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O sequestro das soberanias na América Latina (I)

Do A Terra É Redonda, 03 de setembro 2026
Por ROBERTO BUENO*

O resgate do arsenal autoritário fascista na política externa estadunidense ameaça a autonomia e os territórios estratégicos da América Latina

1.

Em tempos sombrios, de encobrimento do real e providencial turvamento de ideias, conceitos e categorias requerem cuidadosa leitura para que possam transitar em convergência com as instâncias do mundo empírico, embora sem restringir o seu horizonte normativo, tarefa imperativa ao consideramos que o efeito imunizador do totalitarismo não se fez sentir tal como era esperado.

Em meio aos riscos severamente impostos por um mundo nuclearizado cujos códigos de acionamento encontram-se nas mãos de poderosos inconsequentes, a tarefa de análise e reação ao perigosíssimo processo de concentração de poderes é central. A incidência das consequências do neonazi-imperialismo pode ser fatal em amplitude incalculável, e por isso importa recuperar conceitos como imperialismo e neonazismo, poderosas chaves de acesso à casa de máquinas que opera o núcleo duro do poder hegemônico real, cuja análise torna possível intervir e alterar-lhe o sentido.

Os ideais de adensamento republicano nos EUA atuaram em detrimento da força das tradições monárquicas europeias, mas foram progressivamente solapados pelos interesses condutores do imperialismo norte-americano, que ascendeu e estabeleceu-se, comprometendo o horizonte democrático da cultura política fundadora. Nos dias que correm observa-se que os movimentos geopolíticos acionados pelo grande capital nunca estiveram tão expostos quanto aos seus propósitos e práticas na América Latina como estão nesse momento.

Retomar conceitos e sua reinterpretação conforme a conjuntura permite compreender que tratar o neonazi-imperialismo não implica na restauração do velho, senão que essa releitura incorpora o letal vírus fascista que o império acabou inoculando ao assestar golpes fatais à Alemanha nacional-socialista, derrota que, paradoxalmente, deu início ao processo de decadência do império ao passo que desenvolveu elementos antidemocráticos sob a base da inteligência incorporada através da atração de várias centenas de grandes cientistas alemães e austríacos, além de oficiais de alto nível do Reich.

O império deixa transparecer densos traços da inspiração nazista que lubrificam operosamente a conexão interna entre a política externa do III Reich – expansionista e expropriatória – e sua similar, adotada pelo regime trumpista, cada qual a seu modo e circunstâncias, mas ambas políticas intervêm no mundo sob a égide da violência bruta.

As estratégias geopolíticas do trumpismo assemelham-se às do nacional-socialismo, observada a aplicação mascarada da racionalidade – sob aparência de ações caóticas – e as vias concretas para proceder ao abuso de poder, embora a grande mídia corporativa contemporânea não trace esse paralelo com a frequência e profundidade que a importância do tema requer. Ambos os regimes articulam o exercício do poder sob ameaça direta de aplicação da violência como recurso imediato para garantir o domínio político e a apropriação das riquezas locais e, no caso estadunidense, para fins de manutenção da posição de potência global.

2.

A inoculação do vírus nazista em diversas instâncias da administração dos EUA ocorreu com a incorporação de centenas de altas figuras do regime no pós-Segunda Grande Guerra Mundial. Este foi apenas o primeiro movimento sucedido por tantos outros nas décadas posteriores, embora sob aparente estado de hibernação fascista, equivocadamente confundidos com momento histórico de sua fragorosa derrota.

Já sob condições políticas e culturais de consolidação desse processo emergiu a Era Trump sob explícita – embora ocultada – face neonazi-imperial, operando sob princípios típicos de uma nascente ditadura sob eloquentes práticas solapadoras das instituições e potencializar o ambiente de degradação das relações políticas internas no país.

O regime lança mão da instabilidade como instrumento de domínio ante a situação de terror e caos instalada e logo sucedida por perseguições. Essas incorrem em diversas áreas, concomitantemente, na política, no ensino, na administração pública, no mundo acadêmico e nas artes, ao passo que mantém altos níveis de receptividade entre a população através de forte manipulação midiática, fenômeno comum com o precedente nazismo.

A força mobilizada por essa tipologia de regimes não ocupa espaço residual na estrutura estatal, senão que seu recurso coercitivo-militar destinado apenas a dar completo suporte aos interesses econômicos daqueles que controlam a pauta da política do império. A farda militar passa a transcender a representação do Estado para desempenhar funções de acosso e defesa de interesses privados.

As vestes militares demonstram apenas um disfarce legitimado – e legitimador – da aplicação da força bruta, supostamente, exclusivamente em defesa da segurança nacional, cuja objetiva concretização é a política de apropriação territorial, uma de suas primeiras manifestações no plano externo foi a invasão da Tchecoslováquia e posterior controle dos Sudetos, uma das faces daquela incontida escalada da política externa daquele regime que, agora, em seus termos, a administração trumpista retoma, anunciando ações para dar vazão ao projeto de pleno domínio da América Latina a partir dos territórios mais resistentes ao império como Cuba e Venezuela.

3.

Adolf Hitler foi claro sobre as pretensões acerca da Tchecoslováquia em seu famoso discurso sobre a crise dos Sudetos proferido no Palácio dos Esportes (Sportpalast) de Berlin, em 26.09.1938, no qual informava que “Até 10 de outubro teremos occupado todo o território alemão que nos pertence. Com isso termina uma das mais graves crises da Europa”. O regime alegava que a Tchecoslováquia era um problema, e que a solução seria providenciada pelo III Reich, que não era outra senão a sua invasão.

Paralela e sub-repticiamente deslizava o discurso de que o país vizinho era propriedade alemã, dando vazão à política da alegada necessidade de expansão territorial para garantir seu “espaço vital” (Lebensraum) e, assim, viabilizar o pleno cumprimento dos propósitos alemães de desenvolvimento nacional ao sugar riquezas alheias como suporte desse projeto.

Era a expressão inequívoca do absoluto desprezo pela soberania dos povos e, em especial, pelo país vizinho com o qual os alemães guardavam parentesco próximo, mas que, como os demais que foram alvo da potência totalitária, também tiveram a sua soberania atacada através da aplicação da política expansionista para garantir os interesses do III Reich.

Embora sob distintos trajes e retóricas, essa linha da política externa carregou em seu âmago exclusivamente o ideal de exploração e apropriação de riquezas sob a perspectiva de garantir o projeto de Hitler de tornar a Alemanha grande outra vez, dada a profundidade do declínio econômico derivado da fragorosa derrota sofrida na Primeira Grande Guerra Mundial que havia inoculado o perigoso vírus do ressentimento alimentado por circunstâncias cujo vetor em espiral crescente desembocaria em ódio fanático.

O discurso de Hitler no Sportpalast de Berlin explicitou os termos do que classificava como problema a resolver, a saber, a Tchecoslováquia, pois “It is the last territorial claim which I have to make in Europe, but it is a claim from which I will not swerve, and which I will satisfy”. Hitler assegurava às principais lideranças europeias que os conflitos cessariam tão pronto fosse atendida a sua demanda e, por conseguinte, o problema tchecoslovaco fosse solucionado.

Muitas autoridades concederam crédito a sua promessa de contenção de sua cristalina política expansionista, passando à história com má imagem ou, pelo menos, como incautos, característica que não pode ser atributo de homens de Estado. Esse foi o caso da Inglaterra, representada por seu primeiro-ministro Neville Chamberlain, cujas intervenções no assunto germânico reforçou a política de condescendência em conter o mal radical ainda em suas primeiras manifestações e que, por fim, causou a devastação material, espiritual e cultural na Europa, semeando vírus que o cessar dos canhões não exterminou.

A marcha da insensatez das lideranças europeias e dos EUA aliou-se a interesses econômicos potencializados até o último momento, quando se tornou inevitável continuar a resistir à deflagração do embate bélico, pois estava colocada explicitamente a disposição alemã para tornar concreto o potencial destrutivo da criminalidade do regime.

Até então triunfara a preferência política de minimizar o espírito belicista do III Reich, concedendo crédito à palavra de Hitler ao afirmar que “I assured him, moreover, and I repeat it here, that when this problem is solved, there will be no more territorial problems for Germany in Europe”.

4.

Naquela conjuntura já não era politicamente sustentável tamanha leniência com Hitler, algo reforçado pelo ameaçador perfil assumido por sua política do Lebensraum, não sendo crível que o regime dotado de tal perfil, e a Alemanha com o histórico militar recente, assim como o ressentimento ainda pulsante, pudessem conter as suas ações nos limites territoriais da Tchecoslováquia.

Sem embargo, a expressão dessa pretensão já havia sido antecedida pela efetiva ocupação da Renânia em 07.03.1936 – resposta à ocupação aliada em 1918 –, pelo Anschluss (anexação) da Áustria em 12-13.03.1938 e, um ano depois, esses movimentos político-militares seriam confirmados com a invasão da Polônia em 01.09.1939, até que o III Reich finalmente submergisse militarmente na espessa camada de neve do rigoroso inverno soviético entre Moscou e Stalingrado.

Anos antes dessa fragorosa derrota Hitler jactava-se, sob falso ar pacifista, de ser grato a Chamberlain, mesmo quando já não houvesse motivo para dar-lhe qualquer crédito. Em vista das ações do regime hitlerista, naquele momento já não era prudente empreender a via diplomática para a solução de diferendos visando estabelecer ponte política entre a Alemanha e a Inglaterra.

Tal como propunha a então decadente potência inglesa – desgaste iniciado durante a Primeira Grande Guerra Mundial – através de seu ministro Chamberlain, a política do apaziguamento se mostrava inviável, mas ainda assim foi concretizada com a assinatura do Acordo de Munique (29-30.09.1938), através do qual os signatários – Inglaterra, França, Alemanha e Itália –, ao arrepio dos tchecoslovacos, “cediam” os Sudetos para a Alemanha.

A pusilanimidade dos países europeus ante Hitler partia de que, àquela altura, era econômica e politicamente conveniente para muitos deles desviar o olhar e calar ante a ascensão e consolidação do militarismo de Hitler, que jurava não querer “nothing but peace; but I also told him that I cannot extend any further the limits of our patience””. Hitler tranquilizava seus interlocutores de que havia uma trava de segurança, que era a sua “paciência” relativamente a decisão das potências europeias quanto ao tema tchecoslovaco, mas da paciência apenas o ditador era o último e irrecorrível árbitro. Estavam objetivamente colocadas as circunstâncias para o embate à morte e postergá-lo era menos que estratégico, e muito mais que estultice. (continua)

*Roberto Bueno é professor de filosofia do direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).


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