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A nossa “questão ocidental”

Do A Terra É Redonda, 10 de outubro 2026
Por FREDERICO DUARTE BARTZ*


A velha cidade industrial perde centralidade para o Oeste do agronegócio, e é nesse deslocamento que se explica a crise da esquerda e a ascensão conservadora

1.

Nesta semana a esquerda e o Governo Lula sofreram uma grande derrota, com uma vitória acachapante de candidatos conservadores como Flávio Bolsonaro e Luciano Zucco, que defendem um projeto de selvageria liberal, com desejo de institucionalizar o desmonte dos direitos sociais, atacar a liberdade de pensamento, acabar com as políticas de diversidade e atrelar o país aos Estados Unidos.

Nos últimos 15 anos, quando esta tendência conservadora se tornou competitiva, surgiram diversas análises que explicam o cenário pelo avanço neopentecostal, pelo machismo inerente à sociedade patriarcal brasileira, pelo racismo de uma população branca do sul do país (que teria no Nordeste nosso antípoda de progresso e diversidade) ou ressentimento de uma classe média que não pode mais servir-se de uma população mais pobre e que teria de conviver com estes em espaços onde antes eles não estavam (como a universidade).

Todas estas questões podem estar corretas, mas tenho visto muito pouco nestas discussões temas que tocam nas mudanças de estrutura econômica mais profunda e sobre mutações no eixo dinâmico da econômia do pais, que talvez merecessem mais atenção.

Forçoso é dizer que o Brasil de hoje não começou em 2018, nem 2016 e nem 2013 (como querem fazer crer alguns amigos). O Brasil de hoje começou nos anos 1980, quando a industria nacional não se mostrava mais competitiva (ou pelo menos era vendida desta maneira), e começou uma rápida expansão do cultivo de soja e da criação bovina em uma região que vai do planalto médio do Rio Grande do Sul até o arco de desmatamento na Amazonia.

Essa mudança na agropecuária brasileira também atingiu a agricultura familiar: ela continua existindo, mas o pequeno produtor rural pode hoje em dia também produzir commodities (como soja e milho), e não somente a batata, o feijão e a mandioca. A abertura do mercado externo, principalmente pela expansão gigantesca do consumo chinês, fez com que o campo se capitalizasse muito rápido. Hoje, a antiga divisão de interesses e de visão de mundo entre o fazendeiro tradicional e o pequeno proprietário rural foi unificada pela perspectiva do empresártio rural, a capitalização foi garantida pelo crescimento das cooperativas de crédito e da presença cada vez maior das agro-industriais.

2.

Enquanto isso, a economia urbana caminhava cada vez mais para o setor de serviços, em uma perspectiva em que o estado deixou de defender a indústria nacional, inclusive privatizando grandes empresas estatais, como a Vale do Rio Doce e abrindo o capital da Petrobras. A indústria não pode ser considerada um bem por si só, mas é inegável que ela aporta mais autonomia tecnológica e produtiva a qualquer país, assim como seus salários são muito maiores do que os pagos por um setor de serviços uberizado, pulverizado e precarizado.

A desindustrialização foi uma das consequencias do projeto político e econômico do neoliberalismo, implantado nos anos 1990, que deu tração à primazia do capital financeiro, outrora idealizada pelas adminitrações tucanas de FHC. O Governo Lula não desmontou essa tendência e a financeirização da economia se consolidou, alimentada pelos capitais que chegavam do exterior com a venda da soja, o gado, o milho, a cana de açucar e outros produtos primários.

Essa reorientação da economia brasileira não se deu de forma divorciada de um contexto global mais amplo: durante os anos 1970 e 1980, o neoliberalismo despontou como uma “solução” econômica para os páises de capitalismo avançado, priorizando a financeirização, destruindo direitos sociais e promovendo uma grande concentração de renda. Essa solução se ampliou ainda mais depois do colapso da União Soviética e dos paises comunistas do leste europeu no começo dos anos 1990.

Esse consenso liberal, vendido como o fim da história, também promoveu uma mudança na divisão internacional do trabalho, fazendo com que os países da periferia capitalista abandonassem projetos industrializantes e modernizantes. Para as elites econômicas dos países perféricos, valia mais a pena ser um sócio menor do capital internacional, do que tentar um desenvolvimento autônomo nacional.

A América Latina foi varrida pela onda neoliberal durante os anos 1990; no começo do século XXI, a ascenção de partidos populares e social democratas ao poder iniciou uma reversão do empobrecimento causado pelo neoliberalismo, mas esta ascenção da esquerda não conseguiu mudar a lógica profunda da economia financeirizada, nem tirar o continente de um papel subordinado na divisão internacional do trabalho.

O Governo Lula, e depois deste o de Dilma Rousseff, realizaram um forte acúmulo de reservas de capital, tornando a economia brasileira mais estável do que havia sido durante a Ditadura Militar. Se por uma lado isso nos protegeu de cenários adversos, também acabou alavancando a financeirização. A contrapartida popular disso foi uma política redistributiva, através do bolsa familia, de outros programas sociais e (principalmente) o aumento do salário minimo.

Essa duplicidade de incentivo ao agronegócio e ao capital financeiro de um lado e de incentivo à distribuição de renda de outro, se manteve até a década de 2010, quando os resultados da crise global de 2008 tornaram mais escassos os recursos para uma política de distribuição e o descontentamento difuso da população foi drenado para a direita.

3.

Na prática, parte da elite financeira e agrária viu que a distribuição de renda tirava de si própria um naco de capital importante que ela muito bem podia abocanhar, apostando tudo na concentração de renda para a saída da crise. O crescimento do poder social e econômico da elite agrária e financeira, nesta conjuntura, foi proporcional ao esvaziamento das aspirações de uma classe média urbana que desejava a modernidade capitalista e da classe operária industrial organizada que desejava a justiça social.

Durante a Nova Republica (1985 a 2016) e durante o que já podemos chamar de Nova República Velha (2016 a 2026), as cidades médias do interior e as novas regiões agrárias do Norte e Centro Oeste se tornaram os polos dinâmicos da economia nacional, o que se reflete em uma representativdida cultural (com o sertanejo), religiosa (com uma ética baseada no neopentecostalismo) e política (com a bancada do agro crescendo a cada ano).

Enquanto isso, as velhas cidades industriais do litoral, de seus planaltos e montanhas contíguos (São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Belém, Porto Alegre), se tornaram infernos urbanos entregues à gestão de empresários e à especulação imobiliária. A diminuição de população em cidades como Porto Alegre, Belém e Salvador é uma prova que elas não são mais polos de atração, muitas vezes são de repulsão de população.

Em muitas cidades, a política urbana foi substituída pela gestão de construtoras, muitas ligadas ao capital agrário e financeiro, que veem as grandes cidades como simples espaço para um ganho fácil na construção de prédios para a especulação econômica. Mais do que uma “questão meridional” (como diria Antonio Gramsci), temos no Brasil uma “questão ocidental”, que é o domínio deste grande Oeste agrário como pólo dinâmico da vida brasileira. E esse Ocidente é respaldado pela Faria Lima em São Paulo, uma elite “moderna”, cuja cabeça está em Nova Yorque, mas cujos pés estão cravados no barro vermelho do interior do país.

Esse longo ciclo afetou também a esquerda institucional. Em um tempo em que a subjetividade é moldada pela internet, a influência da esquerda norte americana, com sua perspectiva de uma confederação de grupos de interesse, moldou a sensibilidae de uma nova geração. Os discursos dominantes nos últimos 10 anos são voltados cada vez mais para grupos historicamente marginalizados (negros, mulheres, indigenas, LGBTs, periféricos) e muito menos para sujeitos universais, como classe trabalhadora, o povo brasileiro ou o povo do campo.

4.

Essa lógica, que podemos chamar de “liberalismo progressista”, foi seguida de perto por um projeto político inclusivo e diverso, mas não universalizante. Ao contrário do período da industrialização, onde a tônica foram as reformas, desde a CLT de 1942 até a a implementação do SUS, em 1988, hoje os projetos giram em torno de políticas públicas focalizadas.

É inegável que as políticas públicas foram um grande avanço civilizatório e seria um absurdo deixar de defender as Cotas Sociais e Raciais, o Prouni, o Pé de Meia ou o Bolsa Família. Mas a aposta nas políticas sociais como prioridade se sustenta em uma ideia de que o universal é impossível de se alcançar e inclusive não é desejado, por ser excludente.

Mas seria um engano pensar no liberalismo progressista como apenas e tão somente um fenômeno ideológico, porque ele foi a resposta possível da esquerda em um momento em que a capacidade do estado nacional para realizar reformas foi atrofiada pelo neoliberalismo: o problema da esquerda enquanto governo não foi ter abraçado as políticas públicas, mas sim foi ter abandonado um modelo de estado que poderia ter realizado a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma universitária etc.

Mais do que representar uma tendência anticiclica, o PT, o PCdoB e mais recentemente o PSol foram complementos óbvios de um país que se tornou cada vez mais liberal e de um estado que era cada vez mais enxuto. O liberalismo e o americanismo foram a gramática política de um tempo marcado pelo domínio do capital financeiro, pelo agrarismo e pelo estiolamento da capacidade do estado e isto atingiu também a esquerda.

Esse é um modelo sem volta? Claro que não! Inclusive, nestas eleições, candidatos e candidatas que conseguiram associar perspectivas de defesa de políticas públicas com políticas universais, da qual a mais importane atualmente é o fim da escala 6×1, tiveram bastante aceitação pela população, mostrando um possível caminho para o futuro.

Dito tudo isso, a longa noite que começou nos alvores da Nova República, é a grande noite do neoliberalismo, que virou uma madrugada sem estrelas a partir de 2016. Essa noite vai durar mais quanto tempo? É impossível responder, mas talvez seja útil, deslocar o olhar em direção à fatores sócio econômicos de larga escala para entender determinações e sobredeterminações futuras.

A primeira é que os próximos anos prometem ser turbulentos: nem extrema direita, nem centro esquerda vão ter uma vida fácil no governo. A perspectiva que se avizinha é de uma grande crise cíclica (talvez pela bolha da inteligência artificial) para os próximos anos. Diferente de 2008, em que o impacto da crise foi mitigado pela expansão das políticas sociais e valorização do salário mínimo, podemos, desta vez, ter um país afundado em uma economia sob forte contração, fruto de um ajuste fiscal objetivando a concentração de renda.

A consequência para o Brasil, assim como para América Latina, seria muito mais devastadora do que foi em 2008. Agregue-se á isso uma possível escalada de uma guerra na Europa e no Oriente Médio, que pode fechar mercados e produzir ainda mais crise.

Além disso, existe a China e suas circunstâncias: recentemente, o Partido Comunista Chinês lançou seu novo Plano Quinquenal e uma das questões centrais era alcançar a soberania alimentar, para não depender mais de exportações estrangeiras para sustentar sua própria população. Isso teria um impacto direto na América Latina, onde estão grandes sócios comerciais da China como Brasil e Argentina.

Além disso, os chineses também buscam diversificar seus paceiros comerciais, investindo na compra de grãos da Africa Oriental, tendo em vista em que a América Latina (sob influência da política externa norte-amercana) não seria um parceiro confiável. Mudanças deste porte não acontecem do dia para noite, mas se houver uma redução de um quarto das compras chinesas da soja e do gado brasileiro em cinco anos, isso vai abalar toda a estrutura econômica sob a qual a Nova República e a Nova Velha República foram construídas.

Isso já aconteceu no século XX, com a borracha e o café: no primeira caso, sobreveio uma longa depressão na região Norte e no segunda, houve um plano de industrialização que salvou do colapso a economia do Sudeste. Para encerrar esse decálogo, é bom lembrar que períodos de obscurantismo, crises e mudanças cíclicas sempre trazem sofrimento, mas também são a possibilidade de apresentar novos projetos políticos e econômicos para o país.

Cabe talvez pensar o que já foi feito no passado e voltar às categorias universais (como classe trabalhadora), para que na hora da mudança possamos apresentar um novo projeto ao país.

*Frederico Duarte Bartz é doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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