Do IHU, 03 Setembro 2026
Por Cristian Segura, publicada por El País, 29-08-2026. Entrevista com Hartmut Rosa: Fonte: Unsplash
Hartmut Rosa (Lörrach, Alemanha, 1959), um dos intelectuais europeus mais influentes, circula como um adolescente a mais no programa de verão que dirige. Há 27 anos, Rosa reúne, a cada mês de agosto, na cidade de Schwäbisch Gmünd, uma centena de jovens alemães para debater questões de filosofia e sociologia. Os alunos o adoram pelo seu jeito de ser e porque, em vez de ordens rígidas, a gestão é comunitária e tudo flui em uma espécie de caos criativo.
A experiência nesse programa de verão é um pilar importante do novo livro de Rosa, tanto quanto suas pesquisas como professor de Sociologia da Universidade Friedrich Schiller de Jena e diretor do Centro Max Weber de Sociologia da Universidade de Erfurt. O livro é Situación y constelación (NED Ediciones), e suas vivências com os jovens alunos aparecem nele. O que Rosa mais aprecia no programa, segundo conta com um sorriso, é que ali se sente vivo, e isso é algo que nossas sociedades estão perdendo: a satisfação proporcionada pelo fato de as pessoas agirem segundo seu próprio juízo, e não seguindo padrões estabelecidos.
Rosa analisa o desequilíbrio que vem ocorrendo entre aquilo que define pelos termos “situação” e “constelação”. O indivíduo age de acordo com sua experiência e conhecimento diante de uma situação; mas, diante de uma constelação, e elas dominam hoje nosso dia a dia em todas as esferas, a pessoa se torna mera executora de normas e opções previamente estabelecidas.
O também autor de livros como Resonancia: una sociología de nuestra relación con el mundo (2020) e Lo indisponible (2021) argumenta que o progresso humano está em risco: “Ali onde a ação humana se limita à aplicação de regras, princípios ou instruções de uso, perde sua dimensão criativa, produtiva e, em última instância, humana”.
Eis a entrevista.
Você pede a seus estudantes que sejam rebeldes, que superem as normas. Qual é o limite?
Quero que as pessoas subvertam as regras, mas com responsabilidade. Há duas formas de subverter as regras. Uma é simplesmente fazer o que se quer, fazer o que é bom para si mesmo. O livro trata da ação que é boa para o conjunto em determinada situação. Isso vale para professores, médicos e outras profissões. Se você tiver um encanador ou um marceneiro em casa, eles dirão: “Normalmente, eu não deveria fazer isso, teria de obter uma autorização, mas vou fazê-lo assim mesmo”. Não deveríamos descumprir as regras, mas o mundo desmoronaria se não fizéssemos isso.
Esse é o conceito da “ilegalidade útil” de Stefan Kühl. Isso sempre existiu. Acontece mais agora do que antes?
Estamos vivendo um processo de redução da margem de ação devido à tecnologia. Por exemplo, quando quero ampliar o prazo para que os estudantes entreguem seus trabalhos. Muitas vezes, isso é impossível porque o sistema informático não permite. Tornou-se impossível usar nossa capacidade de julgamento. É ilegal, a burocracia impede, até mesmo comprar papel higiênico! Tivemos um caso assim no curso de verão. Eu poderia simplesmente ir comprá-lo, mas uma regra interna do colégio onde organizamos o curso não permite: é preciso uma solicitação prévia. Temos uma falha do sistema e, tecnologicamente, impedimos a nós mesmos de quebrar as regras.
No livro, você apresenta conceitos provenientes de países em desenvolvimento que justificam a ação individual frente à execução de leis e normas estabelecidas. Cita Índia, Brasil e China, que não são paradigmas de democracia e combate à corrupção. O que o Ocidente pode aprender com eles?
Esse é um debate antigo, o de saber se às vezes a corrupção é funcional, mas não é a isso que me refiro. O interessante é que são conceitos ambivalentes. Não estou dizendo que devamos esquecer as regras. Há boas razões para existirem normas. Mas, em alemão, temos uma palavra para designar alguém que sabe se virar: schlitzohr. É bom ou ruim ser um schlitzohr? Está em algum ponto intermediário, porque essa pessoa sabe como resolver problemas e encontrará uma maneira, de um jeito ou de outro.
A Alemanha está mergulhada em um debate sobre se a burocracia está minando seu desenvolvimento. Acredita que esse problema é especialmente grave em seu país?
Sim, porque os alemães seguem as regras e dizem: “Não, não podemos agir assim”, seja o que for. Não sei muito sobre a China; acho que nem tudo ali é adequado, mas eles concretizam as coisas. Construíram um aeroporto em um ano, e os alemães não conseguem fazer isso nem em 40. Penso que estamos vendo claramente um colapso total do sistema.
Há uma ideia desenvolvida por um colega, Florian Hoffmann: a sociedade moderna pensa que tudo deve ser ordenado por regras. Deve haver procedimentos claros e, para cada tipo de problema, uma solução tecnológica clara. Meu argumento principal é que a vida é mais complexa. Por isso, no Ocidente, é preciso acabar rompendo as regras. Isso significa que algo não vai bem, é um problema sistêmico.
No livro, você alerta para o sistema educacional porque está transformando crianças e adolescentes em meros executores, sem desenvolver sua capacidade de agir com discernimento próprio, além de estarem sendo excessivamente protegidos. Que consequências disso já podem ser percebidas?
Estou há quase 30 anos com este programa de verão. Nos primeiros dez anos, o principal desafio, eu pensava, era manter a ordem. Permito que façam quase tudo, mas apenas se não houver álcool. Digo a eles que podem fazer qualquer coisa, exceto beber. Nos primeiros dez anos, sempre traziam álcool e, na verdade, eu quase gostava de lidar com isso, de convencê-los de que não era uma boa ideia.
Quebravam todas as regras. Deviam estar no colégio até as 11 da noite, no máximo; claro que nunca chegavam nesse horário. Eu dizia para não usarem o trampolim do ginásio porque era perigoso, e claro que à noite saltavam dele. Foram assim os primeiros anos. Agora, não tenho mais problemas com o álcool. Também não fumam nem escapam à noite. Contudo, agora tenho novos problemas: depressão, transtornos alimentares, ansiedade e o que chamam de sociofobia. Alguns não conseguem conviver com tantas pessoas.
Então, estamos sendo formados desde pequenos para não agir segundo o nosso próprio discernimento?
O importante é que tenhamos paixão pela vida e confiança na vida. Sentir que o mundo nos chama. Ter confiança na vida significa que me lanço a ela, ainda que não a controle. Meu exemplo favorito é pegar carona. Quando éramos adolescentes, fazíamos isso, e provavelmente era mais perigoso do que hoje. Os pais não podiam rastrear você pelo celular. E nossos pais nos diziam para não agirmos assim, mas a paixão pela vida era mais forte. Queríamos ir à cidade e ver a vida, e isso também era confiança na vida. Você pensava: “Sei que é perigoso, mas de alguma forma vou dar um jeito”.
Em seu livro, você conclui que sociedades excessivamente regidas pelos padrões das constelações geram frustração porque as pessoas não têm margem de ação para se desenvolver. Isso, afirma, beneficia as forças políticas populistas. Como se dá a conexão entre essa decepção e o sucesso de Donald Trump, a quem você menciona?
O sentimento é de que não há nada que possamos fazer diante de determinados problemas. Então, surgem pessoas como Donald Trump proclamando que agirão, que resolverão os problemas, simplesmente agindo: “Nenhuma norma, nenhum tribunal, nenhum tratado pode me limitar de forma alguma; farei o que eu acreditar”.
Você diz que a frustração em um mundo no qual nos tornamos meros executores alimenta a extrema-direita. Isso também estaria ligado de alguma maneira às correntes antimigratórias?
Aqui, nota-se claramente a diferença entre a constelação e a situação. A lógica da constelação consiste em fixar a entrada de 10 mil migrantes, nem um a mais nem um a menos. Uma situação, ao contrário, foi o que vivemos em 2015, quando [a ex-chanceler] Angela Merkel abriu as fronteiras: “Eles estão em nossas fronteiras, é inverno, há uma guerra na Síria; sejamos humanos”.
Nossa relação com o mundo baseia-se na ideia da membrana. Temos muitas membranas ao nosso redor, e a vida só funciona se elas forem semipermeáveis. Começa com a pele. Ela nos protege, mas precisa estar aberta à luz do sol, ao ar e a outras coisas. A camada seguinte é, por exemplo, a casa. A casa é uma camada protetora, mas deve ter portas e janelas pelas quais entram a luz e por onde entram as pessoas.
Se nossa relação com o mundo é boa, então, podemos deixar a porta aberta. No entanto, as pessoas querem trancá-la. E depois isso já não é o suficiente. Então, colocamos uma câmera de segurança. E talvez nem isso seja suficiente e, então, colocamos uma cerca ao redor da casa. A cada novo dispositivo, não aumenta a confiança na vida nem a sensação de segurança. Acontece justamente o contrário: as pessoas se sentem menos seguras.
Nesse momento, a esquerda também tem medo e quer se fechar: “Os imigrantes vêm e nos inundam”. Acredito que a esquerda esteja agindo assim em toda parte, exceto na Espanha.
Você considera que essa lógica nos tornou mais xenófobos ou racistas do que no passado?
Não estou dizendo que antes tudo era maravilhoso e que agora tudo está desmoronando. Contudo, estamos perdendo o desejo de viver e a confiança na vida. E isso fica muito claro quando observamos os dados. Ninguém sente que o futuro será um lugar melhor. As pessoas sentem que estão em um lugar muito ruim. Também se percebe que realmente estamos perdendo o desejo de viver quando se analisam as taxas de natalidade.
Um problema das constelações, de acordo com a sua análise, é que elas limitam nossa capacidade de decisão a poucas opções. O paradigma disso é a lógica binária. Você apresenta dois exemplos na política: menciona o debate ocorrido na Alemanha sobre a obrigatoriedade ou não da vacinação durante a pandemia de covid. Nesse caso, não era justificável que não existisse margem de ação?
A vacinação gerou uma discussão muito importante na Alemanha. Ainda hoje muitos eleitores da AfD continuam falando sobre isso [o partido de extrema-direita inclusive pede a prisão dos ministros da Saúde que impuseram a vacinação]. O Estado arroga para si o direito de penetrar sua pele. Para essas pessoas, isso é sentido como uma violação absoluta. A camada protetora é a pele, alguém pode injetar algo nela e você não sabe o que é. Surge, então, esse momento irracional, emocional. Penso que os políticos precisavam ter compreendido isso.
Outro tema que você apresenta como paradigma de uma lógica binária equivocada na política é o envio de armas à Ucrânia. Em sua avaliação, o debate se limitou a enfrentar a opção de enviar armas ou pedir a negociação da paz. Por que não seria compatível defender ambas as opções?
Sempre sou criticado nesse debate. As pessoas pensam que sou amigo de Putin ou algo parecido, o que não é verdade. Durante 7 mil anos seguimos a lógica do Si vis pacem, para bellum (se quer paz, prepara-se para a guerra). Essa ideia é a mesma dos dispositivos de segurança em casa. Durante 7 mil anos ninguém disse: “Vamos nos armar para matar nossos vizinhos”. Sempre se disse: “Precisamos de armas porque nossos vizinhos são agressivos”. O resultado sempre foi a guerra.
Meio milhão de soldados russos invadiram a Ucrânia sem que houvesse qualquer agressão por parte dos ucranianos. A ação da Alemanha foi fornecer armas à Ucrânia para evitar o desaparecimento de seu Estado. Que alternativa existiria, além de evitar que a Ucrânia sucumbisse?
Quero realmente argumentar em favor do povo ucraniano; são vítimas de uma agressão absolutamente injustificada. Agora, dizemos que isso ocorreu por causa do expansionismo de Putin, mas não foi apenas isso. Claro que também foi isso, mas, para mim, a Ucrânia estava entre a Rússia e a União Europeia, e essa situação não era tão ruim para ela.
Às vezes, havia uma aproximação maior com o Ocidente, com a União Europeia; outras vezes, uma aproximação maior com os russos. Mantinham uma união econômica com a Rússia, e o que o Ocidente queria era integrar a Ucrânia à União Europeia por meio daquele acordo de associação [de 2014]. Isso significava alinhar-se completamente ao nosso lado e até mesmo à OTAN. Eu diria que a pressão inicial não veio realmente de Putin. A Rússia se sentiu ameaçada.
A situação é que a Rússia invadiu um país soberano, violando o direito internacional. Não é esta uma situação binária, sem espaço para nuances?
Sim, isso é o mais importante. Sou pacifista, mas nunca disse que não se devesse enviar armas à Ucrânia neste caso. O que eu disse foi que se você limita a discussão a essa questão simples, de enviar cada vez mais armas, não resolverá nada. Mas é exatamente isso que a Alemanha quer.
Estive na Espanha e alguém me disse que talvez os alemães sejam como os japoneses. Perdem uma guerra e durante 80 anos querem convencer o mundo inteiro de que é preciso negociar a paz. Mas, depois de 80 anos, quando aqueles que viveram a guerra já morreram, os alemães voltam a se preparar para a guerra.
A solução deve ter uma perspectiva de longo prazo, uma boa solução para o povo ucraniano, mas também para a Rússia, para a Europa e para o mundo. No entanto, estamos caindo na cegueira. Mais foguetes, mais tanques, mais navios de guerra. Para onde isso nos levará? Isso nos levará a um desastre total.
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