Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
A eleição da direita afetará o comércio, a defesa, a tecnologia, as bases militares, a propriedade intelectual, a diplomacia, a relação com a China e OCDE, a preservação da Amazônia e da indústria ainda não desnacionalizada ou o acesso a mercados dos países hoje aliados
1.
Não é contraditório o pressuposto nacionalista da extrema direita brasileira ao vestir amarelo em suas manifestações e carregar bandeiras e dos Estados Unidos e de Israel, demonstrando submissão aos líderes da direita globalizada?
Existe uma contradição aparente entre nacionalismo e alinhamento externo, mas ela se torna mais compreensível quando distinguimos nacionalismo soberanista de nacionalismo identitário.
No bolsonarismo, o segundo é muito mais importante. O verde-amarelo, a bandeira brasileira e expressões como “Brasil acima de tudo” aparentam uma identidade nacional. Em contraponto, as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel funcionam como símbolos de pertencimento a uma comunidade transnacional da direita conservadora. Assim, o nacionalismo “me engane que eu gosto” não impede a internacionalização ideológica.
O paradoxo é os bolsonaristas se apresentarem com nacionalistas internacionalmente submissos ao Imperador Donald. O nacionalismo clássico colocava o interesse nacional brasileiro acima dos alinhamentos ideológicos externos.
Isso, como faz o atual governo brasileiro (Lula III), exige avaliar pragmaticamente EUA, China, União Europeia, Rússia, BRICS etc. segundo interesses econômicos, tecnológicos, diplomáticos e estratégicos brasileiros.
O nacional-populismo de direita opera de outra maneira: “nossa nação” + outras “nações conservadoras” versus “globalistas + esquerda + progressismo + organismos multilaterais + cosmopolitismo”. Surge então algo aparentemente paradoxal: uma internacional de (falsos) nacionalistas.
Não é, contudo, novidade completa. Movimentos nacionalistas europeus também cooperam entre si apesar de defenderem soberanias nacionais. O elemento agregador é menos um projeto de governo mundial e mais um adversário ideológico comum. No caso europeu, o xenofobismo é contra imigrantes.
A bandeira norte-americana possui um significado de submissão ideológica. No bolsonarismo, sobretudo durante a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos passaram a representar para determinados militantes não simplesmente outro país, mas um modelo político: Donald Trump → antiesquerda → anti-woke → conservadorismo → armas → religião → nacionalismo → combate ao establishment.
2.
Daí a peculiaridade: um bolsonarista grita “Brasil acima de tudo” enquanto exibe uma bandeira norte-americana porque, subjetivamente, ou seja, imaginariamente, não está dizendo necessariamente “os interesses dos EUA devem prevalecer sobre os brasileiros”. Está comunicando: “faço parte do mesmo campo político de Donald Trump.” Isso não elimina a contradição do ponto de vista da soberania nacional, mas explica sua lógica identitária.
Israel possui significado diferente. A presença da bandeira israelense em manifestações da direita brasileira não deve ser interpretada apenas em termos de política externa.
Ela possui forte componente religioso, particularmente em segmentos evangélicos. Israel e Jerusalém ocupam lugar especial em determinadas interpretações bíblicas e escatológicas do evangelicalismo.
Politicamente, sobrepõem-se então diferentes significados: Israel bíblico + Estado de Israel contemporâneo + conservadorismo religioso + oposição à esquerda + identificação com o governo israelense de direita.
Por isso uma bandeira estrangeira paradoxalmente funciona como símbolo doméstico de identidade religiosa e política. É importante não generalizar isso aos evangélicos como conjunto, muito menos aos brasileiros conservadores em geral.
Isso revela uma transformação profunda do próprio conceito de nacionalismo. O nacionalismo econômico do século XX perguntava: – Quem controla nossas empresas? Nossa tecnologia? Nossos bancos? Nossos recursos naturais? Nossa política externa?
O nacionalismo identitário do século XXI só pergunta: Quem somos “nós”? Quais são nossos valores? Quem ameaça nossa família, religião e modo de vida?
São nacionalismos bastante diferentes. Um governo de extrema-direita pode, portanto, ser simultaneamente nacionalista na retórica cultural e liberalizante ou internacionalista na economia.
Essa foi precisamente uma das tensões internas do governo de jair Bolsonaro: retórica de soberania e patriotismo coexistia com a agenda neoliberal de Paulo Guedes, privatizações, abertura econômica em determinados campos e forte aproximação política com o governo Donald Trump.
Carregar a bandeira norte-americana demonstra, por si só, submissão objetiva aos Estados Unidos. Demonstra seguramente admiração, identificação ou solidariedade política.
Para caracterizar submissão em sentido de Economia Política, precisaríamos examinar decisões concretas: interesse brasileiro × interesse norte-americano, qual prevalecerá? O Tariflávio e irmão Capachonaro, exilado nos States, demonstraram claramente seu compromisso com o governo de Donald Trump.
3.
Por exemplo, caso seja eleito, afetará o comércio, a defesa, a tecnologia, as bases militares, a propriedade intelectual, a diplomacia, a relação com a China e OCDE, a preservação da Amazônia e da indústria ainda não desnacionalizada ou o acesso a mercados dos países hoje aliados. Avalia-se haver alinhamento assimétrico sem reciprocidade suficiente. Será uma dependência ou um alinhamento subordinado pelas decisões de Estado sem soberania.
Há uma ironia histórica ainda maior. A direita radical contemporânea combate aquilo chamado por ela de “globalismo”, mas ela própria está extraordinariamente globalizada. Ideias, slogans e técnicas políticas neofascistas circulam internacionalmente: Estados Unidos ↔ Brasil ↔ Argentina ↔ Europa ↔ redes religiosas ↔ think tanks ↔ influenciadores ↔ plataformas digitais.
Expressões como fake news, woke, “globalismo”, “ideologia de gênero”, “marxismo cultural”, ataques ao establishment e denúncias contra elites cosmopolitas atravessam fronteiras rapidamente.
Assim, aconteceu na direita: globalização econômica → produziu reações nacionalistas → essas reações foram conectadas pela globalização digital → formando redes internacionais de movimentos antiglobalistas. Esse é um exemplo de emergência sistêmica: a própria globalização criou a infraestrutura pela qual o antiglobalismo se globalizou.
A diferença em relação ao antigo fascismo é esclarecedora. Benito Mussolini e Adolf Hitler também admiravam e cooperavam com regimes ideologicamente próximos. Portanto, fascismos históricos nunca foram absolutamente isolados.
Mas havia projetos nacionais expansionistas potencialmente conflitantes. A cooperação internacional estava subordinada à potência nacional.
A extrema direita contemporânea opera dentro de uma economia global muito mais integrada. Por isso, consegue combinar: nacionalismo identitário conservador + capitalismo globalizado + redes políticas transnacionais.
Não precisa resolver intelectualmente essa contradição. Basta deslocar o significado de “nação” da autonomia econômica para a identidade cultural.
No caso brasileiro, existem três nacionalismos: (i) nacionalismo soberanista: “o Brasil deve possuir autonomia diante de todas as grandes potências”; (ii) nacionalismo econômico: “o país deve controlar recursos, tecnologia e setores estratégicos necessários ao desenvolvimento”; (iii) nacionalismo identitário: “devemos preservar Deus, Pátria, Família, ordem e valores tradicionais”.
O bolsonarismo mostrou-se muito mais claramente associado ao terceiro em lugar de aos dois primeiros. Daí desapareceu grande parte da contradição subjetiva entre vestir verde-amarelo e carregar bandeiras dos EUA ou de Israel. Para o manifestante, as três bandeiras anunciam a mesma coisa: “pertencemos ao campo conservador”. Só isso lhe interessa diante do “inimigo” de esquerda.
Mas, do ponto de vista da economia política, permanece uma questão crítica muito pertinente: um nacionalismo cuja identidade política depende de lideranças, símbolos e agendas produzidos no exterior é nacionalismo soberanista ou apenas nacionalismo identitário integrado a uma rede política conservadora transnacional?
Evidentemente, é a segunda interpretação. Ela produz um paradoxo para a análise do neofascismo contemporâneo: a extrema direita globalizou o nacionalismo e, ao mesmo tempo, transformou a globalização em seu inimigo retórico.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
Download gratuito do livro digital:
Fernando Nogueira da Costa. Frente ampla democrática contra neofascismo, setembro de 2026.
1.
Não é contraditório o pressuposto nacionalista da extrema direita brasileira ao vestir amarelo em suas manifestações e carregar bandeiras e dos Estados Unidos e de Israel, demonstrando submissão aos líderes da direita globalizada?
Existe uma contradição aparente entre nacionalismo e alinhamento externo, mas ela se torna mais compreensível quando distinguimos nacionalismo soberanista de nacionalismo identitário.
No bolsonarismo, o segundo é muito mais importante. O verde-amarelo, a bandeira brasileira e expressões como “Brasil acima de tudo” aparentam uma identidade nacional. Em contraponto, as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel funcionam como símbolos de pertencimento a uma comunidade transnacional da direita conservadora. Assim, o nacionalismo “me engane que eu gosto” não impede a internacionalização ideológica.
O paradoxo é os bolsonaristas se apresentarem com nacionalistas internacionalmente submissos ao Imperador Donald. O nacionalismo clássico colocava o interesse nacional brasileiro acima dos alinhamentos ideológicos externos.
Isso, como faz o atual governo brasileiro (Lula III), exige avaliar pragmaticamente EUA, China, União Europeia, Rússia, BRICS etc. segundo interesses econômicos, tecnológicos, diplomáticos e estratégicos brasileiros.
O nacional-populismo de direita opera de outra maneira: “nossa nação” + outras “nações conservadoras” versus “globalistas + esquerda + progressismo + organismos multilaterais + cosmopolitismo”. Surge então algo aparentemente paradoxal: uma internacional de (falsos) nacionalistas.
Não é, contudo, novidade completa. Movimentos nacionalistas europeus também cooperam entre si apesar de defenderem soberanias nacionais. O elemento agregador é menos um projeto de governo mundial e mais um adversário ideológico comum. No caso europeu, o xenofobismo é contra imigrantes.
A bandeira norte-americana possui um significado de submissão ideológica. No bolsonarismo, sobretudo durante a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos passaram a representar para determinados militantes não simplesmente outro país, mas um modelo político: Donald Trump → antiesquerda → anti-woke → conservadorismo → armas → religião → nacionalismo → combate ao establishment.
2.
Daí a peculiaridade: um bolsonarista grita “Brasil acima de tudo” enquanto exibe uma bandeira norte-americana porque, subjetivamente, ou seja, imaginariamente, não está dizendo necessariamente “os interesses dos EUA devem prevalecer sobre os brasileiros”. Está comunicando: “faço parte do mesmo campo político de Donald Trump.” Isso não elimina a contradição do ponto de vista da soberania nacional, mas explica sua lógica identitária.
Israel possui significado diferente. A presença da bandeira israelense em manifestações da direita brasileira não deve ser interpretada apenas em termos de política externa.
Ela possui forte componente religioso, particularmente em segmentos evangélicos. Israel e Jerusalém ocupam lugar especial em determinadas interpretações bíblicas e escatológicas do evangelicalismo.
Politicamente, sobrepõem-se então diferentes significados: Israel bíblico + Estado de Israel contemporâneo + conservadorismo religioso + oposição à esquerda + identificação com o governo israelense de direita.
Por isso uma bandeira estrangeira paradoxalmente funciona como símbolo doméstico de identidade religiosa e política. É importante não generalizar isso aos evangélicos como conjunto, muito menos aos brasileiros conservadores em geral.
Isso revela uma transformação profunda do próprio conceito de nacionalismo. O nacionalismo econômico do século XX perguntava: – Quem controla nossas empresas? Nossa tecnologia? Nossos bancos? Nossos recursos naturais? Nossa política externa?
O nacionalismo identitário do século XXI só pergunta: Quem somos “nós”? Quais são nossos valores? Quem ameaça nossa família, religião e modo de vida?
São nacionalismos bastante diferentes. Um governo de extrema-direita pode, portanto, ser simultaneamente nacionalista na retórica cultural e liberalizante ou internacionalista na economia.
Essa foi precisamente uma das tensões internas do governo de jair Bolsonaro: retórica de soberania e patriotismo coexistia com a agenda neoliberal de Paulo Guedes, privatizações, abertura econômica em determinados campos e forte aproximação política com o governo Donald Trump.
Carregar a bandeira norte-americana demonstra, por si só, submissão objetiva aos Estados Unidos. Demonstra seguramente admiração, identificação ou solidariedade política.
Para caracterizar submissão em sentido de Economia Política, precisaríamos examinar decisões concretas: interesse brasileiro × interesse norte-americano, qual prevalecerá? O Tariflávio e irmão Capachonaro, exilado nos States, demonstraram claramente seu compromisso com o governo de Donald Trump.
3.
Por exemplo, caso seja eleito, afetará o comércio, a defesa, a tecnologia, as bases militares, a propriedade intelectual, a diplomacia, a relação com a China e OCDE, a preservação da Amazônia e da indústria ainda não desnacionalizada ou o acesso a mercados dos países hoje aliados. Avalia-se haver alinhamento assimétrico sem reciprocidade suficiente. Será uma dependência ou um alinhamento subordinado pelas decisões de Estado sem soberania.
Há uma ironia histórica ainda maior. A direita radical contemporânea combate aquilo chamado por ela de “globalismo”, mas ela própria está extraordinariamente globalizada. Ideias, slogans e técnicas políticas neofascistas circulam internacionalmente: Estados Unidos ↔ Brasil ↔ Argentina ↔ Europa ↔ redes religiosas ↔ think tanks ↔ influenciadores ↔ plataformas digitais.
Expressões como fake news, woke, “globalismo”, “ideologia de gênero”, “marxismo cultural”, ataques ao establishment e denúncias contra elites cosmopolitas atravessam fronteiras rapidamente.
Assim, aconteceu na direita: globalização econômica → produziu reações nacionalistas → essas reações foram conectadas pela globalização digital → formando redes internacionais de movimentos antiglobalistas. Esse é um exemplo de emergência sistêmica: a própria globalização criou a infraestrutura pela qual o antiglobalismo se globalizou.
A diferença em relação ao antigo fascismo é esclarecedora. Benito Mussolini e Adolf Hitler também admiravam e cooperavam com regimes ideologicamente próximos. Portanto, fascismos históricos nunca foram absolutamente isolados.
Mas havia projetos nacionais expansionistas potencialmente conflitantes. A cooperação internacional estava subordinada à potência nacional.
A extrema direita contemporânea opera dentro de uma economia global muito mais integrada. Por isso, consegue combinar: nacionalismo identitário conservador + capitalismo globalizado + redes políticas transnacionais.
Não precisa resolver intelectualmente essa contradição. Basta deslocar o significado de “nação” da autonomia econômica para a identidade cultural.
No caso brasileiro, existem três nacionalismos: (i) nacionalismo soberanista: “o Brasil deve possuir autonomia diante de todas as grandes potências”; (ii) nacionalismo econômico: “o país deve controlar recursos, tecnologia e setores estratégicos necessários ao desenvolvimento”; (iii) nacionalismo identitário: “devemos preservar Deus, Pátria, Família, ordem e valores tradicionais”.
O bolsonarismo mostrou-se muito mais claramente associado ao terceiro em lugar de aos dois primeiros. Daí desapareceu grande parte da contradição subjetiva entre vestir verde-amarelo e carregar bandeiras dos EUA ou de Israel. Para o manifestante, as três bandeiras anunciam a mesma coisa: “pertencemos ao campo conservador”. Só isso lhe interessa diante do “inimigo” de esquerda.
Mas, do ponto de vista da economia política, permanece uma questão crítica muito pertinente: um nacionalismo cuja identidade política depende de lideranças, símbolos e agendas produzidos no exterior é nacionalismo soberanista ou apenas nacionalismo identitário integrado a uma rede política conservadora transnacional?
Evidentemente, é a segunda interpretação. Ela produz um paradoxo para a análise do neofascismo contemporâneo: a extrema direita globalizou o nacionalismo e, ao mesmo tempo, transformou a globalização em seu inimigo retórico.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
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Fernando Nogueira da Costa. Frente ampla democrática contra neofascismo, setembro de 2026.

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