Por Marcio Pochmann
Empresas privadas já fornecem capacidades estratégicas para governos, sistemas de defesa e agências de inteligência. A Palantir é exemplo.
Neste primeiro terço do século XXI, há uma disputa decisiva pelo poder de definir o futuro. Durante a modernidade ocidental, essa prerrogativa foi progressivamente incorporada ao Estado nacional. Censos, estatísticas, escolas, universidades, infraestrutura, planejamento, moeda e políticas públicas tornaram-se instrumentos para conhecer o presente e organizar coletivamente o amanhã. Na era digital, porém, ganha força outra concepção. O futuro pode deixar de ser entendido principalmente como construção política da sociedade para tornar-se resultado da ação de empreendedores, fundos de investimento e empresas que controlam tecnologias de fronteira. Peter Thiel é uma das expressões mais conhecidas dessa mudança.
No ensaio The Education of a Libertarian, de 2009, Thiel afirmou ter deixado de acreditar na compatibilidade entre liberdade e democracia e passou a defender formas de ampliar a liberdade fora da política tradicional. Sua crítica não se limita ao tamanho do Estado. Ela questiona a própria capacidade da democracia de decidir sobre os rumos da inovação. Em Zero to One, Thiel e Blake Masters associam progresso à criação de algo radicalmente novo. A tecnologia aparece como meio de superar limitações impostas pela política, pela burocracia e pelas decisões majoritárias. A inovação deixa, assim, de ser apenas atividade econômica e passa a ocupar posição central na produção do futuro. Forma-se uma espécie de ideologia do futuro: quem consegue antecipar tecnologicamente o amanhã reivindica maior liberdade para construí-lo. Empresas inovadoras tornam-se laboratórios de novas formas de vida, trabalho, comunicação e poder. O futuro transforma-se em ativo econômico e político.
Balaji Srinivasan leva essa perspectiva adiante com a proposta do Network State. Nela, o Estado nacional deixa de ser concebido como forma política inevitável. Comunidades poderiam surgir na internet, organizar-se em torno de valores, tecnologias, criptografia e recursos compartilhados e, posteriormente, adquirir território e reconhecimento. A soberania, nessa concepção, não precisaria nascer do território. Poderia nascer da rede. Em God, State, Network, Srinivasan aproxima Deus, Estado e rede como formas históricas de autoridade. O ponto central não é afirmar que a rede substituirá literalmente a religião ou o Estado, mas perceber uma possível mudança no fundamento da autoridade: da transcendência religiosa e da soberania territorial para plataformas, protocolos, comunidades digitais, criptografia e inteligência artificial.
A tecnologia deixa, então, de ser apenas instrumento e passa a funcionar como instituição organizadora da vida social. Surge, porém, um paradoxo associado à promessa de libertar o indivíduo das antigas autoridades pode criar novas concentrações de poder. Plataformas controlam infraestrutura, algoritmos organizam visibilidade, dados permitem conhecer comportamentos, a inteligência artificial amplia a capacidade de previsão e o capital define quem consegue desenvolver essas tecnologias em grande escala.
Kate Crawford, em Atlas of AI, mostra que a inteligência artificial está longe de ser imaterial ou autônoma. Ela depende de minerais, energia, trabalho humano, centros de processamento, dados, cadeias industriais e grandes volumes de capital. A pergunta central, portanto, não é apenas se a IA ficará mais inteligente. É quem controla sua infraestrutura, seus dados, seus modelos, sua energia e seus objetivos. Essa crítica dialoga com Miguel Nicolelis, que questiona a própria ideia de que os atuais sistemas sejam verdadeiramente “inteligentes” ou “artificiais”.
A dimensão geopolítica amplia essa discussão. A disputa entre Estados Unidos e China não se limita à produção do melhor modelo de inteligência artificial. Ela envolve semicondutores, capacidade computacional, energia, minerais críticos, infraestrutura de comunicação, dados, robótica e incorporação da IA à produção. Nos Estados Unidos, parte significativa desse desenvolvimento está concentrada em grandes empresas privadas e articulada a interesses de segurança e defesa. Na China, a inteligência artificial é apresentada como questão estratégica nacional, combinada a políticas públicas, planejamento e cooperação internacional. Isso não torna os dois modelos equivalentes, nem elimina problemas de controle, transparência e liberdade. Mostra apenas que a questão central não é quem chegará primeiro, mas quem definirá as regras de acesso, controle e uso da inteligência artificial.
Também é preciso evitar a confusão entre inovação e desregulação. Há riscos reais relacionados à autonomia crescente dos sistemas, à cibersegurança, à manipulação de informações, ao uso militar e a aplicações biológicas. Esses riscos exigem regulação e capacidade pública, não a retirada do Estado. Soberania tecnológica, por sua vez, não significa autarquia. Um país não precisa produzir sozinho todos os componentes estratégicos. Precisa ser capaz de conhecer, decidir, regular, negociar e evitar dependência integral de terceiros. É nesse ponto que a geopolítica da IA encontra a questão dos “proprietários do futuro”. No século XX, soberania esteve associada principalmente ao território, à indústria, à energia, às Forças Armadas e à moeda. No século XXI, soma-se uma nova dimensão relacionada à capacidade cognitiva. Quem controla dados e inteligência artificial aumenta sua capacidade de observar, classificar, prever e influenciar sociedades.
O Estado moderno utilizou censos, registros administrativos, cartografia e estatísticas para transformar população e território em conhecimento governável. Hoje, grandes empresas privadas dispõem de volumes de dados e capacidades computacionais que, em determinados campos, superam as de muitos governos. Surge, assim, uma possível inversão histórica, quando o Estado, que acumulou conhecimento para exercer soberania, pode tornar-se dependente de empresas privadas para compreender sua própria sociedade.
O problema não está apenas em quem possui as maiores empresas, mas em quem controla as infraestruturas cognitivas da sociedade. A inteligência artificial pode ajudar governos a antecipar epidemias, desastres, deslocamentos populacionais, necessidades de infraestrutura e transformações econômicas. Também pode ampliar vigilância, discriminação algorítmica, manipulação política e concentração de poder. Seus efeitos dependem das instituições, das finalidades e das relações de poder que orientam seu uso.
A experiência das Big Techs é reveladora. Empresas privadas já fornecem capacidades estratégicas para governos, sistemas de defesa e agências de inteligência. A Palantir exemplifica essa aproximação entre capital tecnológico e poder estatal. O fenômeno não representa simplesmente a substituição do Estado pela empresa, mas pode significar a privatização de parcelas da capacidade cognitiva do próprio Estado.
As redes digitais também permitem a formação de comunidades políticas e religiosas transnacionais. Estudos de Tess Owen sobre nacionalismo cristão e plataformas digitais mostram como tecnologia, religião, identidade política e mobilização podem se articular. A rede, portanto, não necessariamente seculariza a sociedade, pois também pode fortalecer novas formas de comunidade e pertencimento. Tecnologia avançada, capital de risco, crítica ao Estado, religião, nacionalismo e inteligência artificial passam, assim, a conviver no mesmo ambiente político.
É nesse contexto que a expressão “proprietários do futuro” ganha sentido. Proprietário do futuro não é apenas quem possui capital. É quem consegue definir quais tecnologias serão desenvolvidas, quais riscos serão aceitos, quais dados serão utilizados, quais comportamentos serão previstos e quais possibilidades serão consideradas desejáveis. O problema democrático surge quando essa capacidade se concentra em poucos atores. A resposta, contudo, não está em rejeitar a inovação nem em simplesmente restaurar o Estado nacional do século XX. O desafio é reconstruir a capacidade pública para a sociedade digital. Isso exige infraestrutura computacional soberana, inteligência artificial de interesse público, dados governamentais interoperáveis e protegidos, estatísticas oficiais independentes, universidades fortes, pesquisa científica, capacidade regulatória e cooperação internacional.
Soberania de dados também não significa propriedade estatal sobre os dados pessoais. Significa capacidade institucional para estabelecer regras legítimas sobre sua produção, proteção, uso e finalidade. O Estado do futuro não poderá ser apenas burocrático. Precisará interpretar grandes volumes de informação, simular cenários e antecipar riscos, mantendo essa capacidade subordinada ao direito, à transparência, à privacidade e ao interesse público. A disputa central, portanto, não é apenas entre Estados Unidos e China, entre Estado e mercado ou entre humanos e máquinas. É uma disputa sobre quem governará as condições de produção do futuro. Se dados, algoritmos, capacidade computacional e inteligência artificial forem tratados exclusivamente como propriedade privada, partes crescentes do futuro poderão ser privatizadas. Se também estiverem submetidos a instituições públicas democráticas, poderão ampliar a capacidade coletiva de planejar e enfrentar problemas que indivíduos e empresas isoladamente não conseguem resolver.
A questão decisiva não é quem chegará primeiro à inteligência artificial geral nem quem vencerá a corrida tecnológica. A pergunta é mais simples e mais profunda por desejar saber para quem será produzido o futuro? A resposta ajudará a definir se a inteligência artificial servirá principalmente à concentração econômica e ao poder geopolítico ou se poderá tornar-se infraestrutura de conhecimento, inovação e desenvolvimento compartilhado. No fundo, a disputa não é apenas pela propriedade do presente, mas pelo direito de impedir que poucos se tornem proprietários do futuro.
Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Referência
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