Por JOÃO DOS REIS SILVA JUNIOR*
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1.
Quarenta anos de carreira dizem pouco quando apresentados apenas como intervalo entre o ingresso e a saída de um professor. O que ocupou esse tempo? Em quais condições se trabalhou e quanto foi possível descansar? Pesquisa, aulas, orientações, bancas, livros e artigos disputam as mesmas horas. A preparação das disciplinas, a correção dos trabalhos e os encargos administrativos prolongam uma jornada que raramente coincide com os horários registrados. É sobre essa organização da vida que a aposentadoria incide. Para compreender o que ela altera, precisamos conhecer o trabalho que cessa e aquele que permanece, inclusive quando o professor já não integra o quadro ativo da instituição.
Pensemos numa manhã sem aula marcada. Sobre a mesa, um livro aberto pode servir à preparação de uma exposição, à leitura de uma tese ou à revisão de um argumento. A aula saiu da agenda, mas as orientações e os prazos editoriais continuam. Aquela manhã ainda está comprometida. Nem o telefone em silêncio indica descanso, pois a leitura e a escrita prosseguem sem que alguém acompanhe sua execução. A liberdade anunciada pela aposentadoria pode, assim, demorar a chegar à rotina. Enquanto não se souber quais encargos terminaram, o professor poderá continuar trabalhando quase como antes, agora sob a suposição de que dispõe de todo o seu tempo.
Essa passagem depende da carga anterior. Quem preservou intervalos de descanso chega a ela em condições diferentes de quem atravessou anos de tarefas sobrepostas. Também pesa o apoio recebido: contar com uma equipe técnica é diferente de administrar sozinho os recursos e os problemas de um projeto. Sob a mesma contagem de tempo de serviço cabem trajetórias muito desiguais. O alívio de interromper uma rotina pesada pode vir acompanhado da falta dos encontros que ela proporcionava. A tristeza pela saída, portanto, pouco diz sobre quanto daquela carga ainda se conseguia suportar. É possível sentir falta de um trabalho que já nos exauria.
Seria necessário reconstruir essa história para compreender o desgaste acumulado. Quantas disciplinas o professor assumia e quantas orientações conduzia ao mesmo tempo? Quando terminava uma obrigação, havia descanso ou outra entrega já estava atrasada? A identidade docente se formou sob uma divisão do trabalho, com responsabilidades que mudaram ao longo dos anos.
O sentimento diante da saída guarda algo dessas mudanças. Lembramos do que conseguimos realizar, mas também do esforço que certas tarefas exigiram e do que foi ficando para depois. Reduzir tudo à duração da carreira faz desaparecer justamente as condições em que ela foi vivida.
2.
A aula começa antes de seu horário e continua depois dele. Preparar uma disciplina exige leituras, escolhas de bibliografia e a construção de um percurso que os estudantes possam acompanhar. Depois vêm as avaliações e as dificuldades que cada turma apresenta. As horas em sala são apenas parte desse trabalho. Ali, porém, acontece algo de que o professor pode sentir muita falta: uma pergunta obriga a rever a explicação, um estudante percebe um problema que havia passado despercebido. A aposentadoria alivia os encargos e pode retirar esse convívio. Quem deseja voltar para uma aula ocasional talvez esteja procurando a interlocução, sem pretender reassumir uma disciplina e tudo o que a acompanha.
Na orientação, a conversa depende de um trabalho feito antes e retomado depois. Ler versões, conferir fontes e examinar a construção de um problema exige tempo, sobretudo quando várias pesquisas chegam juntas a momentos decisivos. Acompanhar a formação de alguém, até reconhecer sua autonomia, pode ser uma das experiências mais significativas da carreira.
Daí a dificuldade de encerrar esse vínculo. Há compromissos a concluir e estudantes cujo percurso não pode ser interrompido pela saída do orientador. Organizar a transição requer discutir prazos e condições com eles e com o programa. O afeto ajuda a compreender o desejo de continuar, mas, sozinho, não estabelece quantas novas orientações ainda será possível assumir.
Uma banca ocupa algumas horas no calendário; a leitura responsável de uma tese pode ocupar dias. É preciso anotar, conferir referências, elaborar questões e, por vezes, viajar. O convite traz o reconhecimento de colegas, por isso recusá-lo nem sempre é simples. Aceitá-lo, contudo, retira tempo de outra atividade ou do descanso. Participar de algumas bancas depois da aposentadoria permite manter interlocuções importantes. O problema aparece quando cada convite se torna uma ocasião de provar que ainda se está presente. Aos poucos, a agenda volta a encher, e o professor reencontra a carga da qual procurava se afastar.
Livros e artigos condensam um trabalho pouco visível. A publicação não mostra as versões abandonadas nem as leituras que obrigaram o autor a refazer seu argumento. Quando a escrita coincide com aulas e administração, costuma ser acomodada nas horas que restam, muitas vezes à custa do descanso.
A aposentadoria pode dar continuidade a esse trabalho, desde que os demais encargos de fato diminuam. O valor de uma obra, entretanto, não justifica retrospectivamente qualquer sacrifício feito para produzi-la. Ao reconhecer um autor, precisamos admitir também que ele se canse, adie uma entrega ou decida não escrever outro livro. A obra já realizada não o obriga a permanecer indefinidamente nas condições que a tornaram possível.
3.
O currículo informa o que foi publicado, os cargos ocupados e as orientações concluídas. Quase nada diz sobre o tempo gasto em cada atividade. Dois artigos podem ter exigido esforços muito diferentes; uma orientação pode ter atravessado impasses ausentes de seu registro final. A administração, por sua vez, consome semanas sem alcançar a visibilidade de uma publicação.
Quando a aposentadoria é examinada apenas pelo que deixará de aparecer no currículo, perde-se de vista o trabalho que sustentou aqueles resultados. Essa maneira de avaliar pode ser incorporada pelo próprio professor. Acostumado a reconhecer seu valor nas entregas, ele passa a sentir a redução da atividade como perda de importância pessoal.
A distribuição das tarefas também interfere no desgaste. Uma semana de trabalho com alguma autonomia de ritmo difere de outra, igualmente longa, submetida a interrupções e prazos coincidentes. A leitura fragmentada precisa ser retomada; uma decisão pendente pode acompanhar o professor depois do expediente. Isso varia entre instituições e períodos da carreira, mas em cada caso se pode perguntar quem estabelece as demandas e de que meios o docente dispõe para atendê-las.
Quando as obrigações excedem as horas disponíveis, o custo aparece no cuidado dispensado a uma tarefa, no atraso de outra ou na invasão do tempo reservado à vida fora do trabalho. Permanecer ou sair implica lidar com essa distribuição de custos.
Ter uma manhã livre exige mais do que retirar uma atividade do calendário. Se novas solicitações ocupam imediatamente o intervalo, a carga se recompõe. A possibilidade de recusar passa a ser decisiva, embora nem sempre baste. Depois de muitos anos lendo em função de entregas, o professor pode se cobrar um resultado publicável até de uma leitura escolhida por prazer.
A exigência sobrevive à obrigação que a alimentava. Por isso, a mudança das condições de trabalho e a mudança de hábitos podem ocorrer em ritmos diferentes. Mesmo com a agenda menos cheia, leva tempo até que alguém consiga descansar sem sentir que deveria estar fazendo outra coisa.
O trabalho intelectual pode continuar prazeroso quando as condições de realizá-lo já se tornaram exaustivas. Há quem queira escrever e esteja cansado da urgência editorial; quem goste de orientar, mas não suporte a multiplicação de compromissos. Perguntar apenas se esse professor deseja parar ou continuar deixa de fora a composição do seu trabalho.
A aposentadoria permite, em certas condições, separar atividades reunidas pela carreira sob um mesmo vínculo. Conservar uma pesquisa e encerrar encargos administrativos pode fazer diferença. A vontade de permanecer intelectualmente ativo, portanto, precisa ser considerada junto com as mudanças necessárias para que essa atividade ainda caiba na vida.
4.
O corpo participa de cada uma dessas escolhas. É preciso atravessar distâncias, permanecer sentado por horas, sustentar a voz e recuperar-se do esforço. A idade, isoladamente, não informa o que alguém consegue fazer. A carga presente e as condições de descanso importam tanto quanto o tempo vivido. Admitir limites pode permitir que a experiência acumulada continue sendo partilhada, agora em um ritmo suportável. Há situações, porém, em que nenhuma habilidade individual para organizar a agenda resolve o excesso de responsabilidades. Nelas, a própria organização do trabalho precisa mudar, sob pena de exigir do professor uma resistência que já lhe custa demais.
Existe ainda a dor de perder um lugar conhecido. Ter uma turma, ser esperado numa reunião ou receber um pedido de leitura confirma diariamente nossa presença na instituição. A diminuição desses encontros pode trazer a impressão de que nos tornamos dispensáveis. Saber que a universidade precisa continuar depois de nós não desfaz, por si só, essa dor.
Durante a carreira, a função ocupada e a importância atribuída à pessoa se aproximam tanto que separá-las se torna difícil. A aposentadoria encerra ou modifica a função, mas o professor pode viver a mudança como se tudo o que fez tivesse deixado de contar. A maneira como a instituição conduz a passagem pode agravar esse sentimento ou ajudar a enfrentá-lo.
Saudade é uma palavra insuficiente para essa experiência. Antes de atribuir a hesitação a uma dificuldade de desapego, convém ouvir o que a pessoa teme perder. Talvez ela queira preservar uma pesquisa e deixar a administração; talvez procure apenas uma forma de estar na universidade sem permanecer disponível o tempo inteiro. O sofrimento não torna heroica a permanência, assim como a exaustão não atesta maior dedicação. Quando se ignora a relação entre o afeto e os encargos, corre-se o risco de recomendar entusiasmo a quem precisa descansar ou afastamento completo a quem ainda deseja trabalhar em outras condições.
A universidade tem responsabilidade nessa passagem. Além dos procedimentos administrativos, cabe discutir quais atividades serão encerradas e quem assumirá os compromissos em andamento. Se houver colaboração futura, suas condições precisam ser acordadas. Uma homenagem, por sincera que seja, não resolve essas questões.
Elogiar a experiência do professor e continuar a solicitar seu trabalho pode prolongar a mesma dificuldade que o levou a pensar na saída. A transição não deveria depender apenas de sua capacidade de dizer não, especialmente quando a recusa é vivida como deslealdade aos colegas ou aos estudantes. Quem trabalhou quarenta anos não precisa demonstrar gratidão aceitando novos encargos sem limite.
5.
Isso se torna particularmente delicado nos vínculos como professor voluntário ou colaborador. O nome do vínculo pouco esclarece sobre a possibilidade de escolher tarefas e recusá-las. Sem acordos claros, conservam-se exigências do trabalho anterior em uma situação na qual pode ser ainda mais difícil contestá-las.
A contribuição de um aposentado pode enriquecer um programa, mas não deve ser sustentada pelo receio de desaparecer nem servir para acomodar a falta de renovação dos quadros. Quando uma necessidade permanente da instituição passa a depender dessa disponibilidade, a colaboração deixa de ser apenas uma escolha pessoal. Seus limites precisam ser discutidos também por quem a solicita.
A passagem envolve os que chegam. Quem construiu uma longa trajetória pode desejar transmitir sua experiência e, ao mesmo tempo, ter dificuldade de aceitar que ela já não organize todas as decisões. O conhecimento acumulado merece consideração, sem conferir autoridade indefinida sobre o futuro. Novos pesquisadores precisam de espaço para experimentar seus problemas e modos de trabalhar.
A transmissão inclui a possibilidade de que uma herança intelectual seja modificada, até contrariada, por quem a recebe. Isso pode ser doloroso para quem se acostumou a conduzir um grupo. Ainda assim, a autonomia que se procurou formar nos estudantes precisa ser reconhecida quando suas escolhas se afastam das nossas.
Ao pensar a vida fora da universidade, descobrimos quanto de nossa identidade ficou concentrado nela. Durante esses quarenta anos existiram amizades, relações familiares e interesses que nem sempre receberam a atenção desejada. Alguns sustentaram a carreira; outros foram adiados pela urgência seguinte. Voltar a eles pode exigir reconhecer ausências e aceitar o que mudou enquanto estávamos ocupados.
As pessoas próximas têm suas próprias vidas e não podem receber a incumbência de preencher o lugar deixado pela instituição. Também não se trata de encontrar rapidamente outra atividade que ofereça o mesmo reconhecimento. Há experiências que merecem tempo sem precisar reproduzir a centralidade que a profissão adquiriu.
A convivência familiar, quando desejada, pode ganhar espaço. Estar mais tempo em casa, porém, não resolve desencontros acumulados. É necessário conhecer os ritmos dos outros e respeitar escolhas das quais nem sempre participamos. Um professor habituado a conduzir discussões talvez precise aprender a estar presente sem organizar tudo.
Acompanhar uma criança ou partilhar uma refeição exige atenção a quem está ali, com interesses que não seguem nosso calendário. Durante a carreira, encontros assim podem ter sido abreviados por uma entrega. Agora existe a possibilidade de permanecer, embora seja preciso descobrir, com os outros, como viver essa proximidade.
6.
Essa possibilidade depende de condições materiais. A renda, a moradia e as responsabilidades de cuidado interferem diretamente na aposentadoria, assim como o acesso a serviços e a pessoas com quem contar. Quem pode escolher seus compromissos vive uma situação diferente de quem precisa continuar trabalhando para pagar despesas essenciais.
Mesmo entre professores com trajetórias semelhantes, essas diferenças podem ser grandes. Nenhuma disposição pessoal produz sozinha os meios de descansar ou reorganizar a vida. Falar em recuperar o tempo exige considerar quanto dele permanece comprometido com a sobrevivência e quais escolhas estão, de fato, ao alcance de cada um.
Para quem encontra essas condições, a escrita pode ganhar uma duração antes difícil de sustentar. Certos livros exigem retornar a um autor, confrontar documentos e refazer demoradamente o argumento. Menos obrigações podem favorecer esse percurso. Mas preencher a nova agenda com promessas de publicação também pode restabelecer a pressão anterior, agora por iniciativa do próprio escritor. É uma tentação compreensível para quem se habituou a medir os dias pelo trabalho concluído. Escrever continuará sendo importante; resta saber quanto espaço se deseja reservar à escrita e se será possível interrompê-la quando a vida pedir atenção em outro lugar.
A decisão de permanecer ou se aposentar depende, assim, do trabalho que será mantido. Adiar a saída pode fazer sentido quando há redução dos encargos e condições para realizar as atividades escolhidas. Se tudo continua igual e se acrescenta a obrigação de provar capacidade, o adiamento prolonga o problema.
A aposentadoria, por sua vez, tampouco assegura descanso quando as exigências persistem sob outro vínculo. Em ambos os casos, a mudança precisa alcançar a divisão das responsabilidades. Encerrar uma tarefa supõe discutir quem a realizará e com quais recursos, para que o alívio de um professor não se transforme apenas em sobrecarga de outro.
A universidade permanece em quem a viveu intensamente. No início, sua ausência talvez seja sentida na falta da turma, do corredor e das conversas que davam forma à semana. Com o tempo, o que aprendemos ali pode encontrar outros destinos, inclusive fora de qualquer atividade acadêmica. Nada assegura uma passagem tranquila.
Um dia de alívio pode ser seguido por outro em que a falta pese mais. Essa oscilação faz parte da dificuldade de reorganizar uma vida construída durante décadas. Aos poucos, talvez seja possível reconhecer o pertencimento sem precisar confirmá-lo a cada convite aceito ou a cada retorno à instituição.
O reconhecimento de quarenta anos de trabalho deve alcançar também o direito de diminuir sua carga. O professor pode desejar a universidade e precisar se afastar da rotina que ela lhe impõe. Pode continuar escrevendo, orientar menos ou decidir que chegou a hora de encerrar esses compromissos. O que escolher dependerá de suas condições e poderá mudar com o tempo.
Na manhã sem aula marcada, o livro ainda estará sobre a mesa. Talvez seja aberto para retomar um argumento; talvez permaneça fechado, porque naquele dia há vontade de fazer outra coisa. Que essa escolha se torne possível sem que seja necessário prestar contas de toda hora vivida.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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