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Uma voz de Maio de 68 que ainda ecoa

Morre Raoul Vaneigem, teórico do movimento situacionista. Ao longo de sua trajetória, denunciou a “sociedade do espetáculo” e apregoou que a revolução não virá pela violência, mas de criativos experimentos comunais para desmercantilizar a humanidade


De OutrasPalavras, 12 de agosto 2026


Foto: Reprodução/Nsf.pt

Desde o Movimento das Ocupações de maio de 1968, sou considerado — inclusive aos olhos dos meus amigos — um otimista incorrigível, a quem as suas próprias cantilenas subiram à cabeça. Por que razão o meu apego visceral à liberdade haveria de carregar com a razão e a irracionalidade, com vitórias e derrotas, com esperanças e desenganos, quando para mim se trata apenas de arrancá-la a cada instante das liberdades do comércio e da depredação, que a matam, e devolvê-la à vida de que se nutre? Tenho a mesma confiança de sempre no sentido humano.

Raoul Vaneigem, Chamado à vida contra a tirania do Estado e do mercado, 2019.

Era uma das últimas figuras da Internacional Situacionista e um dos grandes inspiradores de Maio de 68, ao lado do seu amigo Guy Debord. Participou em todas as lutas libertárias, incluindo o movimento dos Coletes Amarelos. Faleceu numa terça-feira, 28 de julho, em Barcelona. O escritor belga destacou-se pelo seu estilo insurrecional inimitável e, sobretudo, pela sua inabalável fidelidade ao projeto revolucionário que consistia em “criar situações que impedissem qualquer retrocesso”.

Mas, quem era este pensador reservado? Durante mais de sessenta anos, recusando qualquer compromisso com o poder estabelecido, Raoul Vaneigem viveu afastado do mundo midiático.

Nascido em Lessines, na Bélgica, em 1934, ficou profundamente marcado pelas lutas operárias que marcaram a sua juventude. Desenvolveu um amor pela liberdade e uma concepção festiva da existência. A sua trajetória intelectual levou-o a conhecer o filósofo Henri Lefebvre, autor de Crítica da vida cotidiana (1947), que o colocou em contacto com Guy Debord, fundador da Internacional Situacionista (IS), cujas teses influenciariam profundamente os acontecimentos de maio de 68.

Membro da IS entre 1961 e 1970, Raoul Vaneigem é autor do célebre Tratado do saber viver para uso das jovens gerações (1967), uma obra na qual realiza uma crítica radical da sociedade do espetáculo mercantilista. Pensador de esquerda e libertário, nunca apoiou, no entanto, a esquerda totalitária stalinista, maoísta ou castrista; pelo contrário, criticou-a com dureza. Uma postura inaceitável para muitos intelectuais da época, como Sartre e Aragon.

Fiel ao seu ideal libertário, Raoul Vaneigem não deixou de denunciar a radicalidade traída a maio de 68 e ao seu espírito revolucionário. Com a perspetiva que a história concede, não é exagerado afirmar que Raoul Vaneigem foi um homem que não se enganou em relação à sua época. Isso confere-lhe uma certa aura à qual muitos pensadores profissionais contemporâneos não podem aspirar.

Contra a filosofia da obediência


Em suas obras (em particular, Chamado à vida contra a tirania estatal e mercantil), os leitores reconhecerão os seus temas favoritos: a crítica à sociedade de mercado e do espetáculo e os seus efeitos negativos sobre a humanidade e a natureza. As suas lutas foram sempre as mesmas: a sobrevivência que se sobrepõe à vida, o homem contemporâneo que vive sob o regime da separação, a exploração da natureza e do trabalho, a depredação, a renúncia à felicidade, o fetichismo do dinheiro, do poder e da autoridade hierárquica, o desprezo pela mulher e a chaga das religiões.

Para Vaneigem, é importante construir uma subjetividade radical para lutar contra a determinação que tende a transformar o homem em mercadoria, tal como escreve: “para se libertar do gregarismo consumista”. Ele expressa-o com muito estilo: “a luta que empreendo para reencontrar em mim as raízes do vivo, isso é a radicalidade”. Portanto, como abordar a luta pela autonomia individual e coletiva sem se partir da rejeição absoluta da sociedade mercantil? Para Vaneigem, trata-se de assumir as rédeas do próprio destino de forma coletiva, sem recorrer à violência nem às eleições.

Nem armas nem urnas


De que é capaz o coletivo? Contra o que ele denomina a mercantilização do ser humano, Raoul Vaneigem defende a ideia de um coletivo que exalte a vida, celebre a gratuidade, a solidariedade e a generosidade, e se organize sob a forma de uma autogestão generalizada. A autogestão apresenta-se como um projeto de organização social que recusa todo o poder dominante e toda a estrutura hierárquica. A ideia é antiga e faz parte de uma longa história que vai desde as revoltas camponesas da Idade Média até aos conselhos operários da Rússia e às coletividades libertárias espanholas de 1936. Mais perto de nós, os zapatistas de Chiapas, no México, constituem um modelo de autogestão que merece ser estudado.

Para o conseguir, evidentemente, Vaneigem não concede qualquer valor ao sistema eleitoral tradicional. Mas o que mais surpreende neste pensador libertário é a sua rejeição da violência como meio de apropriação do poder. Ele opõe-se ao “poder na ponta do fuzil”. Considerada durante muito tempo pela esquerda como “parteira da História” segundo a visão marxista, a violência não é um fim em si mesmo para Vaneigem: “Desabafar a raiva (…) que desperdício! Enquanto que uma raiva generalizada, unida e lúcida teria alguma possibilidade de despedaçar as barreiras da rentabilidade”.

O projeto de autogestão generalizada de Raoul Vaneigem apresenta-se como um desafio lançado à nossa época, seja para o combater ou para o tornar realidade.


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