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Paulo Freire – 105 anos

Do A Terra É Redonda, 07 setembro 2026
Por VENÍCIO A. DE LIMA*

A difamação ideológica do projeto pedagógico freiriano contrasta com a projeção internacional de um pensamento voltado à emancipação humana

Se vivo estivesse, Paulo Freire, completaria 105 anos no dia 19 de setembro. Quase 30 anos depois de sua morte (maio de 1997), sua obra e sua práxis continuam sendo reverenciadas e objeto de estudo e debate, sobretudo, fora do Brasil.

Em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, no último dia 17 de agosto, Paulo Blikstein, renomado professor de tecnologia educacional da Columbia University – onde dirige o projeto “Paulo Freire Initiative” [https://www.freireinitiative.org/] – lembrou que Paulo Freire continua sendo um dos três intelectuais mais citados na área de humanas no mundo e deveria constituir motivo de orgulho para todos nós.

Lamentou, portanto, que o nome do educador tenha sido envolvido na disputa político-ideológica – assim como as vacinas, o formato do planeta terra, as mudanças climáticas (sic) – e se transformado em fator de divisão entre os brasileiros.

1.

A situação, na verdade, não é nova. Parcela dos brasileiros nunca reconheceu o que Paulo Freire representa para a educação e para além dela. Antes mesmo de se tornar conhecido mundo afora, ele foi preso, acusado de subversão comunista e obrigado a deixar o país. Os dois interrogatórios aos quais foi submetido, durante os mais de 70 dias em que esteve encarcerado em 1964, só recentemente foram publicados.

O Inquérito Policial Militar (IPM) foi conduzido, no IVº. Exército, pelo então tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima, um dos 377 agentes do Estado apontados pela Comissão Nacional da Verdade por violar direitos humanos e cometer crimes durante a ditadura. Nestes interrogatórios há uma constante desqualificação de seu “suposto método” de alfabetização e de seus conhecimentos sobre educação e teorias de autores da área, assim como a insinuação insistente de que era marxista/comunista, trabalhando sob orientação do Partido Comunista no Brasil.

As acusações infundadas que se faziam contra Paulo Freire, há mais de seis décadas, continuam sendo mobilizadas pela “guerra cultural” permanente da extrema direita. O livro, organizado pela professora Joana Salém Vasconcelos (Inquérito Paulo Freire – A ditadura interroga o educador (Elefante), tem o mérito de disponibilizar esses documentos para conhecimento público e, além de mostrar como funcionava a repressão e como eram feitos os interrogatórios dos IPMs da ditadura, revela quais “ameaças” o regime autoritário enxergava em Freire e os medos dele próprio, então, preso político. O livro nos possibilita, ainda, a construção de uma perspectiva histórica em torno da radicalização política que envolve o educador pernambucano.

O mandato de prisão para Paulo Freire, expedido em 28 de setembro de 1964, se baseava nos seguintes argumentos: “o educador estaria implicado em subversão nos meios intelectuais e de alfabetização; seu método não tinha qualquer originalidade e a velocidade era inferior a de outros modelos; a experiência de Angicos era por si só um atestado de subversão na medida em que mais politizava do que alfabetizava; seria um mistificador, suposto criador de um método e sem pejo de negar que desconhece tudo o que há a respeito; seria um aliciador sistemático do marxismo” .

Já o texto final do IPM, divulgado em 18 de outubro de 1964, acusa Paulo Freire de ser “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos” e afirmava que “sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização dos mesmos” e que ele não passava de “um cripto-comunista encapuçado sob a forma de alfabetizador” (citado em Sérgio Haddad, O Educador – Um perfil de Paulo Freire, Todavia).

Não consegui localizar na obra publicada de Paulo Freire nenhum comentário seu sobre esses interrogatórios. Em livro “dialogado” com Sergio Guimarães, ele fala sobre seu tempo na cadeia, conta vários casos pitorescos relacionados a personagens que também estavam presos no mesmo período, mas omite os interrogatórios (cf. Paulo Freire e Sérgio Guimarães, Aprendendo com a própria história I, Paz e Terra).

As acusações feitas pelos militares a Paulo Freire, em 1964, eram consequência do sucesso “milagroso” de seu método de alfabetização de adultos em algumas cidades (Angicos, no Rio Grande do Norte, a mais conhecida) e, sobretudo, da expectativa da aplicação deste método através do Plano Nacional de Alfabetização do governo João Goulart, que Freire coordenava, mas nunca chegou a ser executado. Sobre sua proposta de uma educação “como prática da liberdade”, quase nada havia sido publicado.

Sua tese, de 1959, para o concurso da cadeira de História e Filosofia da Educação da Universidade de Recife – Educação e Realidade Brasileira – estava impressa, mas tinha circulação restrita. Sobre o “sistema Paulo Freire” foi publicado um número da Estudos Universitários – Revista de Cultura da Universidade de Recife (Número 4, Abril-Junho de 1963), que trazia artigos de Paulo Freire e membros de sua equipe no Serviço de Extensão Universitária (SEC), da Universidade de Recife (Jarbas Maciel, Jomar Muniz de Britto, Aurenice Cardoso, Juracy Andrade).

As acusações contra Paulo Freire em 1964, portanto, são anteriores a Pedagogia do oprimido, sua obra maior, escrita no exílio chileno, entre 1967 e 1968, e publicada em inglês e espanhol, em 1970. A primeira edição no Brasil só ocorre em 1974.

2.

Paulo Freire esteve exilado por mais de 15 anos. Morou na Bolívia, no Chile, nos Estados Unidos e na Suíça. Trabalhou para a ONU e para o Conselho Mundial de Igrejas. Foi professor em Harvard e na Universidade de Genebra. Recebeu o Prêmio Rei Balduíno para o Desenvolvimento (Bélgica, 1980); o Prêmio UNESCO de Educação para a Paz (1986); o Prêmio Andrés Bello da Organização dos Estados Americanos, OEA (1992), o Prêmio da Associação de Educadores de Adultos dos EUA (1992) e 48 títulos de doutor honoris causa por universidades ao redor do mundo, entre elas Harvard, Oxford e Cambridge.

Convidado, visitou a trabalho mais de 30 países. Seus livros foram traduzidos em várias línguas, sendo que a Pedagogia do oprimido, em mais de 20. Ele é o único brasileiro que aparece na lista dos 100 livros mais requisitados em universidades de língua inglesa. A Revue Internationale d’Education (dezembro de 2018), publicação francesa de referência mundial, incluiu Paulo Freire entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

Retornou ao Brasil em 1980. Deu aulas na PUC-SP e na Unicamp. Foi membro do conselho da Fundação Universidade de Brasília. Em janeiro de 1989, assumiu a secretaria de educação da prefeitura da cidade de São Paulo, onde permaneceu por cerca de dois anos e meio.

Com o crescimento dos movimentos conservadores e de extrema direita no Brasil, a partir de 2015, o nome de Paulo Freire começa a aparecer em manifestações públicas inspiradas em figuras como o tradicionalista Olavo de Carvalho. Em diferentes cidades, surgem faixas com a mesma inscrição: “Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire! ”. Em seu discurso de posse, um ex-ministro da educação, atribuiu a Paulo Freire os resultados negativos da educação brasileira.

E um ex-presidente da República, ainda candidato, prometeu “entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá”. Uma proposta do movimento “Escola sem Partido”, que elegeu Paulo Freire seu principal inimigo, chegou a tramitar no Senado Federal para que fosse retirado dele o título de Patrono da Educação Brasileira, concedido, por iniciativa da deputada Luiza Erundina, em 2012.

Velhas acusações, com ou sem novas roupagens, de marxismo e comunismo, tentativas de desqualificação intelectual de Paulo Freire e seu conhecimento sobre educação, de o responsabilizar pelos resultados negativos na qualidade do ensino brasileiro, de haver criado o caos nas escolas ao “acabar” com a hierarquia entre professores e alunos, ressurgem décadas depois.

3.

Paulo Freire sempre expressou publicamente um certo desconforto com a redução de seu pensamento e de sua obra à “criação” de um método de alfabetização de adultos. Ainda em 1972, em entrevista a Walter J. Evangelista, ele afirmava: “Há uma imprecisão que é preciso apontar. Nessa época (1963/1964, no Brasil), como hoje, eu não estava exclusivamente preocupado com a alfabetização. Eu não sou, como muita gente pensa, um especialista na alfabetização de adultos. Desde o início de meus trabalhos eu procurava alguma coisa além do que um método mecânico que permitisse ensinar rapidamente a escrita e a leitura. É certo que o método devia possibilitar ao analfabeto aprender os mecanismos de sua própria língua. Mas, simultaneamente, esse método devia lhe possibilitar a compreensão de seu papel no mundo e de sua inserção na história” (citado em Celso de Rui Beisiegel, Política e Educação Popular – A Teoria e Prática de Paulo Freire no Brasil, Ática, p. 18-19).

Evoco este “desconforto” para chegar a Pedagogia do oprimido, certamente o mais importante dos cerca de 50 livros que Paulo Freire publicou sozinho, com outros autores e em obras póstumas. Um de seus mais respeitados estudiosos afirmou em 2021 que “Pedagogia do oprimido não é um livro de pedagogia”.

Da mesma forma, registrou que todos os livros de Paulo Freire “são antecipações ou explicitações de diferentes aspectos e temas da mesma e única pedagogia do oprimido”. Vale dizer, Paulo Freire, ao longo de sua vida escreveu e reescreveu sempre o mesmo livro, síntese de toda a sua obra. Na verdade, Pedagogia do oprimido “significa um projeto utópico revolucionário de transformação, visando a construção histórica de uma civilização solidária, contra todas as dolorosas formas de opressão, exclusão e desumanização que marcam a decadente civilização ocidental”. (Cf. Balduino A. Andreola, in Ana Maria Araújo Freire, org., Testamento da Presença de Paulo Freire, o Educador do Brasil: Testemunhos e Depoimentos, Paz e Terra

Em texto anterior, Balduino Andreola já havia incluído o projeto pedagógico-político de Paulo Freire na constelação do que ele chama de “pedagogia das grandes convergências” ao lado de mestres da humanidade que “lutaram e dedicaram suas vidas por um projeto mais humano, fraterno e solidário de mundo”, como Gandhi, Teilhard de Chardin, Martin Luther King, Dom Helder Câmara e outros. (Cf. Balduino A. Andreola, “Carta-Prefácio a Paulo Freire”, in Paulo Freire, Pedagogia da indignação, Editora Unesp, 2000).

Um intelectual da estatura do sociólogo e crítico literário Antonio Cândido de Mello e Souza, referiu-se ao trabalho de Paulo Freire como “das conquistas mais positivas do pensamento humanizador do século XX”. (Cf. orelhas de Paulo Freire, Pedagogia da indignação).

Celebramos os 105 anos de nascimento de Paulo Freire convivendo com o desconcertante paradoxo de termos um intelectual brasileiro que é mais reconhecido e estudado fora do Brasil do que em seu próprio país. Foi exatamente isso que a entrevista do professor Paulo Blikstein nos fez relembrar.

Na contramão de seus detratores históricos e daqueles que, mais recentemente, se deixaram contaminar pela cegueira político-ideológica, acreditamos que o grande desafio que se coloca é motivar as novas gerações – seduzidas pelo discurso de ódio construído e articulado na lógica algorítmica das redes digitais – e recuperar integralmente a utopia civilizatória do grande humanista Paulo Freire que, ao longo de toda sua vida, nunca abdicou da crença no ser humano e do compromisso radical com a liberdade transformadora do mundo em busca de vida justa e plena para todas e todos.

*Venício A. de Lima é Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Paulo Freire: a prática da liberdade para além da alfabetização (Autêntica/Editora Perseu Abramo). [https://link.amazon/B07Dv4Bx1]


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