Por JOÃO CARLOS BRUM TORRES*
O apelo eleitoral a candidaturas empresariais expõe os riscos de responder ao desgaste político com o amadorismo administrativo
1.
Depois de ouvir mais de uma das entrevistas com Augusto Cury, firmei as avaliações que seguem. Há um ajuste mais ou menos fácil entre o candidato e significativa parte da opinião pública que está cansada e desiludida com a polarização e que prefere um candidato alternativo. Ambos são centristas, podendo haver alguma inclinação mais à esquerda, ou mais à direita conforme se considere o assunto ou o segmento do conjunto dos que preferem uma terceira via. Em parte dessa opinião centrista a falta de experiência política de Augusto Cury e seu sucesso empresarial são vistos, não como limitações, mas como trunfos.
Creio, no entanto, que convém olhar isso mais de perto e atentar para o que suas apresentações preocupantemente revelam. E assim porque, embora remota, há alguma chance de Augusto Cury ganhar a eleição. Jânio Quadros, Fernando Collor, Jair Bolsonaro são exemplos de que isso de vez em quando ocorre entre nós, com ou sem a presença da velocidade de reconhecimento de personagens inesperados que hoje a existência das redes permite.
A verdade é que o Brasil passa uma crise política grave, há um evidente desgaste do que temos atualmente como lideranças políticas e com o quadro institucional vigente e isso abre espaço para quem se apresenta contra os hoje titulares do centro do poder nacional.
Politicamente, o candidato é um amador. Transparece, delicada mas abundantemente, as evidências de que não tem noção do que seja um Estado Nacional, nem da complexidade política do governo de um país e da não menor dificuldade que é gerenciar eficaz e resolutivamente um governo. Ademais disso, Augusto Cury tem alguns valores e ideias bizarras. Quanto a valores, orgulha-se de ter um patrimônio maior do que o de todos os demais candidatos juntos, a mensagem implícita sendo a de que assim como soube o que fazer para enriquer a si, ele saberá melhor do que eles o que fazer para enriquecer o Brasil.
A pressuposição é um ceteris paribus de arbitrariedade e primarismo desnorteantes. A isso acresce o fato de que hoje o exemplo paradigmático de empresário-presidente é o grande Donald Trump, esse personagem que é a reversão viva da tese de Mandeville de que vícios privados geram benefícios públicos, pois o que esse senhor demonstra todos os dias, em escala planetária, é que, bem administrados, vícios públicos geram espetaculares benefícios privados.
De arbitrariedade mais ou menos equivalente é a ilação de Augusto Cury de que da melhor nota que obteve em algum exame de matemática, somada ao que leu sobre economia – não obstante , por certo, o tempo dedicado as muitas dezenas de livros que já escreveu e seu trabalho em medicina – é prova de que saberá o que fazer com a complexidade desse assunto, no qual se emaranham pelo menos as difíceis questões relativas à mediocridade de nosso desenvolvimento desde os anos oitenta do século passado, aos déficits orçamentários e à curva evolutiva da dívida pública, à super turbinada e proporcionalmente lesiva taxa de juros, à paridade cambial e ao emprego.
2.
A bizarrice das ideias do candidato continua com a de transformar os embaixadores do Brasil em caixeiros viajantes! Emparelhado com ela está a inutilidade do projeto de criar milhões de pequenos empresários no Brasil, pois, contadas as pejotas que já temos, esse novo exército já existe e sua expansão não dependerá de iniciativa estatal alguma, pois decorre e decorrerá cada vez mais rapidamente da difusão de serviços simples, das novas condições de trabalho em rede e de contratação terceirizada, fatores estes que, com a substituição acelerada de trabalho de gente por trabalho de máquina, só fará aumentar o desejado universo dos pequenos empresários.
Para terminar esta enumeração, convém ainda mencionar a ideia d e Augusto Cury de controlar a multiplicação dos feminicídeos com drones! A combinação da evocação das novas tecnologias de guerra com a solução de um problema social tão grave quanto atomizado e disperso gográfica e cronologicamente vai, porém, além da surpresa e da bizarria. Para onde, não vou me atrever a cogitar.
À vista dessas ideias e projetos, ocorreu-me lembrar e tomar de empréstimo uma imagem criada por Mirabeau quando, alertando para as dificuldades que a Constituinte tinha pela frente no início da Revolução francesa, criticava as ousadias – da esquerda, digamos, para simplificar – e acusava seus representantes de se portarem como quem viaja em um mapa mundi, onde nem rios, nem o mar, nem montanhas, nem abismos, tampouco florestas, pântanos, desertos, são obstáculos.
Mirabeau enganou-se com relação a seus adversários que realmente terminaram com o Antigo Regime e deram um passo institucional decisivo na construção da modernidade. Já Augusto Cury, com suas estranhas e meio amalucadas ideias, não parece ter a menor condição de ter sucesso em suas veleidades mudancistas. Mesmo propostas eventualmernter razoáveis como a de alterar a constituição para termos um regime parlamentar no Brasil parece muito pouco viável no Congresso que sairá desta eleição.
Além disso, na hipótese de que viesse a se eleger, não é de duvidar que Augusto Cury possa vir a se enfadar com as dificuldades para fazer o que pretende, do que, aliás, uma sua menção à ideia de que, aprovado seu preconizado parlamentarismo, ter o governador Tarciso de Freitas como seu primeiro ministro já faz pensar. Mas talvez não. Ele parece já estar mais do que satisfeito com seus sucessos particulares, tem anseios públicos, anela somar a seu êxito privado o que quer obter no domínio público.
Dizem por aí que o Brasil não é para amadores. Se não fosse não haveria necessidade dessa declaração enfática. Na pouco provável hipótese de termos o Augusto Cury presidente, o que viríamos ter é justamente um amador tratando de aprender o que é governar o Brasil. A crise institucional presente, os desvios que desequilibram os poderes da República e que fazem do Poder executivo o mais fraco dos nossos três poderes, se agrava com a contaminação do próprio Supremo Tribunal Federal pela venalidade.
Evidentemente, nossas instituições precisam ser reajustadas e isso exigirá reformas institucionais, dependentes de mudanças constitucionais cujo desenho e velocidade de implementação são difíceis de estimar com precisão, mas que, mantido o Estado de Direito, não serão feitas de um só golpe, nem em prazos muito curtos.
O Congresso que vai sair da eleição não será melhor do que o atual. Tampouco a reforma do Supremo, e muito menos uma revisão geral do sistema judiciário brasileiro, se fará no tempo do calendário eleitoral, ainda que o presidente Edson Fachin tome alguma decisão de maior alcance.
Em vista do estado da opinião pública atual, a demanda dessas reformas aumentará e a pressão para que isso aconteça tem muita chance de lhe dar algum andamento. Nessa hora o papel da presidência da república e sua capacidade de negociação será vital para construir consensos. Creio que a prudência e capacidade de negociação de Lula, não obstante as dificuldades do entorno, poderão contar a favor de mudanças positivas.
Sem ele, com o Bolsonaro filho, o cenário só nos levará à situação de neo colônia que os Estados Unidos estão propondo e já executando na América Latina. Ou, com Augusto Cury, às confusões que os projetos de uma liderança de direita, inexperiente e de propósitos extravagantes não deixará de acarretar.
*João Carlos Brum Torres é professor aposentado de filosofia na UFRGS. Autor, entre outros livros, de Transcendentalismo e dialética (L&PM). [https://amzn.to/47RXe61]
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