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Por que voto em Lula e Geraldo Alckmin

Do A Terra É Redonda,17 de setembro 2026
Por FLÁVIO AGUIAR*

Diante de uma direita com inclinações autoritárias e de uma esquerda fragmentada, a reeleição da chapa atual apresenta-se como a barreira necessária para conter a barbárie e projetar o país geopoliticamente

1.

Há cinco candidaturas identificadas como pertencentes ao campo progressista, sete ao campo conservador e uma em suspenso, a de Pablo Marçal, do PRTB, sendo substituída pela de Leo Avalanche, também do campo conservador. As do campo progressista, além de Lula (e Geraldo Alckmin, seu vice), são: Edmilson Costa, do PCB; Hertz Dias, do PSTU; Rui Costa Pimenta, do PCO; Samara Martins, da UP (Unidade Popular).

Estas quatro últimas são candidaturas que se propõem a sublinhar aspectos que julgam negligenciados pela proposta de reeleição de Lula e Geraldo Alckmin, ou que reúnem o voto de quem pensa que estes ambos são almas vendidas ao capitalismo e almejam um programa mais radical. Do ponto de vista prático, fazem mais o jogo da direita do que das esquerdas, pois ajudam a dificultar uma vitória de Lula e Alckmin no primeiro turno. O voto nelas não me atrai.

À direita, enfileiram-se: (i) Flávio Bolsonaro, do PL, o candidato da bandidagem miliciana e que propõe transformar o Brasil num puxadinho da Casa Branca, de Donald Trump e de Marco Rubio. (ii) Escritor (sic) Augusto Cury, do Avante, o oportunista da auto-ajuda que pretende substituir diplomatas por “influencers” nas representações brasileiras. (iii) Clariana Barão, da Democracia Cristã, que se apresenta como “candidata das famílias” e substitui o eterno José Maria Eymael, o neófito Joaquim Barbosa e o arqueológico Aldo Rebelo, que foram aventados como possíveis presidenciáveis.

(iv) Renan Santos, do Missão, jovem egresso da Faculdade de Direito da USP (cujo curso não concluiu), que deseja tirar o Brasil do acordo de não-proliferação de armas nucleares e cuja retórica lembra aquela do “bandido bom é bandido morto”. (v) Ronaldo Caiado, do PSD, com sua cruzada anti-progressismo e que planeja declarar o PCC e o Comando Vermelho como “organizações terroristas”, engrossando a retórica de Donald Trump.

(vi) Veterinário (sic) Wilson Grassi, do Democrata, que propõe, para reforçar a auto-estima das mulheres, o programa “Meu Botox, minha Vida”, com fornecimento gratuito desta matéria-prima para plásticas. (vii) Romeu Zema, do Novo, cujo “Plano Implacável” prevê a privatização de todas as estatais, incluindo a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a cereja do bolo, a Petrobrás.

Para substituir o impedido Pablo Marçal, Leonardo Avalanche, do PRTB, propõe fornecer um iPhone e um ano de internet gratuita para quem fizer um curso de empreendedorismo. Sua candidatura ainda precisa ser homologada.

2.

Além de não concordar com as propostas destas candidaturas do campo conservador, já que me considero uma araucária esquerdista, isto é, um teimoso sobrevivente de outra era e membro de uma espécie ameaçada de extinção, devo sublinhar que considero todas elas como possuidoras de um horizonte muito baixo.

Todos eles e ela demonstram não ter a menor condição de exercer a presidência da República. Apresentam propostas como um prestidigitador retira coelhos da cartola, sem se preocupar com o seu ridículo. Flávio Bolsonaro mente descaradamente em quase tudo o que fala. Todos eles, com exceção talvez da Clariana Barão, revelam, por debaixo de uma retórica melíflua, uma vocação para ditadorzinhos ou ditadorzões.

Flávio Bolsonaro e Renan Santos disputam o pódio do perigo de reduzir o Brasil a pó, embora Romeu Zema e Ronaldo Caiado se esforcem neste sentido. Flávio Bolsonaro tem o DNA e o pedigree da família que representa, cujo pai já fez estragos suficientes quando reinou em motociatas, carreatas e passeios de jetski. Renan Santos, que fala de modo muito articulado, termina por revelar sua retoriquinha fascistóide ao falar do tratamento que se deve dar a bandidos.

Enfim, devo dizer a contragosto que sinto uma certa saudade de direitistas históricos, como Daniel Krieger, Ademar de Barros, Juarez Távora, Eduardo Gomes, José Serra, Fernando Henrique e outros. Até mesmo Paulo Maluf tinha mais savoir-faire do que esta cambada de recrutas que prometem queimar o Brasil de ponta a ponta.

Mas tudo isto ainda não explica por que voto em Lula e Alckmin. Começo por este último. Vem se revelando um vice leal, à altura de seu cargo, e vem fazendo uma campanha caracterizada pela pertinência de propostas e também – caramba! – por uma dose adequada de um bom humor comedido e são. Quanto a Lula, além de suas propostas e iniciativas que vem levantando o Brasil do cascalho bolsonarista, trata-se do estadista mais importante no mundo de hoje, a liderança adequada ao Sul Global e um ponto de equilíbrio dentro dos BRICS e arredores.

O Ocidente em frangalhos se debate entre um Donald Trump todo-poderoso mas obtuso e tropeçante, lideranças europeias fragmentadas ou neofascistas ou ainda por estes atormentadas, uma América Latina assolada por Mileis e Bukeles. Neste verdadeiro mundo geopolítico crepuscular, Lula é uma estrela de lampejo invulgar e esperançoso.

3.

Esta eleição se dá entre civilização e barbárie, política e caos, equilíbrio e anomia. A direita naufragou, e tudo o que tem a oferecer hoje são destroços neofascistas ou nulidades claudicantes. Como dizia o Barão de Itararé, dali onde nada se espera é que não sai nada mesmo.

Mais quatro anos de Lula darão a oportunidade de sanar a grande lacuna em sua presidência: preparar sua “sucessão”.

Coloquei o termo entre aspas porque, no mundo republicano, ninguém “sucede” ninguém. Como disse Fernando Haddad, quando perguntado a respeito, ele foi taxativo: uma liderança como a de Lula não decorre apenas de um ato de vontade. Ela é fruto de uma conjuminação de circunstâncias históricas irrepetíveis. Entre estas estão a emergência de uma nova classe de trabalhadores durante e depois da ditadura de 1964.

O eixos mais importantes deste “nova classe” foram os metalúrgicos no ABCD paulista e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra que, nascido no sul do país, se espraiou pelo Brasil inteiro. Houve outros personagens importantes, como bancários, professores, os náufragos sobreviventes da luta contra a ditadura que, de derrotados militantes do socialismo passaram a heróis da democracia renascente, os movimentos identitários de mulheres, negros, povos originários e outros.

Estas emergências não só fizeram mexer-se o conjunto de placas tectônicas da sociedade brasileira, como também criaram novas alianças internacionais que ajudaram a abrir o caminho para Lula tornar-se o líder geopolítico que ele hoje é.

Este momento político pertence à nossa história. É recente, e ainda nos move, mas é história. Hoje a conjuntura é outra. Vivemos um momento delicado, aquele que Antonio Gramsci e outros definiam como o de onde o mundo velho está soçobrando e o novo se esboça, ainda indefinido. Que novos perfis e lideranças emergirão?

Enquanto esta pergunta se planta entre nós, a luta continua; derrotado ou vitorioso, Lula está diante de sua última disputa eleitoral. E enquanto o novo se refina e se define, deve-se definir novas alternativas, mesmo que momentâneas. Melhor prosseguir nesta luta com o arco vitorioso da candidatura Lula do que sob o tacão fascista do clã que envergonha nosso país.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]


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