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Anti-imperialismo sem iranianos

Do A Terra É Redonda, 5 de setembro 2026
Por MINA FAKHRAVAR*


Teerã (Irã)/ Imagem de Kamran Gholami

O adiamento da defesa dos direitos humanos sob pretextos geopolíticos reforça a opressão e enfraquece as forças transformadoras da sociedade

Oponho-me à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, ao regime de sanções que a precedeu e a qualquer projeto de mudança de regime arquitetada externamente. Também me oponho à República Islâmica, um Estado que governa há quarenta e sete anos por meio de prisões políticas, execuções, coerção de gênero e a destruição metódica de organizações independentes. Sou uma pesquisadora feminista iraniana e passei tempo suficiente em espaços de esquerda na Europa e na América do Norte para saber que sustentar ambas as posições simultaneamente ainda é visto, em certos meios, como uma incoerência que precisa ser corrigida.

A polêmica em torno da carta aberta publicada no jornal Guardian sobre os presos políticos do Irã tornou essa exigência de correção incomumente visível. O conteúdo do documento não está em discussão. Ele é endereçado a ativistas, estudantes, acadêmicos, trabalhadores e artistas mantidos em prisões iranianas. O texto aponta o uso sistemático de tortura, os julgamentos injustos e as execuções estatais perpetradas pela República Islâmica, exigindo o fim imediato das execuções e a libertação de todos os presos políticos. Também condena a política dos EUA e de Israel em relação ao Irã, cita o ataque israelense à prisão de Evin em junho de 2025 e encerra pedindo o fim imediato da guerra e das sanções impostas pelos EUA e por Israel. Entre os signatários estão Angela Davis, Ruth Wilson Gilmore, Judith Butler e Yassin al-Haj Saleh. Por isso, a carta foi acusada de criar uma falsa simetria, de enfraquecer o Irã em tempo de guerra e de fornecer munição ao inimigo. Isso não significa que a carta esteja imune a críticas – há questões legítimas sobre quais vozes ela privilegia. No entanto, esses são argumentos para levar mais a sério o pensamento político dos próprios prisioneiros, e não para adiar a solidariedade a eles.

Vijay Prashad formulou a objeção com a maior clareza. Escrevendo dias após a publicação da carta, ele argumentou que “há um momento para fazer exigências e um momento para agir em solidariedade”, que “não existem neutralidade ou um ‘terceiro espaço’ em meio a uma guerra de agressão” e que a imagem da tesoura – duas lâminas, um só corpo – central na carta é “evocativa, porém equivocada”, uma vez que faz com que o agressor e a parte atacada pareçam fontes paralelas de um mesmo perigo.

Vijay Prashad não está defendendo a prisão de Evin, e vale a pena reconstruir o que ele defende de uma maneira mais contundente do que a que ele próprio apresenta. Lida dessa forma, a argumentação diz respeito à economia política do discurso: críticas expressas na metrópole durante uma guerra de agressão não circulam como críticas, mas como material de guerra; e os iranianos que dizem essas coisas em inglês contribuem – independentemente de suas intenções – para uma infraestrutura discursiva que culmina em mísseis de cruzeiro. Essa formulação é minha, não dele. É também a versão que merece resposta; e qualquer pessoa que tenha visto o sofrimento das mulheres iranianas ser transformado em pretexto para bombardeios sabe que tal visão não é paranoica.

O argumento desmorona ao entrar em contato com as pessoas que ele alega proteger.

O calendário do prisioneiro

Comecemos pela pergunta que o argumento do sequenciamento jamais responde: solidariedade com quem?

A prisioneira política iraniana não vive no tempo geopolítico. Bombas americanas não abrem a porta de sua cela. Sanções não suspendem uma ordem de execução. A assimetria avassaladora entre o poder militar dos EUA e o do Irã não faz com que seu interrogador, seu carcereiro ou o juiz do Tribunal Revolucionário desapareçam enquanto durar o conflito. Seja o que for verdade no nível dos Estados, no nível do corpo dela duas formas de poder operam simultaneamente, e nenhuma delas concordou em esperar pela outra.

Note-se, também, que o argumento não prevê uma condição de saída. Quem anuncia que a guerra acabou e que as críticas podem ser retomadas? Não a prisioneira iraniana. A República Islâmica já deixou clara a sua posição: declarou que as condições de guerra são precisamente o momento em que a repressão deve se intensificar. A Anistia Internacional documentou instruções do Judiciário aos funcionários, em abril, para acelerar processos com “extrema rapidez”; o alerta do chefe do Judiciário, em março, de que qualquer pessoa que agisse em consonância com “os desejos do inimigo agressor” seria tratada de forma “decisiva e severa”; além de mais de seis mil prisões arbitrárias, trinta e nove execuções políticas e um bloqueio da internet por oitenta e oito dias desde o início do ataque, em 28 de fevereiro. No final de julho, a Anistia Internacional alertou que pelo menos mais sessenta pessoas enfrentavam execução iminente.

O Estado iraniano e alguns de seus críticos anti-imperialistas no exterior chegam, por razões muito diferentes, à mesma sequência política: não agora. Um diz: não agora, há uma guerra em curso. O outro diz: não agora, há uma guerra em curso. A prisioneira é a única parte envolvida na discussão para quem o adiamento não é retórico.

As lâminas compartilham um mesmo eixo

O problema mais profundo na acusação de “falsa simetria” é que ela trata a metáfora como se fosse uma afirmação de equivalência moral entre dois estados. No entanto, a metáfora é mais bem compreendida quando descreve uma posição: a posição de pessoas sobre as quais diferentes formas de poder atuam simultaneamente. Como apontou Farah Mokhtareizadeh, a imagem das “duas lâminas” já vinha sendo utilizada pelo ex-preso político e ativista trabalhista Keyvan Mohtadi após Israel bombardear a prisão de Evin, enquanto sua esposa, Anisha Asadollahi, permanecia detida no local. O ponto central não era que os dois poderes fossem iguais, mas sim que ambos incidiam sobre a realidade vivida pelas mesmas pessoas. E, ao observarmos como a coerção externa e a repressão interna remodelam mutuamente os efeitos uma da outra, percebemos que essas duas pressões não podem ser tratadas como se operassem em compartimentos selados.

É aqui que o debate exige uma análise de classe, e não de cartografia. Considere o impacto de quatro décadas de sanções no equilíbrio interno de forças do Irã. Uma economia sob sanções não distribui o ônus de forma equitativa. As sanções não criaram o poder econômico dos setores paraestatais e ligados à segurança do Irã; décadas de contratos estatais e de pseudo-privatizações contribuíram para isso. Contudo, as sanções alteram o terreno em que os agentes econômicos competem. Empresas de pequeno porte e que operam formalmente perdem acesso a financiamento, tecnologia e mercados, ao passo que organizações já inseridas em contratos estatais e em redes transfronteiriças informais estão mais bem posicionadas para se adaptar. O resultado não é que as sanções deixem a elite governante incólume – longe disso. O que ocorre é que a coerção econômica externa pode, simultaneamente, empobrecer a sociedade e reforçar o poder de influência relativo das instituições mais próximas do poder estatal.

O rial fechou cotado a 2,02 milhões por dólar em 24 de agosto, um recorde. O preço do arroz subiu cerca de 60% desde fevereiro; o da carne bovina, mais de 150%. As projeções do FMI de abril indicaram uma queda de 6,1% na produção iraniana neste ano, com a inflação próxima de 69%. Esses números descrevem uma classe trabalhadora sendo esmagada. Eles não descrevem um Estado sendo enfraquecido de qualquer maneira que beneficie essa classe – e o iraniano comum, incapaz de comprar carne, sabe bem a diferença.

Enquanto isso, outra frente de ação atua sobre essas mesmas pessoas. Entre meados de julho e o início de agosto, as autoridades lacraram pelo menos quarenta e dois cafés, restaurantes e lojas, bloquearam ou apreenderam setenta e duas páginas e contas em redes sociais e obrigaram os responsáveis por outras vinte e uma a publicar compromissos de conformidade – a maioria relacionada à obrigatoriedade do hijab. Lacrar um café não é apenas um ato de imposição de normas de gênero; é uma redução salarial. Os funcionários são demitidos, o aluguel continua vencendo e os juros de empréstimos continuam a correr em uma economia onde a moeda perde valor semanalmente. Uma pesquisadora que conheço em Teerã foi recentemente impedida de frequentar uma importante biblioteca e arquivo após duas advertências sobre o hijab, ficando privada do material de que seu trabalho depende; a Biblioteca Nacional do Irã adotou a mesma medida contra mulheres usuárias em 2023.

Uma mesma trabalhadora pode ser empobrecida pelo bloqueio, aterrorizada pelos bombardeios e, em seguida, perder o emprego porque o Estado fecha seu local de trabalho por causa de um lenço na cabeça. Não há contradição no relato que ela faz de sua vida. A contradição reside em uma política que exige que as pessoas tenham apenas um opressor de cada vez.

De quem é o testemunho que conta?

O que está realmente em jogo neste debate não é o momento oportuno, mas a credibilidade – de quem é o relato sobre a realidade iraniana que detém autoridade política.

Para os iranianos, a credibilidade junto a setores da esquerda metropolitana tornou-se condicional, de uma forma fácil de demonstrar. Fale sobre o golpe de 1953, sobre as sanções, sobre os bombardeios israelenses, e o iraniano é visto como uma testemunha valiosa. Fale para o mesmo público sobre execuções, o uso obrigatório do hijab, a repressão aos trabalhadores da cana-de-açúcar de Haft Tappeh ou aos sindicatos de professores, e surge uma nova série de questionamentos. Por que agora? Quem se beneficia com o que você está dizendo? Você está reproduzindo narrativas ocidentais? Você já provou suas credenciais anti-imperialistas? O testemunho é aceito quando confirma o esquema geopolítico e questionado quando o complica. O conceito de injustiça testemunhal, de Miranda Fricker, ajuda a nomear esse déficit de credibilidade: o falante sofre uma injustiça especificamente em sua capacidade como sujeito de conhecimento.

Não existe uma voz iraniana única à espera de ser ouvida. Prisioneiros, trabalhadores, feministas, curdos, balúchis e organizações da diáspora iranianas discordam profundamente entre si – sobre sanções, sobre federalismo, sobre o que deveria substituir a República Islâmica. Essas divergências constituem pensamento político, e é isso que a configuração atual apaga: os iranianos fornecem o testemunho, e outra pessoa fornece o seu significado. Designar um intérprete diferente não resolveria isso.

Yassin al-Haj Saleh, que assinou a carta do Guardian e passou dezesseis anos nas prisões de Assad, descreveu essa mesma experiência há uma década. Ele a chamou de negação da agência epistemológica. Aos sírios era permitido fornecer o sofrimento, as histórias pessoais e as citações; o direito de definir o significado da Síria permanecia com outros. Ele recebia lições de esquerdistas europeus sobre o caráter imperialista de uma revolta que ele vivenciava na própria pele. Sua formulação continua contundente: um anti-imperialismo que só consegue reconhecer o poder imperial quando este está sediado em Washington acaba reproduzindo uma relação imperial no próprio domínio do conhecimento.

Essa tendência tem um nome. O “campismo” decide de antemão quais estados compõem o campo anti-imperialista e, então, interpreta toda luta social à luz desse alinhamento. No entanto, não se trata de uma política de equidistância ao estilo da Guerra Fria, e a posição iraniana não constitui um “terceiro campo” situado entre dois governos. Como argumenta Mokhtareizadeh, rejeitar tanto a guerra imperialista quanto a repressão interna é uma afirmação de autonomia política, e não de neutralidade. Trabalhadores, feministas e militantes de esquerda iranianos não estão posicionados a meio caminho entre Washington e Teerã; eles ocupam um lugar que o mapa do campismo não mostra.

O Irã já realizou esse experimento

Os iranianos não precisam de um experimento mental para saber o que acontece quando o anti-imperialismo é declarado a contradição primordial, à qual todas as outras lutas devem se subordinar. Nós temos a história.

As mulheres depararam-se com essa realidade em questão de semanas. No início de março de 1979, a Lei de Proteção à Família já havia sido revogada, Khomeini anunciara que mulheres não poderiam atuar como juízas e a imposição do uso do véu começava a chegar aos locais de trabalho. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas. Elas debatiam a quem a revolução se destinava. Um de seus slogans era: “”A liberdade não é nem oriental nem ocidental — ela é universal”.

Mulheres de esquerda estavam entre as organizadoras dessas marchas, e algumas correntes da esquerda as apoiavam. Contudo, grande parte da esquerda organizada subordinou a autonomia das mulheres à unidade anti-imperialista. Quando o governo provisório pareceu recuar em relação à obrigatoriedade do véu, alguns grupos socialistas e democráticos deixaram de apoiar a manifestação convocada para 11 de março, argumentando que uma mobilização maior dividiria a revolução e beneficiaria o imperialismo. O ataque às mulheres podia ser reconhecido, mas ainda assim classificado como uma contradição cujo momento de enfrentamento não havia chegado.

A contradição manifestou-se no próprio seio da esquerda. Homa Nateq – historiadora, atuante nos meios dos Fedayeen e cofundadora da União Nacional das Mulheres – fez, mais tarde, uma avaliação severa de sua própria conduta. Em uma entrevista de história oral realizada em 1984, ela recordou ter ajudado a encerrar as manifestações em nome da unidade anti-imperialista e descreveu sua atuação como uma traição às mulheres iranianas.

Nada disso torna a esquerda responsável pela repressão que se seguiu. Essa responsabilidade cabe ao Estado que a executou. Em fevereiro de 1983, o Partido Tudeh – que mais longe havia ido na interpretação da República Islâmica como uma força anti-imperialista – foi declarado ilegal; sua liderança foi presa e seu secretário-geral, posteriormente, submetido a uma confissão televisionada. Cinco anos depois, o Estado executou milhares de presos políticos, incluindo centenas de militantes de esquerda em uma onda repressiva posterior, na qual muitos foram interrogados sobre suas crenças e práticas religiosas.

O adiamento não protegeu ninguém. O Estado aproveitou aqueles anos para, em seguida, construir suas prisões e seu aparato de extermínio contra muitos daqueles que haviam aceitado tal adiamento.

Desafio não é emancipação

Parte do que impulsiona essa disputa tem pouco a ver com o Irã. Para setores da esquerda metropolitana, o Irã torna-se politicamente compreensível principalmente quando a República Islâmica confronta Washington ou Tel Aviv. Os mísseis, os discursos e a política de levar a tensão ao limite oferecem a prova de que alguém, em algum lugar, está recusando uma ordem sobre a qual ativistas no Ocidente se sentem impotentes para exercer influência. É um anseio compreensível. Trata-se, também, de substituir o movimento de um povo pelo Estado de outro.

O histórico regional demonstra por que é preciso distinguir os dois. O apoio iraniano à resistência palestina tem sido real e de consequências materiais concretas. Esse apoio também foi conduzido como parte de uma política regional estruturada em torno da dissuasão, da profundidade estratégica e da segurança do regime, coexistindo com a repressão interna a árabes, curdos e balúchis iranianos. A libertação palestina e as exigências estratégicas do Estado iraniano não constituem o mesmo projeto.

Os iranianos conhecem essa história por dentro. Marxistas iranianos treinavam e se organizavam junto a movimentos palestinos antes mesmo da existência da República Islâmica – e muitos deles acabaram sendo executados por ela. O antiautoritarismo e o anti-imperialismo não são tradições rivais na história política iraniana; eles têm coexistido, repetidamente, nos mesmos movimentos e nas mesmas trajetórias políticas.

O que a solidariedade realmente exigiria

Assim, quando iranianos que rejeitam tanto a dominação estrangeira quanto o autoritarismo interno entram na conversa, tornamo-nos inconvenientes. Interrompemos o espetáculo. Somos as feministas que estragam a festa da certeza anti-imperialista.

Mas um internacionalismo que exige que o povo de um país desapareça por trás de seu Estado não é internacionalismo; é uma posição de política externa com uma bandeira vermelha. A alternativa não é a neutralidade, nem um “terceiro campo” abstraído da correlação de forças. É uma orientação voltada para as pessoas, e não para os Estados: acabar com a guerra e suspender as sanções, pois elas estão destruindo a classe que poderia mudar o Irã; opor-se às execuções e às prisões políticas, já que trabalhadores, professores, feministas e organizadores que compõem essa classe são aqueles que lotam as prisões de Evin, Qarchak e Ghezel Hesar; apoiar os sindicatos independentes, os conselhos de professores, as redes de mulheres e as organizações curdas e balúchis que permanecerão lá quando esta guerra terminar, qualquer que seja o desfecho. E construir relações com eles, em vez de emitir declarações em seu nome – com cautela, pois, dentro do Irã, uma conexão com o exterior é tratada como prova, e a solidariedade praticada descuidadamente a partir do exterior é paga por outra pessoa. Rejeitar, enfim, a presunção de que um Estado conquista imunidade ao aprender a falar o vocabulário da resistência.

Uma esquerda digna desse nome deve ser capaz de dizer tudo isso de uma só vez. Não à guerra EUA-Israel. Não às sanções. Não às execuções. Não à tortura. Não aos presos políticos. Não ao hijab obrigatório. Não à dominação imperial, e nenhuma isenção para qualquer Estado que a invoque.

Os iranianos não devem a ninguém uma escolha entre seus algozes. Tampouco os palestinos, sírios, curdos, afegãos ou ucranianos. Se a emancipação é universal, nossa solidariedade precisa ser capaz de abarcar mais de uma verdade ao mesmo tempo.

*Mina Fakhravar é doutoranda em Estudos Feministas e de Gênero na Universidade de Ottawa.

Tradução: Sean Purdy.

Publicado originalmente no portal New Politics.

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