Por JEAN MARC VON DER WEID*
Quem teme a ditadura de 1964 não viu o que Trump pode fazer com um Brasil desunido
Não me lembro mais quem foi que disse que a história se repete como farsa (Karl Marx no 18 de Brumário de Luiz Bonaparte?). Essa observação implica que o exemplo histórico que serve de comparação foi uma tragédia? Talvez não, mas no caso que vou discutir a comparação é entre tragédia (potencial) e farsa (já encenada).
O que vou discutir é a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro antes durante e depois das eleições de 2022 e a nova conspiração golpista em curso para o caso de uma derrota do filhote do energúmeno. Neste caso, a farsa antecede a tragédia anunciada, ou, se os fados forem favoráveis à democracia, o repeteco da farsa.
Recapitulemos o intento do golpe e os fatores que o frustraram.
A farsa
Jair Bolsonaro tramou o seu golpe para o caso de perder as eleições, em um movimento que chamei, na época, de estratégia de bola ou búrica. Seus assessores mais arrojados insistiram em dar o golpe antes das eleições, mas o presidente preferiu tentar ganhar as eleições pelo escancarado abuso do poder executivo, enquanto preparava as condições para rejeitar o resultado das eleições através de ataques à lisura do pleito, disseminando dúvidas sobre as urnas eletrônicas.
A vitória de Lula com menos de dois milhões de votos de vantagem (menos de 2% dos votos válidos) colocou na mesa a opção do golpe.
Jair Bolsonaro contava com vários elementos favoráveis ao seu intento golpista. Tinha milhares de militantes acampados na porta de dezenas de quartéis das forças armadas apoiados por uma pouco disfarçada simpatia dos coronéis responsáveis por essas unidades. Contava também com uma base de centenas de milhares simpatizantes armados, os chamados CACs, organizados em Clubes de Tiro distribuídos em todo o país.
Este grupo realizou vários atentados, desde a interrupção da circulação nas estradas pelos caminhoneiros, a destruição de linhas de transmissão de energia elétrica e até a tentativa (fracassada) de explosão de depósitos de combustíveis e aeroportos. Jair Bolsonaro tinha ainda o suporte de uma amplíssima rede de comunicação via internet bombardeando o público com fake news e apelando para o golpe.
Estes agentes foram acionados pelos golpistas, mas de forma desorganizada e intermitente, sempre à espera de um comando do “mito”. Criaram um clima de inquietação, sobretudo porque as forças da ordem, as polícias estaduais e as federais, deixaram correr os atentados sem interferir. Jair Bolsonaro não ousou apelar diretamente para uma ação massiva de seus apoiadores, esperando resolver o impasse nas forças armadas em relação ao golpe.
A chave para o fracasso da intentona de golpe se deu exatamente na falta de apoio da cúpula das Forças Armadas. A imprensa e muitos comentaristas preferiram acreditar que prevaleceu entre generais, almirantes e brigadeiros mais estrelados, um sentimento de respeito pelas instituições democráticas. A meu ver isto se chama “wishfull thinking” ou, em bom português, acreditar no que se quer que exista.
O que determinou a posição dos “estrelados” foi a clara condenação de um golpe pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, então sob a presidência do democrata Joe Biden. Generais americanos vieram ao Brasil e se reuniram com seus pares nacionais para dar um recado firme e direto: “não façam isto”. Mesmo assim a posição contra o golpe teve apoio significativo na cúpula das três forças, incluindo o comandante da Marinha.
Como ficou claro nos inquéritos contra os golpistas havia uma opção radical de passar por cima das vacilações dos comandos superiores, já que se considerava que a oficialidade, “de general de brigada para baixo”, estava pronta para apoiar o golpe. Na tradição golpista brasileira este seria um fato inédito pois em 1964 a hierarquia fechou com o golpe e, em 1961, bastou que um comandante de exército se opusesse (o do Terceiro Exército no Rio Grande do Sul) para a cúpula procurar uma conciliação que evitasse o embate entre eles.
O que faltou para esta opção ser levada à prática? A voz de comando de Jair Bolsonaro. Como este amarelou e se mandou para consultar o Mickey e o Pateta em Miami, o golpismo ficou sem a ordem de marcha, tudo desmoronou como um castelo de cartas e Lula tomou posse.
A tentativa seguinte (o 8 de janeiro), a meu ver, não foi a de um golpe para derrubar Lula, mas para blindar os comandos das Forças Armadas no seu governo, mantendo-o refém do poder militar. Como a intentona deu xabu, Lula trocou alguns comandantes das Forças Armadas e o golpismo encolheu-se, esperando melhores dias.
Os inquéritos e condenações de alguns dos golpistas levaram a um refluxo da militância da oficialidade, mas também geraram um sentimento de ressentimento e a torcida pela “volta do cipó”. Lula não fez a temida (e esperada) limpa na alta oficialidade, até porque não sabia se podia contar com a generalada que estava na lista das promoções. Na melhor tradição brasileira ele buscou uma conciliação nomeando um avatar dos militares para o ministério da Defesa.
Além da poderosíssima posição do governo e das Forças Armadas americanas, a democracia brasileira foi defendida com toda força pelo TSE e pelo STF. O primeiro foi chave para barrar o golpismo no processo eleitoral e o segundo no desmonte do aparato golpista, no que contou com a participação decisiva da Polícia Federal. Por outro lado, no nível mais baixo do judiciário, a simpatia pelo bolsonarismo se manifestou, inclusive durante as eleições, com juízes de extrema direita mais afoitos tentando limitar atividades da oposição de esquerda.
Na lista dos opositores civis do golpe não se pode deixar de citar a forte atuação da chamada grande imprensa, seguidamente denunciando as manobras golpistas. Finalmente, se o golpismo tinha apoio, inclusive financeiro, do agronegócio e de pequenos e médios empresários, a alta rapioca da Faria Lima se posicionou contra o golpe. Não se trata de uma fé nos princípios da democracia, mas em uma avaliação negativa do bolsonarismo e o medo do efeito do desarranjo institucional para o ambiente dos negócios e, por fim, mas não por último, na posição internacional contrária ao golpe.
Esta posição se refletiu no segundo turno com o apoio a Lula, em particular pelo posicionamento de Simone Tebet e Soraia Thronicke e do presidente do Novo, rompendo com seu próprio partido. Foram os votos decisivos (a maior parte deles em São Paulo) para barrar a vitória eleitoral do energúmeno.
Finalmente, cabe analisar a posição dos partidos políticos. Apesar de todo o direitismo da maioria dos eleitos em 2022 e de sua óbvia simpatia pelo capitão de araque, a ideia de rejeitar os resultados das eleições pela acusação de manipulação das urnas eletrônicas gerou arrepios, já que a votação os tinha beneficiado. Embora sem muita ênfase, os partidos do Centrão, inclusive os presidentes da Câmara e do Senado se manifestaram contra o golpe.
Como este não prosperou, ficamos sem saber como o Congresso se manifestaria se colocado diante de um fato consumado golpista. Haveria certamente uma negociação para estabelecer algumas salvaguardas ao poder ampliado do Congresso, cedido pelo capitão presidente em seus momentos de maior fraqueza no governo. Ou talvez, vitorioso o golpe, Bolsonaro e seus seguidores resolvessem radicalizar e passar o rodo no Congresso de uma vez por todas.
A tragédia anunciada
Nestas eleições devemos nos ver diante de uma situação semelhante à de 2022, com a vitória no segundo turno sendo decidida no fotochart.
Diante desse quadro o bolsonarismo retomou a estratégia da “bola ou búrica”. Vão tentar ganhar nas urnas enquanto se preparam para questionar os resultados que lhes forem desfavoráveis.
O candidato do capitão é ainda mais patético do que o pai e, em vários quesitos, mais fraco. Não tem a empatia do “mito” e está mais exposto do que seu mentor em temas como a corrupção e misoginia, além de não ter um “posto Ipiranga” de confiança do empresariado, como foi Paulo Guedes.
Mas o que importa nestas eleições não é a coerência do candidato com propostas de governo ou identidade ideológica com o sentimento do que há de pior na nossa nacionalidade. O que definitivamente está cada vez mais claro nas tendências indicadas pelas pesquisas é a decisão de barrar Lula contaminando mais de 50% do eleitorado, segundo as pesquisas.
A direita tem hoje menos vantagem na guerra das redes com o lulopetismo. A esquerda e os defensores do presidente aprenderam alguma coisa e hoje disputam com o bolsonarismo a produção de memes. Por outro lado, as redes perderam a confiança absoluta que tiveram em 2018 e 2022, cedendo a primazia da formação de opinião para a mídia convencional. Mas podemos esperar um recrudescimento dos disparos de mensagens distorcendo a realidade, sobretudo sabendo-se que o trumpismo usou e abusou da cumplicidade das big techs para derramar disparos massivos de desinformação nas eleições vencidas pela direita em toda a América Latina.
O filhote do energúmeno tem uma vantagem em relação às últimas eleições: o controle do TSE por Kassio Nunes Marques e André Mendonça. Podemos esperar, pelo menos, um controle frouxo das redes nesta guerra de mensagens. E, muito mais perigoso, os dois bolsonaristas do supremo podem usar de seu lugar para provocar notícias negativas, sobretudo nos processos de investigação sob sua responsabilidade. Já é visível o uso de pesos desiguais na revelação de casos de corrupção, deixando o caso do “Dark Horse” em banho maria e seguindo de perto os de Wagner, Lulinha e, agora, Marcola.
Ainda é mais perigosa, em um contexto de busca de um pretexto de golpe, a posição que ocupam os dois ministros bolsonaristas no TSE. Até agora eles têm sido forçados a defender as urnas eletrônicas, mas frente a uma situação de crise basta que Nunes Marques aceite a necessidade de uma investigação sobre os resultados das urnas para dar o mote buscado pelos golpistas.
Na disputa eleitoral, que não é o objeto deste artigo, a troca de chumbo em todos os temas deve dar empate e cada bloco vai votar para derrotar o adversário, mais do que para eleger o seu candidato. Cada vez mais o voto está consolidado e não haverá denúncia, proposta ou argumento para mudar posições a não ser em uma ínfima parcela do eleitorado que vai fazer a diferença no fotochart.
Supondo que Lula ganhe por diferença semelhante à das últimas eleições, algo entre um e dois por cento dos votos válidos, entra em campo a alternativa B, o golpe.
Flávio Bolsonaro já está repetindo os passos de seu pai em 2022, questionando as urnas em um evento reunindo o corpo diplomático presente em Brasília. Na ocasião ele lançou uma fake news requentada originada nos EUA, afirmando que as nossas urnas foram fabricadas por uma indústria venezuelana, supostamente suspeita de fraudes naquele país. Flávio Bolsonaro deveria ter sido interpelado pelo TSE, mas Nunes Marques limitou-se a reproduzir uma nota emitida no passado por Alexandre de Morais, invés de cobrar um desmentido.
Mais importante para o desfecho deste embate, o governo de Donald Trump já está preparado para agir na mesma linha, inclusive já tendo mandado emissários para investigar a lisura das nossas eleições, no que foi impedido pelo Itamaraty. O novo embaixador dos EUA, se receber o agrément antes das eleições, deve vir com tudo para desacreditar o processo eleitoral, já tendo anunciado em sua apresentação no Congresso americano que vai vigiar “a lisura do pleito”. Não é possível prever o que vai fazer para tumultuar, mas o certo é que vai provocar o governo e os tribunais. Só espero que a habitual falta de medida dos gringos coloque a opinião pública contra ele e seu candidato.
Quem vai dar o golpe? Quem vai apoiar?
Golpes, por definição, são dados por militares, na maior parte dos casos pelos oficiais das forças armadas, com o suporte das polícias estaduais ou sua neutralização. As Forças Armadas, por formação, funcionam com base no princípio da disciplina. Este elemento básico do comportamento militar faz com que um golpe conduzido pelos mais altos hierarcas das Forças Armadas tenda a seu imbatível. Por outro lado, o mesmo princípio faz com que um golpe em que os hierarcas não estão no comando do processo tenda a não ter sucesso.
Estas regras são muito fortes, mas temos exemplos na América Latina de golpes dados por forças policiais, com as Forças Armadas assistindo o desenrolar do processo. No Brasil tivemos um caso de tentativa de golpe em que o alto comando se dividiu e a oficialidade (incluindo o comandante) de um dos quatro exércitos (o terceiro, do Sul) se rebelou. Este caso, ocorrido quando da renúncia de Jânio Quadros em 1961, já foi citado antes neste artigo e provocou a busca de uma solução negociada, incluindo o Congresso e o próprio alvo do golpe, o vice-presidente João Goulart.
O mais alto hierarca das Forças Armadas é o presidente da República, mas se ele não tiver apoio do Alto Comando para dar o um autogolpe (caso de Jair Bolsonaro em 2022) terá que dar a ordem direta aos oficiais com comando de tropas, passando por cima da hierarquia e da devida disciplina.
Se Jair Bolsonaro tivesse tido a coragem de dar esta ordem ele colocaria o seu Alto Comando em posição de rebeldia e, no caso deste último não se enquadrar, haveria uma disputa entre duas ordens contraditórias e tudo dependeria de qual seria respeitada. O Alto Comando poderia arguir a ilegalidade da ordem do presidente, mas o clima político entre a oficialidade naquele momento provavelmente provocaria uma adesão dos escalões inferiores, com múltiplas e anárquicas quebras de hierarquia.
No quadro presente o presidente Lula é o comandante das Forças Armadas e o seu afastamento pelo Alto Comando seria uma ruptura da cadeia de comando e poderia ser desobedecido pelos escalões inferiores, mas isto é muito improvável dado o histórico de adesão ao bolsonarismo na oficialidade, de tenente a general.
Tudo se resume em qual a decisão que vai tomar o Alto Comando se os bolsonaros apelarem para que ele afaste Lula. No quadro atual, a grande diferença com 2022 é a postura do governo e das Forças Armadas americanas. Podemos esperar uma pressão das Forças Armadas americanas ainda mais forte do que naquele ano, só que em sentido contrário.
O que vão decidir os nossos generais, almirantes e brigadeiros? Desde logo, como sempre, a decisão chave será o do comando do exército. O resto virá a reboque ou ficará no muro, esperando o desfecho. Apesar de terem sido nomeados por Lula, não há simpatia pelo presidente, nem pruridos legalistas ou democráticos entre estes altos hierarcas.
Muito provavelmente eles vão sondar os seus comandados à frente das regiões militares e estes vão fazer o mesmo junto aos comandantes de divisão e brigada. Se a tensão política estiver muito alta até os coronéis vão tomar posição, mas creio que a tendência será pelo golpe.
A imprensa não deu muita bola para a declaração infeliz do ministro da Defesa, que tem se esmerado por representar os interesses da oficialidade das três armas junto ao governo Lula. Segundo este avatar dos militares, no caso de os EUA decidirem por uma invasão do Brasil o que deveríamos fazer seria “abrir as portas sem resistência”, já que esta seria inútil. A declaração favorável a uma capitulação sem luta deveria ter provocado uma tempestade de protestos, mas isto não ocorreu, gerando apreensões sobre qual o sentimento das Forças Armadas.
Foi ainda menos divulgado e comentado o documento assinado pelos presidentes dos três clubes dos quatro militares que agregam a oficialidade e divulgado pouco depois da fala derrotista de José Múcio Monteiro. Assinam a carta, em nome de todos os associados, os presidentes do Clube Militar, do Clube Naval e do clube da Aeronáutica. Não fica claro porque o presidente do Clube do Exército não assinou.
Quem são os associados destes Clubes? O público em geral acha que são todos oficiais fora da ativa, tanto que são tratados pela imprensa como sendo “de pijama”, mas são muitos os oficiais da ativa que deles participam, pelo menos os do exército e da marinha. Não existem informações sobre quantos e quem são os associados ao Clube da Aeronáutica.
No Clube militar os associados são 26.080, sendo que 1821 são da ativa. No Clube Naval são 7.829, sendo que 4.220 da ativa (ou seja, a maioria). Lembremos ainda que existem 31.200 oficiais da ativa no exército e cerca de 11.000 na marinha e 8200 na aeronáutica. Estes números indicam que no exército a proporção dos oficiais da ativa que são membros do Clube Militar é menor do que 20%, mas na marinha eles são quase 40%.
Independentemente destes números, a história mostra que os manifestos dos Clubes exprimem o pensamento ou o sentimento da oficialidade da ativa que, por regulamento, não pode se manifestar em público sobre questões políticas. Entre seu penúltimo pronunciamento, em 2024 os Clubes questionaram as condenações dos oficiais comprometidos na intentona de 8 de janeiro de 2023 apontando para uma perseguição aos implicados. Em 2022 assinaram uma carta questionando as urnas eletrônicas, gesto entendido como parte do apoio político ao golpe nas Forças Armadas.
Neste último pronunciamento os Clubes não questionaram a fala capitulacionista de José Múcio Monteiro. Questionaram a leniência com a corrupção, tolerância com o crime e o descaso com a gestão da coisa pública que acarretam a falência moral, institucional e econômica do país. O alvo parece ser amplo, incluindo governo, judiciário e congresso.
Questionaram o ambiente político marcado pela polarização, pelo revanchismo e pelo clientelismo. O alvo também é amplo, incluindo todas as instituições da república. Questionaram a criação de ruídos diplomáticos desnecessários e o desalinhamento político com importantes países, comprometendo relações bilaterais construídas ao longo de dois séculos de cooperação. Esta passagem é claramente dirigida à crise das relações com o governo americano e aponta para uma responsabilidade do governo brasileiro e não do agressor.
Isentaram a responsabilidade do governo americano nos tarifaços, afirmando que poderiam ter sido evitados por meio de negociações mais técnicas e pragmáticas, mais uma acusação contra o governo Lula.
O manifesto termina apontando para o risco do Brasil se tornar um país insolvente, ingovernável e irrelevante. Para solucionar todos os problemas apontados a mensagem entra em contradição com seus próprios termos, propondo o diálogo entre as forças vivas da nação.
A meu ver, quem declara que as instituições estão falidas não está propondo diálogo que inclua as mesmas. É um apelo, já muito repetido na história do Brasil, para as forças armadas salvarem o país, ou seja, um apelo ao golpe.
Mas o mais importante no documento é a manifestação de apoio ao governo americano, embora o mesmo não tenha sido citado nominalmente. Para os militares dos Clubes (e provavelmente para a maioria da oficialidade da ativa) Donald Trump está certo e o governo brasileiro é o agente provocador da crise. Isto, e o silêncio frente às declarações do ministro da Defesa, é o convite explícito para uma intervenção americana “para botar ordem na casa”.
Para a massa da oficialidade, e não apenas os aposentados, as Forças Armadas dos EUA não representam uma ameaça para o Brasil, mas uma força de apoio aos princípios da liberdade e da democracia no país, no melhor estilo dos tempos da guerra fria e da frente sagrada contra o comunismo ateu.
As nossas Forças Armadas passaram por quase noventa anos de subordinação às das Forças Armadas americanas, sendo que entre 1945 e 1991 elas se integraram totalmente ao pensamento estratégico e tático da Guerra Fria anticomunista capitaneada pelos americanos. Com o fim do bloco soviético não houve uma redefinição sobre as ameaças militares ao nosso país e os manuais das nossas FFAA continuam versando sobre o velho modelo anticomunista e na fidelidade aos Estados Unidos.
Não tenho dúvidas que a dupla Trump/Rúbio vai fazer inúmeras provocações contra Lula. Já estão requentando uma lenda urbana dos tempos da primeira vitória eleitoral de Lula, acusando o PT de ter recebido recursos financeiros ilegais do governo de Chaves. Vão inventar ligações com o narcotráfico e sabe lá o que mais. O disparo de mensagens bombásticas a partir do exterior, contando com o apoio das empresas das redes e a complacência do TSE também deve entrar no script. Mas não acredito que isto modifique o quadro eleitoral, embora possa criar o clima para uma ação golpista.
A escolha da oficialidade a favor ou contra participar de um golpe de Estado não vai ficar imune às influências da opinião pública.
Comparando com 2022, quando a hierarquia já estava mais do que balançada pela forte pressão dos acampamentos na porta dos quartéis, pela onda de atentados dos CACs e pelas manifestações bolsonaristas nas ruas e nas redes, os elementos de um ambiente pró golpe eram melhores.
No momento a maré bolsonarista está em baixa, sem capacidade de mobilização nas ruas e podemos contar com a oposição da grande mídia e uma maior presença das forças antigolpe nas redes. Se as eleições se realizarem em calma vai ser mais complicado para os golpistas romperem com a legalidade sem pretextos, por mais que o sentimento da oficialidade seja a favor. Sem um comando unificado nas FFAA a favor do golpe a hipótese de uma revolta dos escalões inferiores fica mais difícil pelo risco que incorrerão no caso de o golpe não prosperar.
O que podem fazer Trump e Rúbio para provocar o golpe no Brasil?
Mandar a generalada americana buzinar nos ouvidos dos nossos Altos Comandos a mensagem golpista pode dar mais coragem para estes darem o salto no escuro da quebra da hierarquia e da legalidade. Dou de mão beijada que todos os generais e almirantes gostariam de tirar Lula e o PT do governo, mas sem um forte respaldo para o golpe no país eu duvido que se movam.
A única medida que pode fazer a mesa virar é uma invasão pelas FFAA americanas que provocaria a adesão das nossas e a tomada do poder. Às vésperas de uma eleição nos EUA e com Trump altamente desgastado por suas intervenções externas desastradas, uma invasão de Brasília pela First Air Cavalry (divisão de paraquedistas), mais uma divisão de marines (fuzileiros navais) com ainda uma participação dos Seals (espécie de kids pretos americanos) seria um risco político medonho, mesmo para um louco como o presidente americano. Infelizmente, é algo que não se pode descartar.
Este quadro seria impensável até janeiro deste ano, quando foi feita a operação de sequestro do presidente da Venezuela. Mas vejamos o cálculo feito pelo governo Trump: estava em curso uma negociação com a cúpula do governo e das FFAA venezuelanas, que estava travada por Nicolau Maduro. Retirada a trava o acordo funcionou, mantendo-se a estrutura existente de poder desde que submissa a Trump.
No caso do Brasil este tipo de operação cirúrgica não funcionaria pois temos instituições democráticas atuantes e independentes, diferentemente da ditadura venezuelana. Aqui seria preciso fechar Congresso, STF e afastar os ocupantes do executivo. Ou seja, seria preciso ocupar o terreno e não uma rápida entrada e saída. Como Trump vai interpretar a mensagem da oficialidade? Com certeza ele vai ter claro que não vai encontrar resistência militar e vai poder entregar o cadáver das nossas instituições para as FFAA gerirem o país, garantidos os interesses dos EUA, como na Venezuela.
Vai ter peso na criação de um clima contra o golpe a capacidade de Lula de repetir o extraordinário feito das eleições de 2022, quando seus comícios, sobretudo no Nordeste, levaram milhões às ruas. Infelizmente, este não me parece um quadro provável nestas eleições. Lula hoje está mais preocupado em fazer alianças “fortes” nos Estados (leia-se, compondo com todo mundo, Centrão, direita, esquerda) do que mobilizar massas aos milhões.
Esperemos que uma ameaça de golpe trumpista e/ou bolsonarista provoque uma reação política da sociedade civil que possa se exprimir em multidões nas ruas para garantir os resultados das eleições, já que não vejo capacidade de mobilização na esquerda e, quiçá, nem no Lula.
Em resumo: as condições para um golpe eram muito maiores em 2022 e ele poderia ter acontecido se o Alto comando do Exército tivesse aderido ou se Bolsonaro tivesse dado a ordem para a intervenção das FFAA, passando por cima da generalada. As investigações nos processos contra os golpistas mostraram como a montagem do golpe foi amadora e desarticulada e a covardia do mito permite chamar uma quase tragédia de farsa.
Hoje as condições políticas internas são menos favoráveis a um golpe militar, mas a ameaça de uma invasão americana tornou-se uma possibilidade real, dados os interesses de longo prazo dos EUA e os de curto de Trump e o total desprezo do personagem pelas regras de convívio civilizado entre países soberanos. Seria uma tragédia inimaginável, capaz de fazer a ditadura 64/85 empalidecer.
*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

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