Por LEANDRO ANTOGNOLI CALEFFI*
No resgate da crônica “O arranjo”, revela-se a precisão de Clarice Lispector ao dissecar como a brutalidade escravocrata e o racismo velado seguem ditando, na mesa da casa-grande, o domínio sobre o corpo feminino negro
1.
Publicada em 20 de julho de 1968 no Jornal do Brasil, a crônica O arranjo, de Clarice Lispector, desperta interesse por abordar práticas e ideários herdados do passado colonial brasileiro, temática pouco explorada no conjunto da obra da escritora. Embora trate de questões de significativa relevância histórica e social, a narrativa permanece praticamente desconhecida por grande parte dos leitores e segue sem receber a devida atenção da crítica, mesmo a da interessada nas relações entre literatura e aspectos da vida material.
Reproduz-se, abaixo, o texto na íntegra:
O arranjo
“Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava-a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente, mas grávida. Então os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes! As crianças exultaram felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, expulsaram-na da sala — ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe”.
“Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê”. (LISPECTOR, 2018, p. 128-129)
2.
A crônica inicia-se com a afirmação de que a protagonista, denominada pela voz narrativa como “Ela”, fora criada sob o domínio da casa-grande. A impessoalidade dessa designação alude à desumanização da personagem, evidenciada também por uma forma de diversão que, não por acaso, prescindia da alegria. Sua maneira espontânea de portar-se, incompatível com a formalidade e a deferência esperadas no trato com os superiores, tornava-a alvo de insultos desferidos pela patroa, expressos por meio de termos pejorativos associados à deficiência intelectual.
Ao pôr em cena a punição de qualquer manifestação de autonomia ou espontaneidade por parte da empregada, socialmente situada em posição inferior, a narrativa desvenda o funcionamento de uma ordem fundada na hierarquização entre os indivíduos, na qual a desqualificação da personagem constitui um mecanismo de reafirmação da autoridade senhorial à qual ela estava submetida.
O fato de o corpo da protagonista estar à mercê de investidas sexuais masculinas remete igualmente à falta de autonomia dessa figura, uma vez que, na condição de propriedade de seus senhores, ela se vê obrigada a submeter-se aos seus caprichos. A afirmação de que eles, por princípio, não recorriam à violência para violentá-la sinaliza, em registro irônico, a naturalização e a consequente recorrência dessa prática, cuja manifestação encontra nos valores vigentes perversa legitimidade.
A aparente negação da violência opera, nesse caso, como estratégia de encobrimento da própria lógica de dominação que a sustenta. Desse modo, a narrativa expõe como a herança escravista não se limita à apropriação do trabalho, mas incide também sobre a dimensão corporal e subjetiva da personagem, reduzindo a mulher negra à condição de objeto submetido à arbitrariedade.
Note-se também a constante vigilância a que a personagem estava condicionada: até mesmo ações cotidianas, como o ato de almoçar, tornavam-se objeto do escrutínio alheio e da condenação social. Nesse contexto, a recomendação por parte dos proprietários de que ela não deveria dar à luz “antes do tempo” reforça sua desumanização, uma vez que a personagem é concebida exclusivamente como força de trabalho, e não como sujeito livre e autônomo.
Essa lógica de objetificação estende-se ao filho, referido pelos senhores de maneira impessoal como “esse aí”. O fato de esses já terem providenciado uma família para a criança intensifica esse processo de despersonalização, ao convertê-la em um problema a ser administrado, e não em um sujeito dotado de autonomia.
3.
O ideário racista manifesta-se de forma mais explícita na crônica no momento em que a protagonista assume ter mantido relações sexuais com um homem negro. Nessa cena, a humilhação da personagem constrói-se tanto pela exposição pública de sua intimidade quanto pela reprovação de sua conduta sexual. A expressão “logo um negro sujo” escancara a lógica racista que associa a população negra à impureza e à inferioridade, convertendo sua escolha afetiva em motivo de censura.
Sua resposta – “mas foram só três vezes!” – elucida, por sua vez, a internalização desse julgamento, uma vez que ela procura atenuar a suposta transgressão em vez de contestar o preconceito que a fundamenta. A expulsão da sala e a queda sobre a bandeja acentuam esse processo de degradação, transformando a personagem em objeto de ridicularização, ao reafirmar a violência simbólica e material exercida por aqueles que detêm o poder.
Na parte final do primeiro segmento, o racismo manifesta-se também pela permanência de uma lógica de desumanização associada à escravidão, mesmo quando a protagonista já não se encontra formalmente submetida a esse regime. A expressão “cria da casa” recupera uma nomenclatura própria do universo escravista, pondo à mostra a redução da mulher negra à função doméstica e ao cuidado dos membros da família senhorial.
Essa mesma lógica de objetificação se prolonga na comparação dos filhos, “distribuídos depois como gatos”, cuja animalização lhes nega a condição humana e demonstra a persistência de uma visão que reduz corpos negros a objetos de posse e circulação.
No desfecho da crônica, a relação estabelecida pela personagem com um homem português recupera, em sentido irônico, a lógica das relações entre colonizador e colonizado, sobretudo se considerada à luz do título “O arranjo”. A expressão sugere uma negociação marcada pela desigualdade, indicando que a protagonista encontra, nesse vínculo, uma forma de acomodação dentro de uma estrutura social ainda atravessada por hierarquias raciais e históricas.
Após ser condenada por sua relação com um homem negro, sua aproximação com um português, associado ao lugar histórico do colonizador, atesta a permanência de uma estrutura na qual seus vínculos afetivos são avaliados a partir das posições sociais e raciais dos sujeitos envolvidos.
A reação do português diante da afirmação de que “ele é muito bom para mim”, por seu turno, potencializa o tom irônico da narrativa, pois seu silêncio e o gesto de baixar os olhos introduzem uma dúvida quanto à suposta benevolência que a personagem atribui a essa relação. Ao não corroborar a imagem de protetor por ela construída, a atitude do novo companheiro sugere a permanência de uma desigualdade subjacente ao vínculo estabelecido. Assim, o “arranjo” revela não uma ruptura com as relações de dominação, mas sua reconfiguração sob novas formas.
Como se buscou demonstrar, a relevância histórica da crônica O arranjo reside em sua capacidade de trazer à cena relações de poder forjadas no passado colonial brasileiro que, embora reconfiguradas, continuam a produzir efeitos na contemporaneidade. Ao expor mecanismos de dominação, exploração e desumanização, o texto problematiza a persistência de hierarquias herdadas do período escravista, revelando como determinadas expressões de violência simbólica e material ainda atravessam as relações sociais.
Convém destacar que essa dimensão crítica se torna ainda mais significativa quando se considera que a narrativa foi publicada poucos meses antes da promulgação do Ato Institucional nº. 5 (AI-5), instrumento que institucionalizou a suspensão de direitos e ampliou a violência de Estado durante a ditadura militar.
Sob essa perspectiva, a ironia mobilizada pela crônica adquire uma força particular: ao representar relações de poder fundadas na arbitrariedade, na violência e na desumanização, o texto não apenas revisita resquícios do passado colonial, mas também dialoga com um presente histórico no qual formas de autoritarismo e violação de direitos encontravam respaldo no aparato jurídico.
*Leandro Antognoli Caleffi é doutorando em literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).
Referência

Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Rocco, 2020, 624 págs. [https://link.amazon/B0h0U3Iop]

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