Miguel do Rosário
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| Mina de Ouro Preto |
Gilberto Henrique Horta de Carvalho é geógrafo, lobista do setor mineral e homem de confiança de uma organização que a Polícia Federal acusa de comprar licenças ambientais em Minas. Foi ele quem montou, com o advogado de Nikolas Ferreira, o negócio da lavra da Topázio.
Em 2023, Horta disputou a presidência do CREA-MG e teve, como cabo eleitoral, o deputado mais votado do país. Nikolas gravou um vídeo pedindo votos para o lobista, numa campanha vendida como cruzada para tirar o conselho “da influência da esquerda”, conforme registrou o Metrópoles.
No mesmo ano, segundo o inquérito da Operação Rejeito descrito pelo Estado de Minas, Horta recebeu R$ 750 mil da Fleurs Global, mineradora dos empresários Alan Cavalcante e Helder Freitas, a título de consultoria. A PF o descreve como o articulador do grupo junto à Semad, à Feam, ao Iepha e à ANM, o homem que abria as portas.
Seu parceiro era o delegado Rodrigo de Melo Teixeira. Ex-superintendente da Polícia Federal em Minas, Teixeira chefiou o inquérito do atentado a Bolsonaro em 2018, coordenou a investigação de Brumadinho em 2019, foi diretor de Polícia Administrativa da PF no governo Lula e, depois, diretor do Serviço Geológico do Brasil, o órgão que mapeia as jazidas do país.
Os dois comandavam a Gmais Ambiental. A empresa, aberta em março de 2021 com R$ 10 mil de capital, sede numa sala de clínica de estética em Belo Horizonte e nenhum funcionário, tem como sócias de papel a mulher de Teixeira e o companheiro de Horta.
Pelos registros da PF, Teixeira enviou 37% das mensagens do grupo de WhatsApp da Gmais e compartilhou ali as procurações e os documentos da Topázio Imperial. A sócia formal, sua mulher, enviou 2,8%.
Em março de 2023 a Gmais assinou com a Topázio Imperial um contrato de arrendamento com opção de compra da lavra e ficou com 8% do negócio. Quatro meses depois, em julho, Horta perguntou ao ex-deputado João Alberto Lages, líder do grupo segundo a PF, se ele “chegou a dar uma pensada no negócio da Topázio” e se “vão querer ir lá na área ver a barragem”.
Lages respondeu, em outra mensagem, que estava “pegando muito essa questão de assumir os danos da barragem”. O plano era assumir o passivo, regularizar a lavra e revendê-la inteira por até R$ 250 milhões.
Em abril de 2024 Horta e Thiago Rodrigues de Faria criaram o grupo “Projeto Ferro”. Faria, advogado pessoal de Nikolas desde os tempos da Câmara Municipal de Belo Horizonte, ocupava desde março de 2023 o segundo cargo mais alto do gabinete do deputado na Câmara federal, com salário de R$ 17 mil.
Em 19 de agosto de 2024 Faria abriu um escritório de advocacia em Nova Lima, com capital de R$ 100 mil, segundo a Receita Federal. Em janeiro de 2025 esse escritório assinou com a Gmais o contrato para achar comprador para a lavra, com direito a um quarto da comissão de 20%, o que no teto do preço daria R$ 12,4 milhões.
Uma empresa de contabilidade, a Estabil, entrou como segunda intermediária, com outro quarto. A metade restante ficaria com a própria Gmais.
Em 18 de fevereiro de 2025, entre o contrato e o áudio, Horta passou a constar na Receita como administrador da Gmais. No mesmo mês começou a trabalhar como assessor do vereador Uner Augusto, do PL de Belo Horizonte, cargo que ocupou até ser preso.
Em 30 de março Nikolas gravou o áudio para Vorcaro. Em 17 de setembro a PF prendeu Horta, Teixeira e Lages, e no celular do lobista encontrou uma anotação em caixa alta, “NÃO FALE DE RODRIGO DA PF”.
Horta ficou 129 dias preso e foi solto em janeiro de 2026 por decisão do ministro Dias Toffoli, com tornozeleira. Em 26 de junho a PF indiciou os três, ao lado de outras 31 pessoas, por organização criminosa, corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.
Antes da Topázio, Teixeira já havia se aproximado de um dos homens de Vorcaro. Entre 2021 e 2022 o delegado visitou a Cedro Mineração, de Lucas Kallas, acionista da Biomm ao lado do banqueiro e hoje indiciado na Operação Parcours por mineração ilegal na Serra do Curral.
Uma testemunha disse à PF que a visita envolvia oferta de ativo minerário. O delegado disse que foi conversa política, e a Corregedoria arquivou o procedimento em outubro de 2023, arquivamento que sua defesa hoje invoca.
Faria atravessou tudo isso no gabinete. Depois da Rejeito, Nikolas disse ao Estado de Minas que o advogado “não tem relação” com o mandato, e Faria continuou na folha da Câmara por mais seis meses.
Em 5 de março de 2026 a PF entregou à CPMI do INSS a agenda do celular de Vorcaro, com o número de Nikolas e o de Pablo Almeida, ex-chefe de gabinete do deputado, salvo como “assessor Nikolas”. Vinte e cinco dias depois, em 30 de março, aniversário de um ano do áudio, Faria foi exonerado, sem que os documentos esclareçam o motivo.
A empresa que aparece no diagrama ao lado da Topázio, a 3D Minerals, é da família Wanderley, sócia de Vorcaro em vários negócios, e foi financiada pelo banco dele com R$ 152,9 milhões, metade das cotas em garantia. Tem quatro áreas de ferro a 4,5 e 7 quilômetros da lavra, como o Cafezinho mostrou na primeira parte.

As pessoas e os negócios entre Nikolas, Faria e Vorcaro. Linhas cheias são fatos documentados. Tracejadas, relatos da PF ou da imprensa sem documento nas mãos do Cafezinho.
No dia em que o áudio vazou, o deputado publicou nas redes um suposto relatório da Polícia Federal concluindo que não havia crime nas conversas. A PF informou que não produziu o documento, que carrega marca d’água de inteligência artificial, e Nikolas admitiu que repostou a imagem de outro perfil e a apagou.
Resta saber quais eram as relações reais de Nikolas Ferreira com as atividades privadas do seu secretário, e o que exatamente ele pretendia ao pedir a Vorcaro que atendesse os interesses do seu assessor.
O Brasil tem algumas das maiores jazidas minerais do mundo. Desde a privatização da Vale, um crime contra o interesse nacional cometido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso com o aplauso da grande mídia, as riquezas da região que concentra as maiores jazidas de ferro e manganês do planeta ficaram, de um lado, nas mãos de uma empresa privada que já provou não respeitar o meio ambiente nem a vida, como se viu em Mariana e Brumadinho, e, de outro, nas de empresas menores que, segundo a Polícia Federal, formaram uma organização criminosa para comprar licenças ambientais e voltar a agredir o ecossistema e a pôr em risco a vida das pessoas.
E os representantes do povo, que deveriam agir em favor dos interesses da população mineira, usam o seu prestígio para destravar os negócios de empresas apontadas pela PF como parte dessa organização, como a Gmais.
As manifestações de Nikolas, de Faria, da defesa de Teixeira e dos demais citados estão registradas na primeira parte desta série. Thiago Rodrigues de Faria acrescentou, em nota a O Fator, que nunca foi chamado a depor, e a Gmais e a Topázio Imperial não se manifestaram publicamente.
Série: o áudio de Nikolas a Vorcaro e a mina de Ouro Preto
Parte 1Parte 2Parte 3
No dia em que o áudio vazou, o deputado publicou nas redes um suposto relatório da Polícia Federal concluindo que não havia crime nas conversas. A PF informou que não produziu o documento, que carrega marca d’água de inteligência artificial, e Nikolas admitiu que repostou a imagem de outro perfil e a apagou.
Resta saber quais eram as relações reais de Nikolas Ferreira com as atividades privadas do seu secretário, e o que exatamente ele pretendia ao pedir a Vorcaro que atendesse os interesses do seu assessor.
O Brasil tem algumas das maiores jazidas minerais do mundo. Desde a privatização da Vale, um crime contra o interesse nacional cometido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso com o aplauso da grande mídia, as riquezas da região que concentra as maiores jazidas de ferro e manganês do planeta ficaram, de um lado, nas mãos de uma empresa privada que já provou não respeitar o meio ambiente nem a vida, como se viu em Mariana e Brumadinho, e, de outro, nas de empresas menores que, segundo a Polícia Federal, formaram uma organização criminosa para comprar licenças ambientais e voltar a agredir o ecossistema e a pôr em risco a vida das pessoas.
E os representantes do povo, que deveriam agir em favor dos interesses da população mineira, usam o seu prestígio para destravar os negócios de empresas apontadas pela PF como parte dessa organização, como a Gmais.
As manifestações de Nikolas, de Faria, da defesa de Teixeira e dos demais citados estão registradas na primeira parte desta série. Thiago Rodrigues de Faria acrescentou, em nota a O Fator, que nunca foi chamado a depor, e a Gmais e a Topázio Imperial não se manifestaram publicamente.
Série: o áudio de Nikolas a Vorcaro e a mina de Ouro Preto
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