Por ROSÂNGELA RIBEIRO GIL*
A natureza do escorpião não muda, nem a da imprensa hegemônica
1.
A fábula sobre o sapo e o escorpião é bem conhecida. Fala do aracnídeo predador que pede ajuda ao sapo para atravessar o rio. Num primeiro momento, o sapo recusa com medo de receber uma ferroada. Todavia, ante a insistência do escorpião, que argumenta não ser possível lhe picar, porque os dois morreriam afogados, o sapo confia e deixa o predador subir em suas costas. Eles nadam. No meio do caminho, o escorpião pica o sapo. Afundando na água, o sapo pergunta o porquê da picada. O escorpião responde: “É a minha natureza.”
São diversas as lições dessa pequena história, cada um ou uma pode tirar a sua. Eu me identifico com essa: certas pessoas (ou instituições) ou instintos não mudam, mesmo quando agir contra a própria lógica traz destruição. Fica o alerta de se ter cuidado ao confiar em quem tem histórico de maldade e em acreditar em promessas de mudanças ou arrependimentos.
Lembrei-me da fábula nesses dias ao ver, de novo, a imprensa brasileira como uma predadora da vida de pessoas. Em “eterno retorno”, em 2026, a mídia hegemônica volta a ferroar a sociedade brasileira, ou o Brasil; para isso, não poupa ninguém.
Em ano eleitoral, o monopólio midiático – o predomínio descomunal na produção, reprodução e divulgação de discursos ideológicos, travestidos de informação e notícias isentas – volta a atacar. O alvo é o mesmo: as forças sociais que não estão alinhadas à burguesia nacional predatória e lesa-pátria e ao capital internacional.
Nesta semana, tivemos “exemplo clássico” do que a imprensa burguesa é capaz de fazer para barrar (ou prejudicar) o avanço de projetos opostos aos interesses históricos das famílias Marinho, Mesquita, Frias, Civita, Sirotsky etc. Não importa que, para isso, vendam a alma para o capeta.
Mesmo tendo comido o “pão que o diabo amassou” no governo bolsonarista entre 2018-2022, sendo desrespeitados no exercício profissional do jornalismo (jornalistas eram escorraçados, ameaçados etc.) e até vendo o ex-presidente segurando cartaz com a frase “Globo lixo”, a imprensa-escorpião não foge à própria natureza; mesmo sendo testemunhas oculares da regressão política, econômica, social e civilizatória daquele (des)governo; igual ao escorpião da fábula, essa mídia pica quem trata-a dentro de preceitos republicanos e constitucionais.
Na própria contradição entre o discurso que noticia e a prática, nesta semana, três jornalões estamparam quase a mesma manchete imputando, com a ajuda do ministro do STF terrivelmente evangélico (nas palavras de Jair Bolsonaro, quando o indicou para ocupar a Corte, em 2021), um suposto caso em cima das costas de um dos filhos do presidente Lula (Veja aqui).
Como já nos ensinou Marcondes Filho (1993, p. 127), “a imprensa instrumentaliza as informações que colhe, recebe ou mesmo fabrica-as, transformando-as em notícias para usá-las no jogo político-ideológico, em uma palavra, no jogo do poder. É de fato um jogo por que há lances, blefes, cartadas, guerras psicológicas e muita encenação”.
Para Ramonet (2012, p. 62), os proprietários da mídia, como aparelho ideológico da globalização neoliberal, a exemplo da oligarquia latifundiária, se transformam em “latifúndios midiáticos” se opondo a qualquer ação que vise reformas sociais e a “distribuição um pouco mais justa das imensas riquezas nacionais”.
2.
A relevância do papel da mídia na política contemporânea leva à indagação, para Chomsky (2013), sobre o tipo de mundo e de sociedade em que vivemos e queremos viver e, correlato a isso, qual espécie de democracia desejamos. O linguista estadunidense apresenta dois tipos de democracia: um deles pressupõe a participação do povo na condução de assuntos pessoais tendo à disposição canais de informação acessíveis e livres; o outro, considera o impedimento do povo em conduzir suas questões e os canais de informação devem ser estreita e rigidamente controlados (pelo poder econômico). Para ele, se atendo ao período moderno, o problema da mídia e da desinformação se insere no segundo contexto, criando “uma democracia de espectadores” (Chomsky, 2013, p. 14).
O enquadramento jornalístico, também conhecido como framing, é a forma como a produção jornalística seleciona e organiza as informações para apresentar um fato – ele pode destacar certos elementos e minimizar outros, dependendo dos objetivos da linha editorial. “A maneira conforme as informações são apresentadas podem influenciar diretamente no modo como as pessoas entendem essa informação. A mídia influi diretamente no modo de interpretação das pessoas construindo a mensagem, de modo a deixar margem para uma única maneira de interpretá-la” (Martino, 2014, p. 46).
Em situações de crise do sistema político e econômico, a mídia empresarial hegemônica se transforma numa trincheira de classe e, a partir do peso desproporcional de produção e circulação de informação em relação a outros segmentos da sociedade – jornais de sindicato e meios alternativos de comunicação (jornal Brasil de Fato, Rede Brasil Atual, TVT etc.) –, interfere “nos processos de escolha de governantes, pressionando governos politicamente vulneráveis e se beneficiando de suas relações com o poder econômico e financeiro” (Moraes, 2020, s/p).
3.
A mídia corporativa pode mobilizar agendas que lhe são convenientes. No Brasil, podemos citar o caso de crise política que se sucedeu com acontecimentos nos anos de 2013, 2014 e 2016, mas antes, em 2005, o grande tema do país, disseminado diuturnamente foi o chamado Mensalão – “ali se iniciou uma espécie de treinamento para o lawfare que viria mais tarde. O Mensalão pode ser entendido, assim, como um “esquenta” para a Lava Jato” (Nassif, 2024, p. 19).
Em 2013, vimos como as manifestações conhecidas como Jornadas de Junho foram veiculadas, ou capturadas, inclusive com transmissões ao vivo, “quando os sentidos das reivindicações por direitos e renovação política também foram disputados pela rede Globo, principalmente, para adaptá-los às demandas do capital, que diante da crise precisava de mais abertura para implantar um programa ultraliberal sem depender de mediações, e instrumentalizar as manifestações para uma agenda de “combate à corrupção” bastante seletiva” (Martins, 2020, p.20, grifo original).
Em 2014, os holofotes se voltaram à operação Lava Jato numa cena organizada centralmente pelos grupos de mídia – direcionando e espetacularizando ações jurídicas como as do STF, julgamentos e condução coercitiva de testemunhas e transformando em celebridades ministros da Suprema Corte, juízes de primeira instância, delegados e procuradores públicos.
“À medida em que os alicerces da velha ordem eram derrubados pela crise da financeirização e pela desorganização da informação – provocada pelas novas tecnologias –, abriu-se espaço para todo tipo de vírus oportunista. Houve um redesenho total das disputas políticas, no plano das nações, dos partidos políticos, das corporações públicas, em luta selvagem acelerada pela desregulação econômica” (Nassif, 2024, p. 31-32).
Nassif (2024, p. 45) entende a campanha do impeachment contra Dilma Rousseff, em 2016, como “mera consequência dos passos anteriores. E se tornou a comprovação mais acabada do desvirtuamento de fatos e de conceitos”. Nos casos envolvendo diretamente o PT, partido que estava no poder desde 2003, em situações de desvio de conduta e corrupção – Mensalão, Lava jato e pedaladas fiscais – houve uso intensivo da mídia na construção de narrativas de ódio, disseminação de vazamentos de conversas, falsificação de depoimentos contra o partido e figuras do governo.
Foram momentos em que não interessavam “as coletas de provas, indícios, evidências: vale a versão publicada. Não interessa o processo jurídico: vale o julgamento midiático. Todos os vazamentos têm objetivos políticos claros e exibição de músculos por parte dos seus atores. E abandona-se definitivamente a presunção da isenção para perseguições políticas ostensivas” (Nassif, 2024, p. 45).
Observa-se como os meios de comunicação de massa servem às dinâmicas da economia capitalista, como na fase neoliberal, em duas dimensões: como pertencente ao próprio mercado e para manutenção desse mercado. Mercado a ser visto para além do econômico, mas produtor de discursos políticos e culturais para obter ou manter apoio e sustentação, “[mercado] que tem sua catequese, suas formas de discursar proselitistas pelos programas jornalísticos e de entretenimento para manter os seguidores (a audiência) ou os prosélitos” (Cunha, 2016).
4.
Há uma vasta e importante produção sobre os caminhos trilhados pelo grupo de comunicação Globo na vida política brasileira e internacional. Citamos apenas alguns momentos (porque senão este artigo se tornaria quase eterno) de interferência na cena política nacional:
Na campanha contra a nacionalização do petróleo e criação da Petrobrás e no cerco ao presidente Getúlio Vargas acusado de corrupção (entre os anos 1940 e 1950); na demonização do governo de João Goulart e suas reformas de base (anos 1960); no apagamento inicial ao movimento Diretas-já! e na tentativa de interferência no resultado das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro, conhecido como Caso Proconsult, tentando emplacar a vitória de Moreira Franco (PDS) e não a de Leonel Brizola (PTB).
Na edição de debate entre os candidatos Collor (PRN) e Lula (PT), à Presidência da República, reservando ao primeiro os melhores momentos e ao segundo, os piores (anos 1980); nos passos neoliberais iniciais, no país, no apoio aos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso, difusores do discurso da modernização, flexibilização, privatização e demonização do Estado, caso flagrante foi o apoio à narrativa “caçador de marajás” do primeiro presidente civil eleito pós-ditatura militar, Fernando Collor de Mello (entre final dos anos 1980 e início da década de 1990); ampla divulgação de esquema alcunhado “Mensalão” e à Operação Lava jato, destacando protagonismo do PT e do próprio presidente Lula.
Na veiculação, ao vivo, das manifestações de 2013 de cunho amplo e indefinido, mas com fortes críticas a instituições públicas, à corrupção, aos serviços públicos, ao governo etc., reverberação do argumento de “pedaladas fiscais” atribuídas à então presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment (anos 2000).
Durante o regime militar, veículos de comunicação de grande alcance – jornais, revistas, rádios e, principalmente, televisão – alinharam-se, por interesse próprio ou pressão, à narrativa do governo. Na televisão, programas como o Jornal Nacional da Rede Globo e campanhas institucionais, como o famoso slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, reforçavam o otimismo e a confiança no projeto do regime.
As manchetes exaltavam recordes de produção, inaugurações de obras e índices de crescimento, enquanto minimizavam ou silenciavam críticas ao regime e denúncias de violações de direitos humanos. Por trás do brilho midiático, diversos problemas graves eram ignorados ou deliberadamente ocultados. A concentração de renda se aprofundou: enquanto parcela restrita da população se beneficiava da expansão econômica, a maior parte dos brasileiros continuava à margem, sem acesso à educação, saúde e moradia dignas.
O chamado “milagre” foi acompanhado pelo aumento da desigualdade social, do desemprego estrutural e da precarização das condições de trabalho. Além disso, a repressão política – censura, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos – era sistematicamente abafada pela mídia. Notícias sobre greves operárias, movimentos sociais e manifestações estudantis eram suprimidas ou distorcidas, consolidando atmosfera de aparente consenso e paz social. O papel da mídia, nesse contexto, foi fundamental para legitimar o regime e criar percepção ilusória de estabilidade e progresso e enquadrar a crítica e a oposição fora da conduta moral e legal.
5.
No Brasil, a pluralidade informativa está comprometida quando o perfil da comunicação de massa se assenta no controle dos principais grupos midiáticos nas mãos de menos de dez famílias, na propriedade cruzada, no alto custo operacional, no direcionamento de grande parte dos recursos públicos para as emissoras dos conglomerados, o controle de grupos regionais por políticos que se transformam em (re)transmissores do conteúdo das redes nacionais. “Através deste oligopólio eles controlam a informação que chega aos cerca de 200 milhões de brasileiros e impedem que vozes dissonantes ganhem maior repercussão” (Mielli; Damasceno, 2015, p. 34).
No processo de redemocratização do Brasil, o tema ganhou destaque na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, opondo-se posições distintas entre os apoiadores do status quo comunicacional da mídia comercial e os defensores de regras garantidoras da democratização e da pluralidade. A nova Constituição Federal, promulgada em outubro de 1988, reserva o bloco normativo “Da Comunicação Social” (capítulo V do título VIII).
Entre as proposições constitucionais, veta-se, expressamente, a formação de monopólios e oligopólios para inibir a captura do setor pelo poder econômico. Princípio fundamentado no pluralismo para oferecer amplo leque de pontos de vista e opiniões de modo a refletir a diversidade da sociedade. Contudo, o preceito não foi regulamentado – ou seja, os cincos artigos constitutivos da norma (de 220 a 224). Para Franklin Martins (2021), a democratização dos meios de comunicação de massa deve ser tema central sobre o futuro do país, “ou o Brasil seguirá tutelado, amordaçado, manipulado e censurado pelos barões da mídia, especialmente na radiodifusão – televisão e rádio.”[i]
Essa mesma mídia, nos últimos quatro anos, se calou ante a “camisa de força” imposta, por exemplo, por parlamentares aliados aos interesses externos capitaneados pelos Estados Unidos de Donald Trump e pela família Bolsonaro e seus asseclas, contra o governo Lula. Infelizmente, o Executivo teve como maior inimigo grande parte (e não boa) do Congresso Nacional. Para desacreditar ou desidratar o governo eleito em 2022, não pensaram duas vezes em barrar e não aprovar projetos importantes para toda a sociedade. Ao contrário, apresentaram e aprovaram projetos ruins e prejudiciais.
A imprensa da elite branca brasileira repele o que classifica de governos ditadores e autoritários, mas pactua com forças políticas internas autoritárias, antidemocráticas, golpistas e propensas à ditadura. É a parte mais visível do novo (ou da reafirmação) do pacto (ou acordo) da mídia com sua própria natureza.
Nas origens, essas famílias têm, em comum, o DNA da elite do atraso, escravocrata, exploradora, violenta e antidemocrática. A democracia, na boca dessa imprensa-escorpião, é apenas peça de autopromoção, como estamos vendo agora no comercial institucional da TV Globo na cobertura das eleições de 2026. A emissora fala em “Democracia ao vivo” para elogiar o seu jornalismo no próximo pleito.
Ao povo brasileiro exige-se o esforço de não se transformar no sapo que leva a imprensa-escorpião às costas para não ser ferroado assim que o processo eleitoral terminar.
*Rosângela Ribeiro Gil, jornalista, é mestre pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Referências
CHOMSKY, Noam. Mídia: propaganda política e manipulação. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.
CUNHA, Magali do Nascimento. A linguagem e o discurso do neoliberalismo. In: A metafísica do neoliberalismo e a crise de valores no mundo. Seminário online promovido pelo Fórum 21, 2 jul. 2016. Disponível em: https://fpabramo.org.br/tv-fpa/magali-cunha-a-linguagem-e-o-discurso-do-neoliberalismo/.
MARCONDES FILHO, Ciro. Jornalismo fin-de-siècle. São Paulo: Editora Página Aberta Ltda., 1993.
MARTINO, Luís Mauro Sá. Teoria da Comunicação: ideias, conceitos e métodos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
MARTINS, Helena. Comunicações em tempos de crise: economia e política. São Paulo: Expressão Popular, Fundação Rosa Luxemburgo, 2020.
MORAES, Dênis de. Quando jornais se convertem em partidos. In: A Terra é Redonda, 19/09/2020. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/quando-jornais-se-convertem-em-partidos/.
NASSIF, Luís. A conspiração lava jato: o jogo político que comprometeu o futuro do país. Avaré, SP: Editora Contracorrente, 2024.
RAMONET, Ignacio. A explosão do jornalismo: das mídias de massas à massa de mídias. São Paulo: Publisher Brasil, 2012.
[i] INSTITUTO BRASILEIRO DE ESTUDOS POLITICOS (IBEP). Debate “Meios de comunicação, cultura e desenvolvimento do Brasil: com Franklin Martins”, 5 ago. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=qGpU9QovW5g. Acesso em: 23 jul. 2025.
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| Imagem: Grant McCurdy |
A natureza do escorpião não muda, nem a da imprensa hegemônica
1.
A fábula sobre o sapo e o escorpião é bem conhecida. Fala do aracnídeo predador que pede ajuda ao sapo para atravessar o rio. Num primeiro momento, o sapo recusa com medo de receber uma ferroada. Todavia, ante a insistência do escorpião, que argumenta não ser possível lhe picar, porque os dois morreriam afogados, o sapo confia e deixa o predador subir em suas costas. Eles nadam. No meio do caminho, o escorpião pica o sapo. Afundando na água, o sapo pergunta o porquê da picada. O escorpião responde: “É a minha natureza.”
São diversas as lições dessa pequena história, cada um ou uma pode tirar a sua. Eu me identifico com essa: certas pessoas (ou instituições) ou instintos não mudam, mesmo quando agir contra a própria lógica traz destruição. Fica o alerta de se ter cuidado ao confiar em quem tem histórico de maldade e em acreditar em promessas de mudanças ou arrependimentos.
Lembrei-me da fábula nesses dias ao ver, de novo, a imprensa brasileira como uma predadora da vida de pessoas. Em “eterno retorno”, em 2026, a mídia hegemônica volta a ferroar a sociedade brasileira, ou o Brasil; para isso, não poupa ninguém.
Em ano eleitoral, o monopólio midiático – o predomínio descomunal na produção, reprodução e divulgação de discursos ideológicos, travestidos de informação e notícias isentas – volta a atacar. O alvo é o mesmo: as forças sociais que não estão alinhadas à burguesia nacional predatória e lesa-pátria e ao capital internacional.
Nesta semana, tivemos “exemplo clássico” do que a imprensa burguesa é capaz de fazer para barrar (ou prejudicar) o avanço de projetos opostos aos interesses históricos das famílias Marinho, Mesquita, Frias, Civita, Sirotsky etc. Não importa que, para isso, vendam a alma para o capeta.
Mesmo tendo comido o “pão que o diabo amassou” no governo bolsonarista entre 2018-2022, sendo desrespeitados no exercício profissional do jornalismo (jornalistas eram escorraçados, ameaçados etc.) e até vendo o ex-presidente segurando cartaz com a frase “Globo lixo”, a imprensa-escorpião não foge à própria natureza; mesmo sendo testemunhas oculares da regressão política, econômica, social e civilizatória daquele (des)governo; igual ao escorpião da fábula, essa mídia pica quem trata-a dentro de preceitos republicanos e constitucionais.
Na própria contradição entre o discurso que noticia e a prática, nesta semana, três jornalões estamparam quase a mesma manchete imputando, com a ajuda do ministro do STF terrivelmente evangélico (nas palavras de Jair Bolsonaro, quando o indicou para ocupar a Corte, em 2021), um suposto caso em cima das costas de um dos filhos do presidente Lula (Veja aqui).
Como já nos ensinou Marcondes Filho (1993, p. 127), “a imprensa instrumentaliza as informações que colhe, recebe ou mesmo fabrica-as, transformando-as em notícias para usá-las no jogo político-ideológico, em uma palavra, no jogo do poder. É de fato um jogo por que há lances, blefes, cartadas, guerras psicológicas e muita encenação”.
Para Ramonet (2012, p. 62), os proprietários da mídia, como aparelho ideológico da globalização neoliberal, a exemplo da oligarquia latifundiária, se transformam em “latifúndios midiáticos” se opondo a qualquer ação que vise reformas sociais e a “distribuição um pouco mais justa das imensas riquezas nacionais”.
2.
A relevância do papel da mídia na política contemporânea leva à indagação, para Chomsky (2013), sobre o tipo de mundo e de sociedade em que vivemos e queremos viver e, correlato a isso, qual espécie de democracia desejamos. O linguista estadunidense apresenta dois tipos de democracia: um deles pressupõe a participação do povo na condução de assuntos pessoais tendo à disposição canais de informação acessíveis e livres; o outro, considera o impedimento do povo em conduzir suas questões e os canais de informação devem ser estreita e rigidamente controlados (pelo poder econômico). Para ele, se atendo ao período moderno, o problema da mídia e da desinformação se insere no segundo contexto, criando “uma democracia de espectadores” (Chomsky, 2013, p. 14).
O enquadramento jornalístico, também conhecido como framing, é a forma como a produção jornalística seleciona e organiza as informações para apresentar um fato – ele pode destacar certos elementos e minimizar outros, dependendo dos objetivos da linha editorial. “A maneira conforme as informações são apresentadas podem influenciar diretamente no modo como as pessoas entendem essa informação. A mídia influi diretamente no modo de interpretação das pessoas construindo a mensagem, de modo a deixar margem para uma única maneira de interpretá-la” (Martino, 2014, p. 46).
Em situações de crise do sistema político e econômico, a mídia empresarial hegemônica se transforma numa trincheira de classe e, a partir do peso desproporcional de produção e circulação de informação em relação a outros segmentos da sociedade – jornais de sindicato e meios alternativos de comunicação (jornal Brasil de Fato, Rede Brasil Atual, TVT etc.) –, interfere “nos processos de escolha de governantes, pressionando governos politicamente vulneráveis e se beneficiando de suas relações com o poder econômico e financeiro” (Moraes, 2020, s/p).
3.
A mídia corporativa pode mobilizar agendas que lhe são convenientes. No Brasil, podemos citar o caso de crise política que se sucedeu com acontecimentos nos anos de 2013, 2014 e 2016, mas antes, em 2005, o grande tema do país, disseminado diuturnamente foi o chamado Mensalão – “ali se iniciou uma espécie de treinamento para o lawfare que viria mais tarde. O Mensalão pode ser entendido, assim, como um “esquenta” para a Lava Jato” (Nassif, 2024, p. 19).
Em 2013, vimos como as manifestações conhecidas como Jornadas de Junho foram veiculadas, ou capturadas, inclusive com transmissões ao vivo, “quando os sentidos das reivindicações por direitos e renovação política também foram disputados pela rede Globo, principalmente, para adaptá-los às demandas do capital, que diante da crise precisava de mais abertura para implantar um programa ultraliberal sem depender de mediações, e instrumentalizar as manifestações para uma agenda de “combate à corrupção” bastante seletiva” (Martins, 2020, p.20, grifo original).
Em 2014, os holofotes se voltaram à operação Lava Jato numa cena organizada centralmente pelos grupos de mídia – direcionando e espetacularizando ações jurídicas como as do STF, julgamentos e condução coercitiva de testemunhas e transformando em celebridades ministros da Suprema Corte, juízes de primeira instância, delegados e procuradores públicos.
“À medida em que os alicerces da velha ordem eram derrubados pela crise da financeirização e pela desorganização da informação – provocada pelas novas tecnologias –, abriu-se espaço para todo tipo de vírus oportunista. Houve um redesenho total das disputas políticas, no plano das nações, dos partidos políticos, das corporações públicas, em luta selvagem acelerada pela desregulação econômica” (Nassif, 2024, p. 31-32).
Nassif (2024, p. 45) entende a campanha do impeachment contra Dilma Rousseff, em 2016, como “mera consequência dos passos anteriores. E se tornou a comprovação mais acabada do desvirtuamento de fatos e de conceitos”. Nos casos envolvendo diretamente o PT, partido que estava no poder desde 2003, em situações de desvio de conduta e corrupção – Mensalão, Lava jato e pedaladas fiscais – houve uso intensivo da mídia na construção de narrativas de ódio, disseminação de vazamentos de conversas, falsificação de depoimentos contra o partido e figuras do governo.
Foram momentos em que não interessavam “as coletas de provas, indícios, evidências: vale a versão publicada. Não interessa o processo jurídico: vale o julgamento midiático. Todos os vazamentos têm objetivos políticos claros e exibição de músculos por parte dos seus atores. E abandona-se definitivamente a presunção da isenção para perseguições políticas ostensivas” (Nassif, 2024, p. 45).
Observa-se como os meios de comunicação de massa servem às dinâmicas da economia capitalista, como na fase neoliberal, em duas dimensões: como pertencente ao próprio mercado e para manutenção desse mercado. Mercado a ser visto para além do econômico, mas produtor de discursos políticos e culturais para obter ou manter apoio e sustentação, “[mercado] que tem sua catequese, suas formas de discursar proselitistas pelos programas jornalísticos e de entretenimento para manter os seguidores (a audiência) ou os prosélitos” (Cunha, 2016).
4.
Há uma vasta e importante produção sobre os caminhos trilhados pelo grupo de comunicação Globo na vida política brasileira e internacional. Citamos apenas alguns momentos (porque senão este artigo se tornaria quase eterno) de interferência na cena política nacional:
Na campanha contra a nacionalização do petróleo e criação da Petrobrás e no cerco ao presidente Getúlio Vargas acusado de corrupção (entre os anos 1940 e 1950); na demonização do governo de João Goulart e suas reformas de base (anos 1960); no apagamento inicial ao movimento Diretas-já! e na tentativa de interferência no resultado das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro, conhecido como Caso Proconsult, tentando emplacar a vitória de Moreira Franco (PDS) e não a de Leonel Brizola (PTB).
Na edição de debate entre os candidatos Collor (PRN) e Lula (PT), à Presidência da República, reservando ao primeiro os melhores momentos e ao segundo, os piores (anos 1980); nos passos neoliberais iniciais, no país, no apoio aos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso, difusores do discurso da modernização, flexibilização, privatização e demonização do Estado, caso flagrante foi o apoio à narrativa “caçador de marajás” do primeiro presidente civil eleito pós-ditatura militar, Fernando Collor de Mello (entre final dos anos 1980 e início da década de 1990); ampla divulgação de esquema alcunhado “Mensalão” e à Operação Lava jato, destacando protagonismo do PT e do próprio presidente Lula.
Na veiculação, ao vivo, das manifestações de 2013 de cunho amplo e indefinido, mas com fortes críticas a instituições públicas, à corrupção, aos serviços públicos, ao governo etc., reverberação do argumento de “pedaladas fiscais” atribuídas à então presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment (anos 2000).
Durante o regime militar, veículos de comunicação de grande alcance – jornais, revistas, rádios e, principalmente, televisão – alinharam-se, por interesse próprio ou pressão, à narrativa do governo. Na televisão, programas como o Jornal Nacional da Rede Globo e campanhas institucionais, como o famoso slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, reforçavam o otimismo e a confiança no projeto do regime.
As manchetes exaltavam recordes de produção, inaugurações de obras e índices de crescimento, enquanto minimizavam ou silenciavam críticas ao regime e denúncias de violações de direitos humanos. Por trás do brilho midiático, diversos problemas graves eram ignorados ou deliberadamente ocultados. A concentração de renda se aprofundou: enquanto parcela restrita da população se beneficiava da expansão econômica, a maior parte dos brasileiros continuava à margem, sem acesso à educação, saúde e moradia dignas.
O chamado “milagre” foi acompanhado pelo aumento da desigualdade social, do desemprego estrutural e da precarização das condições de trabalho. Além disso, a repressão política – censura, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos – era sistematicamente abafada pela mídia. Notícias sobre greves operárias, movimentos sociais e manifestações estudantis eram suprimidas ou distorcidas, consolidando atmosfera de aparente consenso e paz social. O papel da mídia, nesse contexto, foi fundamental para legitimar o regime e criar percepção ilusória de estabilidade e progresso e enquadrar a crítica e a oposição fora da conduta moral e legal.
5.
No Brasil, a pluralidade informativa está comprometida quando o perfil da comunicação de massa se assenta no controle dos principais grupos midiáticos nas mãos de menos de dez famílias, na propriedade cruzada, no alto custo operacional, no direcionamento de grande parte dos recursos públicos para as emissoras dos conglomerados, o controle de grupos regionais por políticos que se transformam em (re)transmissores do conteúdo das redes nacionais. “Através deste oligopólio eles controlam a informação que chega aos cerca de 200 milhões de brasileiros e impedem que vozes dissonantes ganhem maior repercussão” (Mielli; Damasceno, 2015, p. 34).
No processo de redemocratização do Brasil, o tema ganhou destaque na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, opondo-se posições distintas entre os apoiadores do status quo comunicacional da mídia comercial e os defensores de regras garantidoras da democratização e da pluralidade. A nova Constituição Federal, promulgada em outubro de 1988, reserva o bloco normativo “Da Comunicação Social” (capítulo V do título VIII).
Entre as proposições constitucionais, veta-se, expressamente, a formação de monopólios e oligopólios para inibir a captura do setor pelo poder econômico. Princípio fundamentado no pluralismo para oferecer amplo leque de pontos de vista e opiniões de modo a refletir a diversidade da sociedade. Contudo, o preceito não foi regulamentado – ou seja, os cincos artigos constitutivos da norma (de 220 a 224). Para Franklin Martins (2021), a democratização dos meios de comunicação de massa deve ser tema central sobre o futuro do país, “ou o Brasil seguirá tutelado, amordaçado, manipulado e censurado pelos barões da mídia, especialmente na radiodifusão – televisão e rádio.”[i]
Essa mesma mídia, nos últimos quatro anos, se calou ante a “camisa de força” imposta, por exemplo, por parlamentares aliados aos interesses externos capitaneados pelos Estados Unidos de Donald Trump e pela família Bolsonaro e seus asseclas, contra o governo Lula. Infelizmente, o Executivo teve como maior inimigo grande parte (e não boa) do Congresso Nacional. Para desacreditar ou desidratar o governo eleito em 2022, não pensaram duas vezes em barrar e não aprovar projetos importantes para toda a sociedade. Ao contrário, apresentaram e aprovaram projetos ruins e prejudiciais.
A imprensa da elite branca brasileira repele o que classifica de governos ditadores e autoritários, mas pactua com forças políticas internas autoritárias, antidemocráticas, golpistas e propensas à ditadura. É a parte mais visível do novo (ou da reafirmação) do pacto (ou acordo) da mídia com sua própria natureza.
Nas origens, essas famílias têm, em comum, o DNA da elite do atraso, escravocrata, exploradora, violenta e antidemocrática. A democracia, na boca dessa imprensa-escorpião, é apenas peça de autopromoção, como estamos vendo agora no comercial institucional da TV Globo na cobertura das eleições de 2026. A emissora fala em “Democracia ao vivo” para elogiar o seu jornalismo no próximo pleito.
Ao povo brasileiro exige-se o esforço de não se transformar no sapo que leva a imprensa-escorpião às costas para não ser ferroado assim que o processo eleitoral terminar.
*Rosângela Ribeiro Gil, jornalista, é mestre pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Referências
CHOMSKY, Noam. Mídia: propaganda política e manipulação. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013.
CUNHA, Magali do Nascimento. A linguagem e o discurso do neoliberalismo. In: A metafísica do neoliberalismo e a crise de valores no mundo. Seminário online promovido pelo Fórum 21, 2 jul. 2016. Disponível em: https://fpabramo.org.br/tv-fpa/magali-cunha-a-linguagem-e-o-discurso-do-neoliberalismo/.
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