQTX5]
*José Szwako é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Autor, entre outros livros, de Movimentos sociais e institucionalização (Eduerj). [https://link.amazon/B05f3y1do]
Referência

Federico M. Rossi & José Szwako (orgs.). Direitas/Derechas: Brasil & Argentina. Porto Alegre, Editora Zouk, 2026. [https://sl1nk.com/TtAhNqV]
Como compreender a força social e política conquistada pelas direitas em dois países que seguiram trajetórias pós-ditatoriais tão distintas? Milei e Bolsonaro são figuras conhecidas, mas tratá-los como ponto de partida é confundir o fruto com a árvore. Suas raízes estão em processos de médio e longo prazo: redes, partidos, retóricas e projetos que se foram consolidando bem antes de chegarem ao poder. Na saída da ditadura, a Argentina tornou-se mundialmente conhecida por seus movimentos de memória, verdade e justiça. Já o Brasil enfrentou seu passado autoritário de forma mais discreta, via rearranjos e tensões no pacto com o regime autoritário. A transição brasileira foi lenta e negociada; a argentina viveu um conflito bélico e o afastamento abrupto dos militares.
Ainda assim, nas últimas décadas, ambos os países chegaram a fenômenos e retóricas que guardam inquietantes semelhanças. Neste texto, partimos dessa aparente desconexão entre pontos de saída e de chegada, para oferecer um mapa comparativo das direitas na Argentina e no Brasil, por meio dos principais atores, ideias e políticas que moldaram a ascensão da nova direita nos dois maiores países da América do Sul.
A reação à expansão democrática
No Brasil, a direita chegou ao governo antes da pandemia, em um período de relativo dinamismo econômico, em meio a uma onda de protestos e a um golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Isso foi possível graças a um processo gradual de construção das condições de acesso ao poder por atores políticos, religiosos, militares e sociais. Na Argentina, a direita ascende após o fracasso da centro-direita de Macri, no pós-pandemia e em contexto de hiperinflação que destruiu boa parte dos avanços em bem-estar social. A direita argentina chega ao poder pelo voto, impulsionada pelo desespero. Daí sua inorganicidade. Ao contrário da brasileira, ela não se construiu antes pela sociedade. Constrói-se agora a partir dos recursos do próprio Estado que tanto detesta.
Embora haja uma diferença de origem, há um elemento central que vincula as direitas dos dois países: elas constituem uma reação à expansão da arena sociopolítica democrática. Trata-se de uma resposta conservadora à ampliação de direitos, de políticas sociais e de sujeitos reconhecidos como participantes legítimos do jogo político, processo que se produziu em aliança com os governos progressistas do kirchnerismo e do PT. A disputa pela ordem desencadeada por esses governos, ainda que de forma moderada, produziu uma coordenação entre direitas bastante díspares, unidas pelo esforço de construir um “inimigo” em comum.
O resultado é um projeto político que, embora careça de qualquer utopia compartilhada, não deixa de ter um programa bem definido: a reversão sistemática das condições culturais e político-institucionais que tornaram possível aquela expansão. É por isso que falamos em direitas, no plural, pois não há unicidade. Há diferenças nacionais e enormes heterogeneidades internas ao universo político e ideológico analisado. O eixo orientador comum, porém, é claro: estreitar a arena democrática de modo a conter a disputa por espaços públicos impulsionada pela emergência de mulheres jovens, indígenas, quilombolas, sem-terra, piqueteros e outros atores subalternos que foram ocupando posições cada vez mais centrais.
O inimigo e o passado
Embora qualquer configuração política precise definir fronteiras entre “nós” e “eles”, há uma diferença entre ter adversários e fabricar sistematicamente inimigos. As direitas da Argentina e do Brasil escolheram o segundo caminho com entusiasmo. “Tem que matar petista” ou “El kirchnerismo es un cáncer que hay que extirpar” são frases facilmente ouvidas nos palanques e nas redes sociais de direita daqui como de lá. O adversário legítimo, com o qual se convive apesar das diferenças, dá lugar a um outro que deve ser expulso e eliminado da comunidade nacional.
Em ambos os países, a fabricação do inimigo opera como mecanismo de unificação. Ela fornece uma gramática que conecta economia, moral e política, convertendo frustrações difusas em alvos reconhecíveis por meio de apelos à austeridade, à “guerra cultural” e à deslegitimação institucional. As direitas convergem na lógica: transformar adversários políticos em ameaças político-morais que seriam inimigos do “povo” ou obstáculos à “liberdade”.
As gramáticas, porém, diferem. No Brasil, predomina o neoconservadorismo que sustenta a “questão nacional” contra uma suposta “ameaça vermelha”. Na Argentina, o peronismo sempre monopolizou a retórica do “povo”, razão pela qual os neoliberais argentinos buscam há décadas superar esse passado com o leitmotiv da “liberdade” e da “gente de bem”. Milei recuperou essa retórica em chave libertária. Em comum, ambas as direitas partem de uma concepção estática do que compõe a “ordem nacional” e enxergam na expansão da arena democrática uma perturbação a ser extirpada.
Se convergem no alvo, divergem na construção do inimigo. Na Argentina, o adversário é a “casta”: o Estado, os sindicatos, as universidades e, sobretudo, o kirchnerismo. No Brasil, o inimigo é uma constelação de mediadores: o “sistema”, a imprensa, as universidades, o STF, o PT. O que começa como anticomunismo aggiornado e retórica “anticorrupção” rapidamente descamba para um léxico abertamente autoritário, que celebra a violência e lança suspeição sobre eleições, tribunais e Congresso.
Um terreno especialmente fértil dessa fabricação são as ciências e as universidades. Na Argentina, o anti-cientificismo do mileísmo apresenta a pesquisa pública como luxo financiado por um Estado “parasitado” e procede ao seu desmonte material como parte de um reset neoliberal. No Brasil, o ataque bolsonarista tem outra inflexão: não é só corte orçamentário, é a moralização do conhecimento como degeneração, a “doutrinação”, precisamente quando a universidade pública se torna mais inclusiva.
Outro terreno de produção de inimigos é o gênero e a política sexual. Argentina e Brasil não apenas compartilham o enquadramento da “ideologia de gênero” como constroem redes transnacionais entre si e com outros países. Na gramática de atores conservadores e cristãos, políticas de direitos como o acesso legal ao aborto e o reconhecimento da identidade de gênero são convertidas em “imposição totalitária” ou “corrupção” de crianças e famílias. Na Argentina, onde a onda feminista produziu conquistas concretas, incluindo a legalização do aborto em 2021, a pauta antigênero permite ao mileísmo combinar austeridade neoliberal com restauração moral. No Brasil, essa pauta tem trajetória mais longa e se fortalece sistematicamente a partir do golpe de 2016.
Por fim, há o domínio da segurança pública. Em ambos os países, a retórica securitária reconfigura protestos e movimentos sociais como sinônimo de “terrorismo”. Na Argentina, o dissenso vira “risco” a uma ordem idealizada, e essa ordem torna-se pré-condição moral do mercado. No Brasil, a gramática vai mais longe: o bolsonarismo reabilita a violência como virtude política. Nos dois casos, forças de segurança são catapultadas para dentro dos conflitos institucionais e partidários, com efeitos que podem escapar ao controle das próprias forças que os alimentam.
Essa fabricação do inimigo tem outro alvo implícito: o passado. Dos dois lados do rio Uruguai, o legado autoritário tornou-se campo intensamente disputado. Não se trata de projetos de “memória” em sentido estrito, mas de tecnologias político-subjetivas para redesenhar fontes de pertencimento, legitimar hierarquias e redefinir o que conta, e o que não deve contar, como “democrático”. Direitos humanos e multilateralismo vêm sofrendo ataques sistemáticos, perdendo o status de consensos herdados da redemocratização para serem lidos como fraudes ou capturas “esquerdistas”. Em seu lugar, elementos do repertório autoritário retornam como alternativa “legítima”: ordem, disciplina, punição, “guerra interna”.
Há, porém, uma diferença importante. Na Argentina, onde o “Nunca Más” foi pilar organizador da democracia pós-1983, a disputa tenta deslocar esse consenso apelando a uma “memória completa”, eufemismo para justificar as violações aos direitos humanos da ditadura cívico-militar. Essa agenda revisionista, contudo, não conta com apoio social: 71% dos argentinos têm visão negativa da ditadura e 70% apoiam a continuidade dos julgamentos por crimes de lesa-humanidade. No Brasil, o bolsonarismo foi mais longe: celebrou explicitamente a violência do regime autoritário, reposicionando-o como referência positiva, inclusive por meio da inversão de comissões oficiais dedicadas à anistia e aos desaparecidos.
A disputa pelo passado estende-se também à política externa. Milei faz da diplomacia uma performance de ruptura que reorganiza a identidade internacional argentina em torno de um “Ocidente” supostamente ameaçado. A política externa bolsonarista seguia o mesmo caminho: sob a retórica de uma “guerra cultural”, exerceu na prática uma subserviência ideológica largamente desconhecida pela tradição internacionalista brasileira. Em comum, vê-se o repúdio ao multilateralismo, aos direitos humanos e às agendas climáticas, tratados como fraqueza ou rendição “civilizacional”.
Ideologia versus pragmatismo
Além dos inimigos e das disputas pelo passado, outro eixo relevante é a tensão entre ideologia e pragmatismo nos governos de direita. O padrão geral é que a ideologia tende a vencer, precisamente nas áreas onde custos estratégicos e humanos recomendariam maior cautela.
A política científica é exemplo eloquente. Tanto na Argentina quanto no Brasil, os ataques ao sistema científico não são mero efeito de ajuste fiscal, mas decisões com determinação ideológica. Na Argentina, o desfinanciamento integra um projeto que enxerga as capacidades científico-tecnológicas como obstáculo a um modelo baseado em financeirização e extrativismo. No Brasil, o bolsonarismo transformou a pesquisa e a universidade pública em “inimigos”, associando-as ao “marxismo cultural”. Em ambos os casos, a necessidade pragmática de formar quadros, produzir inovação e ampliar capacidades estatais foi subordinada a um neoliberalismo negacionista que desconsidera ciência como estratégia de desenvolvimento.
A política externa é ainda mais nítida. Bolsonaro e Milei privilegiaram o alinhamento irrestrito com os Estados Unidos de Trump, obtendo em troca ganhos concretos bastante limitados. No caso argentino, o mileísmo prometeu a eliminação do Banco Central e privatizações massivas, mas teve que modular suas pretensões radicais diante de uma posição minoritária no Congresso, da resistência sindical e da mobilização social contra o ajuste nas aposentadorias e políticas sociais. Pôde cortar direitos trabalhistas e eliminar ministérios, mas as principais medidas foram judicializadas ou pairam num limbo institucional que gera desgoverno. Nem os próprios empresários acompanham o radicalismo do governo com entusiasmo: reformas excessivamente abruptas ameaçam a estabilidade social de que o mercado também depende.
No Brasil, o desmonte foi menos caótico e mais deliberado. Operou por dentro das instituições, esvaziando capacidades estatais de forma orientada, especialmente na saúde, na educação e no meio ambiente, e enfraquecendo bancos públicos e empresas estratégicas. Em ambos os países, a ideologia se traduziu em processos de desmonte institucional. A diferença está no ritmo e na coerência: caos administrativo na Argentina, demolição planejada no Brasil.
Como as direitas construíram seu poder?
Se as direitas Hermanas convergem em suas estratégias de fabricação de inimigos, nas disputas pelo passado e na primazia da ideologia sobre o pragmatismo, os padrões divergem quando se trata de como cada uma se constituiu como força política relevante.
No Brasil, as direitas radicais não emergem primeiro como projeto estatal ou partidário, mas como articulação progressiva entre redes religiosas, sociabilidades e moralidades públicas. Muito antes de se cristalizar sob a forma de um partido, as direitas brasileiras já se apoiavam na ampla capilaridade organizacional construída por inúmeros atores desde os anos 1980. Uma dessas raízes está nos think tanks ultraliberais, editoras, blogs e circuitos de sociabilidade que, ao longo dos anos 1990, produziram linguagens políticas próprias e narrativas de declínio nacional. Nesse ambiente, figuras como Olavo de Carvalho tiveram papel central ao oferecer diagnósticos sobre a sociedade e forjar repertórios de crítica às instituições democráticas e à suposta hegemonia cultural “esquerdista”. Outra raiz está nas igrejas evangélicas, cuja capilaridade organizacional, por meio de templos, redes denominacionais e circuitos de sociabilidade, forneceu uma densa base a partir da qual pautas morais puderam circular e se consolidar, antes mesmo de sua tradução eleitoral.
O ciclo massivo de junho de 2013 foi o momento em que toda essa energia conservadora veio às ruas. Os protestos de 2013 foram o prelúdio do ciclo golpista de 2016, que acabou virtualmente expulsando o PSDB das legendas competitivas, estiolando a centro-direita e consagrando uma direita radicalizada ao redor de Bolsonaro.
Na Argentina, o quadro é quase oposto. A intelectualidade de direita sempre ocupou posição marginal; a força histórica do peronismo e radicalismo (UCR) obstruiu o desenvolvimento de uma direita independente com base popular; e nenhum partido não peronista de direita chegou ao poder antes de Macri. O fracasso do Macri levou parte de seus quadros a radicalizar-se e impulsionar a alternativa libertária. Mas a Liberdade Avança não tinha base territorial nem militância massiva. O partido de Milei foi, antes da eleição, basicamente uma aliança eleitoral sem lastro social. Uma vez no governo, é a partir dos recursos do Estado, esse mesmo Estado que Milei devota ao desprezo, que tenta construir um partido de alcance nacional.
O papel da mídia é igualmente revelador. Na Argentina, a televisão foi mais determinante do que as redes sociais na construção do poder de Milei: sem a compra de espaços midiáticos e sem a complacência do jornalismo televisivo, seu discurso não teria encontrado o eco que encontrou. No Brasil, o processo foi análogo, mas com uma ruptura mais híbrida: plataformas digitais aliadas aos canais tradicionais de mídia, com a notável exceção da Rede Globo, à qual o bolsonarismo se opôs ativamente.
Vista em conjunto, a atual direita brasileira se fortaleceu por via societal: antes de se estabilizar no Estado, ela se enraizou em circuitos de formação moral, no mercado e na sociedade civil, o que lhe deu capilaridade, permanência e capacidade de conversão posterior em força nas ruas e nas urnas. A argentina, em contraste, está sendo paradoxalmente forjada a partir da estatalidade, construída de cima para baixo por quem chegou ao poder prometendo destruir o Estado por dentro.
A “casta” e o “sistema”: quem governa para quem?
As economias políticas de Argentina e Brasil são quase inversas, e isso também entra na equação. O Brasil produziu, entre 1988 e 2014, uma das mais notáveis experiências de construção de bem-estar do mundo em desenvolvimento, numa trajetória de continuidade institucional em que cada governo aprofundou o legado do anterior, a despeito das diferenças programáticas entre PSDB e PT. A pobreza relativa caiu de 26% para quase 20% da população, o salário mínimo real acumulou valorização superior a 110% em duas décadas. Essa transformação abrangeu saúde, educação, assistência social e habitação popular. Foi em relação a esse welfare que as direitas brasileiras passaram a se opor, e não só elas: partes das classes médias sentiram-se ameaçadas pela redução das desigualdades, sem que estivessem dispostas a abrir mão das conquistas de que também eram beneficiárias. Essa ambivalência politicamente explosiva esteve no cerne da crise que levou ao golpe de 2016.
A Argentina, por sua vez, iniciou a transição democrática com uma crise econômica prolongada e jamais recuperou os baixos índices de pobreza e desigualdade de 1973. O kirchnerismo representou o maior período de construção de bem-estar em meio século, mas não logrou constituir um modelo sustentável, que acabou por colapsar e abrir caminho para a direita. A população argentina, progressivamente pauperizada, foi perdendo as esperanças de um futuro melhor, tornando-se receptiva a novas identidades políticas e religiosas de direita.
Essa diferença explica muito: na Argentina, a resposta eleitoral foi um recurso desesperado a um outsider político diante de uma nova crise hiperinflacionária; no Brasil, foi a construção paulatina de uma coalizão social preparada para um golpe parlamentar.
Foi nesse quadro que emergiu a retórica contra o “sistema” e a “casta”, de Bolsonaro e Milei respectivamente. De forma simplista, pareceria emular as formas fascistas dos anos 1920, quando se questionou a ordem liberal excludente. A analogia, porém, é enganosa: nenhum dos dois representa uma reprodução do processo europeu. Seria mais precisamente o contrário, pois não se trata de substituir uma ordem liberal ou neoliberal, mas de defendê-la em sua versão mais extrema, diante do questionamento parcial que ela sofreu com a expansão dos direitos a grupos subalternos.
Dito de outro modo: nem a direita argentina nem a brasileira governam contra a “casta” ou o “sistema”. Quando se examinam em detalhe suas políticas econômicas, sociais, culturais e de segurança, os governos de Milei e de Bolsonaro foram e são orientados pela “casta” e para o “sistema”. Encarnam a defesa dos vencedores do modelo de desenvolvimento neoliberal tardio. É no exercício dessa defesa radicalizada que tentam e, às vezes, conseguem diluir as capacidades estatais para que os poderes factuais (econômicos, religiosos, militares) fiquem sujeitos a menos controles, minando os frágeis alicerces das democracias e de nossas políticas de bem-estar.
Democracia, direitas e horizontes
As transições para a democracia configuraram direitas fortes no Brasil e fracas na Argentina. Em ambos os casos, porém, elas acabaram contornando sua fragmentação e suas diferenças internas ao não tentarem construir uma proposta de sociedade. O que buscaram foi coordenar uma reação à expansão da arena sociopolítica, que conferiu direitos e politizou sujeitos subalternos, alterando alguns privilégios. Esse é o nó comum.
No Brasil, a direita chegou ao poder por meio de um golpe e tentou, em 2023, realizar outro. Na Argentina, chegou por eleições livres, mas governa de forma autocrática. A questão que fica: tentarão novos golpes caso percam eleições? É possível a disputa política pacífica com atores que utilizam a democracia enquanto não conseguem substituí-la por um cenário autoritário?
Embora não haja um projeto propositivo claro para o futuro, há algo igualmente eficaz: um programa ativo e regressivo de desmonte. Se sua coerência não vive em um horizonte utópico compartilhado, as direitas hermanas convergem naquilo que buscam desfazer: conquistas, políticas e capacidade de ação do Estado, abrindo assim caminho para modos de governar oligárquicos.
O que está em jogo hoje não é só um modo de governar, mas a própria lógica democrática do exercício do poder e do controle dos respectivos aparatos estatais. Num país, um golpe já foi tentado; no outro, o Estado é desmontado por dentro por quem chegou ao poder prometendo salvá-lo. Em ambos, as direitas apostam que a democracia pode ser usada até o momento em que ela deixe de ser conveniente. E, como a história do continente já demonstrou, essa aposta não termina bem.
*Federico M. Rossi é professor de sociologia política na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED) em Madri. Autor, entre outros livros, de The poor’s struggle for political incorporation (Cambridge University Press). [https://link.amazon/B0bexQTX5]
*José Szwako é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Autor, entre outros livros, de Movimentos sociais e institucionalização (Eduerj). [https://link.amazon/B05f3y1do]
Referência

Federico M. Rossi & José Szwako (orgs.). Direitas/Derechas: Brasil & Argentina. Porto Alegre, Editora Zouk, 2026. [https://sl1nk.com/TtAhNqV]

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