Por FABIANA SERRA*
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Imagem: Gary Butterfield |
1.
Cafajeste ou canalha? No mundo profissional, a diferença aparece quando os interesses mudam. Durante muito tempo, usei “cafajeste” e “canalha” quase como sinônimos. Hoje, não uso mais. Porque a minha experiência pessoal, profissional e empresarial me ensinou que existe uma diferença importante entre esses dois.
O cafajeste costuma ser mais previsível. Ele quer levar vantagem, promete mais do que consegue cumprir, exagera suas capacidades, foge de responsabilidades e, muitas vezes, desaparece quando a conta chega. No amor, pode colecionar conquistas. Nos negócios, pode vender aquilo que não consegue entregar. No trabalho, pode apropriar-se de uma ideia alheia ou aparecer apenas na hora de receber os méritos.
É desagradável? Sim. Pode causar prejuízo? Evidentemente. Mas existe algo quase rudimentar em seu comportamento: ele quer a vantagem imediata.
O canalha é diferente. A canalhice exige mais elaboração. O canalha precisa compreender pessoas. Precisa observar comportamentos, identificar necessidades, reconhecer vulnerabilidades, mapear interesses e construir relações suficientes para conseguir aquilo de que precisa. E talvez seja justamente por isso que as relações construídas por canalhas sejam tão rasas. Não necessariamente porque duram pouco. Algumas duram anos. São rasas porque não existe profundidade onde as pessoas são tratadas como instrumentos.
No ambiente profissional, isso pode ser particularmente difícil de perceber. São meses de reuniões. Horas de conversas. Cafés. Almoços. WhatsApps. Projetos construídos conjuntamente. Problemas resolvidos. Telefonemas fora do horário. Apresentações preparadas às pressas. Informações compartilhadas. Conhecimento transferido. Confidências profissionais. Estratégias discutidas. Decisões tomadas em conjunto.
A sensação é de que, ao longo do tempo, uma relação profissional foi construída. Mas nem sempre foi. Às vezes, enquanto uma pessoa estava construindo confiança, a outra estava construindo acesso. Acesso ao conhecimento. Acesso aos clientes. Acesso às informações. Acesso aos processos. Acesso aos contatos. Acesso à reputação. Acesso àquilo que, naquele momento, precisava para avançar.
2.
Essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas da canalhice profissional: simular profundidade para obter utilidade. Porque o canalha profissional sabe que algumas portas não são abertas por contratos. São abertas por confiança. E confiança leva tempo.
Por isso ele participa das reuniões, concorda, demonstra interesse, pergunta, aproxima-se, cria familiaridade, faz elogios, reconhece competências, estabelece pequenas alianças e permite que o outro acredite que existe reciprocidade naquela relação.
Até o momento em que os interesses mudam ou alcançam seus objetivos. É aí que tudo fica claro! Aquela relação que parecia construída durante meses pode desaparecer em horas em uma reunião. O profissional que era “fundamental” deixa de ser mencionado. A pessoa cuja opinião era solicitada constantemente deixa de ser consultada. A ideia construída conjuntamente passa a ter um único autor. O conhecimento recebido vira competência própria. Os contatos apresentados tornam-se contatos diretos. O trabalho realizado desaparece da narrativa.
E, em alguns casos, o canalha faz algo ainda mais sofisticado: reescreve a história. Porque não basta utilizar pessoas. É necessário também contar a história como lhe convém. Por isso, subitamente, aquilo que foi importante “nem era tão importante assim”. A contribuição que foi solicitada durante meses “não fez tanta diferença”.
A pessoa que participou de dezenas de reuniões “praticamente não participou”. O acordo que todos conheciam “nunca foi exatamente um acordo”. E aquilo que foi combinado passa a depender de uma interpretação conveniente. É nesse momento que aparece o canalha.
Porque competência pode ensinar alguém a negociar. Experiência pode ensinar alguém a identificar oportunidades. Inteligência pode ensinar alguém a compreender pessoas. Mas caráter determina o que alguém faz com tudo isso.
O canalha profissional pode ser brilhante. Pode ser extremamente competente. Pode ter excelente currículo. Pode dominar a linguagem corporativa. Pode falar sobre ética, liderança, propósito, pessoas, parceria, confiança e valores. Pode inclusive ser admirado. Porque canalhice não é necessariamente ausência de habilidade social. Muitas vezes, depende dela. O problema não está na incapacidade de compreender relações humanas. Está em compreendê-las suficientemente bem para utilizá-las.
E é por isso que existe uma diferença enorme entre networking e instrumentalização de pessoas. Networking pressupõe reciprocidade. Instrumentalização pressupõe utilidade. Na primeira relação, eu reconheço que existe alguém do outro lado. Na segunda, existe apenas aquilo que essa pessoa pode me oferecer. Enquanto ela oferece, há proximidade. Quando deixa de oferecer, há distância.
3.
E talvez seja essa a maior evidência da superficialidade emocional de um canalha: ele não constrói vínculos. Constrói utilidades. Por isso suas relações podem parecer intensas sem jamais serem profundas. Há presença, mas não compromisso. Há proximidade, mas não lealdade. Há discurso, mas não reciprocidade. Há interesse, próprio!. Há meses de convivência, mas nenhum verdadeiro vínculo.
Porque profundidade exige algo que o canalha evita: responsabilidade pelo impacto que causa no outro. E isso vale para relações amorosas, comerciais e profissionais. Quando alguém é apenas um recurso, torna-se perfeitamente possível utilizá-lo e depois descartá-lo sem conflito moral.
Talvez por isso algumas pessoas consigam atravessar anos deixando atrás de si ex-sócios, ex-funcionários, ex-parceiros, fornecedores, clientes, amigos e relacionamentos contando histórias surpreendentemente parecidas e se acostumando com a perda.
Mudam os personagens. Mudam os ambientes. Muda o contexto. Mas o método permanece. Aproximação. Confiança. Utilidade. Apropriação. Distanciamento.
E, finalmente, uma nova narrativa na qual o canalha quase sempre aparece como vítima, como inocente ou simplesmente como alguém que “tomou uma decisão profissional”.
Mas decisões profissionais também revelam caráter. Principalmente quando ninguém está olhando. Principalmente quando não existe contrato obrigando. Principalmente quando seria possível tirar vantagem. Caráter aparece exatamente no espaço entre aquilo que eu posso fazer e aquilo que eu escolho não fazer porque seria desleal com alguém.
No ambiente profissional, aprendi que competência técnica é importante, currículo é importante, experiência é importante. Mas existe algo que nenhuma certificação consegue substituir: caráter. Porque a incompetência pode ser corrigida com treinamento. A inexperiência pode ser corrigida com tempo. Um erro pode ser corrigido com aprendizado.
Mas canalhice não é falta de conhecimento. É escolha. E talvez essa seja a diferença essencial entre cafajestes e canalhas. O cafajeste olha primeiro para aquilo que pode ganhar. O canalha olha para você, entende exatamente o que você pode perder e, ainda assim, segue em frente se a sua perda favorecer o interesse dele.
Por isso, seja no amor, numa amizade, numa empresa ou numa mesa de negociação, aprendi a observar menos o discurso e muito mais o comportamento quando os interesses entram em conflito. Porque é justamente nesse momento que as pessoas deixam de mostrar aquilo que gostariam que pensássemos sobre elas. E começam a mostrar quem realmente são.
*Fabiana Serra é empresária, consultora e pesquisadora acadêmica.

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