Pages

A luta dos inquilinos incendeia a Espanha

Após despejo e morte de uma idosa, multidões ocupam as ruas contra a especulação imobiliária. Ultradireita defende rentistas. Governo Sanchez vê brecha para emparedá-la e age rápido. Convoca novas eleições e propõe, em vez de ódio aos imigrantes, ampliação dos direitos sociais


De OutrasPalavras, 9 de outubro 2026
Por Ben Wray, no Brave New Europe | Tradução: Rôney Rodrigues


Foto: Sergio Perez/EPA

A Espanha voltará às urnas em 29 de novembro. A decisão do primeiro-ministro Pedro Sánchez de convocar o povo novamente tem tudo a ver com o movimento social que surgiu na Espanha nos últimos 10 dias contra os despejos e pelo direito à moradia.

A centelha começou com o despejo de Maricarmen, uma inquilina de 87 anos, de seu apartamento em Madri, onde vivia há 71 anos. A polícia agrediu ativistas que tentavam impedir o despejo, e Maricarmen foi retirada numa maca. Um fundo abutre que havia comprado o imóvel queria aumentar o aluguel em mais de 300%. Em resposta ao despejo, milhares de ativistas, incluindo os do sindicato dos inquilinos, ocuparam a praça Sol, em Madri, e montaram barracas: o rastilho havia sido aceso.


O governo espanhol respondeu rapidamente à pressão do movimento, antecipando dois decretos sobre moradia. O primeiro interromperia todos os despejos até 2030, entre outras medidas; o segundo atendia às demandas específicas do sindicato dos inquilinos por contratos incondicionais, com os proprietários tendo que pagar uma penalidade compensatória equivalente a 12 meses de aluguel caso quebrassem o contrato e despejassem o inquilino. O governo não tem maioria e depende do apoio de um grupo de partidos de esquerda, bem como de alguns de centro-direita, para aprovar qualquer lei.

Sánchez organizou os decretos em dois, esperando plenamente que o segundo fosse derrotado por seus ‘aliados’ de direita, o pró-independência catalão Junts per Catalunya e o Partido Nacionalista Basco (PNV), mas que o primeiro fosse aprovado e os despejos fossem interrompidos. No final, o Junts se recusou a votar em qualquer um dos decretos. Há rumores de que o partido de Carles Puigdemont estava sob pressão de bancos catalães e lobbies imobiliários. A derrota dos decretos gerou um alvoroço: dezenas de milhares protestaram em Madri no dia seguinte e muitos milhares mais em toda a Espanha, com ocupações de praças públicas em todo o país.

Por que a derrota do governo serviu de trampolim para convocar eleições gerais? Porque Sánchez teria que convocar eleições até maio de 2027 de qualquer forma, e a questão da moradia é um terreno muito mais favorável para a esquerda do que qualquer outro tema que pudesse dominar uma campanha eleitoral. Antes do despejo de Maricarmen, a política espanhola havia se fixado na crise migratória em Ceuta, após milhares de pessoas entrarem no enclave africano vindas do Marrocos no final de julho. Se a crise de Ceuta definisse a campanha eleitoral, Sánchez não teria chance: o debate sobre imigração é dominado pela extrema-direita do Vox, que arrasta consigo o centro-direita do PP.

A moradia é algo completamente diferente. Em vez de nativos contra migrantes, ou cristãos contra muçulmanos, a questão da moradia é dominada pela divisão entre inquilino e proprietário, entre o jovem que não pode sair da casa dos pais e o fundo abutre que quer despejar inquilinos para abrir espaço para turistas. A crise da moradia é definida pela classe social: de um lado, aqueles que possuem múltiplos imóveis e podem usar sua riqueza em ativos para extrair aluguéis; do outro, aqueles que não possuem propriedades e precisam pagar aluguéis ou hipotecas cada vez mais inacessíveis. Nesse terreno, a tentativa da esquerda de impedir despejos é uma mensagem que pode atrair muito além de sua base: uma grande maioria de eleitores de todos os partidos, incluindo PP e Vox, apoia a convocação do sindicato dos inquilinos por uma greve geral contra os despejos.

O PSOE de Sánchez historicamente ficou do lado do rentista, não do inquilino. Quando a crise financeira de 2008 atingiu o país e quase um milhão de pessoas perderam suas casas, foi o PSOE que estava no governo e socorreu os bancos, ao mesmo tempo em que protegia o direito dos oficiais de justiça de despejar pessoas de suas casas. O movimento antidespejo PAH, que surgiu na esteira da crise financeira, era explicitamente contrário à forma como o PSOE lidou com a crise sob a liderança de Zapatero, até o PP assumir o poder no final de 2011. Nos anos seguintes, o número de inquilinos na Espanha cresceu à medida que a classe trabalhadora foi cada vez mais excluída da possibilidade de comprar uma casa. Mas mesmo quando Sánchez trouxe o PSOE de volta ao poder em 2018, enfrentar a crise da moradia continuou muito longe de suas prioridades.

De fato, a única linha de ataque do PP e do Vox na última semana que tem alguma ressonância é: por que o governo espanhol esperoi oito anos e o despejo de Maricarmen para finalmente fazer algo sério sobre a crise da moradia? O custo dos preços das casas e dos aluguéis disparou durante o governo de Sánchez, enquanto os salários continuaram estagnados. A intensificação da crise da moradia sob o governo de coalizão de esquerda desde 2020 revela a forma fraca de social-democracia que foi implementada: embora o governo tenha falado a linguagem da justiça social e implementado algumas reformas nessa direção, a economia espanhola continuou sendo um motor de inflação de preços de ativos, turistificação e trabalho de baixos salários no setor de serviços.

No entanto, Sánchez sobreviveu no poder até agora porque é uma figura política ágil, capaz de sentir o pulso das massas. Ao responder rapidamente às demandas do movimento por moradia, ele posicionou o PSOE e seu governo de coalizão como defensores dos inquilinos, enquanto PP e Vox se opuseram enfaticamente aos decretos de moradia e, assim, aparecem como porta-vozes das classes proprietárias. A única resposta do PP à crise da moradia é construir mais casas, posição defendida por Jeff Bezos, entre outros. Mas qualquer um que se lembre do boom imobiliário espanhol anterior a 2008 sabe que isso não é solução: de 1998 a 2008, seis milhões de casas foram construídas, e o preço da moradia dobrou. É a aceleração da criação de crédito hipotecário que dita os movimentos dos preços da moradia, não a oferta e a demanda. Ou, dito de outra forma, ninguém acredita que mais casas pertencentes a fundos abutres resolverão a crise da moradia.


Ainda assim, as pesquisas indicam que PP e Vox formarão um governo de coalizão após 29 de novembro. O principal problema de Sánchez é que os partidos à sua esquerda, dos quais precisa para formar uma maioria, perderam força desde as últimas eleições gerais, em 2023, quando PP e Vox ficaram muito perto de conquistar a maioria. A coalizão Sumar, que surgiu em torno de Yolanda Díaz em 2023, assumindo do Podemos a liderança da esquerda alternativa, parecia uma novidade promissora três anos atrás. Agora, está longe de parecer isso. Dividida entre os remanescentes do Sumar e os do Podemos, não está claro se a esquerda é capaz de se unir. E, mesmo que consiga costurar algum tipo de aliança, resta saber se ela poderá ser algo além da união dos que já morreram.

Foi um movimento social de massas, na forma dos Indignados, ou 15-M, que deu novo fôlego à esquerda alternativa espanhola. O Podemos surgiu desse movimento como uma força antissistema dinâmica, com rostos novos. Mas nunca conseguiu tirar do PSOE o posto de principal protagonista da esquerda na política espanhola.

No fim das contas, a esquerda acabou sustentando o PSOE no poder, enquanto o próprio PSOE passou a incorporar cada vez mais o discurso da esquerda. No pronunciamento em que anunciou as eleições, Sánchez afirmou que precisava de uma maioria de votos para poder “colocar as elites na linha”. Com a polarização da Espanha em dois blocos, um de esquerda e outro de direita, Sánchez se tornou a principal figura do primeiro.

Mas a matemática eleitoral não mente. Sánchez não vencerá sozinho. Precisará que a esquerda alternativa alcance pelo menos cerca de 10% dos votos para ter uma chance real de formar governo novamente. Isso parecia improvável antes da eclosão do movimento por moradia, e ainda parece pouco provável. Mas, se essa esquerda conseguir canalizar parte da revolta antissistema que anima o movimento, quem sabe?

Os ativistas pelo direito à moradia têm boas razões para desconfiar de que seu movimento seja instrumentalizado e desviado para fins eleitorais. Mas também podem enxergar uma oportunidade: se a esquerda conquistar uma vitória surpreendente em 29 de novembro, todos saberão que ela tem o movimento por moradia a agradecer. E o impulso político que isso daria ao movimento poderia ser imenso.

Por outro lado, se a direita vencer e tivermos um partido de extrema direita no governo pela primeira vez na Espanha desde o fim da era franquista, podemos esperar uma guinada acentuada em direção ao autoritarismo. Em particular, o Vox deverá buscar avançar em seu projeto de um Estado espanhol centralizado, reduzindo o poder das forças independentistas da Catalunha e do País Basco. O objetivo será retirar poderes das comunidades autônomas, para que a Espanha não volte a enfrentar um movimento separatista como o que vimos na Catalunha há quase dez anos. Todas as tentativas feitas durante os anos de governo de Sánchez para construir uma Espanha plurinacional serão revertidas.

As antigas divisões que marcam a Espanha — de classe e de identidade nacional — ficaram, em certa medida, em segundo plano durante os anos de governo progressista, mas nunca desapareceram de fato. A dimensão de classe voltou com força total com o movimento por moradia. Se PP e Vox vencerem as eleições, as divisões nacionais também voltarão ao centro do debate político.




Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
Tagsativismo, despejos, direito à moradia, divisões nacionais, eleições, Espanha, esquerda alternativa, maricarmen, movimento social


Ben Wray
Jornalista freelancer e pesquisador escocês, residente no País Basco. Ben é coautor de Scotland After Britain (Verso Books, 2022). Ele produz o Substack do Gig Economy Project.

Nenhum comentário:

Postar um comentário