Por OLGARIA MATOS*
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1.
Patologia do nosso tempo, a deslegitimação permanente das instituições democráticas, a descrença na representação política e nos desenvolvimentos dos saberes científicos, afetam a vida em comum, cujo ideário é o de sustentar o máximo de sobrevivência, justiça e liberdade, ideário fundado na experiência dos governantes, suas ações e seu exemplo.
Eis por que as eleições presidenciais que se aproximam encontram em Lula a continuidade e ampliação das condições que asseguram a democracia e a fortalecem, contrárias a todas as formas de preconceito e fundamentalismos, por meio de uma racionalidade política que não é cálculo de dominação, “realismo político”, mas “engenho e arte”.
Em termos práticos, suas realizações na saúde pública, na educação, na segurança, no planejamento habitacional nas diferentes regiões longínquas do país, como também na cultura, se exercem porque há a livre circulação do pensamento e o exercício do dissenso, garantidores da vida pública e da concórdia social.
Lula não é apenas um nome, pois traz consigo uma identidade política que deu vida às promessas democráticas de direitos e cidadania, propiciadoras institucionais do exercício da lei e dos laços de philia social, que se constituem na confiança e na autoridade.
Esta não significa, em Lula, poder ou coerção, mas uma responsabilidade, em um momento de crise do político e advento de tendências totalitárias, tais como Hannah Arendt as caracterizou: “o sujeito ideal do reino totalitário não é nem o nazista convicto, nem o comunista convicto, mas o homem para o qual a distinção entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a distinção entre o verdadeiro e o falso (isto é, as normas do pensamento) não existem mais” (As origens do totalitarismo).
O que se consagrou na fórmula “fake news” – negação da eficácia de vacinas, da existência da crise climática, entre outras – o que atesta uma recusa da objetividade do mundo, de valores que acolhem a multiplicidade de desejos e a pluralidade de interesses.
Neste sentido, o que produz ativamente a discórdia e as perversões políticas, é a indiferenciação entre o público e o privado, com a formação de dinastias governamentais, com a “politização da família” e a despolitização da pólis. Assim, ocorrem regressões da sociedade, nas quais se transforma quem pensa de maneira diferente em inimigo público, como na prática dos “cancelamentos” e perseguições pessoais. Aqui, a agressividade não é apenas um afeto subjetivo, mas uma ação que inibe os sentimentos sociais de compaixão, empatia e fraternidade, comprometendo não apenas a democracia, como também o próprio “processo civilizatório”.
2.
Produzindo uma “solidariedade mística”, a forma dogmática da política não é sem analogia com o passado, evocando as pregações de Adolf Hitler que, em um discurso proferido em 1926, declarava: “ o único sentimento estável é o ódio”. Assim, em lugar de uma verdade simbólica universalmente aceita, inscreve-se uma outra que não é desenvolvida pelo intelecto, não consiste em um saber raciocinado: “a mentira permanente [se torna] verdade orgânica” (Alfred Rosenberg, in O mito do século XX).
Por isso, é com Fernando Haddad, ex-Ministro da Educação, que o governo de São Paulo poderá fortalecer a educação formadora da autonomia, da “livre faculdade de julgar”, que é o exercício crítico, crítico no sentido do discernimento, luta contínua contra seu empobrecimento, em particular na privatização do espaço público pelas novas mídias e por gerações “formadas” pelo tiktok.
É na Escola e na Universidade que se formam o pensamento, o cidadão e o aprimoramento da convivência social. Nas palavras de Marilena Chaui: “O que significa exatamente formação? Antes de mais nada, como a própria palavra indica, uma relação com o tempo: é introduzir alguém ao passado de sua cultura (no sentido antropológico do termo, isto é, como ordem simbólica ou de relação com o ausente), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente, e é estimular a passagem do instituído ao instituinte. […]A obra de pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito, criando em seu próprio interior a posteridade que irá superá-la. Ao instituir o novo sobre o que estava sedimentado na cultura, a obra de arte e de pensamento reabre o tempo e forma o futuro, quando o presente é apreendido como aquilo que exige de nós o trabalho da interrogação, da reflexão e da crítica, de tal maneira que nos tornamos capazes de elevar ao plano do conceito o que foi experimentado como questão, pergunta, problema, dificuldade” (Marilena Chaui, A Universidade pública sob nova perspectiva).
Contra o “desmoronamento epistemológico” do contemporâneo neoliberal e privatizante – cuja base é a competição universal nos mercados globais e sua lógica da eliminação do concorrente –, a formação educacional e política é resistência à expropriação do tempo da formação de ideias e da argumentação. É nos tempos longos e não no curto prazo do cálculo da acumulação, reposição e acréscimo do capital que se desenvolvem valores e opiniões, o que declina sob a intolerância, imune ao melhor argumento.
3.
Foi neste horizonte que Lula criou, com o ProUni, inúmeras Universidades nas diversas regiões do país, abrangendo os esquecidos da República, fortalecendo “a vida do espírito” e da sociedade. E Fernando Haddad, como ex-Ministro da Educação, lhes deu alma, constituindo, pelas práticas e conhecimentos que a educação produz, barreira contra todas as formas de violência, de absolutismo e de tirania.
A política educacional que se desenvolveu com Fernando Haddad é a da formação do indivíduo e de efetivação de suas habilidades, formação em sentido amplo, humanista e técnico, tendo por objetivo a autarquia individual e a emancipação social.
Com isto, a educação se contrapõe ao populismo e à mentira como forma de governo, de que o “trumpismo”, que hoje se expande, é a manifestação: “Este exprime de maneira cristalina um tríplice colapso: moral, epistemológico e ecológico. No plano moral, Donald Trump não foi eleito apesar de suas mentiras, seus crimes e desprezo das regras [republicanas], mas por causa deles […]. A passagem da desagregação moral à desagregação epistêmica se opera pela destruição das instituições das verdades (educação, pesquisa, mídias) pela mentira sistemática e manipulação das representações” (Paul Zawadski e François Bafoil, Violências, crueldades, denegações).
E, porque, nesta época de incertezas e mutações geopolíticas, uma política de respeito à vida é imperativa, Lula não cede a pressões políticas e econômicas externas, tampouco adere à violência das guerras. Lula e Fernando Haddad resgatam a importância da diplomacia como política da alteridade e da amizade. Lula na Presidência do Brasil e Fernando Haddad no governo do Estado de São Paulo reabrem o futuro e a esperança. Pois, se o medo e a destrutividade são paixões subjacentes aos autoritarismos, “Eros pertence à democracia” (Herbert Marcuse).
*Olgaria Matos é professora titular de filosofia na Unifesp e do Departamento de filosofia da USP. Autora, entre outros livros, de Palíndromos filosóficos: entre mito e história (Editora da Unifesp) [https://amzn.to/3RhfKz9].

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