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Parte 2: A mina do áudio: o que há no subsolo de Rodrigo Silva e por que ela está travada

Do O Cafezinho 6 de setembro 2026


Daniel Vorcaro em 2024. Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos,
CC0 (Wikimedia Commons)

Forjado no interior das estrelas, sob a pressão da mais monstruosa das gravidades, o ferro é a sua criação mais bela, nobre e fatal. O seu nascimento representa a morte de uma estrela massiva.

Quando o núcleo de ferro se forma, a fusão deixa de render energia, o astro desaba sobre si mesmo e explode, semeando o espaço com os elementos que virão a ser novas estrelas, asteroides e planetas. Há 2,4 bilhões de anos, num mar raso saturado de ferro dissolvido, as primeiras bactérias da Terra a fazer fotossíntese começaram a soltar oxigênio, o ferro enferrujou e afundou, camada sobre camada.

Esse mar é hoje Minas Gerais. As jazidas do Quadrilátero Ferrífero são a cinza de estrelas mortas e a respiração fossilizada das primeiras criaturas vivas do planeta.

Sobre uma dobra dessas camadas, no distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto, fica a lavra que Nikolas Ferreira pediu a Daniel Vorcaro para destravar. Rodrigo Silva é um vale a 1.278 metros de altitude, com pouco mais de mil moradores, uma banda de música fundada em 1901 pelos ferroviários e uma estação por onde o trem não passa desde os anos 1950.

Nos altos, sobre a canga, a manta de ferro que cobre os morros, cresce o campo rupestre de canelas-de-ema e sempre-vivas, a vegetação que a mineração destrói primeiro. A 15 quilômetros fica o Parque Estadual do Itacolomi, onde ainda vivem o lobo-guará e a onça-parda.

Ali está a Topázio Imperial Mineração, fundada em 1971. A empresa tem sete concessões de lavra, num total de 725 hectares, seis delas de topázio imperial, a gema que ganhou o nome nos Urais porque enfeitava a corte dos czares, cujas jazidas russas se esgotaram e que hoje só a faixa de 25 quilômetros a oeste de Ouro Preto produz em escala comercial.

A mina do Capão do Lana, a dois quilômetros da vila, é a maior do mundo e rende cerca de seis quilos de pedra bruta por ano, dos quais poucos gramas viram joia. A sétima concessão, de 1936, registra ferro como primeira substância, depois manganês.

Não há reserva de ferro quantificada em documento público, e o último evento no cadastro dessa concessão é de 2007. Mas o grupo de WhatsApp em que a venda foi negociada chamava-se “Projeto Ferro”, e o preço pedido, de até R$ 250 milhões, é preço de mina de ferro, não de mina de joia.

A grande riqueza daquele vale é a obra-prima que as estrelas produzem antes de morrer. Uma tonelada de minério de ferro vale hoje cerca de R$ 530, e Ouro Preto arrecadou em 2025 o recorde de R$ 174 milhões em royalties de mineração, 98,8% vindos do ferro.

O que trava a Topázio é o passivo. A empresa acumulou durante décadas dois milhões de metros cúbicos de rejeito numa barragem chamada Água Fria, construída pelo método a montante, o mais barato e o mais perigoso que existe.

Levanta-se um primeiro dique. Quando ele enche de lama, o seguinte é erguido em cima da própria lama, um degrau para trás, rio acima, e assim sucessivamente, uma escada apoiada em rejeito mole e encharcado.

Com chuva forte ou tremor, a lama de baixo pode liquefazer de repente e a barragem inteira desce o vale em segundos, um dique derrubando o outro. Foi assim em Mariana e em Brumadinho, 291 mortos.

Depois de Brumadinho a lei proibiu o método e mandou descaracterizar todas as barragens desse tipo, ou seja, esvaziá-las e desmontá-las até que deixem de existir como reservatório. A Topázio Imperial não fez isso com a sua.

A ANM classifica a Água Fria como de risco alto e dano potencial alto, o Ministério Público Federal a listou entre as sete de maior risco de rompimento do país, e em abril de 2025 a Justiça Federal reconheceu o perigo. A mina está parada desde 2017, quando o Ministério Público entrou com a primeira ação, segundo um dos sócios da empresa.

A empresa disse a O Tempo, em agosto de 2026, que não há construção imediatamente abaixo da barragem e que o rejeito, sem produtos químicos, está mais compactado que o de Brumadinho.


Da lavra da Topázio ao áudio de Nikolas a Vorcaro, mês a mês. A cronologia registra atos da ANM sobre a barragem. O áudio não nomeia a pendência. Elaboração: O Cafezinho

Em janeiro de 2025, mês em que o escritório de Thiago Rodrigues de Faria assinou o contrato com a Gmais, a agência aplicou multas em 92 autos de infração contra a Topázio, todos relativos à barragem, 40 deles num único dia, 21 de janeiro. Em 10 de fevereiro negou de uma vez 25 pedidos de prorrogação de prazo.

Em 20 de fevereiro veio o embargo da barragem. Em 24 de março, seis dias antes do áudio de Nikolas, a agência lavrou contra a Topázio oito novas multas por descumprimento das exigências de segurança.

“Tá pendente lá”, disse o deputado ao banqueiro. Estava, e por decisão da agência, que ainda decretaria o segundo embargo em julho e o terceiro em abril de 2026.

Quem julga o destino dessas multas é a diretoria colegiada da ANM, e cada recurso é sorteado a um diretor relator. Em 26 de dezembro de 2025, uma certidão da agência registra que os 41 recursos da Topázio Imperial contra as multas de barragem foram distribuídos ao diretor-geral, Mauro Henrique Moreira Sousa, e na pauta da reunião de 19 de agosto de 2026 eram 90 recursos da Topázio, todos no bloco dele.

Em 26 de junho de 2026 a Polícia Federal indiciou Sousa na Operação Parcours por manter, segundo o relatório, “canal pessoal e privilegiado” com a Empabra, a mineradora de Lucas Kallas, acionista da Biomm ao lado de Vorcaro. A ANM respondeu que o diretor “atuou exclusivamente como representante institucional”, e ele continua no cargo. Nenhum dos recursos da Topázio foi julgado até agora, nem a favor nem contra a empresa.

Há um episódio, porém, em que Sousa ficou do lado certo, e ele envolve a empresa financiada por Vorcaro. Em agosto de 2024 a 3D Minerals venceu o leilão de minerais críticos da ANM porque ofereceu os lances mais altos, e depois de vencer pediu à agência para pagar cerca de um décimo do que havia prometido.

Em outubro daquele ano a diretoria da ANM votou o pedido. Seabra e Guilherme Santana, os dois diretores que a PF depois prendeu por receber propina do grupo de Lages, votaram por conceder o desconto. Sousa votou por negá-lo, e perdeu.

Na prática, a empresa financiada pelo Master ficou com as áreas pagando uma fração do preço, enquanto os concorrentes que tinham dado lances menores, mas honestos, perderam. O Tribunal de Contas da União julgou a decisão irregular por isso.

Não há prova de que a 3D tenha pago alguém por esse favor. O que existe é o fato de que o benefício foi concedido pelos mesmos diretores que, segundo a PF, vendiam votos, e recusado pelo único que votou contra.

Mesmo com o desconto, a 3D deixou de pagar à ANM R$ 22,58 milhões devidos por treze das áreas que arrematou. O TCU mandou cobrar a dívida e rastrear as garantias que a empresa deu sobre esses direitos a terceiros, entre eles o banco, e a decisão está em recurso no próprio tribunal.

Para explorar uma mina no estado são necessários dois documentos. O primeiro é o direito de lavra, concedido pela ANM porque o subsolo pertence à União, e o segundo é a licença ambiental, dada pelo governo estadual por meio da Semad, da Feam e do Copam.

Segundo a Polícia Federal, o grupo de João Alberto Lages, Alan Cavalcante e Helder Freitas pagava propina para obter os dois. Nos órgãos estaduais, entregou R$ 500 mil ao presidente da Feam pela licença da Patrimônio Mineração, em fevereiro de 2025.

Na ANM, o diretor Caio Seabra recebeu R$ 3 milhões por meio de um escritório de advocacia. Em novembro de 2024, uma hora antes de uma reunião da diretoria, Cavalcante enviou ao grupo de WhatsApp o trecho exato do voto que Seabra iria proferir.

A Fleurs, mineradora do grupo, pagou R$ 750 mil ao lobista Gilberto Horta a título de consultoria.

Com as licenças, o grupo iniciou a exploração de ferro em áreas tombadas ou embargadas na Serra do Curral e na Serra do Botafogo, com lucro que o MPF estima em pelo menos R$ 1,44 bilhão. O relatório final indiciou 34 pessoas na Rejeito e 17 na Parcours, do dono de mineradora ao diretor-geral da agência reguladora.

A Gmais, que arrendou a Topázio, era uma das empresas de fachada desse núcleo, segundo os investigadores. Ela não aparece no inquérito pagando propina, e sim como o veículo com que o grupo pretendia revender a mina, e foi por isso que o contrato com o advogado do deputado acabou nos autos.

O ferro que hoje se disputa naquele vale já derrubou presidentes. Em 1961 Jânio Quadros assinou o decreto que anulava as concessões da americana Hanna Mining sobre as jazidas do Vale do Paraopeba, no mesmo Quadrilátero, e renunciou quatro dias depois.

João Goulart manteve a decisão. O golpe de 1964 partiu de Minas, e em dezembro daquele ano Castelo Branco devolveu as jazidas à Hanna, episódio que Eduardo Galeano resumiu dizendo que o ferro do Paraopeba “derrubou dois presidentes”.

Meio século depois, o mesmo minério está no centro de um negócio que passa por um deputado, um banqueiro e uma organização criminosa. Mudou a escala. Não mudou a lógica.

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