Por LEONARDO BOFF*
Diante da ameaça de colapso global impulsionada pela racionalidade instrumental e por lideranças autoritárias, o resgate ético da boa vontade emerge como a única via para a sobrevivência humana
1.
É inegável que atualmente vivemos num dos tempos mais dramáticos e perigosos na história da humanidade. Em grande parte, isso decorre de termos construído uma forma de organização social mundializada praticamente só sobre a racionalidade instrumental analítica. Recalcamos outras formas de racionalidade, especialmente a razão cordial (do amor, da sensibilidade, da solidariedade, da ética).
Nesse diapasão, o chegamos a um ponto em que esse tipo de uso da razão tornou-se irracional. Criaram-se os meios para se autodestruir totalmente e toda a natureza que o sustenta. Os 1.300 pesquisadores em Inteligência artificial chamaram a atenção para o risco que ela representa para a humanidade. O principal pesquisador da plataforma Anthropic renunciou alertando: “Ela pode nos matar antes de 2030”. Graças à boa vontade, todas as Plataformas aceitaram uma moratória na qual irão pensar como evitar a uma eventual loucura das Inteligências artificiais.
Com sabedoria notava o Papa Francisco em sua encíclica Sobre o cuidado da casa comum (2015): O homem moderno não foi educado para o reto uso do poder porque o imenso “poder tecnológico” não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores e à consciência” (n. 105).
O valor maior, aquele que possivelmente mais nos faz falta seja nas relações pessoais, sociais e internacionais é a a boa vontade. Não se constata a boa vontade para entender o outro para além das diferenças de ideias, de visões de política e de religião. Muito menos existe boa vontade, no nível da geopolítica, nomeadamente entre o Estado terrorista de Israel e os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e com os combatentes no sul do Líbano, sem falar da vergonhosa má vontade entre russos e ucranianos e ainda mais vexaminoso entre os Estados Unidos da América e o Irã. Não há que esquecer outros mais de 60 lugares de guerra, como terrivelmente no Congo.
Há uma frase de Fiódor Dostoiéveski que resume um grande sonho em seu conto fantástico de 1877 O sonho de um homem estranho: “Se todos quisessem a mesma coisa, num piscar de olhos, tudo mudaria na face da Terra”.
Isso logicamente é utópico. Mas quem sabe se num dia, quando a humanidade se confrontar com a realidade concreta de que ela pode desaparecer definitivamente deste planeta, aí todos quererão a mesma coisa: salvar-se e não morrer miseravelmente. Então tudo pode mudar.
Mas quem nos deixou a melhor lição foi um dos maiores pensadores da ética Immanuel Kant (1724-1804) em sua Fundação para uma metafísica dos costumes (1785). Aí ele afirma algo verdadeiro, traduzindo livremente: “A única virtude que é irrestritamente boa e não possui em si nenhum defeito é a boa vontade. Se não fosse totalmente boa, não seria boa vontade”. Dito em uma linguagem pedestre: ou a boa vontade é boa ou então não é.
Como estão as coisas, no meio da erosão da ordem mundial (desordem para as grandes maiorias) provocada pelo presidente Donald Trump ensandecido e arrogando-se dimensões divinas, ao decidir ele o que é o bem e o que é o mal (biblicamente um dos sinais do anti-cristo), podemos esperar tudo, tudo mesmo, até o descontrole de uma Inteligência artificial autônoma que não nos quer mais na Terra ou uma guerra nuclear com armas estratégicas que tudo destruiriam. A má vontade de Donald Trump de frustrar todos meios de paz torna-o um ser capaz de pôr em risco existencial toda a humanidade.
2.
O Brasil passou por uma fase de insanidade política como jamais imaginada em nossa história. As maldades coletivas praticadas pelo presidente anterior ao atual, se inscreve no âmbito da patologia pessoal que contaminou milhões de pessoas. Estranhamente continua a envenenar porções significativas de nossa população. Bem ensinava o sábio do Antigo Testamento: “o homem depravado provoca desgraças (os 400 mil vitimados por negar a ciência) e o violento perverte o próximo e leva-o para o mau caminho” (Provérbios 16, 27-29).
Assim tentou um golpe de estado para perpetuar sua política de desmontagem de tudo o que se havia penosamente construído; agora paga seu crime covarde com a merecida prisão. Foi alguém que em nenhum momento mostrou boa vontade: não visitou sequer um hospital, zombou de quem morria sufocado por falta de ar e desprezava os mortos e os que choravam por eles.
Finalmente triunfou o bom senso do atual chefe de Estado, oxalá, a ser reeleito, que cuida de seu povo, tirando milhões do mapa da fome e criando condições para a dignidade da vida dos injustamente destituídos. Vale para ele as palavras do mesmo sábio: “Seu cuidado é como uma nuvem de chuva primaveril” (Provérbios 16,15).
Se a boa vontade é assim tão decisiva, então todos devemos cultivá-la e assim humanizar as relações humanas. Importa desentranhá-la nos outros, pois ela existe dentro de cada ser humano; porém hoje vem encoberta por uma camada de cinzas pelo individualismo, pelo consumismo, pela falta de sensibilidade por quem está padecendo, seja entre os humanos, seja entre nos seres da natureza, diria dos ecossistemas e da própria Mãe Terra que, pela má vontade, pende de uma cruz e clama para ser ressuscitada.
Ou optamos pela boa vontade que nos poderá salvar a todos ou valerão as advertências severas do Papa Francisco: “desta vez estamos todos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.
Mas cremos e esperamos que a boa vontade ainda prevalecerá e assim se garantirá uma nova fase mais integradora entre todos os humanos, com a natureza e com o Todo.
*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Habitar a Terra: a irmandade universal (Vozes). [https://link.amazon/B00TyKKqI]

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