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O avesso da soberania

O Ministério da Fazenda oferece e o Departamento da Guerra dos EUA aceita. Passa a mãos norte-americanas a Serra Verde, única mineradora que produz terras raras fora da Ásia. O jovem ministro, assim como seu antecessor, age como mordomo. É o homem mais previsível do governo


De OutrasPalavras, 2 de setembro 2026
Por Manoel Casado


Foto: Reprodução/Via Política News

Durma com esta, caro leitor, cara leitora: o Departamento de Guerra dos EUA foi quem viabilizou, no fim das contas, a compra da única mineradora capaz de produzir terras raras em escala comercial fora da Ásia – a Serra Verde, localizada em Goiás1.

Não foi o comprador direto da empresa – papel desempenhado pela USA Rare Earths, na qual o governo dos Estados Unidos possui fatia de 10%2 -, mas amarrou o nó que faltava ao sucesso da transação: garantiu a aquisição de 100% da sua produção por 15 anos.

O negócio revela traços de pactos coloniais. O itinerário se inicia com o aporte do governo estadunidense (nesse caso, US$ 1,55 bilhão), passa pela aquisição da matéria-prima produzida no Brasil e, cereja do bolo, termina numa planta norte-americana de processamento de minerais críticos e estratégicos, para alimentar segmentos industriais de alta tecnologia, entre os quais defesa, energia, IA, microeletrônica e mobilidade elétrica. Quem se gaba do feito é o próprio Departamento de Guerra, em sua página oficial3.

O episódio deveria atormentar qualquer espírito comprometido com o Brasil. Parecemos ser o único país relevante a não querer disputar o próprio destino. EUA, China e União Europeia, para citar os principais centros de poder global, disputam abertamente o Brasil. Os objetivos são claros: extrair renda e acumular poder – político, econômico, militar, produtivo, tecnológico.

Contra as mais variadas pressões externas, arbitrárias ou não, o governo brasileiro propôs e levou a cabo negociações comerciais e iniciativas de atração de investimentos estrangeiros. Em uma de suas inúmeras observações nesse sentido, Alckmin voltou a defender o livre comércio nos termos propostos pela Inglaterra no século XIX. Para o vice-presidente, se “eu sou mais competitivo num setor, vendo para você. Você é mais competitivo em outro. Você vende para mim produtos de melhor qualidade, mais baratos”. Uma versão simplória da teoria do livre-comércio.

O próprio presidente Lula dá o tom. Em recente encontro de cúpula do Mercosul, afirmou que o bloco “está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”. Isso depois de já ter assinado acordos de livre comércio com Singapura, EFTA e União Europeia. A abertura ainda mais generosa aos exportadores chineses selaria a sorte do que sobra do setor industrial brasileiro.

A ideia mágica é a de que garantiremos nossa soberania pela diversificação. Quem vai comprar nossa soja, nossa carne, nosso suco de fruta? Dá-lhe diversificação de compradores. Quem vai nos fornecer semicondutores, serviços satelitais, máquinas de ressonância magnética e toda uma infinidade de produtos de alta tecnologia? Tome diversificação de fornecedores. A única diversificação de que não se fala, ou não se fala seriamente, aquela realmente capaz de garantir nossa soberania, é a diversificação de capacidades institucionais, produtivas e tecnológicas, em território nacional, base do desenvolvimento de todos os países relevantes.

Passados quatro anos, a cadela do fascismo volta a apresentar-se às urnas. Em 2022, o discurso do presidente Lula exibia alguns sinais de ousadia. O programa de governo também. Escolhemos aqui apenas dois deles, em função da amplitude de seus efeitos sobre a economia do País – a política fiscal e de comércio exterior.

A noção de um teto de gastos era rechaçada. Programas sociais e investimentos públicos eram encarados como fator decisivo para redução de desigualdades, aumento da produtividade e crescimento da economia. A pressão sobre a dívida pública seria atenuada prioritariamente por essa via, não pela compressão de gastos sociais e investimentos públicos.

A integração externa, por outro lado, estaria condicionada à reindustrialização do Brasil – o livre comércio não era encarado como vetor de desenvolvimento. O comércio exterior deveria estar subordinado aos objetivos superiores de desenvolvimento nacional. Ou seja, comércio criterioso, conduzido em função das nossas necessidades de desenvolvimento produtivo e tecnológico.

Mas o que temos agora, nesta encruzilhada tão decisiva para o País? Temos a energia, a coragem e a criatividade de um mordomo. Do tipo tão bem descrito por Kazuo Ishiguro, nobel de literatura, em Os Vestígios do Dia. O jovem ministro da Fazenda, alçado a porta-voz econômico da campanha do presidente Lula, é o homem mais previsível do governo.

As satisfações que oferece ao mercado vão na linha de que o arcabouço fiscal (o novo teto de gastos) “veio pra ficar”, de que devemos “promover novo ajuste fiscal de 2% do PIB” ou de que “precisamos obter grau de investimento para estabilizar a trajetória do endividamento público”. A investidores estrangeiros, sua pasta teve a delicadeza de oferecer a Serra Verde, por meio do Eco Invest e da plataforma BIP4. Não há maldade nisso, obviamente. Existe apenas disciplina e lealdade ao papel que dele se espera. Um mordomo irretocável.

O problema é o que se espera do presidente Lula, do sentido histórico de seus governos, sobretudo agora em que a luta pela soberania surge como imperativo. No discurso, o conceito tem sido frequentemente usado de maneira adequada. Na prática, o caso da Serra Verde sinaliza a emergência de mais um ciclo econômico guiado por lógica regressiva e tendente a produzir o resultado de sempre: dependência e subdesenvolvimento. O avesso da soberania.

Agradecimento:

Tenho uma dívida especial com Paulo Nogueira Batista Jr. Dívida que desejo ver aumentada. Este texto é fruto de mais uma delas, por novamente ter tomado emprestados sua atenção, seus comentários, sua graça estilística.

Referências:

Serra Verde Announces Agreed Combination with USA Rare Earth to Create Global Rare Earths Leader and a 15-year Offtake with Guaranteed Floor Prices – Serra Verde. Disponível em: <https://svpm.com.br/en/serra-verde-agreedusarareearth/?cn-reloaded=1>. Acesso em: 28 ago.. 2026.

SCHEYDER, Ernest. Trump admin to take 10% stake in USA Rare Earth in $1.6 bln deal, sources say. Reuters, 26 jan. 2026.

U.S. Department of War. Disponível em: https://www.war.gov/News/Releases/Release/Article/4581110/department-of-war-announces-a-750-million-investment-as-part-of-a-155-billion-i/ . Acesso em: 27 ago. 2026.

O Eco Invest é considerado um dos principais programas do Ministério da Fazenda, dentro do chamado Plano de Transformação Ecológica. O objetivo explícito é “impulsionar investimentos privados sustentáveis e atrair capital externo para projetos de longo prazo, oferecendo instrumentos de proteção contra a volatilidade do câmbio”. O BIP – Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transição Ecológica, por sua vez, se assemelha a um shopping list, um portfólio de investimentos que busca facilitar o acesso de investidores, principalmente estrangeiros, a projetos alinhados à Transformação Ecológica. Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica – BIP. Disponível em: <https://www.gov.br/fazenda/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/transformacao-ecologica/bip>. Acesso em: 27 ago.. 2026.


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Manoel Casado
Mestre em Desenvolvimento. Dedica-se à análise das relações econômicas internacionais do Brasil, com ênfase em comércio exterior.

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