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De OutrasPalavras, 28 de agosto 2026
Por Stefano Rota
A “Revolta das Baratas”, na Índia. Série de protestos, desde julho, leva multidões às ruas, exigindo a renúncia do Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, devido ao vazamento das provas do Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão (NEET). A revolta, porém, vai além da fraude nos exames: o desemprego entre os jovens, a precarização das perspectivas de futuro e o crescente autoritarismo do governo de Narendra Modi também alimentam a mobilização. Foto: REUTERS/Sivaram V
Numa recente entrevista realizada por Simone Pieranni com Wang Hui – provavelmente a figura mais proeminente da New Left chinesa – o influente pensador político dedica amplo espaço à discussão de dois conceitos: a “política da despolitização” e a “repolitização”.
Retomando em traços muito gerais aquilo que Wang Hui aí relatou, a despolitização não é, como o termo pareceria sugerir, a ausência da política tout court. É antes a apresentação de atos, discursos, estratégias na base de protocolos de alegada neutralização, ou tecnicização, dos mesmos, com o objetivo de os subtrair à disputa política, estigmatizando e criminalizado os seus detratores.
A neutralização propõe uma universalidade de valores assentes nos conceitos aparentemente indiscutíveis de progresso tecnológico, predisposição genética, centralidade do QI, confiança na capacidade dos melhores para produzirem aquilo de que precisamos, o direito de acederem, custe o que custar, àquilo que for necessário para um desenvolvimento apresentado como infinito e imparável. Por trás disto tudo – como demonstrou recentemente Quinn Slobodan – há uma escolha política precisa, com objetivos claros. É a mesma, parece, que Wang Hui reconduz à política da despolitização.
Mais uma vez, são os EUA que definem as linhas ao longo das quais se articula este novo rumo. Não é tudo fruto da atual administração, ainda que o trumpismo represente, sob muitos aspetos, a sua extremização. Em termos gerais, esta política é, ou apresenta-se como, a resposta ao estado de crise em que se encontra o Ocidente, pelo menos a partir do 2008.
A política da despolitização vai além das formas mais consolidadas de relação neoliberal entre mercado e instituições, público e privado. Impulsiona novos cenários de que, com diferentes graus de consciência, somos todos testemunhas. Sustentada pelo impacto da IA no andaime institucional, nas formas de organização do trabalho, nas configurações sociais, na vida na sua acepção biológica e social mais ampla, a política da despolitização apresenta-se hoje como a antítese da ética em política.
O que estamos vivenciando não pode ser visto apenas como mais uma etapa na longa e linear vida do capitalismo. Não basta chamar a visão despolitizada dos novos patrões do mundo como “fim da história”. O que os anima é a convicção de se encontrarem no início de uma nova história, onde o desenvolvimento tecnológico disruptivo já não deixa espaço para as leituras éticas do agir político do século XX.
Aí encaixam-se as projeções transumanistas de superação da morte, a redefinição escatológica do destino do mundo, a identificação em tons bíblicos dos inimigos da sua ideia de progresso. Neste contexto, a guerra, declinada em muitas formas diferentes, assume a função purificadora em relação ao mau, ao Anticristo. Este último não passa de tudo o que se interpõe à produção do futuro definido pelo seu “projeto teológico secularizado”, como é definido por Rafael Azzi.
Quer se trate de guerra ao ambiente, aos pobres, ao que sobra do Estado social, em nome de um “desenvolvimentismo” que não faz prisioneiros, ou quer se entenda no sentido mais tradicional do termo, a política da despolitização encontra na guerra a sua mais coerente e elevada expressão. Para Wang Hui, aliás, a guerra não é nada mais do que a continuação direta da politica da despolitização. E, acerca disso, parece difícil produzir argumentos que refutem a sua tese.
O sucesso dessa política reside na capacidade de penetração e condicionamento tanto da nossa vida ativa cada vez mais conectada, como do nosso inconsciente offline. A este respeito, um outro intelectual chinês, Yuk Hui, prefere, ao examinar o padrão econômico e cultural dominante, pôr a ênfase sobre os processos de desindividuação, como consequência do predomínio das pulsões em relação à economia da libido. Daí surge a necessidade de uma nova individuação do pensamento, “para cuja realização a tecnologia é fundamental”, dado que o próprio uso atual da tecnologia deve ser visto como a causa principal da desindividuação.
A nova individuação proposta por Yuk Hui traz, portanto, ao nível da vida do sujeito o conceito de repolitização que Wang Hui analisa colocando-o num plano relacional mais abrangente.
* * *
Afirmar a necessidade de repolitizar as relações não significa desconhecer a multiplicidade de ações políticas novas e diversas que parecem apresentar, em muitos terrenos, níveis de participação popular às vezes bastante elevados. Não é este o ponto, ou, se quisermos, isto é apenas um lado do processo de repolitização de que se quer falar. Talvez, felizmente, o menos problemático. Da Europa às suas fronteiras externas (Albânia e Sérvia), e a muitos outros países, entre os quais Quênia e Índia, sem esquecer experiências particulares nos EUA, assiste-se a uma contínua propagação de protestos politicamente importantes e eficazes.
O assunto da repolitização diz respeito tanto a ações políticas institucionais como ao “político” de modo mais amplo Este deve ser entendido como o sentido geral do agir que redefine as prioridades e os valores, com base numa contraposição antagônica ao estado de coisas presente. A sua fundamentação não é abstrata, mas sim enraizada nas lutas políticas que a ele remetem.
O “político” não é a somatória daquelas ações, mesmo quando existam analogias e pontos de contato entre elas. Remete ao conceito de hegemonia, entendida no sentido gramsciano de luta cultural na dimensão ético-política. Um conceito que Laclau aplicou à ideia de cadeias equivalentes crescentes entre sujeitos e ações, para a definição de uma democracia radical.
Este “político” constitui, portanto, o quadro de referência antagônico, a que as variadas ações remetem e que, ao mesmo tempo, cada uma delas contribui a formar. Existe uma relação de reciprocidade entra os dois elemento: é este que define o percurso de constituição da hegemonia.
É um percurso que tem de ser ativado, trazido à tona. As cadeias equivalentes e as articulações entre sujeitos que produzem ações políticas são a nervura e o arcabouço deste percurso.
Com base naquilo que foi dito, o elemento que pode constituir-se como quadro de referência da potência coletiva das ações deste novo “político” é a “guerra à guerra”. Este parece ser hoje o significante capas de pôr em movimento um projeto hegemônico de amplo alcance.
A guerra na sua acepção mais ampla é, como se disse, é a continuação da política da despolitização. Combatê-la com as armas da repolitização significa tornar cada ação que a contraste uma peça do novo projeto hegemônico que queremos levar a cabo.
Para tal efeito, precisamos produzir elementos convincentes, que não se limitem a contrapor. Precisamos de novos nomes. A guerra que queremos travar à guerra (ao ambiente, por exemplo) tem de afirmar que tipo de relação propomos entra a sociedade humana e a natureza; o que significa desenvolvimento, produção e consumo numa prospetiva ecossocialista, como defende Sabrina Fernandes.
O mesmo pode-se dizer para a guerra contra a guerra aos sujeitos marginais, à saúde e escola pública, ao direito a uma vida digna, a uma casa, um rendimento. O mutualismo pode oferecer soluções? Ajuda a definir um modelo societário em que investir, por estar subtraído à ganância e à valorização direta do capital?
O combate às guerras genocidas que utilizam armas produzidas direta ou indiretamente nas nossas cidades, e que transitam no comércio internacional, necessita acrescentar novas alianças àquelas que já existem, para promover ações eficazes e duradouras. O que já está ocorrendo é importantíssimo, mas não basta: a luta tem de encontrar formas de se estender não apenas na horizontal, mas também na vertical, ao longo da cadeia de abastecimento.
Os novos meios computacionais de organização, produção e controle devem tornar-se um campo de batalha, uma passagem estratégica da supply chain onde intervir. Os hackers, tal como os entende MacKenzie Wark, isto é os produtores de informações e métodos de uso dos sistemas contra os patrões vetorialistas, são um sujeito de importância vital.
* * *
A criação de cadeias equivalentes e a articulação entre sujeitos diferentes produzem saber, cuidado, solidariedade, consciência e potência. É aí onde o político fica reforçado e reforça a expansão das lutas num ecossistema que não tem confins predefinidos.
A sua dimensão define-se com base do funcionamento de uma ecologia, onde tudo coevolui e onde a distribuição das ações não é sinónimo de fraqueza, mas de variabilidade não totalizável de uma rede.
* * *
A cidade apresenta-se como o laboratório ideal onde a repolitização pode assumir materialidade e visibilidade imediata, onde é possíve experimentar um percurso que tenha como objetivo a criação de uma nova hegemonia cultural e ético-política.
Esta nova hegemonia encontra sustentação e força na ideia de cidadania ativista, que redefine as posições e as prioridades de quem vive e transforma os espaços urbanos diariamente, dentro e contra as transformações que lhe são impostas.
As articulações, os pontos de sutura entre as ações distribuídas dos sujeitos, cada um com a sua própria especificidade, contribuem para definir e ampliar o significado de “Guerra à guerra”.
Se isto significar subtrair-nos, pelo menos parcialmente, à asfixia avassaladora e criminosa que nos cerca, a guerra à guerra poderá tornar-se então a maneira de recomeçarmos a respirar coletivamente.
Aconteceu à época das cidades rebeldes, acontece hoje com a Nova York de Mamdani. As cidades, às vezes surpreendem-nos pela capacidade de transformação que demonstram, devido à autonomia, ou soberania, que as distingue e que fez com que, no passado, fossem vistas como âmbitos “ilegais”. Se a história se repetir, não teremos outra escolha senão estar, sem remorso, do lado da ilegalidade.
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A “Revolta das Baratas”, na Índia. Série de protestos, desde julho, leva multidões às ruas, exigindo a renúncia do Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, devido ao vazamento das provas do Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão (NEET). A revolta, porém, vai além da fraude nos exames: o desemprego entre os jovens, a precarização das perspectivas de futuro e o crescente autoritarismo do governo de Narendra Modi também alimentam a mobilização. Foto: REUTERS/Sivaram V
Numa recente entrevista realizada por Simone Pieranni com Wang Hui – provavelmente a figura mais proeminente da New Left chinesa – o influente pensador político dedica amplo espaço à discussão de dois conceitos: a “política da despolitização” e a “repolitização”.
Retomando em traços muito gerais aquilo que Wang Hui aí relatou, a despolitização não é, como o termo pareceria sugerir, a ausência da política tout court. É antes a apresentação de atos, discursos, estratégias na base de protocolos de alegada neutralização, ou tecnicização, dos mesmos, com o objetivo de os subtrair à disputa política, estigmatizando e criminalizado os seus detratores.
A neutralização propõe uma universalidade de valores assentes nos conceitos aparentemente indiscutíveis de progresso tecnológico, predisposição genética, centralidade do QI, confiança na capacidade dos melhores para produzirem aquilo de que precisamos, o direito de acederem, custe o que custar, àquilo que for necessário para um desenvolvimento apresentado como infinito e imparável. Por trás disto tudo – como demonstrou recentemente Quinn Slobodan – há uma escolha política precisa, com objetivos claros. É a mesma, parece, que Wang Hui reconduz à política da despolitização.
Mais uma vez, são os EUA que definem as linhas ao longo das quais se articula este novo rumo. Não é tudo fruto da atual administração, ainda que o trumpismo represente, sob muitos aspetos, a sua extremização. Em termos gerais, esta política é, ou apresenta-se como, a resposta ao estado de crise em que se encontra o Ocidente, pelo menos a partir do 2008.
A política da despolitização vai além das formas mais consolidadas de relação neoliberal entre mercado e instituições, público e privado. Impulsiona novos cenários de que, com diferentes graus de consciência, somos todos testemunhas. Sustentada pelo impacto da IA no andaime institucional, nas formas de organização do trabalho, nas configurações sociais, na vida na sua acepção biológica e social mais ampla, a política da despolitização apresenta-se hoje como a antítese da ética em política.
O que estamos vivenciando não pode ser visto apenas como mais uma etapa na longa e linear vida do capitalismo. Não basta chamar a visão despolitizada dos novos patrões do mundo como “fim da história”. O que os anima é a convicção de se encontrarem no início de uma nova história, onde o desenvolvimento tecnológico disruptivo já não deixa espaço para as leituras éticas do agir político do século XX.
Aí encaixam-se as projeções transumanistas de superação da morte, a redefinição escatológica do destino do mundo, a identificação em tons bíblicos dos inimigos da sua ideia de progresso. Neste contexto, a guerra, declinada em muitas formas diferentes, assume a função purificadora em relação ao mau, ao Anticristo. Este último não passa de tudo o que se interpõe à produção do futuro definido pelo seu “projeto teológico secularizado”, como é definido por Rafael Azzi.
Quer se trate de guerra ao ambiente, aos pobres, ao que sobra do Estado social, em nome de um “desenvolvimentismo” que não faz prisioneiros, ou quer se entenda no sentido mais tradicional do termo, a política da despolitização encontra na guerra a sua mais coerente e elevada expressão. Para Wang Hui, aliás, a guerra não é nada mais do que a continuação direta da politica da despolitização. E, acerca disso, parece difícil produzir argumentos que refutem a sua tese.
O sucesso dessa política reside na capacidade de penetração e condicionamento tanto da nossa vida ativa cada vez mais conectada, como do nosso inconsciente offline. A este respeito, um outro intelectual chinês, Yuk Hui, prefere, ao examinar o padrão econômico e cultural dominante, pôr a ênfase sobre os processos de desindividuação, como consequência do predomínio das pulsões em relação à economia da libido. Daí surge a necessidade de uma nova individuação do pensamento, “para cuja realização a tecnologia é fundamental”, dado que o próprio uso atual da tecnologia deve ser visto como a causa principal da desindividuação.
A nova individuação proposta por Yuk Hui traz, portanto, ao nível da vida do sujeito o conceito de repolitização que Wang Hui analisa colocando-o num plano relacional mais abrangente.
* * *
Afirmar a necessidade de repolitizar as relações não significa desconhecer a multiplicidade de ações políticas novas e diversas que parecem apresentar, em muitos terrenos, níveis de participação popular às vezes bastante elevados. Não é este o ponto, ou, se quisermos, isto é apenas um lado do processo de repolitização de que se quer falar. Talvez, felizmente, o menos problemático. Da Europa às suas fronteiras externas (Albânia e Sérvia), e a muitos outros países, entre os quais Quênia e Índia, sem esquecer experiências particulares nos EUA, assiste-se a uma contínua propagação de protestos politicamente importantes e eficazes.
O assunto da repolitização diz respeito tanto a ações políticas institucionais como ao “político” de modo mais amplo Este deve ser entendido como o sentido geral do agir que redefine as prioridades e os valores, com base numa contraposição antagônica ao estado de coisas presente. A sua fundamentação não é abstrata, mas sim enraizada nas lutas políticas que a ele remetem.
O “político” não é a somatória daquelas ações, mesmo quando existam analogias e pontos de contato entre elas. Remete ao conceito de hegemonia, entendida no sentido gramsciano de luta cultural na dimensão ético-política. Um conceito que Laclau aplicou à ideia de cadeias equivalentes crescentes entre sujeitos e ações, para a definição de uma democracia radical.
Este “político” constitui, portanto, o quadro de referência antagônico, a que as variadas ações remetem e que, ao mesmo tempo, cada uma delas contribui a formar. Existe uma relação de reciprocidade entra os dois elemento: é este que define o percurso de constituição da hegemonia.
É um percurso que tem de ser ativado, trazido à tona. As cadeias equivalentes e as articulações entre sujeitos que produzem ações políticas são a nervura e o arcabouço deste percurso.
Com base naquilo que foi dito, o elemento que pode constituir-se como quadro de referência da potência coletiva das ações deste novo “político” é a “guerra à guerra”. Este parece ser hoje o significante capas de pôr em movimento um projeto hegemônico de amplo alcance.
A guerra na sua acepção mais ampla é, como se disse, é a continuação da política da despolitização. Combatê-la com as armas da repolitização significa tornar cada ação que a contraste uma peça do novo projeto hegemônico que queremos levar a cabo.
Para tal efeito, precisamos produzir elementos convincentes, que não se limitem a contrapor. Precisamos de novos nomes. A guerra que queremos travar à guerra (ao ambiente, por exemplo) tem de afirmar que tipo de relação propomos entra a sociedade humana e a natureza; o que significa desenvolvimento, produção e consumo numa prospetiva ecossocialista, como defende Sabrina Fernandes.
O mesmo pode-se dizer para a guerra contra a guerra aos sujeitos marginais, à saúde e escola pública, ao direito a uma vida digna, a uma casa, um rendimento. O mutualismo pode oferecer soluções? Ajuda a definir um modelo societário em que investir, por estar subtraído à ganância e à valorização direta do capital?
O combate às guerras genocidas que utilizam armas produzidas direta ou indiretamente nas nossas cidades, e que transitam no comércio internacional, necessita acrescentar novas alianças àquelas que já existem, para promover ações eficazes e duradouras. O que já está ocorrendo é importantíssimo, mas não basta: a luta tem de encontrar formas de se estender não apenas na horizontal, mas também na vertical, ao longo da cadeia de abastecimento.
Os novos meios computacionais de organização, produção e controle devem tornar-se um campo de batalha, uma passagem estratégica da supply chain onde intervir. Os hackers, tal como os entende MacKenzie Wark, isto é os produtores de informações e métodos de uso dos sistemas contra os patrões vetorialistas, são um sujeito de importância vital.
* * *
A criação de cadeias equivalentes e a articulação entre sujeitos diferentes produzem saber, cuidado, solidariedade, consciência e potência. É aí onde o político fica reforçado e reforça a expansão das lutas num ecossistema que não tem confins predefinidos.
A sua dimensão define-se com base do funcionamento de uma ecologia, onde tudo coevolui e onde a distribuição das ações não é sinónimo de fraqueza, mas de variabilidade não totalizável de uma rede.
* * *
A cidade apresenta-se como o laboratório ideal onde a repolitização pode assumir materialidade e visibilidade imediata, onde é possíve experimentar um percurso que tenha como objetivo a criação de uma nova hegemonia cultural e ético-política.
Esta nova hegemonia encontra sustentação e força na ideia de cidadania ativista, que redefine as posições e as prioridades de quem vive e transforma os espaços urbanos diariamente, dentro e contra as transformações que lhe são impostas.
As articulações, os pontos de sutura entre as ações distribuídas dos sujeitos, cada um com a sua própria especificidade, contribuem para definir e ampliar o significado de “Guerra à guerra”.
Se isto significar subtrair-nos, pelo menos parcialmente, à asfixia avassaladora e criminosa que nos cerca, a guerra à guerra poderá tornar-se então a maneira de recomeçarmos a respirar coletivamente.
Aconteceu à época das cidades rebeldes, acontece hoje com a Nova York de Mamdani. As cidades, às vezes surpreendem-nos pela capacidade de transformação que demonstram, devido à autonomia, ou soberania, que as distingue e que fez com que, no passado, fossem vistas como âmbitos “ilegais”. Se a história se repetir, não teremos outra escolha senão estar, sem remorso, do lado da ilegalidade.
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Stefano Rota
Pesquisador independente, trabalhador nômade. Publicou com outros autores “La (in)traducibilità del mondo. Attraversamenti e confini della traduzione” (Ombre Corte, 2020) e contribuiu a F.O. Dubosc (ed), “Lessico della crisi e del possibile” (SED, 2019). A sua mais recente publicação é “La fabbrica del soggetto. Ilva 1958-Amazon 2021” (Sensibili alle foglie, 2023). pesquisador independente. Administra o blog “Transglobal”. Colabora ocasionalmente com revistas online italianas e lusófonas.

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