Por JEAN MARC VON DER WEID*
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Imagem: Eric Prouzet |
A quartelada interna perdeu força desde 2022, mas a sombra de Trump e o precedente venezuelano transformam a invasão dos EUA em tragédia plausível
1.
As nossas Forças Armadas passaram por quase noventa anos de subordinação às das Forças Armadas americanas, sendo que entre 1945 e 1991 elas se integraram totalmente ao pensamento estratégico e tático da Guerra Fria anticomunista capitaneada pelos americanos. Com o fim do bloco soviético não houve uma redefinição sobre as ameaças militares ao nosso país e os manuais das nossas Forças Armadas continuam versando sobre o velho modelo anticomunista e na fidelidade aos Estados Unidos.
Não tenho dúvidas que a dupla Donald Trump/ Marco Rúbio irá fazer inúmeras provocações contra Lula. Já estão requentando uma lenda urbana dos tempos da primeira vitória eleitoral de Lula, acusando o PT de ter recebido recursos financeiros ilegais do governo de Hugo Chaves. Vão inventar ligações com o narcotráfico e sabe lá o que mais. O disparo de mensagens bombásticas a partir do exterior, contando com o apoio das empresas das redes e a complacência do TSE também deve entrar no script. Mas não acredito que isto modifique o quadro eleitoral, embora possa criar o clima para uma ação golpista.
A escolha da oficialidade a favor ou contra participar de um golpe de Estado não vai ficar imune às influências da opinião pública.
Comparando com 2022, quando a hierarquia já estava mais do que balançada pela forte pressão dos acampamentos na porta dos quartéis, pela onda de atentados dos CACs e pelas manifestações bolsonaristas nas ruas e nas redes, os elementos de um ambiente pró golpe eram melhores.
No momento a maré bolsonarista está em baixa, sem capacidade de mobilização nas ruas e podemos contar com a oposição da grande mídia e uma maior presença das forças antigolpe nas redes. Se as eleições se realizarem em calma vai ser mais complicado para os golpistas romperem com a legalidade sem pretextos, por mais que o sentimento da oficialidade seja a favor. Sem um comando unificado nas Forças Armadas a favor do golpe a hipótese de uma revolta dos escalões inferiores fica mais difícil pelo risco que incorrerão no caso de o golpe não prosperar.
O que podem fazer Donald Trump e Marco Rúbio para provocar o golpe no Brasil? Mandar a generalada americana buzinar nos ouvidos dos nossos Altos Comandos a mensagem golpista pode dar mais coragem para estes darem o salto no escuro da quebra da hierarquia e da legalidade. Dou de mão beijada que todos os generais e almirantes gostariam de tirar Lula e o PT do governo, mas sem um forte respaldo para o golpe no país eu duvido que se movam.
2.
A única medida que pode fazer a mesa virar é uma invasão pelas Forças Armadas americanas que provocaria a adesão das nossas e a tomada do poder. Às vésperas de uma eleição nos EUA e com Donald Trump altamente desgastado por suas intervenções externas desastradas, uma invasão de Brasília pela First Air Cavalry (divisão de paraquedistas), mais uma divisão de marines (fuzileiros navais) com ainda uma participação dos Seals (espécie de kids pretos americanos) seria um risco político medonho, mesmo para um louco como o presidente americano. Infelizmente, é algo que não se pode descartar.
Este quadro seria impensável até janeiro deste ano, quando foi feita a operação de sequestro do presidente da Venezuela. Mas vejamos o cálculo feito pelo governo de Donald Trump: estava em curso uma negociação com a cúpula do governo e das Forças Armadas venezuelanas, que estava travada por Nicolás Maduro. Retirada a trava o acordo funcionou, mantendo-se a estrutura existente de poder desde que submissa a Donald Trump.
No caso do Brasil este tipo de operação cirúrgica não funcionaria pois temos instituições democráticas atuantes e independentes, diferentemente da ditadura venezuelana. Aqui seria preciso fechar Congresso, STF e afastar os ocupantes do executivo. Ou seja, seria preciso ocupar o terreno e não uma rápida entrada e saída. Como Donald Trump vai interpretar a mensagem da oficialidade? Com certeza ele vai ter claro que não vai encontrar resistência militar e vai poder entregar o cadáver das nossas instituições para as Forças Armadas gerirem o país, garantidos os interesses dos EUA, como na Venezuela.
Vai ter peso na criação de um clima contra o golpe a capacidade de Lula de repetir o extraordinário feito das eleições de 2022, quando seus comícios, sobretudo no Nordeste, levaram milhões às ruas. Infelizmente, este não me parece um quadro provável nestas eleições. Lula hoje está mais preocupado em fazer alianças “fortes” nos Estados (leia-se, compondo com todo mundo, Centrão, direita, esquerda) do que mobilizar massas aos milhões.
Esperemos que uma ameaça de golpe trumpista e/ou bolsonarista provoque uma reação política da sociedade civil que possa se exprimir em multidões nas ruas para garantir os resultados das eleições, já que não vejo capacidade de mobilização na esquerda e, quiçá, nem no Lula.
Em resumo: as condições para um golpe eram muito maiores em 2022 e ele poderia ter acontecido se o Alto comando do Exército tivesse aderido ou se Jair Bolsonaro tivesse dado a ordem para a intervenção das Forças Armadas, passando por cima da generalada. As investigações nos processos contra os golpistas mostraram como a montagem do golpe foi amadora e desarticulada e a covardia do mito permite chamar uma quase tragédia de farsa.
Hoje as condições políticas internas são menos favoráveis a um golpe militar, mas a ameaça de uma invasão americana tornou-se uma possibilidade real, dados os interesses de longo prazo dos EUA e os de curto de Donald Trump e o total desprezo do personagem pelas regras de convívio civilizado entre países soberanos. Seria uma tragédia inimaginável, capaz de fazer a ditadura 64/85 empalidecer.
*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).
Para ler a primeira parte deste artigo, clique em https://aterraeredonda.com.br/copy-67-copy/

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