Pages

Ajuste fiscal versus gastos públicos: os modelos econômicos de Lula e Bolsonaro se enfrentam nas urnas

Campanhas dos presidenciáveis Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). (Ricardo Stuckert/Fotos Públicas) | (Vitor Salles/FotosPúblicas)


Do IHU, 19 Outubro 2026
Por Bernardo Gutiérrez, publicada por El Diario, 18-10-2026


As propostas econômicas não dominam o debate na campanha eleitoral brasileira. As medidas de austeridade fiscal do governo Jair Bolsonaro e as políticas expansionistas de gastos públicos do governo Lula servem como o melhor ponto de comparação.

Uma tábua de salvação para Lula da Silva na reta final do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. O Senado aprovou na quinta-feira uma redução histórica na jornada de trabalho sem perda de salário, uma das principais promessas de campanha de Lula. Com a aprovação do fim do regime de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho e um de folga por semana), todos os trabalhadores contratados terão direito a dois dias de folga por semana a partir de dezembro. Além disso, a jornada semanal será reduzida de 44 para 40 horas. A medida afeta 37,11 milhões de pessoas que trabalham mais de 41 horas por semana, segundo o Ministério do Trabalho.

“O fim da jornada de trabalho 6x1 é mais do que apenas uma mudança na jornada. Trata-se de ter mais tempo para viver, descansar, estar com a família, ver os filhos crescerem, cuidar de si mesmo e aproveitar a vida”, declarou Lula nas redes sociais. Em uma reviravolta de última hora, o Partido Liberal (PL) do candidato Flávio Bolsonaro votou a favor para evitar repercussões eleitorais (73% dos brasileiros apoiam a medida). No entanto, Flávio Bolsonaro já indicou à comunidade empresarial que irá rever a medida caso vença as eleições.

Inicialmente, o fim da escala 6x1 não fazia parte dos planos do governo Lula. O catalisador veio de Rick Azevedo, um farmacêutico do Rio de Janeiro que havia acabado de ser eleito para o Congresso. Em setembro de 2023, ele gravou um vídeo para o TikTok para expressar sua frustração após receber uma ligação do chefe em seu único dia de folga: “Quero saber quando nós, da classe trabalhadora, vamos ter uma revolução neste país em relação à escala 6x1. É escravidão moderna”.

O vídeo viralizou, levando à criação do Movimento Vida Além do Trabalho. A congressista Erika Hilton, que recebeu mais de um milhão de votos no dia 4, tornou-se a principal defensora do fim da escala 6x1. O governo Lula abraçou a proposta. A pressão de Lula foi fundamental para sua aprovação esmagadora no Congresso em maio.

Há meses, Flávio critica o fim do regime de trabalho 6x1 e defende uma lei alternativa para "horários de trabalho flexíveis", a PEC 12/2026, na qual os trabalhadores são remunerados por hora trabalhada. "A proposta intensifica a exploração do trabalho. Vai contra quase todos os sistemas jurídicos ocidentais, contradizendo inclusive acordos estabelecidos há décadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT)", disse Nasser Ahmad Allan, advogado especializado em direito do trabalho e sócio do escritório Gasam Advocacia, ao elDiario.es.

Pontos de vista opostos


As posições de Lula e Flávio Bolsonaro em relação à escala 6x1 revelam duas visões econômicas opostas. A vitória de Flávio representa a continuidade das políticas de ajuste fiscal do governo Jair Bolsonaro (2019-2022); a vitória de Lula, a continuidade de suas políticas de expansão dos gastos públicos.

Cortes ao estilo Milei

Após vencer o primeiro turno das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro anunciou um corte massivo de 200 bilhões de pesos nos gastos públicos, deixando intactos os programas sociais. Seu programa de governo inclui a eliminação de pelo menos dez ministérios, reforma tributária, cortes de impostos e a retomada da privatização de empresas estatais. Daniella Marques, assessora econômica de Flávio Bolsonaro, afirmou em setembro que seu potencial governo eliminaria mais de mil regulamentações, "inspirando-se no governo de Javier Milei na Argentina".

Ao final do mandato de Jair Bolsonaro, a dívida pública foi reduzida para 72,9% do PIB. Parte dessa redução veio da privatização de empresas direta ou indiretamente controladas pelo Estado: 83 empresas públicas foram privatizadas (o número caiu de 213 para 130). Flávio Bolsonaro afirmou repetidamente durante sua campanha que privatizará, entre outras, a estatal Correios. Durante o governo Lula, a dívida pública aumentou para 82,9% do PIB em agosto. Lula se mostra relutante em aumentar os gastos sociais. "Muito dinheiro nas mãos de poucos é pobreza", argumentou Lula em entrevista ao vivo na última quinta-feira.

Programas e gastos sociais

Lula afirmou há alguns dias que os cortes orçamentários anunciados por Flávio Bolsonaro afetarão os gastos sociais, uma alegação apoiada pela maioria dos economistas. Maria Lourdes Mollo, professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), disse ao Monitor Mercantil que não é possível fazer cortes substanciais no orçamento público sem impactar os programas sociais. Lula cita o legado do governo Jair Bolsonaro, quando “políticas como 'Farmácia Popular', 'Minha Casa, Minha Vida' e 'Mais Médicos' perderam financiamento ou foram reduzidas”.

O relatório "Depois do Desmantelamento 2019-2022", do Instituto de Estudos Socioeconômicos, revelou um declínio generalizado nos gastos sociais do governo Jair Bolsonaro. O programa "Casa Verde Amarela", que substituiu o antigo "Minha Casa, Minha Vida", teve seu orçamento reduzido de 78,7 milhões de reais (13,8 milhões de euros) para 29,7 milhões. O investimento na "Farmácia Popular", que fornece medicamentos gratuitos para famílias de baixa renda, caiu 59%. O Bolsa Família, programa social lançado por Lula em 2003 e renomeado Auxílio Brasil, foi o único programa a receber aumento de verbas. No entanto, isso se deveu a uma medida legislativa aprovada pelo Congresso durante a pandemia. Recentemente, Lula aumentou o Bolsa Família, que beneficia 19,28 milhões de famílias, em 15%. Cada família passará a receber 691 reais (121 euros), em vez de 600 reais (105 euros).

Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro apoiam a manutenção do Bolsa Família. No entanto, Flávio criticou o programa e quer vinculá-lo à geração de empregos.

Salários e aposentadorias

Durante a campanha eleitoral, Flávio Bolsonaro apresentou seu plano previdenciário a um grupo de líderes empresariais. A proposta, que posteriormente vazou para a imprensa, prevê o aumento da idade de aposentadoria para 67 anos (atualmente 65 para homens e 62 para mulheres). Simultaneamente, a economista Laura Carvalho, autora do ensaio "Valsa brasileira: Do boom ao caos econômico", denunciou no podcast "Calma Urgente" que Flávio Bolsonaro quer desvincular os aumentos previdenciários dos aumentos do salário mínimo. Essa medida impediria o reajuste automático do salário mínimo pela Política de Valorização Permanente do Salário Mínimo, criada por Lula em 2003 e reinstaurada em 2023. Embora Jair Bolsonaro tenha aumentado tanto o salário mínimo quanto as aposentadorias em linha com a inflação, ele abandonou a política de indexação das aposentadorias à inflação, que também incorpora o crescimento do PIB dos dois anos anteriores.

Por essa razão, o salário mínimo no Brasil aumentou proporcionalmente mais durante o governo Lula. O salário mínimo no Brasil subiu de 1.212 reais (212,2 euros) ao final do mandato de Jair Bolsonaro para 1.621 reais (283,8 euros) em 2026. O salário médio é de 3.777 reais.

Inflação e a economia do dia a dia

O governo Lula teve um desempenho melhor do que o governo Jair Bolsonaro no controle da inflação. O aumento acumulado de preços durante a presidência de Lula, até setembro, foi de 17,9%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Nos últimos doze meses, a taxa de inflação do Brasil ficou em 4,58%. Durante o governo Bolsonaro, até setembro de 2022, a inflação acumulada chegou a 25,26%. O pior ano foi 2021, quando a inflação subiu para 10,16% ao ano.

No entanto, com o aumento dos preços da gasolina devido à guerra comercial Irã-Contras e dos preços de alguns produtos agrícolas devido às mudanças climáticas e à demanda global (por exemplo, o café), a sensação de alto custo de vida é generalizada. Em agosto, durante os primeiros dias da campanha eleitoral, a equipe de Flávio Bolsonaro divulgou diversos vídeos gravados em frente a supermercados denunciando os altos preços dos produtos.

Patricia Costa, economista do Departamento Interuniversitário de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), disse à TVT News que a insatisfação decorre do forte aumento dos preços dos alimentos durante o governo de Jair Bolsonaro: “Durante a pandemia, o preço do óleo de soja dobrou. Chegou a cerca de 6 reais (1,04 euros) e nunca mais baixou. A cesta básica de alimentos como um todo aumentou 68% entre 2019 e 2022 na cidade de São Paulo e 14% durante a presidência de Lula”.

Durante o governo Bolsonaro (entre janeiro de 2019 e agosto de 2022), os preços de alimentos e bebidas subiram 44,2%, em comparação com 17,1% sob o governo Lula até agosto passado. O relatório da Dieese revela que alguns produtos, como o arroz, tiveram queda de preço durante a presidência de Lula. O preço do quilo de arroz, que chegou a 5,88 reais (1,02 euros) em agosto de 2024, caiu para 4,45 reais (0,77 euros) em agosto deste ano, graças à Política Nacional de Abastecimento Alimentar (PNAAB), implementada por Lula em dezembro de 2023 por meio de decreto presidencial. O decreto permite ao governo acumular reservas de alimentos básicos para liberá-las no mercado em períodos de escassez.

Dívida das famílias e jogos de azar online

Em agosto, o Brasil bateu seu recorde de endividamento das famílias. 81,7% das famílias têm algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). “O maior culpado continua sendo o cartão de crédito. Muitas pessoas recebem limites de crédito maiores do que podem pagar”, disse a economista Carla Beni, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao G1.


No entanto, o verdadeiro aumento do endividamento ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro. Enquanto no início de 2019 o percentual de famílias endividadas era de 59,8%, ao final de 2022 havia chegado a 79,3%. Por trás da relativa estabilidade do percentual de famílias endividadas durante a presidência de Lula, estão algumas de suas políticas públicas, como o programa Desenrola 2, que disponibilizou recursos públicos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para reduzir o endividamento. Por outro lado, a principal iniciativa de Lula para combater o endividamento foi a proibição de jogos de azar online.

Os jogos de azar, como são popularmente conhecidos, representam o maior fator de endividamento das famílias no Brasil. Além disso, durante a campanha eleitoral, Lula pressionou com sucesso o Congresso e o Senado para aprovarem um projeto de lei complementar à Lei do Microempreendedor Individual (MEI), que perdoa parte das dívidas contraídas com bancos públicos. A elevada taxa de juros oficial durante o governo Lula, definida independentemente pelo Banco Central, dificultou a redução do endividamento das famílias. Atualmente, ela está em 13,75%. Jair Bolsonaro iniciou seu mandato em 2019 com uma taxa de juros de 4,50%.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro se opõe à proibição das apostas. Sua proposta para reduzir o endividamento das famílias segue a linha de Lula: comprar dívidas e refinanciá-las a juros mais baixos com recursos públicos.

Poder de compra, desigualdade e emprego

A renda familiar per capita no Brasil atingiu 2.316 reais (405,4 euros), segundo o Instituto Brasileiro de Geoestatística (IBGE). Esse valor, um recorde histórico, representa um aumento significativo (em 2022, era de 1.625 reais). O aumento foi mais acentuado entre os que ganham menos. Apesar disso, os 10% mais ricos da população viram sua renda aumentar em 8,7%.

O aumento da renda familiar per capita, além de estar ligado a programas sociais, está diretamente relacionado à queda do desemprego. Lula alcançou o pleno emprego, reduzindo a taxa de desemprego para 5,3% em agosto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Jair Bolsonaro, cujo governo registrou 14,2% de desemprego em 2020, encerrou seu mandato com 8,4%. Além disso, durante o governo Lula, o emprego informal foi reduzido a um mínimo histórico (37,2%). Por outro lado, durante o governo Jair Bolsonaro, o Brasil entrou para o mapa da fome da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) entre 2019 e 2021. O Brasil retornou ao mapa da fome no triênio 2022-2024, quando o percentual da população que sofre de desnutrição ou falta de acesso a alimentos caiu para menos de 2,5%.

Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique, a economista Juliane Furno destaca a importância da isenção fiscal aprovada pelo governo Lula para quem ganha até 5.000 reais por mês (874,6 euros), válida a partir do final de 2025: “A isenção do imposto de renda, financiada por um imposto mínimo sobre rendimentos elevados, representa o primeiro passo histórico concreto em décadas para tornar a estrutura tributária brasileira menos regressiva”. Além disso, a recente aprovação da lei complementar para autônomos eleva o limite de faturamento de 80.000 reais para 110.000 reais em 2027 e 140.000 reais em 2028.

PIB, mercado de ações e a economia global. Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil, o país ocupava a nona posição entre as maiores economias do mundo. A contração de 3,3% em 2020 fez o Brasil cair para a décima terceira posição. Embora o Brasil tenha crescido em 2021 (4,8%) e 2022 (2,9%), só retornou ao top 10 durante o governo Lula. Em 2023, o Brasil recuperou a nona posição. De 2024 até o presente, o Brasil ocupa a décima posição.

Durante a presidência de Lula, o PIB brasileiro cresceu moderadamente : 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Em 2026, segundo cálculos do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento será de 2,2%. O FMI prevê que será a oitava maior economia do mundo em 2027, com um PIB projetado de US$ 2,65 trilhões, muito próximo da Itália (US$ 2,7 trilhões) e da Rússia (US$ 2,83 trilhões).

Em termos de comércio exterior, Lula apresenta um desempenho melhor do que Jair Bolsonaro. A balança comercial durante o governo de Jair Bolsonaro acumulou um superávit de US$ 208,5 bilhões, segundo a Secretaria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Comércio Exterior. O governo Lula, até agosto, acumulou um superávit de US$ 365,9 bilhões.


Nenhum comentário:

Postar um comentário