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O resgate da figura do pai

Do A Terra É Redonda, 11 de agosto 2026
Por LEONARDO BOFF*


Imagem: Mohd Afiq

A crise histórica do patriarcado não deve ofuscar a importância estrutural da paternidade, cuja presença amorosa e limitadora é vital para o amadurecimento psicológico e a inserção social dos filhos

1.

No dia 9 de agosto celebrou-se o dia dos pais. Constatamos, no entanto, que uma onda de crises que assolam a sociedade, pelo menos, a ocidental, não poupou a figura do pai. A justa crítica das feministas ao patriarcado e ao machismo e o estabelecimento científico da existência de uma era matriarcal, há 20 mil anos, caracterizada por uma profunda integração com a natureza e por uma intensa espiritualidade, ajudaram a pôr em xeque a pretensa primazia do homem e do pai.

As reflexões das mulheres sobre sua própria identidade e a expressiva presença delas em todos os âmbitos da sociedade, junto com a crítica ao poderio patriarcal, aprofundaram a crise da figura do pai.

A complexa divisão do trabalho nas sociedades modernas, dilacerou, em parte, os laços familiares, afetando especialmente a figura do pai. Este vai ao trabalho e, não raro, nem tempo tem para marcar presença junto à esposa e aos filhos e filhas. Por estas razões que alguns estudiosos falam do eclipse da figura do pai. Um autor alemão A. Mitcherlich escreveu um discutido livro: Rumo a uma sociedade sem pai (1963). Passa-se do pai ao grupo de amigos. A tradição psicanalítica de Sigmund Freud, de Carl G. Jung e de outros, deu centralidade à função da figura do pai no desenvolvimento psicológico dos filhos e filhas.

Diria que as mulheres, depois de tantos embates, definiram mais adequadamente sua identidade. Ao passo que os homens estão em busca de sua identidade num mundo tremendamente modificado e acelerado. Há uma saudade pela volta do pai amoroso e de sua função. Ela foi expressa há séculos na Odisséia de Homero, quando Telêmaco, filho de Ulisses diz: “Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria, seria a volta do pai”. Estimo que há uma saudade da figura do pai não patriarcal, mas amoroso e o que ele representa no desenvolvimento dos filhos.

Por isso, mesmo com as mudanças havidas, é decisivo resgatar a figura do pai. Ele é imprescindível para um processo de individuação dos filhos e filhas bem realizado. A ausência do pai pode produzir consequências graves.

Não sei qual é a situação em termos numéricos em nosso país. Tive acesso a estatísticas oficiais recentes dos EUA que referem os seguintes dados: 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. 70% da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. 85% dos jovens em prisões, cresceram em famílias sem pai. 63% de jovens suicidas tinham pais ausentes. Tais dados me reportam a um inspirador estudo de Carl G. Jung de 1949: A importância do pai no destino do indivíduo e também de Sigmund Freud de 1924 – A dissolução do complexo de Édipo.

2.

Curiosamente, o cristianismo mostra comovedora volta do pai na parábola do filho pródigo. Aqui invertem-se os papéis. O filho que saiu de casa e levou uma vida dissoluta, sente saudades da casa paterna. Então, é o pai que volta ao filho saudoso, corre ao seu encontro, o enche de abraços e beijos e lhe prepara um grande banquete porque “este filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado” (Lucas 15,24). É a figura do pai amoroso e não autoritário.

Para resgatar a figura do pai, se faz importante distinguir entre os modelos culturais de pai e a função permanente da figura do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, autoritário, amoroso, participante, companheiro e amigo. Uma é a figura do pai centralizador na cultura muçulmana, cercado de mulheres (poligamia), outra é a do pai na cultura ocidental monogâmica e assim nos diferentes espaços culturais.

A função do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação da pessoa. Em todos os modelos, age esta estrutura permanente do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera esta estrutura sempre presente, chamada também de “princípio paterno” para novos modelos adequados ao nosso tempo.

Concentremo-nos nesta estrutura permanente do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes, dos amigos da família, numa palavra, nos muitos da sociedade.

Nesse mundo dos muitos, vige ordem, disciplina, autoridade e limites. Os pais têm que trabalhar, realizar projetos, prover a família e exercer sua profissão. Tudo isso exige coragem, mostrar segurança e disposição para os sacrifícios necessários.

Ora, o pai é a concretização destas atitudes. Ele é a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico que tudo sabe, tudo pode e tudo faz. Se faltar essa referência, a criança pode se sentir insegura, perdida e sem iniciativa.

Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não apenas ganhos, mas também perdas.

Há programas de entretenimento da televisão que exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite. É a ilusão do desejo. Cabe ao pai mostrar que não é bem assim e que em tudo há limite. Todos somos incompletos e podemos nos frustrar. E até dar-se conta de que há a morte de parentes ou de amigos queridos.

Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável, mas vital é atender ao chamado da função permanente do pai. Sem ela o pai está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma duradoura. Uma figura de pai bem realizada, constitui a base para a criança ter uma imagem boa de Deus-Pai de bondade.

A sociedade moderna com as TVs, os celulares, os tablets e todo tipo de programas virtuais, fazem concorrência com o pai e lhe dificultam cumprir sua função permanente.

Mas nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal, enfrentam obstáculos e vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Participam das tarefas domésticas.

Desta forma, cumpre a função permanente da figura do pai, função indispensável para que seus filhos e filhas amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, se façam autônomos e livres. Até serem pais e mães de si mesmos. É o que este dia dos pais nos faz refletir.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres (Vozes) [https://amzn.to/3KHEa4L]

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