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O capital como força destrutiva

Do A Terra É Redonda, 20 de setembro 2026
Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO*

Do otimismo schumpeteriano à pulsão de morte freudiana: os economistas começam a enxergar que o capitalismo deixou de criar para apenas destruir

Um economista brasileiro notório, Antônio Delfim Neto, disse certa vez que os economistas existem para produzir desenvolvimento. Um economista famoso internacionalmente, Joseph A. Schumpeter, disse que o capitalismo é um método de mudança tecnológica que ele caracterizou como de destruição criativa. Ele tinha, pois, consciência de que o processo de acumulação implica em destruição, mas acreditava que ele, apesar disso, seria benéfico para a humanidade. Ora, se isso foi um dia verdade, agora não é mais – definitivamente. O capitalismo se tornou um método de criação destrutiva.

Os brasileiros, no presente momento, estão imersos num processo eleitoral. De um lado, há candidatos de extrema direita que, sob o comando do imperialismo americano, querem dar continuidade e aprofundar a lógica da destruição. De outro, há um candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, que perfila no campo democrático e que pode dar uma chance a grande número de brasileiros de passar a enxergar que o tal de desenvolvimento econômico acabou e que, em consequência, a humanidade está no rumo da barbárie, senão da extinção.

Como se poderá ver em sequência até mesmo os economistas estão começando a tirar a venda dos olhos para enxergar a destrutividade crescente do capitalismo. Para tanto, é preciso embarcar numa curta viagem que começa falando da teoria neoclássica, instrumento dos economistas tecnocráticos, para apresentar em sequência um livro bem interessante de dois economistas keynesianos recentemente publicado no Brasil.

John Maynard Keynes com Sigmund Freud

A teoria neoclássica tem a pretensão de explicar a circulação de mercadoria (vista como mero bem ou mero serviço), ou seja, o funcionamento dos mercados, a partir dos indivíduos concebendo-os como átomos sociais que maximizam utilidade. Mas, como se pode saber,[i] ela falha silenciosamente porque, se é capaz de conceber um equilíbrio geral de demandas e ofertas, não é capaz de provar que há uma dinâmica de mercado que supostamente produz esse equilíbrio.

Ademais, ela não pode compreender a destrutividade do capitalismo. A teoria de John M. Keynes seria capaz não só de fazer isso, mas, mais do que isso, ela poderia explicar plena e cabalmente o próprio capitalismo e a dinâmica da acumulação de capital?

Bem, os economistas keynesianos Gilles Dostaler e Bernard Maris acham que sim e, para prová-lo, combinaram a teoria desse economista notável com a teoria das pulsões constitutivas do indivíduo de Sigmund Freud, igualmente notável, mas médico e psicanalista. Eis o que dizem na introdução de Capitalismo e pulsão de morte[ii]: “O que Freud e Keynes ensinam, como esperamos mostrar neste livro, é que esse desejo de equilíbrio, que faz parte do capitalismo – que é sempre presente, mas sempre repelido pelo crescimento –, não é outra coisa que uma pulsão de morte”.[iii]

Começaram bem: o capitalismo é, pois, um macro indivíduo e ele deseja – tal como o agente econômico da teoria neoclássica – alcançar o equilíbrio, mas uma força inaudita não o deixa descansar e, por isso, ele cresce, cresce, cresce. A tendência ao equilíbrio, advém da pulsão de morte que, evidentemente, o indivíduo muito sabido da teoria neoclássica desconhece. Ora, eles também pretendem explicar uma sua inconsciência adicional: eis que “a destruição, a autodestruição e a morte constituem também o espírito do capitalismo”. “A grande astúcia do capitalismo… – dizem – é canalizar e desviar as forças da aniquilação, a pulsão de morte, para o crescimento”.[iv]

Parece confuso? Sim, a pulsão de morte parece responder pela tendência ao equilíbrio e pelo crescimento, ou seja, pela tendência ao desequilíbrio. As conexões lógicas, ademais, não foram bem explicitadas. Para entender melhor tudo que está em jogo nesse esforço de teorização é preciso avançar. E para avançar é preciso entender como reelaboram a teoria de Keynes a partir do que se encontra nos livros tardios de Freud, Para além do princípio do prazer[v] e Mal-estar na civilização,[vi] publicados respectivamente em 1920 e 1930.

O enigma da acumulação

Gilles Dostaler e Bernard Maris rememoram, de início, a teoria freudiana das pulsões. Durante a vida – dizem – a espécie humana se move por meio do conflito entre duas pulsões, uma delas promove a vida e a outra visa a morte. Como o próprio Freud explicou, há na psique forças “que querem conduzir a vítima à morte” e forças, “as pulsões sexuais, que tendem incessantemente para a renovação da vida”. Trata-se – resumem – de uma luta incessante entre Eros e Tânatos. E esse campo de forças “se complica pelo fato de a própria pulsão sexual conter uma componente sádica, de modo que [citando Freud literalmente] o princípio do prazer parece estar simplesmente a serviço da pulsão de morte”.[vii]

Havendo apresentado esse fundamento antropológico, esses dois autores passam imediatamente a mostrar como eles operam num sistema econômico abstratamente concebido para gerar crescimento econômico, por meio de um processo de destruição criativa: “Pode-se dizer que a grande inteligência, ou a grande força, da pulsão de vida em sua luta contra a pulsão de morte é devia-la, utilizar a sua energia para explorar e destruir a natureza, em benefício da humanidade. E essa palavra ‘desviar’ refere-se… ao princípio do investimento e da acumulação. Somos obrigados a admitir a hipótese de que um princípio de morte está incorporado na própria estrutura e substância de todo esforço humano construtivo”.[viii]

Dado esse passo, Gilles Dostaler e Bernard Maris procuram mostrar uma certa convergência entre a metapsicologia de Freud e a teoria econômica de John M. Keynes. A fundação psicológica desenvolvida pelo primeiro está, segundo eles, presente na obra do segundo autor; a estrutura da economia, tal como se encontra na obra desse segundo autor, comparece também na obra do grande psicanalista. E os conceitos chaves de um e de outro seriam a escassez e o desvio do consumo presente para o consumo futuro, ou seja, a propensão a investir, além da noção de equilíbrio antes mencionada.

Segundo eles, isso aparece no escrito de Freud precisamente quando esse autor substituí o princípio de prazer pelo princípio de realidade. Como se sabe, ele argumenta no livro antes examinado que o ser humano diante das dificuldades e obstáculos do mundo externo, ao invés de buscar satisfação imediata, sob a tutela do impulso de conservação, ele a sacrifica a satisfação no presente para obter satisfação no futuro. Ao adiar a satisfação reclamada, ele adia também o prazer, o atendimento à pulsão, que então fica insatisfeita e, por isso, insiste em obter satisfação.

Eis como Gilles Dostaler e Bernard Maris interpretam essa passagem: “Ao aprender a reprimir o prazer” – convêm – “ele descobre a utilidade e a razão. Ele descobre o princípio de realidade”. Eles veem, portanto, uma homologia entre o comportamento do indivíduo movido por suas pulsões e o comportamento do consumidor racional da teoria econômica padrão: ao renunciar ao consumo presente, o agente da teoria econômica opta por ter mais-consumo no futuro.

Eis, pois, como apresentam a lógica supostamente transistórica do processo econômico: “Para a maior parte dos economistas, poupar significa abster-se de consumir, de satisfazer necessidades, e investir significa desviar o trabalho da produção imediata de bens de consumo para acumular capital”.[ix]

Conclusão

Deve-se notar de imediato que “os economistas” acima referidos são aqueles que Karl Marx chamou de vulgares porque se limitam a apreender os nexos externos, aparentes, entre os fenômenos, formulando teorias instrumentais que oferecem apenas um entendimento plausível desses fenômenos. Para esses economistas “poupar é não consumir”, “investir é consumir meios de produção” e “capital”, que resulta do “ato de investir”, consiste nos meios de produção (máquinas, instalações e trabalhadores) ou em sua duração produtiva.

“A pulsão de morte persegue o seu objetivo, mas é constantemente atrasada, desviada na sua busca, pela pulsão de vida, e os desvios tornam-se cada vez maiores. Em economia esse desvio na produção assume a forma de acumulação de capital. Quando mais longos forem os desvios da produção, mais tempo é necessário para atingir a produção final, mais tempo é gasto processo da produção, mais pessoas e máquinas são excluídas do processo de mercado e do consumo para participar do investimento, maior será a acumulação”.[x]

Agora, se vê como eles explicam o aumento do valor produzido por um dado investimento; eis que o fazem copiando implicitamente a teoria do capital de Eugen Böhm-Bawerk. Para esse autor, o aumento de valor no curso da produção é explicado por sua duração. Eis que ele criou a lei da maior produtividade dos métodos indiretos de produção; quanto mais longo este for, maior será o mais-valor acrescentado. Dado um investimento inicial, o valor do produto ao final será tanto maior quanto maior for o período de produção.

“O capital é um desvio temporal que exclui a satisfação imediata. A pulsão de morte, por outro lado, é o gozo imediato da aniquilação. Um economista chamou o crescimento de pulsão da vida porque ele é a negação da escassez. É porque a economia só existe através da escassez que as utopias, seja de Thomas Morus, seja de Karl Marx, prometiam a abundância para finalmente ultrapassar o problema econômico. Em seu Perspectivas econômicas para nossos netos, Keynes explica como o problema econômico seria ultrapassado e, assim, ele se une à utopia de Marx, a quem não deixa de ser alérgico.”[xi]

Contudo, Gilles Dostaler e Bernard Maris não se aventuram a explicar a razão dessa alergia. Ousamos pensar que vem a ser a teoria do valor trabalho e a teoria da exploração que se segue dela. De qualquer modo, mesmo caindo em certas teorias absurdas, oxalá eles ajudem os economistas em geral a saírem de suas construções imaginárias para visitarem o mundo real. É certamente muito difícil perder as ilusões que sustentam a profissão. Mas é fácil ver depois que uma interversão ocorreu: o desenvolvimento foi já substituído por um afundamento progressivo – pontuado de catástrofes.

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Da lógica da crítica da economia política (Lutas Anticapital).

Notas

[i] Ver PRADO, Eleutério F. S. – Equilíbrio: fundamento ou fenômeno emergente. In: Ciência da Economia – Demarcações. Curitiba: Editora CRV, 2018, p. 101-114.

[ii] DOSTALER, Gilles e MARIS, Bernard – Capitalismo e pulsão de morte. Tradução de Marcia Tiburi. Avaré, SP: Editora Contracorrente, 2025.

[iii] Idem, p. 19.

[iv] Idem, p. 20.

[v] FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Freud (1917-1920) – Obras Completas. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[vi] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César Souza. São Paulo: Penguin Classics e Companhia das Letras, 2011.

[vii] Dostaler e Maris, p. 46.

[viii] Idem, p. 40

[ix] Idem, p. 46.

[x] Idem, p, 59.

[xi] Idem, p. 62.


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