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Cobiçados pelos EUA, quatro países sul-americanos anunciam cooperação estratégica no setor de minerais críticos

Os quatro governos também manifestaram interesse em fomentar investimentos responsáveis ao longo de toda a cadeia de valor mineral e em buscar apoio técnico e financeiro de organismos multilaterais



Da Revista Forum, 10 de setembro 2026
Por: Anne Silva: Unsplash

Os governos de Argentina, Peru, Bolívia e Chile assinaram uma declaração conjunta que prevê a cooperação em atividades relacionadas à extração e à comercialização de minerais críticos e estratégicos, sobretudo aqueles essenciais para a produção de manufaturas de alta tecnologia e de equipamentos de transição energética.

O documento foi assinado pelos quatro países no dia 28 de agosto, em Santiago, capital do Chile, durante um encontro ministerial. A intenção é posicionar a região como um fornecedor confiável de matérias-primas necessárias à descarbonização, à eletromobilidade e ao desenvolvimento da inteligência artificial.

Os países concentram algumas das reservas e áreas de produção mais importantes da América do Sul, especialmente de cobre e lítio, dois minerais fundamentais para a eletrificação da economia.

O movimento ocorre em um momento de crescente disputa geopolítica em torno dessas matérias-primas, usadas em baterias, redes elétricas, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, enquanto a expansão de data centers e da infraestrutura associada à inteligência artificial acrescenta novas fontes de demanda por metais e outros materiais.

A cadeia de processamento dos minerais críticos continua concentrada na China, considerada o principal polo mundial de refino de praticamente todos os minerais críticos analisados pela Agência Internacional de Energia (AIE). Segundo a AIE, em 2025, a participação média do maior país refinador nos principais minerais energéticos chegou a 70%, e a China respondeu pela maior parte do crescimento da oferta refinada de diversos materiais.

Entre os pontos previstos pela cooperação estão o intercâmbio de experiências e informações sobre geologia, fiscalização e políticas públicas de mineração, além da formação de capital humano especializado.

Os quatro governos também manifestaram interesse em fomentar investimentos responsáveis ao longo de toda a cadeia de valor mineral e em buscar apoio técnico e financeiro de organismos multilaterais.

O ministro chileno, Daniel Mas, classificou a declaração como um “primeiro passo firme” em direção a uma aliança permanente e destacou experiências bilaterais que poderiam servir de modelo para a nova agenda, como o Tratado de Integração e Complementação Mineira entre Chile e Argentina e o memorando de entendimento sobre assuntos minerários firmado entre Chile e Peru em 2025.

O Chile é uma das principais potências mundiais do cobre e tem uma das maiores reservas de lítio. Já o Peru é um dos grandes produtores mundiais de cobre, e a Argentina se tornou uma das principais fronteiras de expansão da produção de lítio. Na Bolívia, as reservas de lítio do Salar de Uyuni podem se transformar em produção comercial de larga escala.

A AIE estima que a China responda por mais de 70% do processamento de lítio, cobalto, grafite e terras raras. No caso das terras raras magnéticas, a concentração é ainda maior: em 2024, a China respondia por cerca de 91% do refino mundial e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados.

A iniciativa sul-americana chama a atenção pela estratégia dos Estados Unidos para reduzir a vulnerabilidade de suas cadeias de minerais críticos, que envolve a criação de novas cadeias de suprimentos com fornecedores estratégicos. Em fevereiro, Argentina e Estados Unidos já haviam assinado um acordo sobre minerais críticos para fortalecer as cadeias de fornecimento e estimular investimentos no setor.

Pouco depois, no acordo de comércio e investimentos firmado pelos dois países, Buenos Aires assumiu a intenção de priorizar os Estados Unidos como parceiro comercial e de investimentos para cobre, lítio e outros minerais críticos em relação a economias ou empresas consideradas manipuladoras de mercado.

No Peru, a presidente Keiko Fujimori assumiu o cargo em julho de 2026 com uma agenda de fortalecimento dos vínculos com os Estados Unidos e de melhoria do ambiente de negócios. A administração peruana vê o setor mineral como uma das bases de sua economia.

Os EUA também avançam sobre a cadeia mineral brasileira: a USA Rare Earth, companhia de mineração e processamento de terras raras sediada em Oklahoma, adquiriu recentemente o empreendimento da brasileira Serra Verde Mineração, que iniciou sua operação em 2024 com uma planta de extração em Minaçu (GO), um dos maiores depósitos mundiais de argilas iônicas portadoras de terras raras (o tipo de depósito do qual são extraídos elementos de terras raras, ETRs).

A aquisição integral da empresa e de sua planta de processamento em Goiás, Pela Ema, deve fazer da produção uma das principais fontes de terras raras fora do eixo chinês e garante contratos de fornecimento de longo prazo com investidores privados e agências dos EUA ligadas ao governo norte-americano, que devem absorver 100% da produção de Minaçu na Fase I da implantação.

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