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Orientalismo e seu autor

Do A Terra É Redonda, 10 de agosto 2026
Por EMIR SADER*



Imagem: Emin Huric
O Oriente nunca foi uma geografia, mas sim o espelho invertido onde o Ocidente projeta suas fantasias de poder e forja, por contraste, sua própria identidade

1.

Eu estava buscando outras obras do Edward Said, depois de me ter encantado com seu livro Orientalismo, na livraria da Universidade de Columbia, a principal universidade de Nova York, quando, para minha surpresa, olho e do meu lado estava simplesmente Edward Said!

Ficamos muito amigos a partir dali. Nos comunicamos muito, eu o convidei para vir ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre, ele topou. Quando, tristemente, de repente, ele ficou doente e morreu, sem que pudéssemos realizar esse sonho nosso de trazê-lo ao Brasil e ao Fórum Social Mundial.

O subtítulo – O Oriente como invenção do Ocidente – já aponta para a sacada genial do livro. O Oriente é, simplesmente, o que não é o Ocidente. Ele e’ tão amplo e diferenciado, que não existe como tal, mas apenas como o Outro do Ocidente, o que não é Ocidente.

O Oriente não é apenas adjacente à Europa; é também o lugar das maiores, mais ricas e mais antigas colônias europeias, a fonte de suas civilizações e línguas, seu rival cultural e uma de suas imagens mais profundas e mais recorrentes do Outro.

Além disso, o Oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) com sua imagem, ideia, personalidade, experiências contrastantes. Mas nada nesse Oriente é meramente imaginativo. O Oriente é uma parte integrante da civilização e da cultura material europeia.

O Orientalismo expressa e representa essa parte em termos culturais e mesmo ideológicos, num modo de discurso baseado em instituições, vocabulário, erudição, imagens, doutrinas, burocracias e estilos coloniais.

Em contraste, a compreensão americana do Ocidente parecerá consideravelmente menos densa, embora nossas recentes aventuras em países asiáticos devem estar criando uma consciência “oriental” mais sóbria, mais realista.

Por Orientalismo quero dizer varias coisas, interdependentes, A designação mais prontamente aceita para Orientalismo é acadêmica, e certamente o rotulo ainda tem serventia em várias instituições acadêmicas. O Oriente não é um fato inerte da natureza, Ele não está meramente ali. Seria errado concluir que o Oriente foi essencialmente ou ideia ou uma criação sem realidade correspondente.

Os homens fazem a sua história, de que só podem conhecer o que eles mesmos fizeram, e estendê-la à geografia, como entidades geográfica e culturais, tais lugares, regiões, setores geográficos como o
“Oriente” e o “Ocidente”, são criados pelo homem.

2.

Assim, tanto quanto o próprio Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, um imaginário e um vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente. As duas entidades geográficas, portanto, sustentam e, em certa medida, refletem uma à outra.

As ideias, as culturas e as historias não podem ser seriamente compreendidas sem que sua força ou, mais precisamente, suas configurações de poder também sejam estudadas. A relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa, o que está indicado no título de um livro clássico: A dominação ocidental na Ásia.

O Oriente não foi orientalizado só porque se descobriu que era “oriental” em todos aqueles aspectos considerados lugares-comuns por um europeu comum do século XIX, mas também porque poderia ser transformado em oriental.

Não se deve supor que a estrutura do Orientalismo não passa de uma estrutura de mentiras ou de mitos que simplesmente se dissipariam ao vento se a verdade a seu respeito fosse contada. Cada era e sociedade cria os seus “Outros”. É um processo histórico, social, intelectual e politico que ocorre como uma luta que envolve indivíduos e instituições em todas as sociedades.

Esses processos não são exercícios mentais, mas lutas sociais prementes que envolvem questões políticas concretas, como as leis da imigração, a legislação da conduta pessoal, a constituição da ortodoxia, a legitimação da violência e/ou insurreição, o caráter e o conteúdo da educação, os rumos da politica externa, o que muito frequentemente tem a ver com a designação de inimigos oficiais. Em suma, a construção da identidade está ligada com a disposição de poder e de impotência em cada sociedade, sendo portanto tudo menos meras abstrações acadêmicas.

O destino do Orientalismo foi afortunado e desafortunado. Para aqueles no mundo árabe e islâmico que sentiam a opressão ocidental com ansiedade e tensão, parecia ser o primeiro livro a dar uma resposta séria a um Ocidente que nunca escutara realmente o oriental, nem o perdoara por ser afinal um oriental.

Lembro-me de uma primeira resenha do livro, que descrevia o autor como um paladino do arabismo, um defensor dos pisoteados e maltratados, cuja missão era envolver as autoridades ocidentais numa espécie de mano a mano épico e romântico. Apesar do exagero, transmitia uma sensação real da hostilidade duradoura do Ocidente experimentada pelos árabes, além de transmitir uma resposta que muito árabes educados sentiam ser apropriada.

Há hoje pelo menos uma aceitação geral de que elas não representam uma orden eterna, mas uma experiência histórica cujo fim pode estar próximo. Orientalismo teve ao mesmo o mérito de se alistar abertamente na luta – que continua, é claro, tanto no “Ocidente” como no “Oriente”.

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]

Referências

Edward Said. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. Tradução: Rosaura Eichenberg. São Paulo, Companhia das Letras, 2007, 528 págs. [https://link.amazon/B0f8WlK4j]

K. M. Pannikar. A dominação ocidental na Ásia. São Paulo, Nova Letra, 1977, 502 págs. [https://link.amazon/B0asZQ4EJ]

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